sábado, 23 de fevereiro de 2013

Vida espiritual e Vida sexual



Bhagavad-Gitá Cap. 5 verso 21

Bahya-sparsesv asaktatma
Vindaty atmani yat sukham
Sa brahma-yoga-yuktatma
Sukham aksayam asnute

Tal pessoa liberada não se deixa atrair pelo prazer dos sentidos materiais, mas está sempre em transe, gozando o prazer interior. Desse modo,  a pessoa auto-realizada sente felicidade ilimitada, pois se concentra no Supremo.

Sri Yamunacarya, um grande devoto em consciência de Krishna, disse:
“Desde que passei a ocupar-me no serviço transcendental amoroso a Krishna, encontro nEle um prazer que se renova a cada instante, sempre que eu penso em vida sexual, cuspo no pensamento, e meus lábios se contorcem de desgosto.” Quem está em brahma-yoga, ou consciência de Krishna, fica tão absorto no serviço amoroso ao Senhor que deixa de sentir gosto algum no prazer dos sentidos materiais. No plano material, o prazer mais elevado é o prazer sexual. O mundo todo se move sob este encanto, e sem esta motivação o materialista não consegue agir de jeito nenhum. Mas quem esta ocupado na consciência de Krishna pode trabalhar com muito mais vigor sem entregar-se ao prazer sexual, o qual ele evita. Este é o indício da percepção espiritual.
A compreensão espiritual e o prazer sexual não combinam bem. Por ser uma alma liberada, a pessoa consciente de Krishna não sente atração por nenhum tipo de prazer dos sentidos.

                                         
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Bhagavad-Gitá Cap. 6 Verso 13-14

...deve-se meditar em  Mim dentro do coração e ver a Mim como a meta última da vida.

...Ninguém pode realizar a correta prática de yoga entregando à vida sexual...Entretanto , aquele que segue as regras e regulações da vida de casado, tendo relações sexuais apenas com sua esposa (isso também sob regulação) também é chamado de brahmacari...Na escola bhakti, o chefe de família em regime de brahmacari pode ter uma vida sexual controlada porque o culto de bhakti-yoga é tão poderoso que ele perde automaticamente  a atração sexual, por se ocupar no superior serviço ao Senhor...Os outros são forçados a abster-se do gozo dos sentidos, mas o devoto do Senhor abstém-se automaticamente porque já saboreia um gosto superior. A não ser o devoto, nenhuma outra pessoa conhece esse gosto superior.
                                                               

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Na carta para o devoto Lalitananda dasa, datada de 26/05/75, Srila Prabhupada diz que se ele não abandonasse suas atividades de sexo ilícito no homossexualismo as suas chances de avanço seriam nulas. 


26/05/75

Meu querido Lalitananda dasa,

Por favor, aceite minhas bênçãos. Eu recebi devidamente sua carta datada de 13 de Maio de 1975 e eu notei o seu conteúdo. Eu estou muito triste de que você tenha adotado o homossexualismo. Isso não ajudará você a avançar em sua tentativa pela vida espiritual. De fato, isso apenas impedirá o seu avanço. Eu não sei por que você adotou tais atividades abomináveis. O que eu posso dizer? De qualquer modo, tente render qualquer serviço que você possa para Krishna. Muito embora você esteja numa condição muito degradada, Krishna, ficando satisfeito com a sua atitude de serviço, pode retirar você desse estado caído. Você deve parar este homossexualismo imediatamente. Isso é sexo ilícito, de outra forma, suas chances de avançar na vida espiritual são nulas. Mostre a Krishna que você é sério, se você é.

Eu espero que esta encontre você em boa saúde.
Seu eterno bem querente,
A.C. Bhaktivedhanta Swami


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Homossexualidade—Normal ou Abnormal
Uma abordagem realista à luz da sociologia, psicologia e espiritualidade
Purushatraya Swami

      Até então, tenho relutado a abordar esse tema tão delicado e polemico, pois, como temos visto, tem provocado as mais contraditórias opiniões. Em meio a vozes que clamam pela normalidade, surge, de repente, a visão de Prabhupada que qualifica como abominável. Por mais que se reaja a essa expressão empregada por Prabhupada, não se pode negar sua inquestionável misericórdia para lidar com o caso em questão. No meu caso, estou consciente do risco que corro em transitar por esse campo minado. Procurarei dar uma visão mais realista possível sobre esse tema.
      Certos comentários estão agora na boca de alguns devotos: Por que os líderes do movimento não se pronunciam sobre esse assunto? Por que alguns devotos têm posições tão radicais? Onde está a misericórdia? Por que tanta hipocrisia? Quanto a isso, o que se pode dizer é que esse tema é extremamente complexo para se ter uma simples posição definida. Além disso, ainda estamos, no momento, mais ou menos perplexos diante da proporção que esse assunto tem assumido. São idéias novas, ainda não totalmente digeridas, que devem ser tratadas levando-se em considerações muitos fatores. Portanto, não vale a pena jogar combustível na fogueira, pois isso só cria agitações e dissensões. Vamos ter que ter paciência para que a realidade transpareça e a visão consciente de Krishna prevaleça.

A premissa

      Alguém pode também argumentar: O que um sannyasi pode saber sobre esses assuntos tão mundanos? Quanto a mim, minha idade e experiência de mundo certamente contam. Além disso, o período de trinta anos, antes de adotar a vida monástica, vividos numa cidade tão cosmopolita e licenciosa, em contraste com o provincianismo do resto do país naquela época, dá para se fazer uma comparação do antes e depois de que essa a onda gay, que agora se desenvolve em todo mundo, tenha se deflagrado. Em anos passados, a sociedade já tinha experimentado algumas ondas, como a onda hippie, onda comunista, onda da liberação feminina, onda das drogas e outras. Mas nenhuma delas assumiu tal proporção como essa avassaladora onda gay, de proporções mundiais, que, assim com um tsunami, tem invadido certos domínios que antes eram mais ou menos preservados da influência da mundanidade. Como Krishna diz no Bhagavad-gita, no capítulo 16: As pessoas perderam a referência do que é certo e errado (pravrttim ca nivrttim ca jana na vidur) e pensam que o sexo é a causa de tudo (kim anyat kama-haitukam).
      Não tenho intenção aqui de chocar ninguém, nem quero alimentar sentimentos antagônicos com quem quer que seja. Quero simplesmente colocar no papel aquilo que tenho observado e refletido.
     A premissa aqui é que todos os que estão presentes em Kali-yuga têm um passado comprometido com atividades ilícitas, caso contrário não estariam por aqui. No décimo-primeiro canto do Srimad-Bhagavatam (11.5.11) é dito que “nesse mundo material as almas condicionadas estão sempre inclinadas ao sexo, ao comer de carne e à intoxicação. Portanto as escrituras nunca corroboram tais atividades” (loke vyavayamisa-madya-seva nitya hi jantor hi tatra codana).

Mentalidade moderna

      Antes de abordar diretamente o assunto em questão, cabe aqui algumas considerações que são indiretamente pertinentes ao caso, mas tem uma influência direta quando temos que nos posicionar diante de nós mesmos e dos outros.
 Questionar as implicações dessa onda gay é, hoje em dia, como já foi mencionado, uma tarefa bastante difícil. É um assunto extremamente complicado, pois existem inúmeras implicações envolvidas.
A outra consideração é que existe uma forte tendência de se considerar que os comportamentos modernos em voga constituem avanços da civilização na direção das liberdades individuais e expansão de consciência. Esse tipo de mentalidade está cada vez mais difundida entre nós. É, dentro do contexto moderno, designada como “new age”, ou numa linguagem mais atual, “politicamente correta”. Uma pessoa politicamente correta não faz feio nas rodinhas sociais de vanguarda. Basta seguir a cartilha dos “formadores de opinião” da moda para estar na crista da onda do pensamento contemporâneo. Dentro desse conceito, estão assuntos relacionados com a legalização do aborto, o casamento gay, o esquerdismo chique, leis contra homofobia, cotas raciais, liberação da maconha, política de redução de danos, redução das penas dos coitados dos presos, métodos avançados de educação sexual nas escolas, “obamomania”, e por aí vai. A mídia se encarrega de diligentemente propagar essas idéias e milhares de ONGs são formadas para lutar por essas causas.
     Ao invés de se estabelecer na sociedade um comportamento e moralidade ideal, a tendência é tentar somente reduzir os efeitos danosos de discrepâncias que se alojaram na sociedade devido ao irrestrito gozo dos sentidos. Damos um exemplo: Já que o sexo livre se tornou incontrolável entre os escolares adolescentes, a solução encontrada por certos órgãos ditos competentes do governo para sanar esse grave problema é distribuir preservativos e pílulas do dia seguinte, com o fim de diminuir a incidência da gravidez precoce. Ao invés de pregar uma moralidade saudável e impor regras rígidas de disciplina, que é o que os adolescentes mais precisam nessa fase da vida, estimula-se a prática sexual entre crianças recém saídos da puberdade.
 Ai de quem vá contradizer um politicamente correto... É imediatamente visto com desdém e taxado de conservador, retrógrado, hipócrita, fascista, etc.
     Deve-se, no entanto, entender que um pensamento considerado conservador, isto é, não alinhado com um vulgar pensamento “progressista” e liberal, não significa algo anacrônico, que esteja identificado com os conceitos populares realmente retrógrados arraigados numa parcela considerável da massa popular, que, de um modo geral, vive num estado de ignorância, passividade e acomodação.
     Um autêntico e racional pensamento conservador deve ser consistente, baseado na lógica e nas fontes autorizadas de conhecimento. Deve-se desconfiar dos modismos que a toda hora aparecem e é preciso ter muito critério para impor as mudanças, quando for necessário. Não obstante, devemos ser intolerantes e nunca ficar impassíveis diante das discrepâncias e injustiças. Devemos, contudo, lidar com os problemas pessoais e sociais valendo-se dos princípios espirituais universais. Temos que cultivar total lucidez para não se deixar influenciar pelas idéias materialistas, muitas vezes revestidas com roupagem acadêmica e sofisticada, mas totalmente fundamentadas no paradigma do gozo dos sentidos. Os devotos têm à mão a fortuna de poder ver o mundo à luz do conhecimento védico, que nos dão referências básicas para a vida em sociedade e nos liberta do samsara.

Problemas do ativismo

      O movimento gay tem, hoje em dia, um exército de ativistas. Só esse fato em si já demonstra o caráter sectário e pernicioso embutido nesse fenômeno social. O ativista é um fanático que quer impor suas idéias aos outros, custe o que custar. Suas preferências sexuais são expostas ao público e ninguém pode expressar nenhum tipo de desaprovação e protesto. Os ativistas gays estão nos corredores do Congresso Nacional pelejando pela promulgação de uma lei que tenha o poder de botar na cadeia com a acusação de homofobia qualquer um que diga um “ai” reprovando qualquer “chilique” escandaloso em público ou atos obscenos em lugares públicos. Eles querem aquilo que certos grupos sociais políticos somente conseguem em regimes de tirania. O fato é que nossos legisladores comprometidos com o “politicamente correto”, sendo a maioria, estão a ponto de sancionar uma lei dessa natureza, devido ao lobby poderosíssimo que está por trás disso.
     O ativismo gay tem a força popular de arrastar quatro milhões de pessoas para participar da parada do “Orgulho Gay”, na Avenida Paulista, em São Paulo. As mais absurdas aberrações e obscenidades são expostas a um público formado por todos os tipos de pessoas. Lá estão desde os tipos mais depravados, verdadeiros monstros de Kali-yuga a uma multidão de tolos inocentes, anões morais. Pais e mães levam seus filhos para apreciarem a exibição da mais completa degradação e contaminação que se pode imaginar. É, realmente, o fim da picada. A glória de Kali-yuga.
      O movimento gay está presente em todos os setores da sociedade, principalmente no setor da educação, responsável em construir a mentalidade do povo nas próximas gerações. Na sala de aula, um professor gay pode estar sempre “pregando” abertamente seu estilo de vida para seus alunos. Isso tem levantado preocupação em muitos pais e, volta e meia, aparecem nos noticiários, incidentes de revolta dos pais diante do comportamento de certos professores ativistas gay. A mensagem gay é também passada às crianças sutilmente, de forma subliminar. Até nos desenhos animados do Mickey, pato Donald, etc., da Walt Disney foram detectadas imagens e roteiros relacionados à homossexualidade que facilmente penetram e se alojam no ideário infantil. Esse caso é somente uma pontinha de um iceberg. Definitivamente, o que os ativistas gay mais querem é um mundo totalmente gay.

O que dizem os shastras

     De acordo com os shastras, o sexo deve ser para procriação. Como cita Rshabhadeva: pumsah striya mithuni-bhavam etam (Srimad-Bhagavatam 5.5.8). Esse verso diz que o desejo sexual (mithuni-bhava) surge do contato entre o homem (pums) e a mulher (stri) e isso produz um nó sentimental (hridaya-granthi). Mithuni-bhava, na terminologia psicanalítica, é a libido, que a “energia motriz dos instintos da vida, i.e., de toda conduta ativa e criadora do homem” (dic. Aurélio). Portanto, em decorrência, vêm os filhos e toda a implicação familiar. O verso termina dizendo: janasya moho 'yam aham mameti—Esta é a essência da ilusão, pois se instalam fortemente na consciência as idéias de aham e mama, isto é, que “eu sou o corpo” e que “tudo que possuo pertence a mim”.
     O Senhor Shiva é adorado com Shambu, o progenitor da humanidade. Ele impregna a personificação da Natureza material com as entidades vivas desse mundo. Por isso, é adorado através da Shiva-linga, uma forma mística que combina o órgão genital masculino e feminino.
     É um fato que a tendência homossexual sempre existiu. Nas escrituras védicas, esse tema é, no entanto, raramente apontado. Escrituras que abordam claramente esse comportamento são os livros da lei, os dharma shastras, notadamente, o Manu Samhita. De acordo com esse tratado sociológico e legal védico, o ato homossexual é considerado pecado, mas upapataka, um pecado menor. Dão-se várias situações em que esse ato ocorre e respectivos procedimentos para ocorrer a expiação. O mais grave delito fica por conta da classe dos brahmanas, que, com isso, perdem seu status de dvija, duas vezes nascidos. Tal punição de perder o status social não ocorre nos outros varnas.
     Mesmo sendo considerado um pecado, a posição mais sensata é considerar esse assunto como expressou um pensador cristão: “Não somos contra o pecador, mas contra o pecado.”

Causas

      O fato é que esse comportamento sempre está presente da sociedade, e agora, nos dias atuais, mais do que nunca. Quais seriam as causas e motivos para uma pessoa tornar-se um homossexual? Vamos aqui tratar de algumas situações. Certamente deve haver outras implicações não abordadas aqui.
     Uma coisa intrigante é que a tendência homossexual eclodiu como um boom em todas as partes do mundo. Há vinte e cinco ou trinta anos atrás não era assim. Era algo esporádico e velado. Poucos assumiam publicamente essa tendência. Hoje em dia, no entanto, as novas gerações vêem como um fato completamente normal dentro da sociedade. O que tem provocado tal boom?
     Abordamos aqui dois casos: a influência da vida prévia e a incidência na vida atual. A primeira abordagem refere-se ao caso da pessoa nascer com a inclinação genética para o homossexualismo. É o caso do menino que prefere brincar com as meninas, gosta de usar o sapato alto da mãe e se atrai em borrar os lábios com batom. Ou da menina que prefere as brincadeiras de meninos. Isso significa que essa tendência faz parte de seu karma. Para esses casos, podemos concluir que a pessoa já cultivou essa inclinação na vida anterior. Existe também a hipótese de um acidente genético ao nascer ou receber a herança genética dos pais. A ciência não tem com confirmar tais coisas.
     Quanto à questão kármica, podemos também levantar algumas hipóteses. As décadas que se seguiram à segunda guerra mundial foram marcadas, no Ocidente, pela liberação sexual. Muitas barreiras, remanescentes do puritanismo vitoriano, foram quebradas e o sexo, antes velado, tomou conta da cabeça das pessoas. Imaginemos, então, um homem ou uma mulher adictos ao sexo, sempre meditando nos genitais do sexo oposto. Se, por acaso, ocorrer uma morte prematura, por doença ou acidente fatal, quando essa prática sexual estaria em seu auge e em máxima intensidade, como ficará seu karma? Uma hipótese seria que, por pensar sempre no sexo heterossexual, a pessoa tomará um corpo de sexo oposto ao anterior. Contudo, pelo fato de que sua mente estivera condicionada ao genital do sexo oposto, esse sanskara, impressão na mente, que é transferido para a próxima vida, permanecerá e, no novo nascimento, a pessoa nascerá com a tendência de ser atraída para os genitais do mesmo sexo. Essa é somente uma especulação, mas inegavelmente é verossímil. Por aí, podemos compreender que a velhice tem um papel importante na vida da pessoa, pois atenua essas fortes impressões da mente, dando oportunidade para a pessoa se desvencilhar dos excessos sexuais fomentados pelos hormônios corporais e vícios corpóreos da juventude e parte da fase madura.

Adotando na vida presente

      Os gays sempre querem dar o argumento de que a tendência homossexual seria exclusivamente genética. Por outro lado, já me deparei com artigos sérios sobre psicologia em que é afirmado que na grande maioria dos casos, a homossexualidade não teria uma causa genética, mas seria fruto do meio em que a pessoa vive, principalmente na tenra infância. Um desses casos, inclusive reportado por vários depoimentos, é do menino que perdeu o pai muito cedo e é criado num ambiente totalmente feminino. A tendência homossexual seria uma busca inconsciente para compensar a carência masculina na sua fase de formação como indivíduo. Para esses casos, diz-se que existe grande possibilidade de “cura”, se é que podemos dizer assim.
      Outros casos, inclusive bem mais tristes, são quando a criança é molestada sexualmente por adultos. Isso causa mazelas profundas, que alteram completamente o curso natural da vida da pessoa. Mesmo entre meninos mais ou menos da mesma idade, sempre existem aqueles mais maliciosos que forçam e abusam sexualmente dos mais fracos. Daí, pode começar a vida homossexual da pessoa.
      Entre as moças, penso que existem muitos casos de que umas mais feinhas e sem sucesso entre a classe masculina, encontram o carinho e atenção nas mãos de uma homossexual madura que se apresenta em sua vida, compensando assim sua carência afetiva e sexual. Daí para frente, a tendência é assumir a condição homossexual integral.
      Hoje em dia, estamos observando uma mudança radical no comportamento dos homossexuais. O que eu posso extrair da minha lembrança de cinqüenta anos atrás, no meu tempo de colégio, é que havia o caso de certos meninos e rapazes da classe média que tinham essa tendência genética. Lembro-me de um caso assim na rua em que morava. O rapazinho vivia em um ambiente completamente feminino em sua casa, era simpático, estudava no Colégio Militar e tinha certa cultura geral e musical. Eu, na minha inocência, quando soube que ele tinha orgias com os outros meninos da rua, lembro-me que fiquei perplexo. Lembro-me também de uma pessoa, já chegando à meia idade, que vivia perto do colégio que eu estudava. Era um homossexual assumido, popular no bairro, que saía rebolando, cheio de trejeitos pela rua e nem ligava quando o pessoal fazia gozação e o tratava com linguajar chulo. O que eu quero colocar aqui é que, nessa época, o homossexual dependia exclusivamente da “boa vontade” da classe masculina heterossexual.
     Hoje em dia é diferente: os gays resolvem-se entre si. O tempo que tinha que sujeitar-se à classe masculina heterossexual acabou. Hoje, o lado ativo e passivo é resolvido entre gays e basta freqüentar os barzinhos gays e um simples “Estás a fim?” já resolve tudo. Tudo é muito fácil. Não é à toa que o presidente da associação nacional gay gabava-se em uma entrevista de ter tido quase mil parceiros. Hoje em dia, o prazer do sexo tornou-se extremamente fácil e accessível para os gays. Por isso, estão com bastante força dentro da sociedade, mesmo força política, e, alem disso, os gays estão infiltrados em todos os setores e têm praticamente toda a mídia a seu favor.
     Depois do movimento feminista, ficou mais difícil para um homem conquistar uma mulher. Antes era muito mais fácil. Hoje em dia, é mais trabalhoso, principalmente se o homem não tem boa condição financeira. Dessa forma, muitos estão optando para o comportamento gay. Isso faz, inclusive, aumentar a auto-estima de muitos que anteriormente não tinham nenhum sucesso na vida sexual. É o chamado orgulho gay.
     A propaganda gay é muito forte. A classe feminina está entrando também nesse estilo de vida com força total. Artistas e cantoras assumidamente lésbicas são como musas num pedestal elevado acima dos mortais ordinários. Principalmente nas classes sociais mais privilegiadas, o lesbianismo, hoje em dia, começa bem cedo, ainda na puberdade. Muitas mulheres fazem a opção lésbica consciente, pois não querem estar na mão de homens que são como cachorros procurando sexo imediato aqui e acolá. Além disso, ficam livres de ter que se deparar com os inconvenientes da gravidez acidental e responsabilidades de vida familiar. A tecnologia moderna a serviço do sexo produz múltiplos artefatos destinado a produzir o mesmo prazer sexual, sem que a mulher tenha que tolerar a presença física de um homem e suas idiossincrasias.
     Uma vertente do homossexualismo parte para exageros de cultuar o corpo—corpos fortes, bem modelados—e assim ficam se exibindo entre si. Outros mais ousados e sem quaisquer escrúpulos, tratam de moldar seus corpos usando produtos sintéticos, como silicone, para se passar por femininos e atrair uma classe de homens cada vez mais numerosa atraída pelo sexo degradado.

Superando o superego

     No Bhagavad-gita, Krishna diz: ye hi samsparsha-ja bogha (5.22). Nesse verso é dito que uma pessoa inteligente não investe no samsparsha-ja bogha, prazer obtido através dos sentidos. Nesse verso, Krishna dá dois argumentos: adi-anta-vat—esse prazer é efêmero, aparece e desaparece; e duhkha-yoni—nesse tipo de prazer sensual está sempre presente uma fonte de sofrimento pronta para se manifestar a qualquer momento. Os noticiários diários estão sempre relatando casos de pessoas que, na busca do prazer, encontraram tragédias e desgraças. Aqui nesse verso, a palavra sparsha significa o sentido do tato. O ato sexual é esse esfregar de pele com pele. Esse atrito produz um tipo de prazer sensual altamente apreciado, tido unanimemente como o supremo prazer nesse mundo carnal. Para um heterossexual, esfregar-se com uma pessoa do mesmo sexo provoca certa repulsa. Essa repulsa, no entanto, é somente um mecanismo do superego, como a psicanálise freudiana explica. É nesse superego que os preconceitos, convenções sociais e travamentos psicológicos residem. Essa barreira pode ser quebrada facilmente e a repulsa anterior ao sexo homossexual dá lugar a novas sensações de prazer. Muitas pessoas estão se tornando homossexuais ou bissexuais ao descobrirem que, ao superarem essa repulsa gerada pelo superego, podem ampliar consideravelmente as possibilidades de prazer sexual. Relatos de pessoas que adotaram a homossexualidade mostram que a primeira experiência é sempre chocante, mas, depois do choque inicial, tudo pode ser aceito com facilidade. Quando os mecanismos psicológicos e corpóreos ficam viciados, aí então a pessoa não consegue mais parar. Mesmo que ela sinta os malefícios que isso pode causá-la, mesmo assim esse condicionamento sexual impõe sua vontade. A pessoa não tem outra saída senão se entregar completamente ao controle de sua mente. Mesmo aqueles que se arrogam serem heterossexuais ferrenhos podem, a qualquer momento, dependendo das circunstancias, mudar sua inclinação sexual. Milhares e milhões de pessoas, principalmente adolescentes e jovens, estão, hoje em dia, em todo mundo, experimentando as sensações homossexuais, pois é a onda da moda.
      Hoje em dia, em todo o mundo, existe uma forte pressão para dar a união gay o mesmo status legal e religioso que o casamento formal tem. Divergências sobre isso, tem causado, inclusive, cisões dentro de instituições religiosas. Particularmente, não acho apropriado. Casamento destina-se a procriação. É a célula mater da sociedade. As duas partes, o homem e a mulher, se complementam, cada um com suas funções específicas. Essa polaridade gera um equilíbrio dentro da união pelo casamento. No caso da união gay, as duas partes têm papeis iguais. Se dentro do casamento formal, hoje em dia, perdeu-se praticamente a estabilidade e continuidade que deveria possuir como um ato de sacramento, o que dizer da união gay entre dois iguais. “Casais” gays tratam de garantir a estabilidade da união com a adoção de crianças. Essa é outra situação totalmente distorcida, pois a criança não terá a importante influencia em sua personalidade exercida pela polaridade do pai e da mãe.
      Uma forte tendência do momento, principalmente entre o pessoal “moderninho”, é ser bissexual. Isso dá a sensação de estar livre das convenções sociais e imposições da moral tradicional. Milhões de pessoas em todo mundo estão partindo para esse comportamento. Essas “novidades” geralmente começam dentro do meio artístico. Logo a seguir se propaga pelos meios sofisticados. É logo absorvida pela classe universitária. Depois de alguns anos, a classe média, que a princípio fica perplexa diante dessas mudanças comportamentais, gradualmente entra no esquema. Quando a classe média adota algum comportamento, as classes sociais mais baixas imediatamente seguem. Assim sendo, um renomado sociólogo afirmou que “dentro de três ou quatro gerações, a maioria das pessoas desse planeta serão bissexuais”. Quanto a isso, pergunto: Isso é normal ou abnormal?

Conclusão

      Ninguém melhor que Rshabhadeva para explicar o nosso enredamento nesse mundo. No Srimad-Bhagavatam 5.5.4 é dito:

nunam pramattah kurute vikarma
yad indriya-pritaya aprnoti
na sadhu manye atmano ´yam
asann api kleshada asa dehah

      O significado desse verso é o seguinte: Quando a pessoa está dominada por indriya-priti (gozo dos sentidos) ela fica literalmente pramatta (intoxicada, insana, luxuriosa, louca) e fica propensa a cometer todo tipo de vikarma (ações erradas, atos proibidos, atividades pecaminosas). Rshabhadeva comenta: Eu acho isso inaceitável (na sadhu manye), pois, decorrente disso, a alma (atma) terá que aceitar corpos temporários (asat deha), corpos esses que são klesha-da, isto é, que produzem todo tipo de sofrimentos e aflições.
      Essa é a situação geral das pessoas vivendo em Kali-yuga. Na medida em que a pessoa se entrega ao gozo dos sentidos, a conseqüência natural é entrar numa espiral de degradação dificílima de se escapar, a não ser pela misericórdia de Krishna que flui através de Seus devotos puros e por todos os devotos que são como canais dessa misericórdia divina que entra em contato com a sociedade humana.
      Prahlada Maharaj, em sua iluminada sabedoria infantil, ora ao Senhor Nrisimhadeva com essas palavras:

yan maithunadi-grihamedhi-sukham hi tuccham
kanduyanena karayor iva duhkha-duhkham
tripyanti neha kripana bahu-duhkha-bhajah
kandutivan manasijam vishaheta dhirah

“Maithuna-adi, isto é, sexo e tudo que se refere ao gozo dos sentidos, constitue a felicidade dos grihamedhis, grihasthas interessados somente em si e adictos ao gozo dos sentidos

irrestrito. Essa felicidade é insignificante (tuccham), Prahlada Maharaj diz. É como a satisfação que se tem do alívio que se sente quando esfregamos uma coceira nas mãos. Por outro lado, a vida de uma pessoa materialista assim é cheia de condições de infelicidade e sofrimento (duhkha-duhkham). Elas nunca estão realmente satisfeitas nesse mundo (tripyanti na iha) e estão sujeitas a todo tipo de infelicidade (bahu-duhkha-bhaja). Devemos, portanto, aprender como lidar com essa coceira (kanduti-vat) nascidas exclusivamente das fantasias da mente (manasi-jam). Um dhira, uma pessoa sóbria e auto-controlada, sabe como controlar e tolerar (vishaheta) essa coceira.”

domingo, 10 de fevereiro de 2013

Primeiras instruções


                         
Sri Krishna, o mestre espiritual supremo, diz a Árjuna: “Meu querido Árjuna, se Me queres como teu mestre espiritual, então dar-te-ei Minha primeira instrução: torna-te um verdadeiro sábio e não te lamentes desnecessariamente!”.

Isso é extremamente significativo. Lamentação e vida espiritual definitivamente não combinam. De um modo geral, a lamentação é um sinal evidente de ignorância acerca do verdadeiro eu. Pelo controle supremo, as diferentes almas são lançadas em diferentes corpos, onde terão de existir por um período específico de tempo. Pelo controle supremo, tais almas terão de abandonar no momento certo seus respectivos corpos e obterão, de uma maneira impecavelmente justa, os resultados de suas atividades. Qual é, então, a necessidade de lamentação? Como ficará cada vez mais claro durante o estudo desta obra, a alma é eterna e sempre existente. A morte é um simples conceito material, relativo apenas ao corpo físico, uma mera cobertura temporária da alma. Por isso, Árjuna não deveria dar tamanha importância à condição do corpo material. Isso estava acarretando um esquecimento acerca do verdadeiro eu, a alma espiritual, resultando em desnecessária lamentação. Nos dias de hoje, a civilização humana carece desse conhecimento espiritual e, como Árjuna, foi mordida pela serpente da lamentação, cujo veneno se expande em todos os setores da sociedade. Na verdade, a condição corpórea é lamentável por ser completamente incompatível com a natureza eterna da alma. Logo que nasce, o corpo terá de gradualmente atingir as fases de doença, velhice e morte. Concluindo, a identificação corpórea é uma fonte de lamentação que tem como consequência a intolerância e a instabilidade emocional. No entanto, ao compreender sua natureza eterna e utilizar o corpo material exclusivamente como um instrumento para a autorrealização espiritual, a pessoa livra-se das dualidades concernentes à vida material, aprende a tolerar as adversidades deste mundo e não se perturba diante dos reveses da vida. Certamente, tal pessoa pode alcançar completa liberação mesmo estando em contato com o corpo material, posto que suas atividades corpóreas não mais a afetarão. Isso significa que, mesmo que seu corpo aja movido pela reação às suas atividades passadas, a Suprema Personalidade de Deus passa a cuidar pessoalmente de tal alma liberada. Por exemplo, mesmo depois de desligado, o ventilador elétrico continua girando por algum tempo. No entanto, esse giro não se deve à corrente elétrica, mas à continuação do último movimento. Em outras palavras, embora uma alma liberada pareça estar agindo tal qual uma pessoa comum, suas ações não passam de continuação das atividades passadas.

Kurus e Pândavas

Vyasadeva era um sábio muito famoso e poderoso que levava uma vida retirada, praticando austeridades e penitências nas montanhas dos Himalayas. Com sua bênção, da união de Dhritarastra e Gandhari nasceram cem filhos, encabeçados pelo malévolo Duryôdhana, enquanto Pându teve cinco filhos com suas esposas, os quais ficaram famosos como Pândavas. Embora fosse mais velho do que Pându, Dhritarastra foi excluído da herança do reino devido à sua cegueira. Desse modo, Pându foi coroado rei. No entanto, seu reinado durou muito pouco, e, antes mesmo de ter filhos, Pându recebeu a terrível maldição de que seria morto no momento em que se entregasse ao ato sexual. Desse modo, Pându abandonou o reino e, acompanhado de suas duas esposas, foi viver na floresta executando austeridades. Vendo que novamente a dinastia estava ameaçada, uma de suas esposas, a gloriosa Kunti Devi, revelou que havia recebido a bênção do grande sábio Durvasa Muni de invocar qualquer semideus que desejasse para, desse modo, gerar filhos com ele. Portanto, a pedido de Pându, Kunti foi capaz de gerar três filhos gloriosos. Primeiro Kunti invocou Dharma, o semideus da religião, gerando assim um virtuosíssimo filho. Logo que nasceu, uma voz divina disse: “Esta criança será chamada Yudhisthira e será gloriosa, determinada, renunciada e famosa nos três mundos!”. Pându desejava também um filho com grande força física. Portanto, Kunti invocou Vayu, o semideus do vento. Tendo se unido com ele, uma criança muito poderosa foi gerada. Ao nascer, a mesma voz sobrenatural disse: “Esta criança será o mais forte dentre os homens!”. Em seguida, Kunti invocou Indra, o rei dos céus, e concebeu mais uma linda criança. Dessa vez, a voz celestial vibrou: “Ó Kunti, esta criança será tão forte como Kartavirya e Shibi, e, como o próprio Indra, será invencível na batalha. Sua fama espalhar-se-á por todos os lugares e ele obterá armas divinas”. Subsequentemente, Madri, a segunda esposa de Pându, gerou dois filhos: Nakula e Sahadeva. Esses cinco filhos – Yudhisthira, Bhima, Árjuna, Nakula e Sahadeva – ficaram conhecidos como Pândavas.
Desde a época em que Pându havia se retirado para a floresta, Dhritarastra assumira temporariamente o reino, até que Yudhisthira, o filho mais velho de Pându, atingisse idade apropriada para reinar. Entretanto, como resultado da maldição que havia recebido, Pându morreu antes que Yudhisthira fosse entronizado e os cinco Pândavas acabaram ficando sob os cuidados de Kunti Devi, uma vez que Madri havia renunciado sua vida, entrando na pira funerária juntamente com seu esposo. Depois disso, os Pândavas foram levados para Hastinapura, onde foram criados à maneira real sob os cuidados de Dhritarastra.
Portanto, como depois da morte de seu pai os Pândavas viveram sob o completo abrigo de Dhritarastra, eles também deveriam ser considerados filhos diretos de Dhritarastra. No entanto, fica bastante explícito aqui no começo da Bhagavad-gita que, infelizmente, Dhritarastra limitava seu interesse apenas a seus filhos, não se considerando responsável pela proteção dos filhos de seu irmão Pându. Em condições normais, tal comportamento por parte de Dhritarastra não fazia o menor sentido, uma vez que tanto seus filhos quanto os filhos de seu falecido irmão sempre viveram juntos no mesmo palácio, onde estudaram e aprenderam as ciências militares, políticas, etc.
O verdadeiro problema era que a cegueira de Dhritarastra também se manifestava na sua vida prática. Especialmente seu filho mais velho, Duryôdhana, havia herdado dele essa mesma cegueira e não queria conviver amistosamente com seus primos-irmãos, os Pândavas. Ele não conseguia tolerar o fato de que seus primos, encabeçados por Yudhisthira, deveriam ser coroados como sucessores do reino dos Kurus. Sedentos de poder, os invejosos filhos de Dhritarastra criaram uma situação insustentável, a qual acabou culminando na grande Batalha de Kurukshetra.
É importante verificarmos a grande preocupação de Dhritarastra pelo resultado dessa batalha. Em seu íntimo, ele podia compreender que a tentativa de seus filhos de usurparem o reino de seus primos era ilícita e, por conseguinte, estava destinada ao fracasso. Ao citar que a batalha aconteceria em Kurukshetra, um lugar de peregrinação, ele estava indiretamente perguntando a seu secretário, o místico Sañjaya, se a influência do lugar favoreceria os Pândavas, que eram seguidores estritos do dharma. Como resposta, Sañjaya inicia a descrição da situação no campo de Kurukshetra, transmitindo primeiramente o diálogo entre Duryôdhana e seu mestre de armas, Dronacharya.
Como um materialista cobiçoso e obstinado, Duryôdhana estava pensando que a força de seu exército era superior. Ele não podia compreender que o fato de Krishna estar ao lado de Árjuna definia completamente a vitória para o lado dos Pândavas, os quais, além de altamente qualificados, se sentiam plenamente dependentes e confiantes na misericórdia do Senhor.

A Batalha

Um fator importante a ser ressaltado é o cenário específico que o Senhor Krishna escolheu para transmitir Suas instruções transcendentais: o Campo de Batalha de Kurukshetra. Por que, para expor a ciência eterna da alma, o Senhor valeu-se de uma situação tão dramática, onde, nos momentos seguintes, aconteceria uma guerra violenta com milhões e milhões de vítimas?...
Quando se fala em batalha, se fala em mortes, ou seja, a perda do próprio corpo. Portanto, Árjuna representou a situação de uma pessoa que, diante da possibilidade da morte, se entrega a sentimentos de apego excessivo ao próprio corpo e aos corpos ligados a ele, manifestando assim grande sofrimento e temor. De qualquer modo, a experiência dolorosa do contato com a misteriosa morte serviu para que o interesse de Árjuna pelo conhecimento espiritual viesse à tona. De fato, não resta a menor dúvida de que, enquanto experimenta uma condição de felicidade e conforto materiais, uma pessoa comum não irá buscar conhecimento espiritual. Entretanto, para uma pessoa piedosa, quando lhe acontece alguma calamidade ou quando sente que a morte se aproxima, não lhe resta outra alternativa a não ser se refugiar no Senhor. Desse modo, muito embora este mundo material seja um lugar cercado de constantes perigos e perplexidades, a pessoa inteligente encara isso como uma excelente oportunidade para que se cumpra o propósito da vida humana e se progrida em compreensão espiritual. O fato de a Bhagavad-gita ter sido falada num campo de batalha também serve como uma indicação clara de que todos podem receber instruções transcendentais e colocá-las em prática em qualquer momento, local ou circunstância. Em outras palavras, se Árjuna foi capaz disso num local tão aparentemente inapropriado e praticou yoga e meditação mesmo enquanto lutava fortemente no campo de batalha, que dizer daquele que vive numa condição muito mais simples e tranquila?
O dilema de Árjuna envolvia três considerações: seu compromisso como guerreiro, sua posição delicada de ter de enfrentar parentes e benquerentes no exército adversário e a presença todoauspiciosa de Krishna no campo sagrado de Kurukshetra. Como um guerreiro, Árjuna simplesmente deveria prosseguir com firmeza na batalha e cumprir seu dever. À medida que se estuda a Bhagavad-gita entende-se claramente que a batalha entre Árjuna e seus primos não girava em torno simplesmente de interesses materiais. Tratava-se de uma verdadeira batalha entre o bem e o mal, o divino e o demoníaco. Por representar a natureza divina, a vitória do exército de Árjuna traria benefícios auspiciosos não só para as pessoas da época, mas também para as futuras gerações. Portanto, como general responsável pelo exército das pessoas divinas, Árjuna estava completamente protegido pelo dharma e, em nenhum momento, incorreria em pecado.
A segunda consideração é ainda mais delicada. Árjuna teria de se confrontar com vários benquerentes e membros queridos de sua família que estavam no exército oponente. Como poderia ele conciliar os seus deveres de guerreiro com seus sentimentos amorosos baseados nos laços familiares? Como um devoto do Senhor, Árjuna era repleto de qualidades santas, como o desapego, o perdão, a compaixão, etc., e, assim, preferia desistir da luta e abandonar seu compromisso como guerreiro a matar seus benquerentes. Do ponto de vista da posição de um devoto, essa atitude pacífica e mansa de Árjuna é considerada louvável. Entretanto, do ponto de vista de quem tem o compromisso de proteger toda a sociedade humana sua atitude era considerada um ato de covardia. Isso nos mostra que os deveres perante toda a sociedade humana devem ser colocados sempre acima dos interesses pessoais familiares. Especificamente nesse caso, o compromisso de proteger a sociedade das mãos de um governo demoníaco definitivamente deveria ser colocado em primeiro plano na escala de valores sociais.
Finalmente, a presença de Sri Krishna ao lado de Árjuna transformava a batalha numa atividade completamente transcendental, o que esclarece definitivamente que a condição aflitiva de Árjuna não se justificava. Krishna é considerado o pai e protetor eterno do dharma. Portanto, Sua presença auspiciosa e Suas instruções garantiam a liberação última para qualquer guerreiro que fosse sacrificado em nome do dharma.
Concluindo, as sublimes instruções de Krishna na Gita são atemporais e de aplicação geral. Elas servem para qualquer um, em qualquer época ou lugar, e, ainda hoje, qualquer pessoa inteligente e humilde que as leia pode obter a mesma iluminação que Árjuna obteve ao ouvir a Bhagavad-gita e será tão beneficiada como ele, o qual estava na presença pessoal de Krishna. Na realidade, pelo fato de se situarem na plataforma absoluta, as instruções de Krishna não são diferentes dEle. É claro que, do ponto de vista material, a associação entre uma pessoa e outra depende do contato pessoal físico. Mas a situação é diferente no que diz respeito à associação espiritual. Na verdade, Krishna transmitiu a Gita, a qual foi registrada pelo grande sábio Vyasadeva, para que todos tenham a oportunidade de receber Suas instruções mesmo que Ele esteja fora do alcance da visão material. Como ficará claro ao longo desta obra, o Senhor possui poderes inconcebíveis, e, por ser uma de Suas energias, a energia material pode ser espiritualizada pelo Seu divino desejo. Desse modo, uma escritura como a Bhagavad-gita é uma representação sonora autêntica do Senhor e é especialmente destinada à percepção sensorial que possuímos neste momento.

O Cenário

Considera-se a Bhagavad-gita como o primeiro livro de valores espirituais. Sua função é primeiramente elevar a consciência do estudante a fim de lhe dar condições para que inicie o estudo da filosofia Vedanta e, posteriormente, conduzi-lo ao sanatana-dharma, a ocupação no serviço amoroso ao Senhor.
Segundo os Vedas, o cosmo material se manifesta em ciclos de quatro eras: Satya, Treta, Dvapara e Kali. A era de Satya é caracterizada pelas boas virtudes. Sob o seu influxo, todos os seres humanos que vivem na Terra são repletos de qualidades divinas. Na era de Treta, há um declínio das virtudes e a Terra passa a abrigar ao mesmo tempo seres divinos e demoníacos. Na era de Dvapara, o aumento da irreligião e da impiedade se acentua a ponto do divino e do demoníaco passarem a viver na mesma família. Finalmente, na era de Kali, ou era das trevas, há um predomínio total de irreligião, hipocrisia e desavenças, e as naturezas divina e demoníaca habitam lado a lado no mesmo corpo.
Desse modo, foi há cinco mil anos, entre o final da era de Dvapara e o começo da era de Kali, que Sri Krishna veio a Terra e transmitiu a Árjuna o sublime conhecimento contido na Bhagavad-gita, removendo, assim, todas as suas dúvidas, ansiedades e lamentações. O cenário da Bhagavad-gita foi o campo sagrado de Kurukshetra, minutos antes da batalha mais violenta já registrada na história dos últimos tempos. Naquela época, a Terra e seus habitantes eram atormentados pela influência perturbadora de indivíduos materialistas e cobiçosos. Assim, como é confirmado no capítulo quatro dessa mesma obra, em tais situações o próprio Krishna sempre desce a este ou a qualquer outro planeta para eliminar os elementos indesejáveis e proteger diretamente as pessoas piedosas.
Como um eterno companheiro de Krishna, o guerreiro Árjuna está sempre fora da ilusão. Deve-se compreender, portanto, que ele foi colocado em ilusão pessoalmente pelo Senhor, que desejava transmitir os ensinamentos da Bhagavad-gita para as futuras gerações. Desse modo, ao representar o papel de uma pessoa absorta em sofrimento material e formular perguntas relevantes sobre os verdadeiros problemas da vida, Árjuna ajuda a compreendermos os mistérios mais intrigantes da nossa condição humana. Em outras palavras, Árjuna ilustra a condição daqueles que, influenciados pela existência material, são forçados a conviver com frequentes ansiedades e temores.
No começo da Bhagavad-gita, Árjuna demonstra sua humildade ao admitir sua incapacidade de solucionar os problemas que surgiram diante dele no Campo de Batalha de Kurukshetra. Abrigando-se nas divinas instruções de Krishna, ele gradualmente tem suas dúvidas e fraquezas removidas e se ilumina plenamente. A lição a se aprender é que, assim como Árjuna, ninguém tem a capacidade de encontrar as devidas soluções para os problemas que surgem na vida (independentemente do nível de educação ou inteligência que se possa ter), pois a vida prática é como o campo de Kurukshetra, onde a batalha entre o bem e o mal acontece a todo instante. Portanto, Árjuna mostra que se alguém quiser ser um vencedor da grande batalha que ocorre internamente, ele terá de se armar com o conhecimento transcendental da Bhagavad-gita, o qual se destina a todo guerreiro espiritual.

O Papel

No mundo em que vivemos todos recebem influências materiais e inevitavelmente ficam sujeitos a quatro tipos de defeitos: ilusão, erros, percepção defeituosa e limitada dos sentidos e propensão a enganar os outros. Infelizmente, não é incomum constatar pessoas manifestando um ou mais desses defeitos de uma só vez. Desse modo, uma pessoa nessa condição defeituosa só poderá adquirir conhecimento limitado e imperfeito. No entanto, os Vedas afirmam que, além de serem a fonte original de todo o conhecimento, seus textos são sagrados e de origem supramundana, não possuindo nenhum desses defeitos, já que foram transmitidos pela Pessoa Suprema − uma fonte completamente transcendental.
O receptor original desse conhecimento foi o primeiro ser vivo, o Senhor Brahma, o qual existia antes mesmo da criação material. Brahma foi dotado de poder pelo Senhor para criar o mundo material com o propósito de dar uma nova oportunidade às almas condicionadas que não alcançaram a liberação na criação anterior. Depois de cumprir essa missão, Brahma transmitiu o conhecimento védico ao sábio Narada, que, por sua vez, o transmitiu a seu discípulo Vyasadeva, o qual, com o propósito de preservá-lo, registrou-o na forma literária.
Uma vez que os Vedas têm como propósito último fornecer conhecimento sobre autorrealização espiritual, seus temas são compreendidos apenas por pessoas com excepcionais qualidades. Por esse motivo, no início da era de Kali o grande sábio Vyasa dividiu os Vedas em vários ramos, tornando esse conhecimento acessível às pessoas comuns e menos inteligentes. Especialmente para essa classe de pessoas, ele preparou o Mahabharata, uma compilação admirável repleta de histórias que prendem a atenção de qualquer um, e dentro do Mahabharata incluiu a essência do conhecimento védico na forma da Bhagavad-gita. É um fato que as pessoas comuns se interessam muito mais por histórias fascinantes do que por filosofia profunda. Assim, através do Mahabharata Vyasadeva quis atrair a atenção dos leitores com a incrível história da disputa pelo trono entre as dinastias Kaurava e Pandava. Sua estratégia é que, no momento mais crítico da história – exatamente quando a Batalha de Kurukshetra está por começar –, Krishna entra em cena e transmite Sua mensagem maravilhosa na forma da Bhagavad-gita. Na verdade, toda a envolvente trama política do Mahabharata não passa de um arranjo divino para prender a atenção dos leitores para que Krishna derrame um oceano infinito de instruções sublimes sob a forma da Bhagavad-gita, a nata dos Vedas.
As próprias escrituras védicas não se cansam de enaltecer as qualidades singulares da Bhagavad-gita. Isso porque a Gita emanou diretamente da boca da maior autoridade em conhecimento, Sri Krishna, que é glorificado nos Vedas como Mahaprabhu, o mestre espiritual supremo; e Purushottama, a maior dentre todas as personalidades. Assim, ao compreender que a Bhagavad-gita é uma manifestação da ilimitada bondade de Krishna (que apresenta a essência de todo o conhecimento védico em apenas 700 versos), os estudiosos védicos recomendam que sejamos entusiastas em ler e estudar essa grande escritura. É um fato que nesta era atual ninguém é verdadeiramente qualificado para estudar toda a imensidão dos textos védicos, tais como os Puranas, Upanishads, Vedanta-sutra, etc. Mas simplesmente estudando a Bhagavad-gita uma pessoa poderá se elevar ao estado de sabedoria e iluminação transcendental. Basta que ela seja fiel e tenha o desejo sincero de compreender o tema de como se livrar das garras da existência material e alcançar uma existência eterna e plena de felicidade.