quarta-feira, 25 de dezembro de 2013

Sexo e Casamento





5.21
Tal pessoa liberada não se deixa atrair pelo prazer dos sentidos materiais, mas está sempre em transe, gozando o prazer interior. Desse modo, a pessoa auto-realizada sente felicidade ilimitada, pois se concentra no Supremo.
Significado: 
Śrī Yāmunācārya, um grande devoto em consciência de Kṛṣṇa, disse:
yad-avadhi mama cetaḥ kṛṣṇa-pādāravinde
nava-nava-rasa-dhāmany udyataṁ rantum āsīt
tad-avadhi bata nārī-saṅgame smaryamāne
bhavati mukha-vikāraḥ suṣṭhu niṣṭhīvanaṁ ca
“Desde que passei a ocupar-me no serviço transcendental amoroso a Kṛṣṇa, encontrando nEle um prazer que se renova a cada instante, sempre que eu penso em vida sexual, cuspo no pensamento, e meus lábios se contorcem de desgosto.” Quem está em brahma-yoga, ou consciência de Kṛṣṇa, fica tão absorto no serviço amoroso ao Senhor que deixa de sentir gosto algum no prazer dos sentidos materiais. No plano material, o prazer mais elevado é o prazer sexual. O mundo todo se move sob este encanto, e sem esta motivação o materialista não consegue agir de modo algum. Mas quem está ocupado na consciência de Kṛṣṇa pode trabalhar com muito mais vigor sem entregar-se ao prazer sexual, o qual ele evita. Este é o indício da percepção espiritual. A compreensão espiritual e o prazer sexual não combinam bem. Por ser uma alma liberada, a pessoa consciente de Kṛṣṇa não sente atração por nenhum tipo de prazer dos sentidos.


                                                  6.13-14
Deve-se manter o corpo, pescoço e cabeça eretos, conservando-os em linha reta, e deve-se olhar fixamente para a ponta do nariz. Assim, com a mente plácida e subjugada, sem medo, livre por completo da vida sexual, deve-se meditar em Mim dentro do coração e ver a Mim como a meta última da vida.
Significado: 
O objetivo da vida é conhecer Kṛṣṇa, que está situado no coração de cada ser vivo como Paramātmā, a forma de Viṣṇu de quatro braços. Pratica-se o processo de yoga para descobrir e ver esta forma localizada de Viṣṇu, e não com alguma outra finalidade. A viṣṇu-mūrti localizada é a representação plenária de Kṛṣṇa que mora em nosso coração. Quem não está se preparando para compreender esta viṣṇu-mūrti ocupa-se inutilmente em yogasimulada e com certeza está perdendo seu tempo. Kṛṣṇa é a meta última da vida, e a viṣṇu-mūrti situada no coração é o objeto da prática de yoga. Para perceber esta viṣṇu-mūrti dentro do coração, é necessário observar completa abstinência da vida sexual; por isso, deve-se deixar o lar e viver sozinho num lugar isolado, permanecendo sentado como se mencionou acima. Ninguém pode desfrutar de vida sexual diariamente em casa ou em outro lugar e participar de uma presumível aula de yoga e dessa maneira tornar-se um yogī. Deve-se praticar o controle da mente e a privação de todas as espécies de gozo dos sentidos, cujo elemento predominante é a vida sexual. Nas regras de celibato escritas pelo grande sábio Yājñavalkya afirma-se:
karmaṇā manasā vācā
sarvāvasthāsu sarvadā
sarvatra maithuna-tyāgo
brahmacaryaṁ pracakṣate
“O voto de brahmacarya presta-se a ajudar alguém a abster-se por completo da vida sexual em atos, palavras e mente — em todas as ocasiões, em todas as circunstâncias e em todos os lugares.” Ninguém pode realizar a correta prática da yoga entregando-se à vida sexual. Por isso, ensina-se brahmacarya desde a infância, quando não se tem conhecimento sobre vida sexual. Com a idade de cinco anos, as crianças são enviadas ao gurukula, ou a casa do mestre espiritual, e o mestre treina os meninos na disciplina severa que fará deles verdadeiros brahmacārīs. Sem essa prática, ninguém pode progredir em nenhuma yoga, seja ela dhyāna, jñāna ou bhakti. Entretanto, aquele que segue as regras e regulações da vida de casado, tendo relações sexuais apenas com sua esposa (e isso também sob regulação), também é chamado brahmacārī. Este chefe de família, que praticamente vive como um brahmacārīcontrolado, pode ser aceito na escola bhakti, mas as escolas jñāna e dhyāna não admitem nem mesmo tais chefes de família. Elas exigem abstinência completa, e não fazem concessão alguma. Na escola bhakti, o chefe de família em regime de brahmacārī pode ter uma vida sexual controlada porque o culto de bhakti-yoga é tão poderoso que ele perde automaticamente a atração sexual, por se ocupar no superior serviço ao Senhor. No Bhagavad-gītā (2.59), afirma-se:
viṣayā vinivartante
nirāhārasya dehinaḥ
rasa-varjaṁ raso ’py asya
paraṁ dṛṣṭvā nivartate
Os outros são forçados a abster-se do gozo dos sentidos, mas o devoto do Senhor abstém-se automaticamente porque já saboreia um gosto superior. A não ser o devoto, nenhuma outra pessoa conhece esse gosto superior.
Vigata-bhīḥ. Quem não está em plena consciência de Kṛṣṇa não pode ser destemido. A alma condicionada sente medo porque tem memória esvaecida, ou seja, porque se esqueceu de sua eterna relação com Kṛṣṇa. O Bhāgavatam(11.2.37) diz que bhayaṁ dvitīyābhiniveśataḥ syād īśād apetasya viparyayo ’smṛtiḥ. A consciência de Kṛṣṇa é a única base para o destemor. Portanto, a prática perfeita é possível para alguém que é consciente de Kṛṣṇa. E como a meta última da prática de yoga é ver o Senhor dentro de si, quem é consciente de Kṛṣṇa já é o melhor dos yogīs. Os princípios do sistema de yoga mencionados nesta passagem são diferentes daqueles das populares “sociedades de yoga”.
  

                                                   6.20-23
Na etapa de perfeição chamada transe, ou samādhi, a mente abstém-se por completo das atividades mentais materiais pela prática da yoga. Caracteriza esta perfeição o fato de se poder ver o Eu com a mente pura e sentir prazer e regozijo no Eu. Neste estado jubiloso, o yogī situa-se em felicidade transcendental ilimitada, percebida através de sentidos transcendentais. Nesse caso, ele jamais se afasta da verdade, e, ao obter isto, vê que não há ganho maior. Situando-se em tal posição, ele nunca se deixa abalar, mesmo em meio às maiores dificuldades. Esta é a verdadeira maneira de alguém livrar-se de todas as misérias surgidas do contato material.
Significado: 
Pela prática de yoga, é possível se desapegar aos poucos dos conceitos materiais. Esta é a característica primária do princípio de yoga. E depois disto, há o transe, ou samādhi, e isto significa que o yogīpercebe a Superalma através da mente e da inteligência transcendentais, sem se deixar influenciar por falsas noções que identificam o eu com o Eu Supremo. A prática de yoga é mais ou menos baseada nos princípios do sistema de Patañjali. Alguns comentadores desautorizados tentam identificar a alma individual com a Superalma, e os monistas acham que a liberação consiste nisto, mas não compreendem o verdadeiro propósito do sistema de yoga de Patañjali. No sistema de Patañjali, aceita-se o prazer transcendental, mas os monistas, com medo de pôr em risco a teoria da unidade, não concordam com este prazer transcendental. O não-dualista não admite a dualidade de conhecimento e conhecedor, mas neste verso aceita-se o prazer transcendental — percebido através de sentidos transcendentais. E isto é corroborado pelo próprio Patañjali Muni, o famoso representante do sistema de yoga. Em seus Yoga-sūtras (4.34), o grande sábio declara: puruṣārtha-śūnyānāṁ guṇānāṁ pratiprasavaḥ kaivalyaṁ svarūpa-pratiṣṭhā vā citi-śaktir iti.
Esta citi-śakti, ou potência interna, é transcendental. Puruṣārtha significa a religiosidade material, o desenvolvimento econômico, o gozo dos sentidos e, por fim, a tentativa de tornar-se uno com o Supremo. Esta “unidade com o Supremo” é chamada kaivalyam pelos monistas. Mas segundo Patañjali, esta kaivalyam é uma potência interna, ou transcendental, pela qual a entidade viva passa a notar sua posição constitucional. Nas palavras do Senhor Caitanya, este estado de coisas chama-se ceto-darpaṇa-mārjanam, ou limpeza do espelho impuro da mente. Esta “limpeza” é de fato a liberação, ou bhava-mahā-dāvāgni-nirvāpaṇam. A teoria do nirvāṇa — também preliminar — corresponde a este princípio. No Bhāgavatam (2.10.6) isto se chama svarūpeṇa vyavasthitiḥ. Neste verso, o Bhagavad-gītātambém confirma esta situação.
Depois de nirvāṇa, ou cessação material, há a manifestação de atividades espirituais, ou serviço devocional ao Senhor, conhecido como consciência de Kṛṣṇa. Nas palavras do Bhāgavatam, svarūpeṇa vyavasthitiḥ: esta é a “verdadeira vida da entidade viva”. Māyā, ou ilusão, é uma condição em que a vida espiritual sofre os efeitos da infecção material. Liberar-se desta infecção material não significa destruir a posição original e eterna da entidade viva. Com suas palavras kaivalyaṁ svarūpa-pratiṣṭhā vā citi-śaktir iti, Patañjali também aceita isto. Esta citi-śakti,ou prazer transcendental, é a verdadeira vida. Confirma-se isto no Vedānta-sūtra (1.1.12) como ānanda-mayo ’bhyāsāt. Este prazer transcendental natural é a meta última da yoga e se alcança facilmente pela execução do serviço devocional, ou bhakti-yoga. A bhakti-yoga será vividamente descrita no Sétimo Capítulo do Bhagavad-gītā.
No sistema de yoga, conforme se descreve neste capítulo, há duas espécies de samādhi, chamadas samprajñāta-samādhi e asamprajñāta-samādhi. Quando alguém se situa numa posição transcendental, por meio de várias investigações filosóficas, diz-se que alcançou samprajñāta-samādhi. No asamprajñāta-samādhi, não há mais ligação alguma com o prazer mundano, pois a pessoa é então transcendental a toda espécie de felicidade derivada dos sentidos. Uma vez situado nessa posição transcendental, o yogī jamais se afasta dela. Enquanto não conseguir alcançar esta posição, o yogī estará mal-sucedido. A prática simulada da yoga de hoje em dia, que envolve vários prazeres dos sentidos, é contraditória. Um yogī que se entrega ao sexo e à intoxicação é uma farsa. Nem mesmo aqueles yogīs que se sentem atraídos pelas siddhis (perfeições) do processo de yoga estão numa situação perfeita. Se os yogīs são atraídos pelos subprodutos da yoga, então, não podem alcançar a fase de perfeição, como se declara neste verso. Portanto, aqueles que se entregam à prática exibicionista de ginásticas ou siddhis devem saber que dessa maneira perde-se o objetivo da yoga.
Nesta era, a melhor prática de yoga é a consciência de Kṛṣṇa, pois não é fraudulenta. Um devoto consciente de Kṛṣṇa está tão feliz em sua ocupação que não aspira a nenhuma outra felicidade. Especialmente nesta era de hipocrisia, existem muitos impedimentos à prática de haṭha-yoga, dhyāna-yoga e jñāna-yoga, mas não há problemas na execução de karma-yoga ou bhakti-yoga.
Enquanto se tem um corpo material, faz-se necessário atender às exigências do corpo, a saber, comer, dormir, defender-se e acasalar-se. Mas quem está em bhakti-yoga pura, ou em consciência de Kṛṣṇa, não instiga os sentidos enquanto atende às exigências do corpo. Ao contrário, ele aceita as necessidades básicas da vida, tirando o melhor proveito de um mau negócio, e goza felicidade transcendental em consciência de Kṛṣṇa. Ele não se deixa afetar por incidentes ocasionais — tais como acidentes, doenças, penúria, e até mesmo a morte de um ente muito querido — mas está sempre alerta para executar seus deveres em consciência de Kṛṣṇa, ou bhakti-yoga. Os acidentes nunca o desviam de seu dever. Como se afirma no Bhagavad-gītā (2.14): āgamāpāyino ’nityās tāṁs titikṣasva bhārata. Ele suporta todas essas ocorrências incidentais porque sabe que elas vêm e vão e não afetam seus deveres. Desse modo, ele consegue a mais alta perfeição na prática de yoga.

                                                    10.28
Das armas sou o raio; entre as vacas sou a surabhi. Das causas que fomentam a procriação, sou Kandarpa, o deus do amor, e das serpentes, sou Vāsuki.
Significado: 
O raio, uma arma deveras poderosa, representa o poder de Kṛṣṇa. Em Kṛṣṇaloka, no céu espiritual, há vacas que podem ser ordenhadas a qualquer hora, e elas dão tanto leite quanto se queira. É claro que essas vacas não existem neste mundo material, mas menciona-se que elas estão presentes em Kṛṣṇaloka. O Senhor mantém muitas dessas vacas, chamadas surabhi. Afirma-se que o Senhor ocupa-Se em apascentar as vacas surabhi. Kandarpa é o desejo sexual com que se produzem bons filhos; por isso, Kandarpa é o representante de Kṛṣṇa. Às vezes, as pessoas ocupam-se em sexo apenas em busca de gozo dos sentidos; tal sexo não representa Kṛṣṇa. Mas o sexo para gerar bons filhos chama-se Kandarpa e representa Kṛṣṇa.

                                                 17.14
A austeridade do corpo consiste em adorar o Senhor Supremo, os brāhmaṇas, o mestre espiritual e os superiores, tais como o pai e a mãe, e em limpeza, simplicidade, celibato e não-violência.
Significado: 

Aqui, a Divindade Suprema explica as diferentes espécies de austeridade e penitência. Primeiro, Ele explica as austeridades e penitências praticadas com o corpo. Deve-se oferecer, ou aprender a oferecer, respeito a Deus ou aos semideuses, aos brāhmaṇas perfeitos e qualificados e ao mestre espiritual e aos superiores, tais como o pai, a mãe ou qualquer pessoa versada no conhecimento védico. Eles devem receber o devido respeito. Deve-se praticar a limpeza externa e interna, e deve-se aprender a comportar-se com simplicidade. Não se deve fazer nada que não seja sancionado pelos preceitos das escrituras. Não se deve praticar sexo fora do casamento, pois as escrituras autorizam apenas o sexo dentro do casamento, e não algum outro tipo de atividade sexual. Isto se chama celibato. Estas penitências e austeridades referem-se ao corpo.