quarta-feira, 26 de abril de 2017

A ÂNFORA DA HUMILDADE


Eu estava de volta ao Himalaia. Era uma promessa que tinha feito a mim mesmo, retornar uma vez por ano à vila chinesa, próxima ao Tibete, para estudar o Tao com Li Tzu. A única hospedaria que havia no lugar estava sempre lotada de alunos de todas as partes do mundo, sedentos por conhecer um pouco mais sobre o milenar Tao Te Ching, o Livro do Caminho e da Virtude. As reservas, na prática, eram de pouca utilidade e não garantiam a vaga. As reclamações quase nunca surtiam efeito, pois a anciã responsável pela pousada respondia, sempre sorrindo, em inglês ou mandarim, de acordo com a conveniência dela em se fazer entender. No pequeno espaço que servia como recepção, eu disputava com um homem enorme, com mais de dois metros de altura, forte como um halterofilista, quem ficaria com o último quarto vago. Ambos tínhamos reserva, a minha era anterior a dele, mas ele chegara à hospedaria minutos antes de mim. Discutíamos, cada qual com suas razões e argumentos, diante da anciã que parecia se divertir, uma vez que não parava de sorrir, embora o tom da discussão aumentasse a cada palavra proferida. Até que ele pegou a chave do quarto das mãos dela e disse que a questão estava resolvida: ele ficaria com o quarto, salvo se eu fosse capaz de tomar a chave dele. Repleto de raiva, não reagi. A diferença de força física anunciava uma grande surra, caso eu aceitasse jogar pelas regras do meu oponente. Pedi à anciã que tomasse uma atitude contra aquela arbitrariedade. Ela apenas deu ombros e respondeu, em seu idioma, algo que interpretei como “nada posso fazer”. Claro, sem abandonar o sorriso. Como se não bastasse, e com efeito devastador para mim, ainda ouvi uma série de provocações e piadas desagradáveis por parte do meu desafeto enquanto me retirava da hospedaria.
Fui ao encontro de Li Tzu e narrei todo o ocorrido. Em resposta, o mestre taoista me convidou a tomar chá com ele. Fechei os olhos para controlar a ira e apenas concordei com a cabeça. Fomos à cozinha e, sem nenhuma pressa, ele foi misturando várias folhas desidratadas em um coador para depois deixá-las em infusão por alguns minutos. Tudo sem dizer palavra. Bastante irritado, perguntei se ele não iria comentar sobre o que eu tinha contado. Li Tzu respondeu: “Por ora, o silêncio. Ele permite que você ouça o seu coração. Será sempre o melhor mestre”. Depois encheu as duas xícaras e as colocou sobre a mesa de madeira rústica. Então, falou: “Você perdeu a batalha”. Questionei se ele me aconselhava a reagir de maneira violenta e lutar pela chave do quarto. Ele balançou a cabeça em negativa e disse: “Claro que não. A sua derrota foi decretada quando se permitiu sentir raiva. A sombra foi mais forte do que a luz”.
Argumentei que não tinha como me sentir de outra maneira, afinal eu havia sido humilhado. O mestre taoista franziu as espessas sobrancelhas grisalhas e explicou: “A derrota, pelo visto, foi ainda mais profunda. A ofensa é um convite para dançar nas trevas. Somente quem não conhece a compaixão aceita comparecer a este tipo de baile”. Bebeu um gole de chá e prosseguiu: “Apenas é humilhado quem não traz em si a virtude da humildade. A humilhação atinge somente os espíritos toscos, ainda movidos por orgulho e vaidade. A compaixão é o antídoto contra o veneno da ofensa e do sarcasmo. Um escudo em forma de manto de amor que derramamos sobre o agressor. É o amor em forma de sabedoria por entender que cada qual age na exata medida do seu nível de consciência e capacidade afetiva. A compaixão sabe que as rosas não florescem no deserto. A maneira de reagir diante das situações desagradáveis define a distância que já conseguimos percorrer no Caminho e quais flores já germinaram em nosso Jardim de Virtudes. Apenas quem traz em si as sombras do orgulho e da vaidade pode ser humilhado. A humildade é a cura. Ela transmuta a escuridão e dissolve a humilhação em pétalas de luz. Ninguém se torna andarilho ou jardineiro sem a ânfora da humildade”.
Torci o nariz. Falei que ânfora era uma espécie de vaso antigo e a humildade era destinada aos fracos. Argumentei que a questão não era apenas as ofensas, mas também o fato de ter vindo de longe para estudar o Tao e não ter onde dormir. Sim, acrescentei, eu tinha motivos para estar irado. Impassível, Li Tzu disse: “Você poderá dormir no galpão dos fundos onde ficam os bonsais. Para tanto, terá o compromisso de regá-los duas vezes ao dia e os colocar ao sol, bem cedo, todas as manhãs. Caso concorde, aconselho ir até a mercearia da vila. Lá vende material de alpinismo. Compre um saco de dormir”. Agradeci e aceitei a oferta. Perguntei quando começaríamos as aulas. Ele respondeu de imediato: “Já começaram. Na hospedaria”.
Os dias se passaram sem que eu tornasse a falar com Li Tzu, sempre atencioso com os inúmeros viajantes que vinham em busca de seu conhecimento sobre o Tao. Passei a me entreter com os bonsais até que veio um recado para que eu lesse o capítulo 11 do livro:
“Molda-se o barro, faz-se um vaso,
mas útil é o vazio do interior.
Uma casa tem portas e janelas,
mas útil é o vazio, lá de dentro.
No existir está a posse,
no vazio, a utilidade.”

Ainda refletia sobre aquelas palavras quando o mestre taoista se aproximou. Falei que tinha lido o poema e que não concordava com o raciocínio. Acrescentei que uma pessoa, diferente de um vaso ou ânfora, não podia ter o interior vazio. O valor estava justamente em seu conteúdo. Acrescentei que eu tinha me graduado em uma famosa universidade, além de ter concluído o mestrado e o doutorado. Não fazia sentido jogar todo esse conhecimento fora. Li Tzu ouviu todo o meu discurso com enorme paciência, ao final, me ofereceu um olhar doce e falou: “Você é um homem culto e eu reverencio o conhecimento. Porém, tudo o que você aprendeu de nada lhe serviu na briga que teve na hospedaria”. Interrompi para dizer que o outro hóspede é quem foi agressivo e autoritário. Eu tinha sido a vítima. O mestre taoista se manteve sereno: “Sim, é verdade. No entanto, você se permitiu a ira. A raiva e todos os sentimentos que lhe são afins, como a mágoa ou o ressentimento, causam um tremendo desequilíbrio na alma, tão grande que é como se todas as moléculas do seu corpo recebessem uma martelada. Como se não bastasse, ainda o mantém algemado ao agressor por afinidade de sentimentos. É preciso colocar o seu conhecimento para se proteger daquilo e a se libertar disso”, explicou.
Discordei. Disse que nenhum conhecimento é capaz de lançar uma mordaça na boca de pessoas deselegantes. Li Tzu anuiu com a cabeça e explicou: “Concordo mais uma vez. Contudo, não se trata de calar o outro, mas impedir que as flechas verbais o atinjam”. Irônico, perguntei se eu deveria enfiar o tal vaso vazio na cabeça, pois assim, talvez, não ouvisse as ofensas. O mestre taoista deu uma gostosa gargalhada e depois me olhou com bondade. Percebi, talvez a primeira vez na vida, que era compaixão e misericórdia. Ao invés de se chatear, ele se divertiu com o veneno que lancei. Me senti um ser grosseiro, sem qualquer lapidação, e fiquei envergonhado do próprio sarcasmo. Li Tzu se manteve sereno: “O pão apenas vira alimento quando na boca; enquanto na vitrine, não cumprirá o seu destino. O conhecimento só passa a ter valor quando colocado em prática. Ele precisa ser útil ou perderá o sentido. Ninguém precisa de ninguém para ser feliz, mas todos precisam dos outros para evoluir. As lições se apresentam no convívio. Um eremita, por maior que seja o seu saber, se não sair da caverna restará estagnado. O conhecimento somente se transforma em sabedoria quando em movimento”. Deu uma pequena pausa antes de acrescentar: “Mas não é só. Todo verdadeiro sábio reconhece a necessidade de evoluir. Para tanto, precisa aceitar com sinceridade e humildade a sua condição de eterno aprendiz”.
Comentei que tinha dúvida se a humildade era, de fato, uma virtude. Sempre a considerei algo menor, típico das pessoas que não tinham grandes sonhos. Li Tzu me olhou como quem se diverte com uma criança teimosa e explicou: “A humildade é a virtude dos santos e dos verdadeiros sábios. Você apenas se torna grande quando entende a grandeza de ser pequeno. Ou não haverá espaço para crescer. Os pequenos não mudarão de tamanho enquanto se enganarem grandes”.
“O orgulho e a vaidade são sombras que alimentam a ilusão de que somos os maiores e melhores, aprisionando o verdadeiro eu na escuridão. Todo intelectual, enquanto se gabar do seu conhecimento estará longe de se tornar um sábio. Todo maioral enquanto orgulhoso de sua força ou envaidecido pelo poder não passará de um ser frágil pelo alvo fácil que se tornou. Continuará a ser um tolo, um personagem social de si mesmo. Viverá de débeis aplausos que alimentam o ego e enfraquecem a alma; uma aparência condecorada, uma essência combalida. Isto porque a ânfora da humildade, repleta de orgulho, mofada por vaidade, não permite lugar para o novo e, por consequência, para a transformação. Ela está lotada de ideias que não servem mais por manterem o ser estacionado. A sorte é que, não raro, a vida se apresenta em forma de tragédia e caos para que o vaso lotado de preciosas inutilidades se quebre. O universo está empenhado com a evolução de cada um. Ninguém ficará de fora, nem mesmo os mesquinhos e teimosos. Somos partes indissociáveis do todo. A renovação é indispensável e inexorável. Renovamos e seguimos ou estagnamos e sofremos até que quebrem a nossa ânfora; não há outra opção. Você precisa estar vazio ou nada poderá acrescentar a si. Esta ânfora se chama humildade”.
“Quando o indivíduo a preenche com virtudes, o vaso se mantém vazio para que sempre haja lugar para novas e outras virtudes. Infinitamente. Somente as virtudes permitem ao andarilho avançar no Caminho. A verdadeira virtude não pesa, dá asas; preenche sem ocupar lugar; tem poder sem vontade de dominar; possui valor sem desejo de aparentar. A humildade é o primeiro portal e a habilitação necessária para a conquista das demais virtudes de que fala o Tao”.
Argumentei que nunca tive bons olhos para a humildade. Sempre a liguei à pobreza, à fraqueza e à ignorância. Li Tzu balançou a cabeça em negativa e disse: “Justo ao contrário. A humildade é uma virtude repleta de lucidez, pois ao saber exatamente quem somos, reconhecemos o que ainda não somos; este é o bilhete de entrada. É o indivíduo que se percebe simples em espírito, no entanto, disposto a conquistar e sedimentar em si cada uma das virtudes que compõem a Luz. Ele já entende que essa é a verdadeira fortuna. A sua riqueza não precisa ser guardada no cofre, pois não pode ser roubada”. Deu uma pequena pausa antes de prosseguir: “Acaba por se tornar a virtude dos fortes, daqueles que não podem ser humilhados ou maltratados por inatingíveis. Por banais, as pedras da ofensa, do desprezo, do descaso, da chacota e dos cerceamentos vis lançadas por toda a gente são vistas como malcriações de crianças insatisfeitas, mimadas e desorientadas, sem quaisquer condições de alcançá-lo”.
Comentei que eu tinha a sensação de que as pessoas humildes não amavam a si mesmo. Li Tzu explicou: “O humilde ama a si próprio sem abandonar a verdade. Esta é a grandeza da humildade. Apenas assim ele consegue desapegar das ilusões que trazem o sofrimento e a escuridão, que tanto consomem as suas forças e o desvia da felicidade e da paz. Ele não tem vergonha das suas imperfeições, ao contrário, elas servem de inspiração para o enriquecimento moral e espiritual que almeja. A conquista da humildade estabelece um novo capítulo na vida do indivíduo ao elaborar um diferente código de compreensão e conduta, norteando as demais virtudes a serem sedimentadas pela alma”.
Bebemos o chá sem falar palavra. Ao final, Li Tzu retornou aos seus afazeres. Nos dias que se seguiram, enquanto cuidava dos bonsais, refletia sobre o poema do Tao e na conversa que tivemos. Aos poucos, toda a discussão na hospedaria foi perdendo tamanho e importância, até que me encontrei rindo do ridículo da situação. Me senti leve. Seriam essas as asas de que falara o mestre taoista?
Naquela tarde, tive que dar um pulo no pequeno comércio da vila para comprar algumas coisas. Por acaso – se é que acasos existem –, encontrei o homem enorme com quem tinha brigado. Ele estava indo embora e percebi que, apesar do seu tamanho, tinha dificuldades em carregar a própria mala. Explicou que tivera uma contratura muscular nas costas e tinha dificuldade para os movimentos mais simples. Me adiantei, ele recuou. Talvez pensando que eu aproveitaria a oportunidade para agredi-lo e me vingar. Confesso que isso me ocorreu, mas a vontade, naquele momento, era nenhuma. Peguei a mala, andamos um bom tempo, lado a lado, em silêncio até que a coloquei no bagageiro do ônibus que ele embarcaria. As feições do homem estavam diferentes daquelas que eu havia conhecido quando cheguei à vila. Ele foi sincero em me agradecer e acrescentou que “sem aquela não haveria esta”. Tornou a agradecer. Apenas fechei os olhos e sorri, também em agradecimento, como resposta. Nos abraçamos. Ambos tínhamos sido agraciados com preciosos aprendizados.
Quando voltei, falei para Li Tzu que estava na hora de partir e contei o ocorrido. Acrescentei que entendia a necessidade de manter vazia a ânfora da humildade para que novas ideias e virtudes encontrassem um lugar em mim. O mestre taoista balançou a cabeça em concordância, me presenteou com um belo sorriso e finalizou a lição: “Mas não basta. É preciso lembrar que além das ideias e das virtudes, a ânfora não pode estar repleta do ‘eu’. Necessário se faz que também haja lugar para o outro. Ou nada fará sentido e a humildade se perderá em si”.
Naquele dia, enquanto eu andava pelas ruas da vila, tive a estranha sensação de que podia voar.

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