domingo, 29 de julho de 2012

AUTO - REALIZAÇÃO



 
Auto-Realização - parte 1

Questões existenciais fundamentais
Quem sou eu? De onde vim, para onde vou? Qual é o propósito da vida? Quais são as minhas possibilidades futuras? Existe vida após a morte? Que lugar é esse em que vivo? Olhando para o firmamento, vemos inúmeros astros_ será este o único lugar de vida inteligente? Deus existe? Por que tantas diferenças entre as pessoas? Umas vi vem literalmente para sofrer, enquanto que outras desfrutam a vida e gozam de muitas facilidades...
Essas são algumas das questões existenciais fundamentais. Qualquer pessoa com um nível médio de inteligência inevitavelmente questiona sobre esses temas. Geralmente, julga-se que essas questões não podem ser respondidas. São os mistérios da existência e ninguém tem acesso às respostas. Quanto a isso, não concordamos. Todos esses questionamentos têm suas respectivas respostas conclusivas. Acontece que cada um tem que correr atrás dessas respostas. Para isso, temos toda uma vida pela frente. O que não podemos é perder tempo.
O comum é concluirmos mais ou menos assim: ”A vida é assim mesmo... Não tem jeito... Têm coisas boas e coisas ruins... Se pararmos para pensar muito nesses assuntos, vamos ficar encucados... Melhor pensar nas coisas práticas da vida: juntar um bom dinheiro, divertir-se, aproveitar o que é de bom na vida...”
Esse tipo de pensamento é o que podemos qualificar como auto-enganação. É contentar-se com a ignorância. Não dar atenção às questões existenciais fundamentais demonstra uma atitude muito irresponsável diante da vida.

Requisitos
Como, então, poderei obter as respostas para todas essas questões existenciais fundamentais?
Qualquer pessoa normal, que possui saúde mental, pode conseguir essas respostas. É só querer. De cara, temos de estar convencidos de que não será uma empreitada fácil e rápida. Exigirá determinação, paciência e inteligência. Exigirá, sobretudo, uma sinceridade profunda e transparente nessa busca. Não pode haver segundas intenções ou motivos escusos. Deve haver um interesse genuíno.
Para essa busca, exigirá da pessoa uma capacidade aguda de discernimento. Essa capacidade virá naturalmente no decorrer do caminho, na medida em que a consciência deixa de divergir em todas as direções e concentra-se exclusivamente no objetivo da busca. O foco deve estar nítido e claro. As inúmeras distrações ao longo do caminho só causam distúrbios e atrasam consideravelmente a busca da verdade.
É muito comum na abordagem desses temas, fiarmos exclusivamente nas próprias conclusões, surgidas em nossa mente. “Eu acho isso...”, “eu não concordo...em minha opinião...” É o que chamamos de “achismo”. Esse tipo de argumentação, baseada exclusivamente na opinião pessoal, é, na maioria dos casos, inútil e contraproducente. Certamente temos que usar nossa capacidade racional, mas sem a devida referência a certas informações confiáveis, como poderemos ter respostas conclusivas?
Devemos, portanto, ter uma orientação adequada. As escrituras recomendam que se deva ter a assistência de um guia competente e confiável, que nos oriente nessa busca. Um mestre espiritual genuíno. Não pode ser uma empreitada caprichosa. Tudo deve ser bem preciso e fundamentado em documentação fidedigna. Não chegaremos a nenhuma conclusão meramente fiando-se na especulação. As escrituras também afirmam: “É como caminhar no fio da navalha”, no sentido de que esse conhecimento deve ser preciso e autorizado. Qualquer passo em falso pode dilapidar a verdade.
Alguém pode sugerir o seguinte: “Já que tu conheces as respostas para essas questões existenciais fundamentais, então me diga e assim, dessa forma, ficarei, de uma vez por todas, iluminado. Dê-me logo o mapa da mina, pois não tenho muito tempo a perder com esses assuntos...”
Definitivamente isso não funciona assim. Mesmo que a pessoa receba essas informações, se não estiver madura para esse conhecimento, não vai dar a devida importância a elas. É como se diz: Entra por um ouvido e sair pelo outro. A pessoa tem que se estar devidamente preparada para receber esse conhecimento. Tem que haver um interesse real e estar disposta a submeter-se à árdua e demorada busca de conhecimento existencial.
Outros evitam deliberadamente se defrontar com o tema. “Não vou nem pensar nessas coisas para não ficar preocupado...” Esses são ignorantes conscientes. Querem se esquivar do incômodo da busca do conhecimento. A ignorância também pode ter seu lado confortável.
O conhecimento, como qualquer coisa nesse mundo, tem seu preço. Se, por exemplo, alguém tem um grande diamante de muitos quilates e quiser vendê-lo, terá uma freguesia bastante reduzida e não será fácil vendê-lo. Por outro lado, se tiver qualquer bugiganga de plástico, que custa centavos, terá milhares de fregueses potenciais e pode vender em atacado. Pérolas não devem ser jogadas aos porcos.
A pessoa tem que estar preparada para a auto-realização. Ela tem que ser sincera e ter uma intensa vontade interior de obter esse conhecimento. Esses são os requisitos básicos.

Auto-Realização - parte 2

Um caminho longo
O caminho da auto-realização tem um longo percurso, porém é simples e natural, sem sofisticações. Havemos de estar preparados e dispostos para esta caminhada a cada instante da vida. Se, ao percorrê-lo, conseguirmos tomar gosto pelo feito, experimentaremos a sensação de uma vida plena, uma vida que, realmente, vale a pena ser vivida.
Pessoas que apreciam a vida natural, por exemplo, gostam de caminhar em lugares ermos, longe da agitação das cidades, em lugares que ainda conservam a natureza original. Geralmente, essas pessoas perfazem trilhas de chão de terra, em terrenos de relevos diversificados. Às vezes, enfrentam, em longos trechos com o Sol a pino, subidas estafantes, regiões pedregosas, obstáculos e incômodos. Mas também se satisfazem ao encontrar belas paisagens, sombra refrescante, bosques, uma árvore frutífera aqui e ali, fontes cristalinas, ar puro etc. Dá até para ouvir o canto das aves ou observar as pequenas florzinhas na beira do caminho, apreciar a mística e o milagre da natureza, absorver-se na contemplação e no silêncio e meditar em coisas elevadas. Depois de uma boa caminhada, a pessoa, embora cansada e suada, experimenta paz, realiza uma saudável integração com a natureza, enche-se de prana, a mente fica clara, o intelecto transborda de boas idéias e — o mais gratificante — sente-se extremamente feliz. Esta é uma analogia bem adequada para compreendermos o caminho da auto-realização.
Todavia, muitos preferem outro tipo de ambiente, completamente oposto. Atraem-se pelas modernas avenidas, com shoppings, restaurantes, cinemas, teatros, nightclubs e pubs. Por todos os lados, luzes de néon e convites ao desfrute; lugares lotados, homens e mulheres atraentes — adeptos da última moda — uns em dispendiosa elegância, outros numa informalidade chique; exibições de parte a parte, gente falando sem parar, comendo, bebendo e fumando — um ambiente mundano impregnado de sensualidade e futilidade. No ar, ouvem-se ritmos que excitam os sentidos, misturados com vozes, risadas, tilintar de copos, ronco de carros-esporte e de motos potentes e, também, de eventuais sirenes. Todos estão ávidos na busca de uma felicidade imediata e fácil. Contudo, passado o efeito inebriante das intoxicações da noitada anterior, depois das noites em claro e dos abusos no corpo e na mente, a pessoa colhe as conseqüências naturais da vida insalubre: enxaquecas, torpor, mau humor, vazio existencial, depressão etc. É o contumaz drama do day after. O mais surpreendente é que esse povo nunca aprende a lição. Geralmente, enxergam uma próxima rodada de intoxicações como a única saída do inferno criado por eles mesmos.
Outra opção, muito comum no contexto urbano, é fechar-se dentro do casulo doméstico e, simplesmente, ligar a televisão. Que isto vai poupar as energias e evitar os excessos é um fato. Mas está se cultivando uma postura passiva e preguiçosa, que tende ao marasmo. Por mais confortável e aconchegante, este hábito não vai satisfazer a alma. A energia não se renova nem fortalece. Tudo fica estagnado e tende ao definhamento.
Obviamente, das três opções de vida apresentadas acima, somente a primeira nos interessa. As outras duas são um engodo ilusório. O pior para quem está envolvido nessas dinâmicas da ilusão é o completo alheamento de sua situação real. O sujeito, de tão absorto que está na vida que leva, passa a não vislumbrar uma opção melhor.
O candidato à auto-realização deve conscientizar-se da importância dessa empreitada e também das dificuldades que encontrará pela frente. Ele deve estar decidido e disposto a mudar o paradigma de sua vida. Isto é fundamental ao processo: estar consciente e convicto de que uma vida baseada na busca de aquisições materiais e prazeres sensuais, por mais atrativa que possa ser, não vai lhe proporcionar a verdadeira felicidade e realização, e que tal modelo hedonista e materialista pode vir mesmo a contaminar, corroer e estragar a existência.
Não é o caso, no entanto, de se rejeitar ou renunciar artificialmente os bens materiais e o prazer sensual— essa coisas vão acontecer naturalmente na vida da pessoa em função de seu karma individual. Se tais coisas são parte do karma da pessoa, elas não vão obstaculizar a auto-realização. O erro que deve ser evitado a todo custo é considerar as aquisições materiais e prazeres sensuais como sendo as metas e o propósito da vida. Isso sim estraga a vida da pessoa.

Decisão solitária
Optar pela auto-realização é uma decisão totalmente pessoal e íntima, afinal de contas, não se pode esquecer que também entramos e saímos sozinhos deste mundo. Um candidato à auto-realização deve estar preparado para trilhar seu caminho individualmente. Isto é quase inevitável e um duro teste.
É muito comum, no início, o praticante desejar intensamente transmitir aos amigos e parentes suas novas realizações. O iniciante se sente bastante entusiasmado e feliz por haver encontrado um caminho seguro para viver e, no afã de repassar os novos conhecimentos e realizações às pessoas mais queridas, ele, muitas vezes, experimenta uma forte decepção, pois nem sempre a prática corresponde ao que se projeta na mente: seus amigos e parentes, sem estarem preparados para receberem coisas novas, reagem com indiferença ou mesmo com antagonismo. A filosofia popular dá uma explicação a esse fenômeno: “santo de casa não faz milagres”...
Essa situação, entretanto, não é uma regra geral, pois existem casos em que amigos e parentes, beneficiados pela relação íntima com a alma afortunada que optou pela auto-realização, apostam, a partir daí, em seguir a mesma direção. Conhecemos diversos casos assim. Já presenciamos famílias que modificaram suas vidas para trilharem conjuntamente o caminho da auto-realização.
A decisão de dedicar-se à auto-realização é difícil de ser entendida por quem está condicionado ao modelo majoritário. Como pode um indivíduo decidir desgarrar-se do rebanho? Em geral, as pessoas pensam que a opção pela auto-realização deveu-se à fraqueza ou à incapacidade de enfrentar os desafios da vida. Às vezes, insinuam que o iniciante se deixou levar por idéias estranhas, idéias estas não aceitas pela maioria: “coitado, foi influenciado” — pensam.
Por falta de uma percepção mais aguçada ou por carregar uma experiência de vida distorcida, muitas vezes, certas pessoas pensam que o “coitadinho” que optou pelo caminho da auto-realização é fraco e influenciável, dono de um livre-arbítrio débil. Porém, aquelas pessoas não conseguem avaliar o intenso trabalho interior que transcorre na consciência daqueles que, saturados de uma vida mecânica e sem sentido, buscaram um novo rumo para a vida. Uma decisão consciente na direção da auto-realização é, sem dúvida, a mais séria expressão de nosso livre-arbítrio.
A resolução de mudar radicalmente o paradigma da vida traz sempre uma grande probabilidade de incompreensões e oposições dentro da própria família e do círculo de amizades. Apesar desses fatores antagônicos externos, o candidato à auto-realização deve estar internamente convencido e ciente de que esta é a decisão mais importante e que vale a pena enfrentar situações adversas.
Uma coisa, pois, deve ficar bem clara e compreendida: a decisão de dar um sentido espiritual à vida não significa fugir da realidade, muito menos corresponde a uma extravagância barata; na verdade, é o exercício de nosso livre-arbítrio em seu mais alto grau, é a decisão mais importante que podemos tomar.

Auto-Realização - parte 3

Sadhu-sanga
Caminhar sozinho é uma tarefa dura, no entanto, às vezes, não há outro jeito. É preciso estar bem consciente e preparado para prosseguir com confiança. A boa notícia é que, uma vez achado o caminho, vamos encontrar, inevitavelmente, outros caminhantes indo na mesma direção: uns, já experientes, outros, ainda neófitos. Porém o mais importante é caminhar em grupo: “aves de mesma plumagem voam juntas”, diz o ditado.
Boa associação é uma regra de ouro no processo espiritual: “sadhu-sanga”. “Sadhu-sanga” é um termo em sânscrito, cuja palavra “sadhu” refere-se a uma pessoa que, por cultivar seriamente o processo espiritual da auto-realização, tornou-se exemplar; e “sanga” significa associação. Por outro lado, a má associação corrompe a consciência e conduz à degradação fatal: “dize-me com quem andas e dir-te-ei quem és” — expressa a sabedoria popular.
É sempre recomendável associar-se com pessoas experientes, cujo nível de consciência está mais elevado do que o nosso. Com isto, seremos altamente beneficiados e, desta forma, receberemos bons conselhos, instruções e inspirações tanto verbais quanto através do exemplo. Aproximar-se de pessoas assim produz uma espécie de osmose, pela qual seremos infectados positivamente. Dá-se o exemplo do ferro e do fogo: ferro e fogo são duas substâncias com qualidades completamente diferentes entre si, não obstante, quando entram em contato, o ferro tende a adquirir as qualidades do fogo, a saber, calor e a capacidade de iluminar. O ferro passa então a queimar e a tornar-se incandescente e luminoso como o fogo.
Ao recebemos as vantagens da boa associação, em contrapartida, teremos que aceitar a responsabilidade de oferecer também nossa contribuição. A seguinte regra governa o princípio de sadhu-sanga: aos superiores, oferecemos nosso serviço; aos do mesmo nível, oferecemos amizade; àqueles que estão no começo do processo, consequentemente, numa condição inferior à nossa, oferecemos instruções e nossa própria associação. Se observarmos esta regra no dia-a-dia, nunca teremos problemas com relacionamentos.

Salve-se quem puder
Diante da vida, faz-se necessário desenvolver uma visão madura e realista, evitando sentimentalismos e otimismos falsos. Não vamos também confundir realismo com pessimismo. Quando encaramos realisticamente a situação do mundo atual e fazemos uma projeção para o futuro, por mais otimistas que queiramos ser, não encontramos muitos sinais favoráveis a uma real melhoria das condições de vida. Não podemos negar que, em alguns setores, a sociedade humana conseguiu expressivos progressos, mas, no cômputo geral, percebemos sintomas flagrantes de degradação progressiva.
Os governantes, em cujas mãos estão as decisões que poderiam mudar o curso da humanidade, de um modo geral, não se preocupam com a condição espiritual da sociedade. Concentram-se na macro-economia, nos coeficientes econômicos e pesquisas eleitoreiras. Eles acreditam que tudo poderá melhorar se as cifras estiverem favoráveis. Afinal de contas, faz parte do drama da política mostrar uma aparente confiança na hora de angariar os votos que suportarão seus sempre otimistas projetos geradores de prosperidade e de bem estar do povo. Não podemos esperar que o governo aprove leis que promovam o avanço espiritual dos cidadãos. Isto, definitivamente, não entra na agenda de prioridades e nos planos governamentais.
Estamos vivendo o período cósmico de Kali-yuga, onde, por natureza, tudo tem a tendência a degenerar-se. A poluição e o empobrecimento do meio ambiente e as consequentes alterações climáticas são sinais irrefutáveis do nosso destrato com a natureza. Dentre as questões sociais, a pobreza e a fome ainda persistem; o caos urbano e a insegurança se agravam; e a violência crescente, como método de luta política, causam de pânico a populações civis inteiras.
Quem já entrou na terceira idade sabe muito bem o quanto o mundo se transformou nos últimos cinquenta anos. Vive-se uma grande crise de valores éticos: se, de um lado, as liberdades individuais se solidificaram, de outro lado, os valores morais gradualmente se enfraquecem, abrindo espaço a um liberalismo amoral, que passa a servir de referencial de conduta às novas gerações. Massas de pessoas tornam-se cada vez mais fúteis e materialistas. Muitos, frustrados, isolam-se, caindo vítimas da depressão e da desesperança.
A idéia subjacente ao processo de auto-realização é fazer com que as pessoas despertem uma consciência mais madura diante da vida. Não adianta somente criticar e criticar o status quo, pois não podemos interferir nas coisas que fogem ao nosso círculo de influências. No fim das contas temos que nos contentar com o mundo do jeito como está, assistindo passivamente a perpetuação de dinâmicas viciosas e aberrações que, de tão corriqueiras, passam a ser aceitas pela maioria como a normalidade.
Definitivamente temos que sobreviver a esse quadro. Não é o caso de sermos alarmistas, mas a postura mais real e sensata no momento difícil em que vivemos é o “salve-se quem puder”. Cada um por si. Não dá para esperar mais. Quem tiver olhos para ver, verá.

Olhos bem abertos
Espiritualidade sã é ter os olhos bem abertos para a realidade. Isto significa enxergar e compreender as coisas como elas realmente são. Os animais também vêem a realidade, mas não vão além da perspicácia em descobrir e em selecionar comida, em pressentir algum perigo ou obstáculo e em escolher o melhor lugar para dormir. Muitas vezes, estão na fila do matadouro e continuam degustando tranquilamente a graminha verde que lhes surgiu, sem se dar conta de seu iminente fim. Contudo, às vezes, algo bastante similar acontece entre nós humanos...
A cegueira espiritual é uma constante nesse mundo. E isto não é de hoje. No Mahabharata, uma escritura védica milenar, narra-se uma visita de Narada Muni, um sábio liberado, ao palácio de Maharaja Yudhisthira, um rei santo. O sábio perguntou: “Ó rei, qual é a coisa mais impressionante nesse mundo?” O rei pensou e deu uma resposta surpreendente: “Diariamente, vemos que muitas pessoas morrem, inclusive pessoas queridas e próximas a nós, mas os que aqui permanecem pensam que essa existência é permanente. Não movem uma palha para se prepararem para a morte. Essa é a coisa que mais me impressiona nesse mundo”.
A grande maioria das pessoas vive sonhando acordadas, hipnotizadas pelo encanto de Maya, a energia ilusória desse mundo. Os três modos da natureza material enfeitiçam a pessoa. Vivem numa realidade distorcida e fora de foco. Criam seu mundinho de idéias e o mundo é visto através daquela ótica, como uma pessoa usando óculos cor-de-rosa que pensa que a mundo exterior é todo cor-de-rosa.
É um fato que muitas pessoas têm visão aguçada nas questões práticas e objetivas. Por exemplo, pessoas que vivem da compra e venda de carros usados tem a vista treinada para avaliar o estado de um veiculo num relance, proeza difícil para um leigo. Mas, quantos comerciantes de carros usados estão usando sua visão aguda para realmente compreender o mundo em que vivem e, a partir daí, traçar um plano de vida construtivo e realista? Certamente, uma minoria ínfima. No Bhagavad-gita, Krishna afirma que “até mesmo os kavis (pessoas ultra-inteligentes e sensíveis_ cientistas, poetas, filósofos, etc.) não sabem o que deve ser feito e o que não deve ser feito”. O que dizer de nós, ordinários mortais.
“Olhos abertos para a realidade” significa compreender a natureza humana e as dinâmicas da vida. Significa estar consciente e lúcido num mundo onde prevalece a enganação, a ignorância e o descaso pela vida espiritual. Significa não enganar ninguém, nem tampouco ser enganado.
O mestre Srila Prabhupada, numa visão ultra-realista da situação em que se encontra o mundo, afirmou: “É um mundo de enganadores e de pessoas que se deixam ser enganadas. Para cada enganador existem sempre as que querem ser enganadas”. São palavras duras que fazem abrir nossos olhos. Devemos estar fora dessa mixórdia de enganadores e enganados. Paradoxalmente, o meio religioso é um dos campos mais férteis para a proliferação de enganadores e enganados.
“Olhos abertos para a realidade” significa detectar o perigo e evitá-lo. Se estivermos alerta, muitos problemas podem ser neutralizados antes mesmo de manifestados. Para adotar uma postura madura diante da vida e para contemplar a realidade desse mundo, lucidez e certa neutralidade são necessárias. “Olhos abertos para a realidade” significa vislumbrar uma Realidade superior, por detrás do cenário armado pela energia ilusória onde se desenrola o drama desta vida.

Auto-Realização - parte 4

Responsabilidade básica
Um chefe de família exemplar ou uma mãe zelosa podem ser considerados bastante responsáveis, assim como um profissional competente, um bom pagador de impostos, um motorista consciente, etc. Tudo isto é desejável. Porém, apesar dessa louvável noção de responsabilidade, se a pessoa negligencia a responsabilidade básica para consigo, seu desempenh o como ser humano será deficiente e falho.
Cuidar da própria consciência — eis uma responsabilidade que ninguém pode fugir. De que adianta ter sido um bom chefe de família, uma super-mãe, um cidadão exemplar ou uma pessoa de sucesso, se, quando chegar o final da vida, sentir-se frustrado, lamentoso, deprimido, magoado, confuso, perplexo e apavorado? No finalzinho da vida, de acordo com a forma com que a pessoa sai desse mundo, é que vai ficar definido se a vida foi bem vivida ou não.
Um dos defeitos mais comuns das pessoas é a tendência a procrastinação. Muitos pensam assim: “Quando eu ficar velho, darei atenção a esses assuntos espirituais...”. Pensar assim é, sem dúvida, uma auto-enganação e uma irresponsabilidade, pois na terceira idade torna-se muito difícil mudar o estilo de vida, principalmente quando se viveu de forma desleixada e desregrada. Nesta fase, será muito difícil remover maus hábitos e manias auto-destrutivas cultivadas ao longo do tempo. É como um carro velho: chega uma hora que não dá mais para reformar; ou como diz o ditado: “Não se ensina truques novos a cachorro velho”.

O Caráter
Erick Fromm, em sua obra, analisou muito bem a natureza humana. Uma de suas principais contribuições foi um estudo sobre o caráter. Ele explicou que o instinto está para os animais, assim como o caráter está para os seres humanos. Os valores éticos e comportamentais de uma pessoa, com os quais ela conforma naturalmente os seus atos, permanecem registrados no caráter. Ao contrário do instinto animal, o caráter pode mudar, tanto para melhor, quanto para pior.
Além das tendências inatas trazidas de vidas passadas, o caráter é formado principalmente pela educação que se recebe nos primeiros anos de vida e, também, pelas influências adquiridas através do meio social e das pessoas próximas a nós.
Um bom caráter é a base sólida para uma espiritualidade sã. Não se pode construir uma vida espiritual consistente, produtiva, inspiradora e, ao mesmo tempo, exibir um comportamento duvidoso. O caráter de uma pessoa que busca sinceramente a auto-realização deve ser íntegro e transparente.
Fromm diz ainda que, basicamente, o caráter segue duas orientações: uma, na direção da vida, chamada por ele de “biófila”; a outra, na direção da morte, chamada “necrófila”. A orientação biófila de caráter ocorre quando há uma tendência natural para o aperfeiçoamento; emprega-se a alguém que cultiva uma meta de perfeição e confia esperançosamente nesta direção e que, quando busca solucionar seus problemas, reage positivamente diante das dificuldades da vida. Por outro lado, uma pessoa com orientação necrófila de caráter não favorece possibilidades de melhora; não enfrenta os problemas de forma definitiva — quando muito, busca soluções fáceis e paliativas ou contenta-se em pensar que o tempo reverterá a situação; cultiva hábitos e vícios que sabe serem destrutivos; tem tendência à hipocondria e à depressão.
Algumas perguntas: existe possibilidade de reversão da orientação necrófila para a biófila? Sim. O que fazer? Primeiro de tudo, desenvolver o desejo de mudar — este é o primeiro passo. A seguir, adotar um processo disciplinado que cultive e desenvolva as qualidades do modo da bondade, sattva-guna. O modo da bondade tem duas características intrínsecas — conhecimento e felicidade. São duas qualidades muito atrativas, não acham?
Pergunta: pode ser mais específico quanto ao processo a seguir? Resposta: temos uma boa experiência pessoal com o processo de Bhakti-yoga. Estamos praticando há várias décadas e não temos dúvidas quanto à eficiência e autenticidade desse processo. Presenciamos uma mudança e uma melhora radical em nossa vida e na vida de muitas pessoas. Vale a pena tentar.

Purushatraya Swami

domingo, 1 de julho de 2012

"AS 26 QUALIDADES DE UM DEVOTO"



As 26 Qualidades de um Devoto de Krishna,
Mencionadas por Sri Chaitanya Mahaprabhu

O Senhor está satisfeito com a desenvoltura das qualidades transcendentais das entidades vivas e não pela realização artificial de sacrifícios e Yoges místicos. De outro modo, a menos que alguém esteja completamente qualificado para ser um devoto puro do Senhor, mesmo assim não poderá ser liberado do enredo material .

1. AMÁVEL - O devoto é misericordioso com todas as pessoas. Ele é bem querente e amigo de todas as entidades vivas. O devoto não está somente fixo na sociedade humana, mas também está preocupado com os animais e plantas. O devoto sincero trata todas as entidades vivas da mesma maneira pra que elas possam ser liberadas da escravidão voltem ao lar, a Krishna.  
2. HUMILDE - Ser humilde significa que o devoto deve estar tranqüilo. A humildade do devoto não deve ser artificial deve ser honesta, profunda e natural. A humildade se revelará quando a alma condicionada admite suas atitudes equivocadas, seus erros perante Kirshna e ore por Seu perdão e para estar sempre em serviço devocional.  
3. VERACIDADE - A verdade primordial para um devoto é manter seus votos, seguir os princípios regulativos e cantar as 16 voltas de Japa diariamente. O devoto não deve realizar nenhuma atividade ilegal, deve atuar para os interesses de Krishna e não para seus interesses próprios. Assim ele permanecerá fixo na Verdade Absoluta.  
4. IGUAL PARA COM TODOS - Um devoto vê a alma e a Superalma no coração de todos. Ele trata a cada um de acordo com essa posição. Está é a melhor maneira de agir para o avanço na vida espiritual.  
5.PERFEITO - Um devoto que em palavras, atos e pensamentos está sempre fixo em Krishna e executa o desejo do Senhor Supremo com habilidade é considerado um devoto perfeito  
6. CARIDOSO - Um devoto é caridoso porque sabe que o amor por Krishna é o melhor e ele distribui este amor sem motivos pessoais, sua caridade não tem limites. É como a felicidade que alguém experimenta quando ganha o presente da consciência de Krishna.  
7. SERENO - Um devoto evita a ilusória felicidade material e assim está livre do sofrimento causado por ele. Ele sempre permanece tranqüilo porque está satisfeito em consciência de Krishna.  
8. PUREZA - O movimento para a consciência de Krishna chegou para purificar o mundo em uma revolucionária maneira de princípios como por exemplo o cantar do Maha Mantra - HARE KRISHNA - o qual purifica o coração de todas entidades vivas. 
9. SIMPLICIDADE - A mais alta realização é ver Krishna como proprietário de tudo. O devoto sincero não só está satisfeito de ver Krishna assim mas também em ocupar tudo de maneira a Servi-Lo. 
10. BENEVOLENTE - Como a consciência de Krishna se revela no coração de todas as entidades vivas, o trabalho de um devoto não está restrito a uma raça, espécie, etc. Seu trabalho está voltado ao benefício de todas as entidade vivas.  
11. PACÍFICO - Ser pacífico não significa manter fisicamente a paz. Significa experimentar a paz verdadeira. Alguém que provou do conhecimento acerca de Krishna e realizou que não há nada mais além dEle pode ter uma verdadeira paz e se libertar do medo.  
12. COMPLETAMENTE APEGADO A KRISHNA - A devoção a Krishna não é sentimental nem caprichosa, é autorizada e cientifica. Por praticar serviço devocional podemos aprender como nos entregarmos a Krishna apropriadamente. Estar completamente entregue a Krishna é a meta de todo devoto. O devoto sincero quer ser libertado dos desejos materiais. Estar completamente entregue a Krishna é a mais importante das qualidades a se desenvolver.  
13. SEM DESEJOS MATERIAIS - Quando alguém está completamente ocupado em serviço devocional, não se da conta se seus desejos materiais estão sendo satisfeitos. E quando alguém está satisfeito em serviço devocional ele se da conta que seus desejos estão satisfeitos. Ele não percebe que não tem mais desejos materiais, ele somente deseja servir a Krishna e a seu mestre espiritual.  
14. INDIFERENTE COM AS POSIÇÕES MATERIAIS - Um devoto deve usar todas as suas coisas em serviço a Krishna e não deve se apegar ou depender delas. Ele pode servir a Krishna usando as coisas materiais fazendo com que elas se transformem em espirituais. 
15. FIXO - As realizações de um devoto devem ser estar profundamente dedicado a seu mestre Espiritual e a Krishna, não se influenciar por mais nenhum tipo de ato fruitivo, sofrimento ou filosofia impersonalista. 
16. AUTO-CONTROLADO - Existem seis classes de qualidades negativas chamadas: luxúrias, ira, avareza, loucura e inveja. Um devoto puro controla estas más qualidades executando serviço devocional. Não se pode mascarar estas qualidades más, porém pode-se facilmente compensar com conhecimento transcendental e com o deleite do gosto de servir Krishna. 
17. NÃO COMER MAIS DO QUE NECESSÁRIO - O Senhor Krishna explica no Bhagavad-Gitá que um yogue não come mais do que o necessita. Isto significa que que alguém pode facilmente digerir, de acordo com a medicina milenar Ayurvedica: 1/2 de comida, 1/4 de água e 1/4 de ar. 
18. SENSATO - Um devoto não está intoxicado pelo desfrute material. Ele reduz suas necessidades ao mínimo e oferece toda sua vida a Krishna. Assim ele está completamente em equilíbrio. 
19. RESPEITOSO - Um devoto oferece seus respeito a outros sem esperar nada em troca. Ele respeita a cada um como parte de Krishna e trata a todos de acordo com esta posição. 
20. DESAPEGO POR POSIÇÃO MATERIAL - Um devoto não está atraído por posições materiais as quais lhe ajudariam a obter prestigio. Ele vê tudo neste mundo material como um reflexo de Krishna - O Todo Atrativo - a causa de todas as causas. 
21. SÉRIO - Para que se tenha uma vida feliz em consciência de Krishna devemos estar conscientes que a existência material pode terminar a qualquer momento e o caminho de volta ao Supremo, não é fácil de ser seguido. Ser sério significa que o devoto deve estar constantemente pensando em Krishna que é a meta última de vida. 
22. COMPASSIVO - A essência da compaixão e a distribuição de conhecimento transcendental e a base disto são os livros de Sua Divina Graça Srila Prabhupada, e a força deles nossa pureza. 
23. AMISTOSO - O devoto é amistoso porque ele conduz a todos graças a Krishna , o melhor amigo de todas as entidades vivas.  
24. POÉTICO - Um devoto sempre é poético porque é capaz de conectar tudo com a natureza transcendental de Krishna.  
25. SILENCIOSO - Silêncio significa que alguém deve somente falar acerca de Krishna e não falar assuntos materiais.
26. ESPERTO - A essência da vida devocional de um devoto é que ele pode fazer tudo por Krishna, mas o devotos mais esperto dentre os demais será aquele que está mais entregue a Ele.