domingo, 25 de novembro de 2012

Determinismo e Livre-arbítrio


Até que ponto estamos irremediavelmente condicionados aos fatores determinantes da vida? Se é que existe livre-arbítrio, quais são as possibilidades de exercê-lo plenamente? Até onde vai minha capacidade de decidir?
“De hoje em diante, eu decido que não vou mais adoecer nem envelhecer; e também não quero morrer”. Bobagem... Ninguém tem tal poder de decisão e querer. Isso não passa de uma tolice e absurdo. A realidade da vida é mais complexa. Existem regras no jogo da vida que são impossíveis de serem burladas. Querendo ou não somos obrigados a aceitá-las.
Nesta vida, “caímos de pára-quedas” numa família “X”, que absolutamente não escolhemos, num meio ambiente social e econômico igualmente sem escolha, num lugarzinho específico nesse planeta. Recebemos um corpo frágil e vulnerável, com uma capacidade sempre aquém do que no fundo gostaríamos. E além disso, estamos envolvidos com compromissos e responsabilidades impossíveis de serem descartados. Em suma, existem tantos fatores deterministas, sem chances de escaparmos deles. Onde entra então o livre-arbítrio?
Para muitas pessoas, o livre-arbítrio restringe-se às escolhas triviais. O super-mercado, por exemplo, é um campo imenso de escolhas_ a marca do sabão em pó, o tipo de xampu, manteiga com sal ou sem sal, mais barato (com menor qualidade) ou mais caro (aparentemente melhor qualidade), e por aí vai. A impressão que fica é que nosso livre-arbítrio é muito limitado e nunca será capaz de resolver os grandes problemas de nossa vida.
Outro exemplo é um vôo internacional. Temos que cumprir com tantos requisitos e imposições, que sobra pouquíssimo para exercermos alguma liberdade e criatividade. Horários rígidos, passaportes, vistos, limitações de bagagem. Os espaços no avião são exíguos. Temos que nos manter sentados e afivelados. Que liberdade temos? Talvez os míseros dez centímetros de inclinação da poltrona na classe econômica (mesmo assim fora do período da decolagem e aterrissagem) e algumas outras limitadas e reduzidíssimas possibilidades de ação durante o vôo...
Onde então entra nosso livre-arbítrio nesse cenário? Ah!... Definitivamente, a prerrogativa do livre-arbítrio está presente e foi exercido num elevado e importante grau ao decidirmos pessoalmente sobre o destino nessa viagem. O destino escolhido é a decisão mais importante. Tudo mais é circunstancial. A partir dessa decisão, nós nos submetemos voluntariamente a todos esses inconvenientes inerentes às longas viagens intercontinentais. Atingir o destino escolhido compensa todos os inevitáveis sacrifícios.
A mesma idéia pode ser aplicada no ciclo de vida que vivemos. Apesar de todos os fatores determinantes da vida, todos nós temos a oportunidade de direcionar nossa vida, tanto para o bem quanto para o mal. Se optamos para o bem, devemos estar cientes dos obstáculos e dos inconvenientes pela frente. Mas a meta final deve estar sempre bem definida para não desviarmos durante a caminhada.
No tratado espiritual Bhagavad-gita, já no final do livro, Krishna disse ao seu amigo Arjuna: “Eu te passei todo esse conhecimento que é muito confidencial. Poucas pessoas estão preparadas para recebê-lo. Agora é contigo. Ou aceitas ou rejeitas”. Aqui fica demonstrado claramente o papel do livre-arbítrio. O mais elevado uso do livre-arbítrio é optar por uma vida boa e rejeitar a vida ruim. Vida boa é auto-realização e auto-aperfeiçoamento.

Purushatraya Swami - www.pswami.com.br / www.goura.com.br

domingo, 18 de novembro de 2012

Conversando sobre Yoga


Jayadvaita Dasa pratica yoga há 17 anos, é autor do livro Pranayama, Alcançando a Plenitude através da Respiração, e coordena a 3ª turma do curso de formação Vaishnava Vedanta Yoga, realizado em diferentes cidades do estado do Rio de Janeiro. Em entrevista à Volta ao Supremo, discute a profundidade
espiritual que podem ter as posturas ióguicas e as técnicas respiratórias nas práticas de yoga convencional, as mudanças pelas quais passa o yoga das primeiras gerações de instrutores para as gerações atuais, o que as pessoas buscam nessa prática multimilenar, fala sobre seu livro, sobre a proposta inovadora do curso que coordena e mais.

Volta ao Supremo: O que é yoga?

Jayadvaita Dasa: Existem muitas definições para o termo yoga. Etimologicamente, a palavra deriva de yuj, que significa “unir”, “juntar”, “conectar dois elementos”. Por exemplo, dela deriva cônjuge, na morfologia do português. No capítulo dois do Bhagavad-gita, yoga é definido como “equanimidade mental”. O mesmo conceito é apresentado por Patanjali no Yoga-sutra, onde se diz que yoga é o estado em que a consciência deixa de se identificar com as alterações constantes da mente. De maneira prática, yoga pode ser definido como “reintegração”, pois há um processo que ocorre e que é o caráter intrínseco do yoga. Sempre ao final de uma prática, os alunos saem com a sensação real de que algo está em seu devido lugar, de que a estrutura do mundo ganhou mais leveza e de que a realidade parece ter assumido um equilíbrio harmonioso. Tudo não passa de um ajuste da percepção, mas tal ajuste é o resultado da reintegração que ocorre internamente.

De certa forma, estamos desintegrados da fonte criadora. Isto significa inconsciência. Reintegrar-se pode ser entendido como tomar consciência de quem somos, de qual é nosso objetivo e meta, tomar consciência de nossa relação substancial com Deus. Embora existam procedimentos, técnicas e metodologia para a prática do yoga, devemos entender que não é meramente um processo físico, como geralmente se pensa, mas um processo interior que visa reintegrar o corpo, a respiração e a alma – o que nos leva a compreender que não somos estes corpos frágeis e efêmeros, que nosso propósito na vida é compreender nossa relação com Deus, e que a alma somente estará completa e satisfeita em comunhão com a Pessoa Absoluta.

Para Srila Prabhupada, yoga é a ciência da autorrealização espiritual. Integrar-se é fazer parte. Para fazer parte de algo é preciso conhecer, ter consciência deste algo. Reintegrar-se é voltar a conhecer, voltar a ter consciência. Por isto, no final do capítulo seis do Bhagavad-gita,se conclui que yoga é meditar em Deus dentro de si mesmo e prestar transcendental serviço amoroso a este Ser Supremo. Ou seja, numa visão metafísica, yoga é um sistema científico de transcendência dos limites da matéria.

Volta ao Supremo: Quando se deu seu primeiro contato com o yoga? O que o senhor buscava?

Jayadvaita Dasa: Meu primeiro contato ocorreu no final da adolescência. Momentos de crises interiores e questionamentos que não encontravam respostas em dogmas ou religiões. Encontrei um livro falando as posturas psicofísicas do yoga e passei a praticar sem muitas orientações. Somente depois de alguns anos, fui me encontrar com um amigo que não via há muitos anos e que estava dando aulas de yoga. Foi uma surpresa estimulante para mim, pois estava me sentindo fora dos padrões dos jovens na época. Com a prática e os estudos, fui mergulhando mais no que eu realmente estava buscando: uma experiência com Deus. Porém, não foi breve. Demorou três anos até que eu pudesse entender que a experiência mística que buscava era com o aspecto completo de Deus, um aspecto pessoal. Isto ocorreu quando uni os estudos do Bhagavad-gita à minha prática e pude compreender os níveis de realização da Verdade Absoluta.

E ficou claro pelo fato de que não sentia tanto prazer antes. Sempre ao final da meditação havia ainda a sensação de que faltava algo, pois nela eu estava sozinho, sem troca, sem reciprocidade, sem relacionamento. Aos poucos, pude perceber que na meditação é necessário haver reciprocidade de relacionamento entre aquele que medita e aquele em que se medita. Então, entendi que minha busca não era apenas por uma experiência mística, mas a experiência de um relacionamento místico com Deus.

Volta ao Supremo: O que, em geral, as pessoas procuram no yoga?

Jayadvaita Dasa: Existem quatro tipos de pessoas que buscam o yoga. Algumas querem recuperar sua saúde. Outras buscam o bem-estar que o yoga proporciona. Existem aquelas que querem conhecer novos horizontes, ter novas experiências, mudar o modo de viver e ver a vida; são as pessoas que se interessam pela filosofia do yoga. Estas têm uma tendência aos estudos. Por fim, existem pessoas que estão numa busca genuína pela espiritualidade, pelo autoconhecimento interior, de resgatar ou de se reintegrar como ser eterno, consciente e bem-aventurado. Há um processo que ocorre para todos. Mesmo quem busca uma vida saudável acabará por alcançar o bem-estar. Quem quer apenas o bem-estar naturalmente terá os resultados preventivos na saúde. Quem procura por conhecimento, geralmente cultiva o bem-estar saudável. De certo modo, há um processo gradual ocorrendo no íntimo de cada indivíduo que difere muito pouco no geral. A sociedade em geral está criando as condições para que todos, cada qual ao seu modo, busquem pelo caminho do autoconhecimento interior. As pessoas querem encontrar o equilíbrio, a satisfação e a realização que este mundo transitório não lhes proporciona. Felizmente, o yoga pode auxiliar nisto, daí a busca pelo yoga.

Volta ao Supremo: O que mudou no yoga desde sua vinda para o ocidente até os instrutores da atualidade?

Jayadvaita Dasa: Diria que a essência epistemológica do yoga original não mudou, mas a abordagem e os métodos utilizados foram adaptados dentro da realidade do mundo moderno e pós-moderno. Do ponto de vista histórico, o yoga chegou ao Ocidente sob influência do que se conhece academicamente como neo-hinduísmo. Foi um movimento cultural (motivado pelo imperialismo britânico da época, diga-se de passagem) de revitalizar e propagar a cultura da Índia pelo Ocidente – principalmente sua filosofia. Assim, já no final do século XIX, temos a vinda de Swami Vivekananda. Depois, Yogananda Paramahamsa, Swami Sivananda e muitas outras missões. Naquele momento, houve um movimento de diluir a filosofia e a prática do yoga na cultura ocidental. Era algo visto como exótico e fora do contexto da realidade. Mesmo assim, muitas instituições foram fundadas e deram o encaminhamento possível dentro da receptividade que havia.

O grande impacto se iniciou na transição pós-moderna, ou seja, no movimento de contracultura. Foi ali que o yoga passou a se popularizar entre as massas juvenis, principalmente – embora, neste período, o yoga ocidental estivesse ligado ao uso de psicotrópicos e drogas lisérgicas. No Brasil, o yoga chegou na segunda metade do século vinte com nomes como Caio Miranda e Hermógenes. Durante as primeiras décadas, a prática ainda era muito restrita a um público que se diferenciava do contexto geral e outro mais elitizado. Hermógenes iniciou suas aulas abertas no centro do Rio de Janeiro, na rua Uruguaiana e assim foi se popularizando gradualmente. Um segundo momento se inicia no final dos anos oitenta, quando alguns renomados mestres do yoga começam a ganhar notoriedade nos Estados Unidos e na Europa. Com Iyengar, Patabhi Jois e Desikacar, o yoga retoma sua essência e técnica livre de objetivos missionários como ocorrera no início do século. Desse modo, temos algo como um resgate da tradição no yoga moderno. Todo yoga difundido hoje em dia tem laços com o grande nome do yoga: Krishnamacarya. Ele foi um vaishnava da Ramanuja-sampradaya e aperfeiçoou a prática do yoga com o viés da espiritualidade. Praticamente todo o yoga que temos hoje presente nas academias, nas escolas e estúdios deve grande mérito a Krishnamacarya e seus discípulos.

Por outro lado, um fenômeno tem ocorrido chamado internet. Ela democratizou o conhecimento do yoga, mas também tem ajudado a disseminar muitos equívocos em relação ao yoga. Junto a isto, muitos centros de yoga passaram a oferecer formação sem muita base na tradição do yoga. Isto quer dizer que temos visto uma explosão do yoga no Ocidente, mas poucos são os nomes que ficarão no cenário. Então, posso afirmar que o que mais mudou no yoga desde sua chegada foram dois fatores: primeiro, houve um aprimoramento das técnicas e consequente surgimento de muitos instrutores de yoga; segundo, o processo de mercado que movimenta fortemente o yoga. Mas isto faz parte de sua popularização. A questão é: onde e como encontrar hoje em dia profissionais e instrutores de yoga capacitados e comprometidos com sua verdadeira função neste campo? Entendo que o papel do instrutor de yoga é servir de exemplo para seus alunos, de ensinar pelo exemplo, é ser o que conhecemos como acarya; e, ao mesmo tempo, exercer seu trabalho como um ofício sagrado, um sacrifício conhecido como yajna. Este papel hoje em dia ficou raro, e, no meu entender, foi a maior mudança ocorrida desde sua chegada ao Ocidente.

Volta ao Supremo: Qual a opinião do senhor em relação a variantes modernas do yoga, como power-yoga, yoga dance e similares?

Jayadvaita Dasa: Vejo isto positivamente no sentido de que pode aproximar pessoas que certamente não iriam para uma aula de yoga modelar. Tenho minhas reservas em considerar estes estilos como yoga. Mas respeito e incentivo pessoas que não tenham facilidade de ficar numa permanência por muito tempo, de se concentrar na respiração e meditar nos mantras sagrados.

O importante é deixar claro para os alunos que yoga não é meramente um exercício físico ou corpóreo, embora os resultados estéticos possam ser facilmente alcançados com a prática. Evidentemente, podemos diferenciar estilos que trabalham os exercícios do yoga de estilos que focam a sagrada prática do yoga. O primeiro é classificado como bahiranga-sadhana, uma disciplina mais física e externa; o segundo, antaranga-sadhana, a disciplina interior e profunda que visa a consciência espiritual. Basta o aluno experimentar e escolher o que mais o satisfaz.

Volta ao Supremo: O senhor publicou um livro sobre exercícios respiratórios, ou pranayama. Por que a escolha deste assunto? Qual a abordagem do seu livro?

Jayadvaita Dasa: Quando me formei como instrutor de yoga, acabei por ler mais livros do que eram indicados pelos professores. Ao final do curso, senti certa carência no conhecimento a respeito dos pranayamas. Muitos mestres e autores explanavam a importância da respiração durante a prática e até mesmo na vida. Daí iniciei uma pesquisa mais apurada sobre o assunto. Juntei um material bibliográfico e outro de reflexões do que eu vinha percebendo em minha prática e resolvi publicar esta pesquisa. A respiração é fundamental na prática de yoga, pois está essencialmente ligada à mente. A maneira como respiramos desenhará os movimentos que a mente terá. O inverso também ocorre. Uma pessoa ansiosa tem a respiração curta e superior. Para reverter tal quadro, ela deve passar a respirar profundamente e usar o abdome no processo respiratório.

Entretanto, minha abordagem neste livro não ficou apenas no aspecto fisiológico ou terapêutico do pranayama. Busquei nas escrituras antigas, principalmente no Bhagavad-gita e no Bhagavata Purana, indicações filosóficas e linguísticas mais profundas do significado do pranayama. Impressionante como os termos em sânscrito trazem o sentido real da palavra. Pranayama é literalmente dirigir, conduzir a energia vital para a essência da Vida. Ou seja, usar a vida para o propósito superior, para a transcendência e realização do Amor a Deus. Quando encontramos no Bhagavad-gita o método de inalar oferecendo o movimento da exalação e exalar enquanto se oferece o movimento da inalação, pode parecer um conhecimento intrincado ou hermético, mas, na verdade, Krishna está dizendo que o yogi oferece cada instante de sua vida e cada movimento respiratório à Suprema Personalidade de Deus. Em outras palavras, se reintegra por completo no próprio ato da oferenda.

Volta ao Supremo: Algumas vezes, considera-se que os asanas, ou posturas, é algo voltado apenas para o aprimoramento físico. Como conciliar as posturas com o desenvolvimento espiritual?

Jayadvaita Dasa: Este é outro ponto que linguisticamente podemos entender dentro da abordagem filosófica ou espiritual do asana. Este termo tem um significado além de postura. Podemos entender o conceito de asana como posicionamento ou postura diante da vida, diante das situações, diante de Deus. Costumo pensar no asana como posição constitucional eterna do ser vivo. Parece complicado, mas basta entender que não importa a postura física que assumimos em determinado asana, pois internamente será sempre o mesmo ser, a mesma consciência que estará em cada postura. Algo de metafísico é necessário para se entender melhor, mas, na verdade, o que muda é a postura física do corpo, enquanto a consciência do observador que está presente nela é sempre a mesma. Se partirmos do pressuposto de que o asana visa não apenas os benefícios bioquímicos sobre o organismo, mas também os efeitos sobre a percepção que o sujeito tem sobre a realidade e sobre si mesmo, podemos considerar que deve haver uma postura interior para poder estar na postura. Esta postura interna que antecede a postura física é o asana. Sob esta ótica, podemos chegar à conclusão de que asana é a natureza fundamental da alma.

Nos conceitos filosóficos do yoga, asana equivaleria (dentro desta ideia que estou apresentando) a svarupa. Sva significa “própria”, “elementar”, “essencial”, e rupa significa “forma”, “corpo”, “desenho”. Assim, este termo se refere à própria forma original do ser e está ligada à posição constitucional do ser. Posição constitui uma forma, e qualquer forma evidencia uma posição – ambas se referem ao ser –, logo o ser em sua forma original possui uma posição constitucional que, de acordo com o siddhanta vedanta vaishnava, ou conclusão da filosofia de bhakti, é uma eterna parte integrante do Ser Supremo, com o qual se relaciona através do serviço devocional amoroso espontâneo. Quando se alcança este estágio de consciência, pode-se considerar alcançada a essência do asana e do yoga. Esta seria a explicação mais esotérica sobre o asana.

Sabendo deste conteúdo mais profundo, Krishnamacarya enfatizou a prática espiritual do yoga. Seu discípulo mais proeminente no Ocidente, Iyengar, tem desenvolvido estas sutis características do asana em sua abordagem técnica, valendo-se de foco, alinhamento e percepção interior consciente – o que ele mesmo define como prajna. Portanto, é possível ter os asanas como veículos para o desenvolvimento espiritual; no entanto, caberá ao instrutor ter esta bagagem em sua prática e domínio para facilitar a experiência do aluno durante sua condução. Por isto, costumo dizer que não basta praticar yoga para ser um bom instrutor de yoga, mas deve-se, antes de mais nada, ser um yogi na prática.

Volta ao Supremo: No curso de formação de instrutores organizado pelo senhor, existe a intenção de integrar yoga, como entendido nos cursos de formação em geral, com bhakti-yoga? Como isso se dá? Como é possível levar bhakti-yoga para uma aula de hatha-yoga?

Jayadvaita Dasa: Sim, temos esta intenção. No Vaishnava Vedanta Yoga, tentamos unir as conclusões filosóficas do vedanta vaishnava com as técnicas tradicionais do astanga-yoga. Na verdade, não há nada de novo nisto e nenhum mérito nosso. Srila Prabhupada nos deu tudo isto pronto para que apenas estudássemos, compreendêssemos e aplicássemos em nossas vidas. Está tudo presente no Srimad-Bhagavatam – nada foi criado. No terceiro canto do Bhagavatam, encontramos em detalhes toda a ciência do yoga muito bem explicada; ali está todo o sistema de astanga-yoga apresentado pelo próprio Kapiladeva. No décimo primeiro canto, novamente encontramos alguns capítulos elucidando mais sobre a ciência do yoga, ensinado por Krishna a Uddhava.

Temos um tesouro inestimável de conhecimento transcendental trazido por Srila Prabhupada e temos que assumir o conhecimento, aplicá-lo com o talento ou habilidade que possuímos. Assim, com um pouco de tato, é possível integrar o yoga convencional com bhakti. Existem muitos cursos de formação de instrutores de yoga hoje em dia; muitos bons professores estão ensinando e formando novos instrutores. O diferencial que estamos oferecendo é justamente na ênfase da prática e teoria. Praticamente todos os cursos que temos no Brasil oferecem formação com ênfase em asana, em meditação, em filosofia vedanta advaita, em técnicas terapêuticas. Este curso do VVY é o único a oferecer ênfase em bhakti. Interessante que quando estávamos com Chandramukha Swami, em 2004, pesquisando e procurando definir o que seria o VVY dentro dos padrões do yoga tradicional sem perder o enfoque da tradição de mestres vaishnavas, descobri que meu mestre espiritual estava dando um curso extenso sobre o Yoga-sutra de Patanjali para um grupo de alunos de yoga em San Luis Obispo, Califórnia. Foi como uma constatação de que havia algo para ser explorado neste campo aqui no Brasil. Ao mesmo tempo, encontrei o projeto Atma Yoga desenvolvido por Atmananda Dasa, nos Estados Unidos, e a semelhança com o projeto VVY foi enorme pelo fato de termos como base uma mesma epistemologia: vedanta vaishnava.

Quanto a aplicar bhakti-yoga numa aula de hatha-yoga, não há mistério. Primeiro, temos que nos lembrar do que Srila Prabhupada diz a respeito da escadaria do yoga, de que todos os sistemas e estilos de yoga correspondem aos degraus de uma escada que conduz a bhakti. Por exemplo, numa guirlanda há o elemento mais importante do que as flores que decoram a guirlanda. Sem o cordão, não há como manter uma guirlanda. Do mesmo modo, bhakti é o fio que une a essência de todos os sistemas e estilos de yoga. Sem bhakti, não há yoga. No Bhagavad-gita, encontramos três sistemas apresentados: karma-yoga, jnana-yoga e bhakti-yoga, o que significa que, para ser completo, o yoga deve envolver ação com conhecimento do objetivo da ação, e o núcleo de toda ação é a atitude devocional. Entretanto, no capítulo seis, é apresentado um sistema do qual partem todos os estilos de yoga que conhecemos, pois nele estão presentes os conceitos fundamentais do astanga-yoga.

Quer dizer, todo yoga que conhecemos (inclui-se hatha-yoga, vinyasa-yoga, power-yoga) derivam do astanga-yoga do capítulo seis do Bhagavad-gita. Geralmente, quando estudamos o Bhagavad-gita e chegamos a este ponto, surge a seguinte dúvida nos alunos: o que é o astanga-yoga já que são apresentados três sistemas? A mesma resposta pode responder a questão apresentada. O astanga-yoga é a metodologia aplicada aos três sistemas, sendo que bhakti-yoga é a essência epistemológica de karma-yoga e jnana-yoga. Em outras palavras, a alma de uma aula de yoga deve ser bhakti, e uma maneira prática de exemplificar isto é ter abertura, fechamento e momento de meditação com mantras sagrados. Isto compõe uma aula de yoga, que, dependendo do formato e condução que o instrutor der, pode ser uma aula de imersão na experiência de bhakti. Temos que entender que yoga se estrutura em técnica e processo. A técnica é hatha-yoga,e o processo é bhakti-yoga.

Volta ao Supremo: No curso de formação organizado pelo senhor e em suas aulas pessoais, o senhor ensina técnicas de meditação? Pela experiência do senhor, qual é a meditação mais eficaz?

Jayadvaita Dasa: Sim, meditação e pranayama são elementos fundamentais numa prática de yoga. Existem muitas técnicas meditativas eficazes, mas, de todas as conhecidas, a que mais tem trazido resultados práticos é a meditação mântrica. Muitos alunos sentem esta eficácia de imediato e realmente fazem mudanças internas em suas vidas. A meditação genuína é aquele que cause uma transformação interior, uma meditação que envolva ação interior, ação da alma. Somente uma atitude contemplativa e receptiva não oferece, na minha experiência, a amplitude que os mantras possibilitam na meditação.

Patanjali explica que existem dois tipos de samadhi, isto é, absorção ou união com o Ser Supremo. Uma necessita da presença de elementos ou objetos de concentração mentais (samprajnata), como, por exemplo, conceitos, imaginação, percepções sensoriais – uma espécie de identificação do sujeito. Outra elimina qualquer elemento externo de concentração mental (asamprajnata) e foca os arquétipos e fluxos internos da consciência que emergem enquanto se medita na vibração sonora ou mental dos mantras sagrados. É uma diferença sutil e decisiva, pois, em determinado momento, a meditação deverá ocorrer completamente no campo místico da consciência, sem elementos físicos.

O mantra se enquadra nesta categoria. Porém, é importante ressaltar que existem emoções específicas (bhava) e propósitos (sadhya) para cada mantra. Geralmente uso e indico mantras que atuarão nos aspectos bhakti-bhava. Destes mantras, o mais conhecido e potente é o maha-mantra. Importante ressaltar que não há qualquer cunho religioso; trata-se apenas de uma técnica meditativa poderosíssima que pode dar um vislumbre interior de nossa essência na relação eterna com o Ser Supremo. Muitas escrituras importantes confirmam a potência espiritual que há neste maha-mantra. Aproveitando este tema, gostaria de enfatizar que a teologia vaishnava, ou o processo de bhakti-yoga, é yoga. Muitas vezes, os praticantes de bhakti-yoga se colocam mais como religiosos do que praticantes de um sistema de yoga que utiliza meditação com mantras, estudo das escrituras, disciplinas, puja. Enfim, é necessário quebrar alguns bloqueios que existem e que impedem uma experiência intensa para quem segue a ciência de bhakti e uma aproximação maior de quem busca por yoga.