quinta-feira, 21 de junho de 2012

"A EQUAÇÃO DO KARMA"


Vivemos num mundo das dualidades, onde somos obrigados a lidar com coisas boas e coisas ruins_ prazer e dor, felicidade e tristeza, saúde e doença, conhecimento e ignorância, luz e escuridão, abundancia e penúria, prêmio e castigo, perdão e vingança, confiança e traição, e por aí vai. Nem mesmo o mestre Jesus escapou do peso da dualidade... Sofreu muito também... A verd
ade é que, inspirados por sua estatura divina e sensibilizados por seu inaudito sofrimento, muita gente, nesses últimos dois mil e onze anos, tem se esforçado por uma vida de virtudes e tem nutrido a esperança de dias melhores no porvir.
Todo mundo obviamente quer as coisas boas, mas não basta meramente querer_ temos que as merecer. A percentagem das cotas boas e ruins varia de pessoa a pessoa. Uma coisa é certa: não é um critério aleatório. É uma questão de justiça_ justiça divina. Cada um tem o que merece.
Pelas “regras do jogo”, em nosso ciclo de vida, nós temos o direito a uma “cota” de coisas boas, mas, por outro lado, somos obrigados também a aceitar nossa “cota” das coisas ruins. Não dá para se evitar isso. Isso faz parte da vida nesse presente estado de existência.
As cotas variam: para alguns afortunados, a cota das coisas favoráveis supera a dos infortúnios. É o que chamamos de “bom karma”. Mesmo com o karma favorável, ninguém, absolutamente ninguém está livre de experimentar os inevitáveis infortúnios, que podem surgir a qualquer momento. Muitos desses infortúnios são considerados castigos por malfeitos prévios. Esse é o chamado “mal karma”. Outros são conseqüências naturais da própria condição corpórea, que é falível, instável e vulnerável. A própria natureza de vez em quando manifesta sua fúria causando dor a muitos. Na verdade, é um fato que temos uma natural intimidade com o sofrimento: É um minúsculo vírus que entra em nosso corpo, é um telefonema anunciando alguma desgraça de pessoas queridas, é um temporal devastador... Por sua vez, a alma é eternamente bem-aventurada. Essa é a nossa única garantia.
Esse conceito de “bom” e “mal karma” também é relativo, pois uma pessoa pode ter muito sucesso e facilidades na vida e pode até considerar-se um mortal especial, mas sua vida interior pode ser um inferno irreversível. Não podemos julgar pelas aparências. Nada é permanente nesse mundo. Um rei hoje poderá renascer como um miserável amanhã. Não existe nenhuma garantia de estabilidade permanente.
Alguém pode então questionar: Esse negócio de karma “cheira” a fatalismo e passividade... Ledo engano! Quem realmente entende a dinâmica do karma está sempre de olho no amanhã. Está sempre atento nas possíveis conseqüências dos seus atos presentes.
É interessante que tem muita gente que liga a noção de “karma” somente às coisas ruins da vida. Geralmente querem rastrear o passado para encontrar as causas dos problemas no presente. Mas não movem uma palha para melhorar sua condição futura. Isso sim é fatalismo e passividade.
Cada pessoa chega a essa vida com suas cotas definidas. A relação da quantidade de felicidade e sofrimento já vem previamente equacionada. Essa é a “equação do karma”. Uns nascem com um corpo saudável, recebem a herança de um rico avô, possuem capacidades acima da média, têm muitas oportunidades favoráveis na vida, etc. Outros, coitados, nascem na miséria material, psíquica e espiritual. Muitos vêm a esse mundo somente para sofrer. A realidade da vida é dura. É como a lei da selva: não vemos na floresta animais aleijados. Já foram abandonados pelo grupo e foram comidos. Os urubus e abutres estão sempre à espreita.
A boa notícia é que no decorrer do curso da vida, podemos interferir em nosso karma atraindo auspiciosidade para nossa vida. Temos sempre a oportunidade de reformar nosso karma e conquistar níveis cada vez mais elevados de consciência .
Dentre os itens da cota das coisas boas da vida estão a felicidade, a paz interior, a saúde, a amizade, etc. A felicidade, principalmente, é um dos bens mais cobiçado. É natural para alma desejar a felicidade. Ser feliz é, na verdade, condição intrínseca da alma. Todos querem o prazer e a felicidade e estão procurando-a sofregamente em todas as direções. Muitas vezes, no entanto, o que se considera felicidade não passa de sofrimento maquiado e disfarçado.
Epicuro, importante filósofo da antiguidade grega, afirmou que a felicidade/prazer começa a partir da “ausência de dor no corpo” (aponía) e a “falta de perturbação da alma” (ataraxia). A partir desse ponto, pode se considerar uma existência feliz. O caso é que, devido ao estilo de vida moderno, com tantos estímulos e ofertas de prazer sensual, quem, hoje em dia, se contenta com tão pouco? “Que felicidade mais chocha e mais sem graça”..., vão dizer. “Felicidade é o agito, o ouriço, a descontração”. Muitos apelam para drogas e álcool para ter a ilusão de felicidade. Uma sensação de felicidade passageira que logo se transforma em ansiedade e frustração.
O fato é que ninguém se contenta com a sua cota de felicidade. Todo mundo quer ser mais feliz do que merece. Para conseguir um grau de felicidade sempre crescente, usa-se qualquer artifício_ lícito e ilícito. Todo mundo sabe: “Dinheiro não traz felicidade”. Mas todo mundo está na corrida do ouro, mesmo sabendo ser uma ilusão.
A relação entre os membros da equação do karma tem que permanecer constante. Portanto, já que a pessoa quer ser mais feliz do que merece, ela terá que sofrer mais. A conclusão que se chega é a seguinte: As pessoas nesse mundo estão sofrendo mais do que merecem! Não mereciam sofrer tanto. Existe uma carga extra de sofrimento nesse mundo porque, em geral, as pessoas querem ser mais “felizes” do que merecem. Essa é a equação do karma.
O tanto de ansiedade, sofrimento e violência no mundo diminuiria sensivelmente se todos se contentassem com as coisas simples da vida. Contentassem com aquilo que naturalmente vêm a elas. Contentassem com suas cotas e investissem seriamente em seu karma futuro. Pois uma coisa é certa: A vida continua...

Purushatraya Swami