terça-feira, 20 de março de 2012

"PSICOLOGIA HUMANISTA E AUTO-REALIZAÇÃO"

A Psicologia Humanista é tida como a terceira grande “onda” na história da psicologia. Considera-se a Psicologia Transpessoal como sendo a quarta onda. Vejamos abaixo, sucintamente, algumas etapas da evolução aqui no Ocidente, dessa ciência que lida com a mente e o comportamento.

A primeira tentativa de se compreender sistematicamente a psique humana foi o Behaviorismo, formulado inicialmente por John Watson (1878-1959).


Essa corrente de psicologia defendia que a personalidade e o comportamento da pessoa seria uma consequência direta da influência que o meio ambiente exerce sobre ela. Hoje em dia, essa abordagem psicológica e suas conclusões são consideradas superadas, embora muitos dados da investigação científica desse sistema deram valiosa contribuição para a psicologia em geral como, por exemplo, o experimento de reflexos condicionados dos cães de Pavlov (1849-1936).

A segunda onda foi a Psicanálise de Freud (1856-1939). O objeto de estudo da Psicanálise é o inconsciente ou subconsciente. Essa foi a grande contribuição de Freud, que abriu as portas à exploração dos subterrâneos da mente. Ele acreditava que a libido era a energia motivacional primária da vida humana e seu desajuste seria a causa de todas as neuroses e psicoses. Na prática da Psicanálise, o paciente deita relaxado num divã e trata de rebuscar os recônditos da memória e procura registrar, com máximo de detalhes, os seus sonhos. O psicoterapeuta, utilizando técnicas como a interpretação dos sonhos e outras ferramentas, trata de descobrir as causas e neutralizar as neuroses e psicoses. O objetivo é fazer com que o paciente atinja um estado de normalidade em que experimenta uma condição de ausência de tensões, tecnicamente chamada de “homeostase”.

Vários psicólogos que precederam a Freud, inclusive vários de seus discípulos diretos, consideraram que excessiva ênfase na libido seria um exagero. O conceito de Freud de que a pessoa é considerada como um produto ou vítima de necessidades e forças instintivas começa a encontrar resistências nos meios acadêmicos. Diversos outros fatores que influenciam a psique deveriam ser levados em consideração, detectaram vários pesquisadores. Carl Jung (1875-1961) constatou que o inconsciente não era constituído somente de material negativo, lançou a teoria dos arquétipos mentais e promoveu uma abertura para a espiritualidade, coisa que Freud repudiava. Alfred Adler (1870-1937), outro discípulo direto, constatou que o complexo de inferioridade era uma das principais causas de neuroses entre as pessoas da época.


Outra restrição à Psicanálise foi de que o tratamento não devia restringir-se meramente à cura das neuroses para chegar a um estado sem tensões (homeostase). A pessoa devia se desenvolver a partir daí. A condição normal de saúde mental seria o ponto de partida de um processo evolutivo da consciência.


A mente humana possui potencialidades ilimitadas para serem exploradas e desenvolvidas. A pessoa não deve se acomodar e contentar-se com a mediocridade de um mero “bem estar” ou de uma superficial “auto-afirmação”. Essa ilusória “auto-afirmação” pode ser uma “máscara” onde se oculta a acomodação e “auto-enganação”. Por algum tempo, a pessoa pode sobreviver nesse estado de ilusão, mas, fatalmente, chegará a hora em que terá que se defrontar com a realidade nua e crua da vida. Aí invariavelmente sobrevém uma perplexidade diante da aparente inutilidade da vida. Para que tanto esforço, se tudo estará em pouco tempo perdido...

Essa é uma constatação dolorosa para aqueles que não estão devidamente preparados para enfrentar o futuro.

Viktor Frankl (1905-1997), criador da Logoterapia, pesquisando independentemente, chegou à conclusão que, para a maioria das pessoas, a principal causa da condição neurótica seria a falta de uma definição quanto ao propósito da vida. A ausência de um propósito superior na vida acarreta um “vácuo existencial”, uma neurose de carência espiritual. Ele chegou a conclusão de que, mesmo nas condições mais adversas que a pessoa pode enfrentar, como numa doença terminal ou em situações desesperadoras, pode-se encontrar um propósito para a vida e, assim, manter a estabilidade psíquica. Frankl realizou isso por experiência própria, pois viveu o inferno em campos de concentração nazista durante a segunda guerra mundial. Em condições sub-humanas que teve que suportar, ele se afirmava mais ou menos com essas palavras: “Minha personalidade externa está fora de meu controle, pois estou nas mãos de pessoas que não hesitam em me causar todo tipo de sofrimento e humilhação. Mas acontece que interiormente eu estou livre. Elas não podem tocar em minha consciência, pois esta está totalmente sob meu controle”. Que preciosa experiência de vida!


Definitivamente, o ser humano não é um produto acabado – existe sempre a possibilidade de crescimento interior, aperfeiçoamento e esmero do caráter e da personalidade, além da expansão ilimitada da consciência. O papel básico da psicologia deve ser, sem dúvida, a cura das neuroses. Isso constitui a prioridade. Mas não se deve parar por aí. Existe um algo mais.

O ser humano psiquicamente saudável leva dentro de si uma tendência natural para desenvolver-se e aprimorar-se. A Psicologia deve estimular o auto-aperfeiçoamento e a expansão da consciência da pessoa. Como Erich Fromm (1900-1980) disse: “Torná-la mais humana”. Daí o nome “Psicologia Humanista”, a terceira onda.

Fromm deixou contribuições importantes: “Ter ou Ser”, “Arte de Ser”, “Análise do Homem”, são alguns de seus temas que ajudaram a muitos a sair de uma vida medíocre. Ele disse que algumas pessoas tem uma postura biófila diante da vida, ou seja, amor à vida, à evolução espiritual.


Outras, opostamente, dão uma orientação necrófila, em direção à morte, num processo gradual de definhamento ou então, o que é mais triste, num processo praticamente irreversível de degradação moral e espiritual da consciência.


Podemos observar na maioria das pessoas que a maturidade psíquica não necessariamente acompanha a maturidade biológica. Crescer implica uma dose de tensão e certa ansiedade. A maioria evita isso. Para aqueles que arriscam e ousam ir em frente, a “homeostase” (ausência das tensões) fica para trás e o indivíduo se dispõe a progredir no árduo caminho da autorrealização. Esse ímpeto de evoluir psíquica e espiritualmente exige esforço e, inevitavelmente, produz uma espécie de tensão, uma ansiedade existencial. Essa tensão ou ansiedade, ao contrário da ansiedade patológica e neurótica, é cem por cento natural e saudável.

Um dos mais expressivos expoentes da linha humanista foi o americano Abraham Maslow (1908-1970). Maslow teve uma trajetória profissional e acadêmica bem diferente dos acadêmicos de psicologia em geral. Ele dirigiu suas pesquisas, não para entender as neuroses e psicoses e como curá-las, mas para compreender o que realmente significa sanidade psíquica. Chegou ao conceito do que chamou de “pessoa auto-realizada”, uma pessoa psiquicamente saudável. Para atingir esse patamar, Maslow verificou que existe uma gradação natural do envolvimento da pessoa nesse mundo. Ele denominou “hierarquia das necessidades”, cuja representação gráfica é uma pirâmide com cinco estágios.

A base inferior da pirâmide, onde se concentra um número maior de pessoas, é o estágio onde as pessoas estão preocupadas com suas necessidades fisiológicas e psicológicas básicas. A necessidade fisiológica básica é não passar fome nem sede; a necessidade psicológica básica é não ser rejeitada no grupo familiar e social a que pertence. Sentir-se rejeitada é a pior situação psicológica que a pessoa pode experimentar.


No segundo estágio da pirâmide estão aqueles que buscam segurança: segurança no emprego, moradia, saúde e outras coisas básicas. O estilo de vida urbana moderna trava a vida de muita gente nesse estágio, pois cria muitas necessidades supérfluas que complicam a vida da pessoa. Quantas pessoas, depois de assumir a responsabilidade de arcar com vinte e cinco anos de prestações do apartamento, carro do ano e outras tantas “necessidades”, e, ainda por cima, ter que manter a família e educar os filhos, morrem de medo de perder o emprego, escravizadas que estão pelos financiamentos e outros compromissos? Definitivamente, a vida poderia ser muito mais simples...


No patamar seguinte, a pessoa sente a necessidade de bons e sólidos relacionamentos. Em sua vida sentimental doméstica, ela necessita experimentar um relacionamento estável e produtivo que lhe dê respaldo e segurança. Sente também uma necessidade de romper os limites das quatro paredes e atuar mais socialmente. Uns dedicam-se a filantropia, participam em funções na igreja e nos centros culturais e esportivos, outros se tornam ativistas de alguma proposta mais ampla ou entram na política, enquanto que outros se contentam em serem os síndicos no prédio onde moram. A pessoa sente que deve se expandir e participar.


O quarto nível de necessidade é o da auto-estima. A pessoa se destaca na atividade que executa. Passa então a exigir o devido reconhecimento. Uma citação de seu nome em público, um elogio, uma aparição, mesmo que momentânea, em um programa televisado já vai adular seu ego e alimentar sua auto-estima. Na vida profissional, essa pessoa esforça-se para ser a melhor em sua especialidade. Isso chama atenção do público para si e reforça sua auto-estima. O problema nessa fase é a facilidade que o sucesso pessoal tem em inchar o ego. A pessoa pode tornar-se um ególatra. Isso a impede ir para frente em seu desenvolvimento psíquico.


No topo da pirâmide, Maslow chamou essa “necessidade” de autorrealização.


Nesse caso, essa autorrealização se restringe ao sentido prático e secular da vida. A pessoa nesse estágio experimenta plena satisfação e realização em seu desempenho nas atividades profissionais, sociais e, também, no íntimo, consigo mesmo. Está de bem coma vida e é emocionalmente estável. Não tem interesse em se promover nem chamar atenção para si. Leva uma vida simples, sem sofisticação. É uma pessoa generosa, criativa e quer distribuir o conhecimento que adquiriu, fruto de muito esforço e dedicação, com quem merece receber esse conhecimento. Tem a mente aberta e uma inclinação natural para os questionamentos espirituais. Esse seria o “top” da vida material dentro da sociedade.


A questão que fica é: Será essa autorrealização psíquica o “fim da linha”?


Na sociedade doentia em que vivemos, chegar ao ponto de “mens sana in corpore sano” é uma verdadeira façanha que poucos conseguem sequer almejar, o que dizer conquistar. Depois de chegar a esse ponto, o que estaria faltando? Existiria alguma outra proposta superior para prosseguirmos na escalada do desenvolvimento pessoal?


Sim, definitivamente, a vida não estará completa sem uma profunda realização espiritual. A necessidade de se dar um sentido espiritual à vida pode não se manifestar explicitamente no decorrer do período de vida prática, pois normalmente a pessoa fica sobrecarregada de responsabilidades familiares e profissionais, além das inúmeras possibilidades de lazer e entretenimento, pois “ninguém é de ferro”...


Aqueles que não se abrirem para as questões espirituais ficarão estancados na consciência material. Por mais que tentem absorver suas mentes com as eventuais preocupações corriqueiras e inúmeras distrações, chegará uma hora, já na etapa final do ciclo de vida, que muitos questionamentos sobre a vida aparecerão. Tanto esforço foi feito durante a vida, e agora? Tudo será perdido? Qual é o propósito disso tudo? O que será de mim daqui para frente? Como poderei seguir sozinho, sem a companhia das pessoas que me apoiam? O que será de mim? O fato é que quem não estiver preparado para resolver essas questões existenciais e espirituais entrará num estado de perplexidade diante da iminência da morte que, fatalmente, gerará frustrações, profunda depressão, medo terrível e desespero.


Para se prosseguir nessa escalada existencial, quatro níveis de realização se apresentam. O primeiro nível é auto-conhecimento. O que vem a ser auto-conhecimento? Auto-conhecimento é estar plenamente consciente da nossa própria natureza, da nossa relação com esse mundo e, também, da nossa relação com a Transcendência. Não é um conhecimento quantitativo, mas qualitativo. Sua característica básica é que o interesse por esses temas tem que surgir de dentro da pessoa, do fundo da consciência. O conhecer-se a si mesmo e a Realidade “com R maiúsculo” passa a ser o projeto de vida da pessoa.


Com auto-conhecimento a pessoa pode desenvolver auto-controle. Por estar consciente das dinâmicas envolvendo o corpo físico, os sentidos, a mente e o intelecto, a pessoa adquiri a força interior para se livrar da ditadura imposta pela sua mente, assim como pelos seus sentidos vorazes e descontrolados. A pessoa livra-se das dinâmicas viciosas que forçam a consciência para baixo. Passa a viver governada pela inteligência superior. Sua vida é agora conduzida por valores e princípios. A pessoa pode, então, afirmar com segurança: “Aqui quem manda sou eu”.

Tendo realizado o auto-conhecimento e auto-controle, somados à bagagem de todas as experiências que a vida nos oferece, a pessoa naturalmente manifesta sabedoria. A sabedoria independe de diplomas e títulos acadêmicos. Manifesta-se, geralmente, na velhice, numa situação em que a pessoa madura, exercendo lucidez e discernimento, não permite que sua consciência se identifique com sua condição corpórea em natural estado de decadência. Sua consciência paira muito acima dos desfrutes fúteis e aflições mundanas. A pessoa sábia está totalmente sintonizada com a situação do momento. Os mais jovens podem aproximar-se livremente para obter conselhos, sem choque de gerações.

O estágio máximo de autorrealização é a iluminação espiritual. É o fruto maduro de todo processo de superação das necessidades básicas da vida e da conscientização de que o sucesso na vida não se restringe a chegar a um estado de realização material, bem estar e conforto. São poucos aqueles que despertam para a possibilidade mais auspiciosa que a vida nos apresenta: a realização espiritual. A culminação de todas as experiências que passamos na vida é chegar a um nível de consciência pleno de conhecimento espiritual, satisfação, paz interior, beatitude e santidade.


Isso pode parecer uma utopia para a maioria, mas, na verdade, trata-se de uma possibilidade factível para qualquer pessoa psiquicamente saudável. O segredo é não perder tempo com as inúmeras distrações que nos rodea. No percurso da vida existe o tempo certo para tudo: primeiramente, a fase de preparação para a vida, com muito estudo; a seguir, a fase de intensa atuação prática e muitas experiências, dentro da família e no trabalho; na aposentadoria, é a fase em que se tem a oportunidade de sério cultivo de um processo espiritual. Por fim, chega-se à fase derradeira em que a pessoa realiza o verdadeiro propósito da vida, vive sob os princípios do desapego e renúncia e colhe os frutos dos anos dedicados à prática espiritual vivenciando uma profunda e íntima relação com Deus. A vida então será coroada de êxito se chegarmos até esse ponto.

Purushatraya Swami