domingo, 2 de dezembro de 2012

Auto-conhecimento...




Auto-conhecimento - Autocontrole - Sabedoria - Iluminação espiritual

Para se prosseguir nessa escalada existencial, quatro níveis de realização se apresentam.
O primeiro nível é auto-conhecimento. O que vem a ser auto-conhecimento? Auto-conhecimento é estar plenamente consciente da nossa própria natureza, da nossa relação com esse mundo e, também, da nossa relação com a Transcendência. Não é um conhecimento quantitativo, mas qualitativo. Sua característica básica é que o interesse por esses temas tem que surgir de dentro da pessoa, do fundo da consciência. O conhecer-se a si mesmo e a Realidade “com R maiúsculo” passa a ser o projeto de vida da pessoa.
Com auto-conhecimento a pessoa pode desenvolver auto-controle. Por estar consciente das dinâmicas envolvendo o corpo físico, os sentidos, a mente e o intelecto, a pessoa adquiri a força interior para se livrar da ditadura imposta pela sua mente, assim como pelos seus sentidos vorazes e descontrolados. A pessoa livra-se das dinâmicas viciosas que forçam a consciência para baixo. Passa a viver governada pela inteligência superior. Sua vida é agora conduzida por valores e princípios. A pessoa pode, então, afirmar com segurança: “Aqui quem manda sou eu”.
Tendo realizado o auto-conhecimento e auto-controle, somados à bagagem de todas as experiências que a vida nos oferece, a pessoa naturalmente manifesta sabedoria. A sabedoria independe de diplomas e títulos acadêmicos. Manifesta-se, geralmente, na velhice, numa situação em que a pessoa madura, exercendo lucidez e discernimento, não permite que sua consciência se identifique com sua condição corpórea em natural estado de decadência. Sua consciência paira muito acima dos desfrutes fúteis e aflições mundanas. A pessoa sábia está totalmente sintonizada com a situação do momento. Os mais jovens podem aproximar-se livremente para obter conselhos, sem choque de gerações.
O estágio máximo de auto-realização é a iluminação espiritual. É o fruto maduro de todo processo de superação das necessidades básicas da vida e da conscientização de que o sucesso na vida não se restringe a chegar a um estado de realização material, bem estar e conforto. São poucos aqueles que despertam para a possibilidade mais auspiciosa que a vida nos apresenta: a realização espiritual. A culminação de todas as experiências que passamos na vida é chegar a um nível de consciência pleno de conhecimento espiritual, satisfação, paz interior, beatitude e santidade.
Isso pode parecer uma utopia para a maioria, mas, na verdade, trata-se de uma possibilidade factível para qualquer pessoa psiquicamente saudável. O segredo é não perder tempo com as inúmeras distrações que nos rodea. No percurso da vida existe o tempo certo para tudo: primeiramente, a fase de preparação para a vida, com muito estudo; a seguir, a fase de intensa atuação prática e muitas experiências, dentro da família e no trabalho; na aposentadoria, é a fase em que se tem a oportunidade de sério cultivo de um processo espiritual. Por fim, chega-se à fase derradeira em que a pessoa realiza o verdadeiro propósito da vida, vive sob os princípios do desapego e renúncia e colhe os frutos dos anos dedicados à prática espiritual vivenciando uma profunda e íntima relação com Deus. A vida então será coroada de êxito se chegarmos até esse ponto.


Pirâmide da sociedade

Um dos mais expressivos expoentes da linha humanista foi o americano Abraham Maslow (1908-1970). Maslow teve uma trajetória profissional e acadêmica bem diferente dos acadêmicos de psicologia em geral. Ele dirigiu suas pesquisas, não para entender as neuroses e psicoses e como curá-las, mas para compreender o que realmente significa sanidade psíquica. Chegou ao conceito do que chamou de “pessoa auto-realizada”, uma pessoa psiquicamente saudável. Para atingir esse patamar, Maslow verificou que existe uma gradação natural do envolvimento da pessoa nesse mundo. Ele denominou “hierarquia das necessidades”, cuja representação gráfica é uma pirâmide com cinco estágios.

A base inferior da pirâmide é o estágio onde as pessoas estão preocupadas com suas necessidades fisiológicas e psicológicas básicas. A necessidade fisiológica básica é não passar fome nem sede; a necessidade psicológica básica é não ser rejeitada no grupo familiar e social a que pertence. Sentir-se rejeitada é a pior situação psicológica que a pessoa pode experimentar.

No segundo estágio da pirâmide estão aqueles que buscam segurança: segurança no emprego, moradia, saúde e outras coisas básicas. O estilo de vida urbana moderna trava a vida de muita gente nesse estágio, pois cria muitas necessidades supérfluas que complicam a vida da pessoa. Quantas pessoas, depois de assumir a responsabilidade de arcar com vinte e cinco anos de prestações do apartamento, carro do ano e outras tantas “necessidades”, e, ainda por cima, ter que manter a família e educar os filhos, morrem de medo de perder o emprego, escravizadas que estão pelos financiamentos e outros compromissos? Definitivamente, a vida poderia ser muito mais simples...

No patamar seguinte, a pessoa sente a necessidade de bons e sólidos relacionamentos. Em sua vida sentimental doméstica, ela necessita experimentar um relacionamento estável e produtivo que lhe dê respaldo e segurança. Sente também uma necessidade de romper os limites das quatro paredes e atuar mais socialmente. Uns dedicam-se a filantropia, participam em funções na igreja e nos centros culturais e esportivos, outros se tornam ativistas de alguma proposta mais ampla ou entram na política, enquanto que outros se contentam em serem os síndicos no prédio onde moram. A pessoa sente que deve se expandir e participar.

O quarto nível de necessidade é o da auto-estima. A pessoa se destaca na atividade que executa. Passa então a exigir o devido reconhecimento. Uma citação de seu nome em público, um elogio, uma aparição, mesmo que momentânea, em um programa televisado já vai adular seu ego e alimentar sua auto-estima. Na vida profissional, essa pessoa esforça-se para ser a melhor em sua especialidade. Isso chama atenção do público para si e reforça sua auto-estima. O problema nessa fase é a facilidade que o sucesso pessoal tem em inchar o ego. A pessoa pode tornar-se um ególatra. Isso a impede ir para frente em seu desenvolvimento psíquico.

No topo da pirâmide, Maslow chamou essa “necessidade” de auto-realização. Nesse caso, essa auto-realização se restringe ao sentido prático e secular da vida. A pessoa nesse estágio experimenta plena satisfação e realização em seu desempenho nas atividades profissionais, sociais e, também, no íntimo, consigo mesmo. Está de bem coma vida e é emocionalmente estável. Não tem interesse em se promover nem chamar atenção para si. Leva uma vida simples, sem sofisticação. É uma pessoa generosa, criativa e quer distribuir o conhecimento que adquiriu, fruto de muito esforço e dedicação, com quem merece receber esse conhecimento. Tem a mente aberta e uma inclinação natural para os questionamentos espirituais. Esse seria o “top” da vida material dentro da sociedade.
A questão que fica é: Será essa auto-realização psíquica o “fim da linha”? Na sociedade doentia em que vivemos, chegar ao ponto de “mens sana in corpore sano” é uma verdadeira façanha que poucos conseguem sequer almejar, o que dizer conquistar. Depois de chegar a esse ponto, o que estaria faltando? Existiria alguma outra proposta superior para prosseguirmos na escalada do desenvolvimento pessoal?

Sim, definitivamente, a vida não estará completa sem uma profunda realização espiritual. A necessidade de se dar um sentido espiritual à vida pode não se manifestar explicitamente no decorrer do período de vida prática, pois normalmente a pessoa fica sobrecarregada de responsabilidades familiares e profissionais, além das inúmeras possibilidades de lazer e entretenimento, pois “ninguém é de ferro”...

Aqueles que não se abrirem para as questões espirituais ficarão estancados na consciência material. Por mais que tentem absorver suas mentes com as eventuais preocupações corriqueiras e inúmeras distrações, chegará uma hora, já na etapa final do ciclo de vida, que muitos questionamentos sobre a vida aparecerão. Tanto esforço foi feito durante a vida, e agora? Tudo será perdido? Qual é o propósito disso tudo? O que será de mim daqui para frente? Como poderei seguir sozinho, sem a companhia das pessoas que me apoiam? O que será de mim? O fato é que quem não estiver preparado para resolver essas questões existenciais e espirituais entrará num estado de perplexidade diante da iminência da morte que, fatalmente, gerará frustrações, profunda depressão, medo terrível e desespero.

PURUSHATRAYA SWAMI

domingo, 25 de novembro de 2012

Determinismo e Livre-arbítrio


Até que ponto estamos irremediavelmente condicionados aos fatores determinantes da vida? Se é que existe livre-arbítrio, quais são as possibilidades de exercê-lo plenamente? Até onde vai minha capacidade de decidir?
“De hoje em diante, eu decido que não vou mais adoecer nem envelhecer; e também não quero morrer”. Bobagem... Ninguém tem tal poder de decisão e querer. Isso não passa de uma tolice e absurdo. A realidade da vida é mais complexa. Existem regras no jogo da vida que são impossíveis de serem burladas. Querendo ou não somos obrigados a aceitá-las.
Nesta vida, “caímos de pára-quedas” numa família “X”, que absolutamente não escolhemos, num meio ambiente social e econômico igualmente sem escolha, num lugarzinho específico nesse planeta. Recebemos um corpo frágil e vulnerável, com uma capacidade sempre aquém do que no fundo gostaríamos. E além disso, estamos envolvidos com compromissos e responsabilidades impossíveis de serem descartados. Em suma, existem tantos fatores deterministas, sem chances de escaparmos deles. Onde entra então o livre-arbítrio?
Para muitas pessoas, o livre-arbítrio restringe-se às escolhas triviais. O super-mercado, por exemplo, é um campo imenso de escolhas_ a marca do sabão em pó, o tipo de xampu, manteiga com sal ou sem sal, mais barato (com menor qualidade) ou mais caro (aparentemente melhor qualidade), e por aí vai. A impressão que fica é que nosso livre-arbítrio é muito limitado e nunca será capaz de resolver os grandes problemas de nossa vida.
Outro exemplo é um vôo internacional. Temos que cumprir com tantos requisitos e imposições, que sobra pouquíssimo para exercermos alguma liberdade e criatividade. Horários rígidos, passaportes, vistos, limitações de bagagem. Os espaços no avião são exíguos. Temos que nos manter sentados e afivelados. Que liberdade temos? Talvez os míseros dez centímetros de inclinação da poltrona na classe econômica (mesmo assim fora do período da decolagem e aterrissagem) e algumas outras limitadas e reduzidíssimas possibilidades de ação durante o vôo...
Onde então entra nosso livre-arbítrio nesse cenário? Ah!... Definitivamente, a prerrogativa do livre-arbítrio está presente e foi exercido num elevado e importante grau ao decidirmos pessoalmente sobre o destino nessa viagem. O destino escolhido é a decisão mais importante. Tudo mais é circunstancial. A partir dessa decisão, nós nos submetemos voluntariamente a todos esses inconvenientes inerentes às longas viagens intercontinentais. Atingir o destino escolhido compensa todos os inevitáveis sacrifícios.
A mesma idéia pode ser aplicada no ciclo de vida que vivemos. Apesar de todos os fatores determinantes da vida, todos nós temos a oportunidade de direcionar nossa vida, tanto para o bem quanto para o mal. Se optamos para o bem, devemos estar cientes dos obstáculos e dos inconvenientes pela frente. Mas a meta final deve estar sempre bem definida para não desviarmos durante a caminhada.
No tratado espiritual Bhagavad-gita, já no final do livro, Krishna disse ao seu amigo Arjuna: “Eu te passei todo esse conhecimento que é muito confidencial. Poucas pessoas estão preparadas para recebê-lo. Agora é contigo. Ou aceitas ou rejeitas”. Aqui fica demonstrado claramente o papel do livre-arbítrio. O mais elevado uso do livre-arbítrio é optar por uma vida boa e rejeitar a vida ruim. Vida boa é auto-realização e auto-aperfeiçoamento.

Purushatraya Swami - www.pswami.com.br / www.goura.com.br

domingo, 18 de novembro de 2012

Conversando sobre Yoga


Jayadvaita Dasa pratica yoga há 17 anos, é autor do livro Pranayama, Alcançando a Plenitude através da Respiração, e coordena a 3ª turma do curso de formação Vaishnava Vedanta Yoga, realizado em diferentes cidades do estado do Rio de Janeiro. Em entrevista à Volta ao Supremo, discute a profundidade
espiritual que podem ter as posturas ióguicas e as técnicas respiratórias nas práticas de yoga convencional, as mudanças pelas quais passa o yoga das primeiras gerações de instrutores para as gerações atuais, o que as pessoas buscam nessa prática multimilenar, fala sobre seu livro, sobre a proposta inovadora do curso que coordena e mais.

Volta ao Supremo: O que é yoga?

Jayadvaita Dasa: Existem muitas definições para o termo yoga. Etimologicamente, a palavra deriva de yuj, que significa “unir”, “juntar”, “conectar dois elementos”. Por exemplo, dela deriva cônjuge, na morfologia do português. No capítulo dois do Bhagavad-gita, yoga é definido como “equanimidade mental”. O mesmo conceito é apresentado por Patanjali no Yoga-sutra, onde se diz que yoga é o estado em que a consciência deixa de se identificar com as alterações constantes da mente. De maneira prática, yoga pode ser definido como “reintegração”, pois há um processo que ocorre e que é o caráter intrínseco do yoga. Sempre ao final de uma prática, os alunos saem com a sensação real de que algo está em seu devido lugar, de que a estrutura do mundo ganhou mais leveza e de que a realidade parece ter assumido um equilíbrio harmonioso. Tudo não passa de um ajuste da percepção, mas tal ajuste é o resultado da reintegração que ocorre internamente.

De certa forma, estamos desintegrados da fonte criadora. Isto significa inconsciência. Reintegrar-se pode ser entendido como tomar consciência de quem somos, de qual é nosso objetivo e meta, tomar consciência de nossa relação substancial com Deus. Embora existam procedimentos, técnicas e metodologia para a prática do yoga, devemos entender que não é meramente um processo físico, como geralmente se pensa, mas um processo interior que visa reintegrar o corpo, a respiração e a alma – o que nos leva a compreender que não somos estes corpos frágeis e efêmeros, que nosso propósito na vida é compreender nossa relação com Deus, e que a alma somente estará completa e satisfeita em comunhão com a Pessoa Absoluta.

Para Srila Prabhupada, yoga é a ciência da autorrealização espiritual. Integrar-se é fazer parte. Para fazer parte de algo é preciso conhecer, ter consciência deste algo. Reintegrar-se é voltar a conhecer, voltar a ter consciência. Por isto, no final do capítulo seis do Bhagavad-gita,se conclui que yoga é meditar em Deus dentro de si mesmo e prestar transcendental serviço amoroso a este Ser Supremo. Ou seja, numa visão metafísica, yoga é um sistema científico de transcendência dos limites da matéria.

Volta ao Supremo: Quando se deu seu primeiro contato com o yoga? O que o senhor buscava?

Jayadvaita Dasa: Meu primeiro contato ocorreu no final da adolescência. Momentos de crises interiores e questionamentos que não encontravam respostas em dogmas ou religiões. Encontrei um livro falando as posturas psicofísicas do yoga e passei a praticar sem muitas orientações. Somente depois de alguns anos, fui me encontrar com um amigo que não via há muitos anos e que estava dando aulas de yoga. Foi uma surpresa estimulante para mim, pois estava me sentindo fora dos padrões dos jovens na época. Com a prática e os estudos, fui mergulhando mais no que eu realmente estava buscando: uma experiência com Deus. Porém, não foi breve. Demorou três anos até que eu pudesse entender que a experiência mística que buscava era com o aspecto completo de Deus, um aspecto pessoal. Isto ocorreu quando uni os estudos do Bhagavad-gita à minha prática e pude compreender os níveis de realização da Verdade Absoluta.

E ficou claro pelo fato de que não sentia tanto prazer antes. Sempre ao final da meditação havia ainda a sensação de que faltava algo, pois nela eu estava sozinho, sem troca, sem reciprocidade, sem relacionamento. Aos poucos, pude perceber que na meditação é necessário haver reciprocidade de relacionamento entre aquele que medita e aquele em que se medita. Então, entendi que minha busca não era apenas por uma experiência mística, mas a experiência de um relacionamento místico com Deus.

Volta ao Supremo: O que, em geral, as pessoas procuram no yoga?

Jayadvaita Dasa: Existem quatro tipos de pessoas que buscam o yoga. Algumas querem recuperar sua saúde. Outras buscam o bem-estar que o yoga proporciona. Existem aquelas que querem conhecer novos horizontes, ter novas experiências, mudar o modo de viver e ver a vida; são as pessoas que se interessam pela filosofia do yoga. Estas têm uma tendência aos estudos. Por fim, existem pessoas que estão numa busca genuína pela espiritualidade, pelo autoconhecimento interior, de resgatar ou de se reintegrar como ser eterno, consciente e bem-aventurado. Há um processo que ocorre para todos. Mesmo quem busca uma vida saudável acabará por alcançar o bem-estar. Quem quer apenas o bem-estar naturalmente terá os resultados preventivos na saúde. Quem procura por conhecimento, geralmente cultiva o bem-estar saudável. De certo modo, há um processo gradual ocorrendo no íntimo de cada indivíduo que difere muito pouco no geral. A sociedade em geral está criando as condições para que todos, cada qual ao seu modo, busquem pelo caminho do autoconhecimento interior. As pessoas querem encontrar o equilíbrio, a satisfação e a realização que este mundo transitório não lhes proporciona. Felizmente, o yoga pode auxiliar nisto, daí a busca pelo yoga.

Volta ao Supremo: O que mudou no yoga desde sua vinda para o ocidente até os instrutores da atualidade?

Jayadvaita Dasa: Diria que a essência epistemológica do yoga original não mudou, mas a abordagem e os métodos utilizados foram adaptados dentro da realidade do mundo moderno e pós-moderno. Do ponto de vista histórico, o yoga chegou ao Ocidente sob influência do que se conhece academicamente como neo-hinduísmo. Foi um movimento cultural (motivado pelo imperialismo britânico da época, diga-se de passagem) de revitalizar e propagar a cultura da Índia pelo Ocidente – principalmente sua filosofia. Assim, já no final do século XIX, temos a vinda de Swami Vivekananda. Depois, Yogananda Paramahamsa, Swami Sivananda e muitas outras missões. Naquele momento, houve um movimento de diluir a filosofia e a prática do yoga na cultura ocidental. Era algo visto como exótico e fora do contexto da realidade. Mesmo assim, muitas instituições foram fundadas e deram o encaminhamento possível dentro da receptividade que havia.

O grande impacto se iniciou na transição pós-moderna, ou seja, no movimento de contracultura. Foi ali que o yoga passou a se popularizar entre as massas juvenis, principalmente – embora, neste período, o yoga ocidental estivesse ligado ao uso de psicotrópicos e drogas lisérgicas. No Brasil, o yoga chegou na segunda metade do século vinte com nomes como Caio Miranda e Hermógenes. Durante as primeiras décadas, a prática ainda era muito restrita a um público que se diferenciava do contexto geral e outro mais elitizado. Hermógenes iniciou suas aulas abertas no centro do Rio de Janeiro, na rua Uruguaiana e assim foi se popularizando gradualmente. Um segundo momento se inicia no final dos anos oitenta, quando alguns renomados mestres do yoga começam a ganhar notoriedade nos Estados Unidos e na Europa. Com Iyengar, Patabhi Jois e Desikacar, o yoga retoma sua essência e técnica livre de objetivos missionários como ocorrera no início do século. Desse modo, temos algo como um resgate da tradição no yoga moderno. Todo yoga difundido hoje em dia tem laços com o grande nome do yoga: Krishnamacarya. Ele foi um vaishnava da Ramanuja-sampradaya e aperfeiçoou a prática do yoga com o viés da espiritualidade. Praticamente todo o yoga que temos hoje presente nas academias, nas escolas e estúdios deve grande mérito a Krishnamacarya e seus discípulos.

Por outro lado, um fenômeno tem ocorrido chamado internet. Ela democratizou o conhecimento do yoga, mas também tem ajudado a disseminar muitos equívocos em relação ao yoga. Junto a isto, muitos centros de yoga passaram a oferecer formação sem muita base na tradição do yoga. Isto quer dizer que temos visto uma explosão do yoga no Ocidente, mas poucos são os nomes que ficarão no cenário. Então, posso afirmar que o que mais mudou no yoga desde sua chegada foram dois fatores: primeiro, houve um aprimoramento das técnicas e consequente surgimento de muitos instrutores de yoga; segundo, o processo de mercado que movimenta fortemente o yoga. Mas isto faz parte de sua popularização. A questão é: onde e como encontrar hoje em dia profissionais e instrutores de yoga capacitados e comprometidos com sua verdadeira função neste campo? Entendo que o papel do instrutor de yoga é servir de exemplo para seus alunos, de ensinar pelo exemplo, é ser o que conhecemos como acarya; e, ao mesmo tempo, exercer seu trabalho como um ofício sagrado, um sacrifício conhecido como yajna. Este papel hoje em dia ficou raro, e, no meu entender, foi a maior mudança ocorrida desde sua chegada ao Ocidente.

Volta ao Supremo: Qual a opinião do senhor em relação a variantes modernas do yoga, como power-yoga, yoga dance e similares?

Jayadvaita Dasa: Vejo isto positivamente no sentido de que pode aproximar pessoas que certamente não iriam para uma aula de yoga modelar. Tenho minhas reservas em considerar estes estilos como yoga. Mas respeito e incentivo pessoas que não tenham facilidade de ficar numa permanência por muito tempo, de se concentrar na respiração e meditar nos mantras sagrados.

O importante é deixar claro para os alunos que yoga não é meramente um exercício físico ou corpóreo, embora os resultados estéticos possam ser facilmente alcançados com a prática. Evidentemente, podemos diferenciar estilos que trabalham os exercícios do yoga de estilos que focam a sagrada prática do yoga. O primeiro é classificado como bahiranga-sadhana, uma disciplina mais física e externa; o segundo, antaranga-sadhana, a disciplina interior e profunda que visa a consciência espiritual. Basta o aluno experimentar e escolher o que mais o satisfaz.

Volta ao Supremo: O senhor publicou um livro sobre exercícios respiratórios, ou pranayama. Por que a escolha deste assunto? Qual a abordagem do seu livro?

Jayadvaita Dasa: Quando me formei como instrutor de yoga, acabei por ler mais livros do que eram indicados pelos professores. Ao final do curso, senti certa carência no conhecimento a respeito dos pranayamas. Muitos mestres e autores explanavam a importância da respiração durante a prática e até mesmo na vida. Daí iniciei uma pesquisa mais apurada sobre o assunto. Juntei um material bibliográfico e outro de reflexões do que eu vinha percebendo em minha prática e resolvi publicar esta pesquisa. A respiração é fundamental na prática de yoga, pois está essencialmente ligada à mente. A maneira como respiramos desenhará os movimentos que a mente terá. O inverso também ocorre. Uma pessoa ansiosa tem a respiração curta e superior. Para reverter tal quadro, ela deve passar a respirar profundamente e usar o abdome no processo respiratório.

Entretanto, minha abordagem neste livro não ficou apenas no aspecto fisiológico ou terapêutico do pranayama. Busquei nas escrituras antigas, principalmente no Bhagavad-gita e no Bhagavata Purana, indicações filosóficas e linguísticas mais profundas do significado do pranayama. Impressionante como os termos em sânscrito trazem o sentido real da palavra. Pranayama é literalmente dirigir, conduzir a energia vital para a essência da Vida. Ou seja, usar a vida para o propósito superior, para a transcendência e realização do Amor a Deus. Quando encontramos no Bhagavad-gita o método de inalar oferecendo o movimento da exalação e exalar enquanto se oferece o movimento da inalação, pode parecer um conhecimento intrincado ou hermético, mas, na verdade, Krishna está dizendo que o yogi oferece cada instante de sua vida e cada movimento respiratório à Suprema Personalidade de Deus. Em outras palavras, se reintegra por completo no próprio ato da oferenda.

Volta ao Supremo: Algumas vezes, considera-se que os asanas, ou posturas, é algo voltado apenas para o aprimoramento físico. Como conciliar as posturas com o desenvolvimento espiritual?

Jayadvaita Dasa: Este é outro ponto que linguisticamente podemos entender dentro da abordagem filosófica ou espiritual do asana. Este termo tem um significado além de postura. Podemos entender o conceito de asana como posicionamento ou postura diante da vida, diante das situações, diante de Deus. Costumo pensar no asana como posição constitucional eterna do ser vivo. Parece complicado, mas basta entender que não importa a postura física que assumimos em determinado asana, pois internamente será sempre o mesmo ser, a mesma consciência que estará em cada postura. Algo de metafísico é necessário para se entender melhor, mas, na verdade, o que muda é a postura física do corpo, enquanto a consciência do observador que está presente nela é sempre a mesma. Se partirmos do pressuposto de que o asana visa não apenas os benefícios bioquímicos sobre o organismo, mas também os efeitos sobre a percepção que o sujeito tem sobre a realidade e sobre si mesmo, podemos considerar que deve haver uma postura interior para poder estar na postura. Esta postura interna que antecede a postura física é o asana. Sob esta ótica, podemos chegar à conclusão de que asana é a natureza fundamental da alma.

Nos conceitos filosóficos do yoga, asana equivaleria (dentro desta ideia que estou apresentando) a svarupa. Sva significa “própria”, “elementar”, “essencial”, e rupa significa “forma”, “corpo”, “desenho”. Assim, este termo se refere à própria forma original do ser e está ligada à posição constitucional do ser. Posição constitui uma forma, e qualquer forma evidencia uma posição – ambas se referem ao ser –, logo o ser em sua forma original possui uma posição constitucional que, de acordo com o siddhanta vedanta vaishnava, ou conclusão da filosofia de bhakti, é uma eterna parte integrante do Ser Supremo, com o qual se relaciona através do serviço devocional amoroso espontâneo. Quando se alcança este estágio de consciência, pode-se considerar alcançada a essência do asana e do yoga. Esta seria a explicação mais esotérica sobre o asana.

Sabendo deste conteúdo mais profundo, Krishnamacarya enfatizou a prática espiritual do yoga. Seu discípulo mais proeminente no Ocidente, Iyengar, tem desenvolvido estas sutis características do asana em sua abordagem técnica, valendo-se de foco, alinhamento e percepção interior consciente – o que ele mesmo define como prajna. Portanto, é possível ter os asanas como veículos para o desenvolvimento espiritual; no entanto, caberá ao instrutor ter esta bagagem em sua prática e domínio para facilitar a experiência do aluno durante sua condução. Por isto, costumo dizer que não basta praticar yoga para ser um bom instrutor de yoga, mas deve-se, antes de mais nada, ser um yogi na prática.

Volta ao Supremo: No curso de formação de instrutores organizado pelo senhor, existe a intenção de integrar yoga, como entendido nos cursos de formação em geral, com bhakti-yoga? Como isso se dá? Como é possível levar bhakti-yoga para uma aula de hatha-yoga?

Jayadvaita Dasa: Sim, temos esta intenção. No Vaishnava Vedanta Yoga, tentamos unir as conclusões filosóficas do vedanta vaishnava com as técnicas tradicionais do astanga-yoga. Na verdade, não há nada de novo nisto e nenhum mérito nosso. Srila Prabhupada nos deu tudo isto pronto para que apenas estudássemos, compreendêssemos e aplicássemos em nossas vidas. Está tudo presente no Srimad-Bhagavatam – nada foi criado. No terceiro canto do Bhagavatam, encontramos em detalhes toda a ciência do yoga muito bem explicada; ali está todo o sistema de astanga-yoga apresentado pelo próprio Kapiladeva. No décimo primeiro canto, novamente encontramos alguns capítulos elucidando mais sobre a ciência do yoga, ensinado por Krishna a Uddhava.

Temos um tesouro inestimável de conhecimento transcendental trazido por Srila Prabhupada e temos que assumir o conhecimento, aplicá-lo com o talento ou habilidade que possuímos. Assim, com um pouco de tato, é possível integrar o yoga convencional com bhakti. Existem muitos cursos de formação de instrutores de yoga hoje em dia; muitos bons professores estão ensinando e formando novos instrutores. O diferencial que estamos oferecendo é justamente na ênfase da prática e teoria. Praticamente todos os cursos que temos no Brasil oferecem formação com ênfase em asana, em meditação, em filosofia vedanta advaita, em técnicas terapêuticas. Este curso do VVY é o único a oferecer ênfase em bhakti. Interessante que quando estávamos com Chandramukha Swami, em 2004, pesquisando e procurando definir o que seria o VVY dentro dos padrões do yoga tradicional sem perder o enfoque da tradição de mestres vaishnavas, descobri que meu mestre espiritual estava dando um curso extenso sobre o Yoga-sutra de Patanjali para um grupo de alunos de yoga em San Luis Obispo, Califórnia. Foi como uma constatação de que havia algo para ser explorado neste campo aqui no Brasil. Ao mesmo tempo, encontrei o projeto Atma Yoga desenvolvido por Atmananda Dasa, nos Estados Unidos, e a semelhança com o projeto VVY foi enorme pelo fato de termos como base uma mesma epistemologia: vedanta vaishnava.

Quanto a aplicar bhakti-yoga numa aula de hatha-yoga, não há mistério. Primeiro, temos que nos lembrar do que Srila Prabhupada diz a respeito da escadaria do yoga, de que todos os sistemas e estilos de yoga correspondem aos degraus de uma escada que conduz a bhakti. Por exemplo, numa guirlanda há o elemento mais importante do que as flores que decoram a guirlanda. Sem o cordão, não há como manter uma guirlanda. Do mesmo modo, bhakti é o fio que une a essência de todos os sistemas e estilos de yoga. Sem bhakti, não há yoga. No Bhagavad-gita, encontramos três sistemas apresentados: karma-yoga, jnana-yoga e bhakti-yoga, o que significa que, para ser completo, o yoga deve envolver ação com conhecimento do objetivo da ação, e o núcleo de toda ação é a atitude devocional. Entretanto, no capítulo seis, é apresentado um sistema do qual partem todos os estilos de yoga que conhecemos, pois nele estão presentes os conceitos fundamentais do astanga-yoga.

Quer dizer, todo yoga que conhecemos (inclui-se hatha-yoga, vinyasa-yoga, power-yoga) derivam do astanga-yoga do capítulo seis do Bhagavad-gita. Geralmente, quando estudamos o Bhagavad-gita e chegamos a este ponto, surge a seguinte dúvida nos alunos: o que é o astanga-yoga já que são apresentados três sistemas? A mesma resposta pode responder a questão apresentada. O astanga-yoga é a metodologia aplicada aos três sistemas, sendo que bhakti-yoga é a essência epistemológica de karma-yoga e jnana-yoga. Em outras palavras, a alma de uma aula de yoga deve ser bhakti, e uma maneira prática de exemplificar isto é ter abertura, fechamento e momento de meditação com mantras sagrados. Isto compõe uma aula de yoga, que, dependendo do formato e condução que o instrutor der, pode ser uma aula de imersão na experiência de bhakti. Temos que entender que yoga se estrutura em técnica e processo. A técnica é hatha-yoga,e o processo é bhakti-yoga.

Volta ao Supremo: No curso de formação organizado pelo senhor e em suas aulas pessoais, o senhor ensina técnicas de meditação? Pela experiência do senhor, qual é a meditação mais eficaz?

Jayadvaita Dasa: Sim, meditação e pranayama são elementos fundamentais numa prática de yoga. Existem muitas técnicas meditativas eficazes, mas, de todas as conhecidas, a que mais tem trazido resultados práticos é a meditação mântrica. Muitos alunos sentem esta eficácia de imediato e realmente fazem mudanças internas em suas vidas. A meditação genuína é aquele que cause uma transformação interior, uma meditação que envolva ação interior, ação da alma. Somente uma atitude contemplativa e receptiva não oferece, na minha experiência, a amplitude que os mantras possibilitam na meditação.

Patanjali explica que existem dois tipos de samadhi, isto é, absorção ou união com o Ser Supremo. Uma necessita da presença de elementos ou objetos de concentração mentais (samprajnata), como, por exemplo, conceitos, imaginação, percepções sensoriais – uma espécie de identificação do sujeito. Outra elimina qualquer elemento externo de concentração mental (asamprajnata) e foca os arquétipos e fluxos internos da consciência que emergem enquanto se medita na vibração sonora ou mental dos mantras sagrados. É uma diferença sutil e decisiva, pois, em determinado momento, a meditação deverá ocorrer completamente no campo místico da consciência, sem elementos físicos.

O mantra se enquadra nesta categoria. Porém, é importante ressaltar que existem emoções específicas (bhava) e propósitos (sadhya) para cada mantra. Geralmente uso e indico mantras que atuarão nos aspectos bhakti-bhava. Destes mantras, o mais conhecido e potente é o maha-mantra. Importante ressaltar que não há qualquer cunho religioso; trata-se apenas de uma técnica meditativa poderosíssima que pode dar um vislumbre interior de nossa essência na relação eterna com o Ser Supremo. Muitas escrituras importantes confirmam a potência espiritual que há neste maha-mantra. Aproveitando este tema, gostaria de enfatizar que a teologia vaishnava, ou o processo de bhakti-yoga, é yoga. Muitas vezes, os praticantes de bhakti-yoga se colocam mais como religiosos do que praticantes de um sistema de yoga que utiliza meditação com mantras, estudo das escrituras, disciplinas, puja. Enfim, é necessário quebrar alguns bloqueios que existem e que impedem uma experiência intensa para quem segue a ciência de bhakti e uma aproximação maior de quem busca por yoga.

domingo, 12 de agosto de 2012

CORRESPÔNDENCIAS DE PRABHUPADA




Nesta primeira de oito correspondências de Prabhupada selecionadas para publicação no Amigos de Krishna, lemos um excerto da carta de Srila Prabhupada datada de 2 de abril de 1976, endereçada ao Sr. Dhawan, Vrndavana. Nesta carta, Srila Prabhupada responde a cinco perguntas do Sr. Dhawan, cujas respostas são relevantes a todos aqueles interessados em vida espiritual. Tradução cortesia da BBT Brasil.

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Estou muito contente em saber que você está se esforçando para compreender a principal meta da vida, sem a qual a facilidade da vida humana se torna inútil... Como recebemos este conhecimento a partir da maior autoridade, Krishna, estas respostas serão aceitáveis em toda esfera de atividade espiritual.

Pergunta #1: Qual é a verdadeira meta da vida humana?

Resposta: A verdadeira meta da vida é voltar ao lar, voltar ao Supremo. Todos nós somos entidades vivas em diferentes corpos em um total de 8.400.000 formas. Começando das formas aquáticas e indo até a mais avançada forma humana de vida, há uma evolução regular pelas leis da natureza. O fato verdadeiro é que nós entidades vivas, embora partes e parcelas de Deus; em virtude de nossa própria desobediência, descemos para este mundo material sob diferentes circunstâncias. Temos diferentes tipos de vestes materiais para satisfazermos a tendência para a gratificação sensorial, e isso pelas leis da natureza, pela associação com os 3 modos da natureza material. Estamos transmigrando através de diferentes formas de vida. Assim, esta forma humana de vida nos é dada como uma oportunidade para compreendermos a nossa posição, porque, na forma humana de vida, temos consciência mais desenvolvida do que nas formas inferiores de vida, como os aquáticos, os insetos, as plantas, os pássaros, as bestas e os seres humanos civilizados e incivilizados. Assim, o ponto é que um ser humano tem que saber que a meta da vida é voltar ao Lar, voltar ao Supremo.

Pergunta #2: Qual é o caminho exato para se alcançar essa meta?

Resposta: Deus é grande e nós somos todos subordinados a Deus. Em outras palavras, Deus é o Mestre Supremo, e nós somos todos entidades vivas, servos de Deus. Portanto, o caminho que ensina esse fato, de que a entidade viva é serva eterna de Deus, é o único caminho que conduz o indivíduo de volta ao lar, de volta ao Supremo.

Pergunta #3: Quantos líderes de fato alcançaram essa meta?

Resposta: Esta meta é um fato, e o caminho é um fato, e qualquer um que adote esse caminho pode alcançar a meta. De acordo com as nossas autoridades que alcançaram essa meta, existem muitíssimos acaryas. Nos anos recentes, dentro de 1500 anos, os seguintes acaryas são verdadeiros líderes dessa meta da vida. Eles são Ramanujacarya, Madhvacarya, Visnu svami e Nimbarka, e o mais recente, nos últimos 500 anos, é o Senhor Sri Caitanya Mahaprabhu. Há muitos de tais líderes que alcançaram a meta da vida, e, se você quer segui-los, o caminho é muito claramente mencionado.

Pergunta #4: Por que todas as atuais religiões e sistemas espirituais vieram a existir, contradizendo-se uns aos outros, quando a humanidade se destina a seguir apenas uma religião?

Resposta: Sistema religioso significa a lei dada por Deus. Em todo sistema de religião, a ordem é seguir a instrução dada por Deus ou por Seu representante. Infelizmente, os assim chamados seguidores desviam-se das ordens do mestre e, algumas vezes, criam seu próprio sistema religioso inventado. De outro modo, não pode haver diferentes religiões. Nós, portanto, aceitamos apenas uma religião, aquela que ensina o indivíduo a amar a Deus. Qualquer sistema religioso que não ensine isto, como amar a Deus, não é religião, mas um sistema enganador. As almas condicionadas que vieram a este mundo devido ao esquecimento de seu relacionamento eterno com Deus são propensas a serem enganadas, mas uma pessoa que é sincera não é enganada, senão que adota o caminho que conduz o indivíduo à perfeição da vida, como amar a Deus. Os atuais sistemas religiosos e espirituais em variedades vieram a existir em virtude de líderes imperfeitos que desafiaram a autoridade de Deus. Minha sugestão, portanto, é que os líderes que realmente concordam serem servos eternos de Deus sentem-se juntos e encontrem as possibilidades de um único sistema religioso neste mundo. Deus é um. Não podem existir vários deuses; do contrário, não há sentido em Deus. No dicionário, vocês encontram que Deus significa “o Ser Supremo”. Existe um ilimitado número de entidades vivas, mas Deus é o único Ser Supremo. O Ser Supremo tem que ser um. Ninguém pode ser igual a Ele, e ninguém pode ser maior do que Ele; do contrário, não há significado para Deus. No momento presente, tornou-se moda tornar-se Deus de modo muito barato. Assim, porque esse sistema é muito barato e desautorizado, há muitíssimos sistemas religiosos. Do contrário, Deus é um, todas as entidades vivas são Seus servos eternos, e, portanto, o verdadeiro sistema religioso é aprender como servir Deus.

Pergunta #5: O que Hasur Mohammed Sahib disse sobre o século 14 e por quê?

Resposta: Não tenho informação suficiente sobre a instrução de Hazur Mohammed Sahib, mas se você se refere a Maomé, o inaugurador da religião islâmica, eu o aceito como um servo dotado de poder por Deus porque ele pregou a consciência de Deus naquelas partes do mundo e levou as pessoas a aceitarem a autoridade de Deus. Ele é aceito como o servo de Deus e nós temos completo respeito por ele. Desconheço o que ele disse sobre o século 14, logo não posso responder este ponto. Você está mencionando os Santos Nomes de Nanak, Krishna, Kabir, Cristo, Maomé etc. Dentre todos esses nomes, aceitamos Krishna como o Senhor e todos os outros como servos de Deus que representam Deus, Krishna. No dicionário, é dito que Deus é o Ser Supremo, e, quando Krishna apareceu nesta Terra, Ele provou que é o Ser Supremo sob todos os aspectos. Estamos disseminando este Movimento da Consciência de Krishna por todo o mundo, e, se todos os líderes aceitassem esta filosofia do Bhagavad-gita Como Ele É, então estou certo de que o mundo teria a fortuna de seguir um tipo de religião e aceitar um Deus sem nenhuma convicção defeituosa.

Nesta segunda de oito correspondências de Prabhupada selecionadas para publicação no Amigos de Krishna, lemos um excerto da carta de Srila Prabhupada datada de 21 de março de 1976, endereçada ao Sr. Chittaranjan Mohapatra, Mayapur. Nesta carta, Srila Prabhupada enfatiza a importância de sanarmos nossas dúvidas sobre a nossa posição e a posição de Krsna com base na autoridade das escrituras reveladas. Exemplarmente tendo as escrituras por base, Prabhupada responde às perguntas: “Por que devemos sacrificar tudo por Krsna? O que é sacrifício?” e “Como podemos abandonar a atração pelo sexo oposto?”.

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Em resposta às suas perguntas de sua carta datada de 16/3/76, dirigidas ao meu secretário, peço permissão para oferecer-lhe as seguintes respostas com base nos sastras. Krishna é a Suprema Personalidade de Deus. O dicionário define Deus como o Ser Supremo, portanto Krishna é a Suprema Personalidade de Deus. Isso é confirmado no Bhagavad-gita: Mattah parataram nanyat, kincid asti . . .  [Bg. 7.7] “Não há Verdade superior a Mim. Tudo repousa em Mim, como pérolas ensartadas em um cordão”. E, em muitos outros sastras, Krishna é aceito como a Suprema Personalidade de Deus. Todos os acaryas, tais como Ramanuja, Madhvacarya, Nimbarka, o Senhor Caitanya e inumeráveis outros, chegaram a esta conclusão: que Krishna é a Suprema Personalidade de Deus.

Em relação à sua questão referente a por que deveríamos sacrificar tudo para Ele, a resposta é que Ele é a Suprema Personalidade de Deus, Ele é o Proprietário e o Desfrutador de tudo; Bhoktaram yajna tapasam sarva loka mahesvaram . . .  [Bg. 5.29]. Tudo pertence a Ele. Nós ilegalmente usurpamos Sua propriedade dizendo que isto é meu, aquilo é meu . . . Krishna advém para nos ensinar conhecimento verdadeiro, daí Ele dizer a você que pare de usurpar a propriedade dEle. Melhor entregar a Ele. Portanto, a perfeição da vida é quando entregamos ou devolvemos tudo a Ele, e Ele nos diz isso para o nosso benefício! Quando antes devolvermos tudo a Ele, melhor para nós. O nosso Movimento da Consciência de Krishna está ensinando este fato por todo o mundo.

Não se deve achar que Krishna é um homem comum. Se você pensa assim, então você não sabe nada sobre Krishna. Avajananti man mudha manusim tanum asritah . . . [Bg. 9.11]. “Os tolos zombam de Mim quando advenho na forma humana. Eles desconhecem Minha natureza transcendental e Meu domínio supremo sobre tudo o que existe”. Todos os mudhas ou patifes consideram Krishna como sendo um homem comum, mas Ele não é comum; Ele é o Ser Supremo. De onde você obtém essa informação de que Krishna é um homem comum como nós? Em nenhuma obra védica é dito que Krishna é um ser humano comum. No Brahma-Samhita, é dito: Isvara Parama Krishna . . . Ele é descrito como o Ser Supremo. Não sei com base em qual autoridade você pode dizer que Krishna é um ser humano comum como você ou eu.

Sacrifício não significa assassinato. O verdadeiro trabalho é yajna. Yajna significa Visnu. No Bhagavad-gita, prescreve-se yajna. Yajnarthat karmano 'nyatra loko 'yam karma-bandhanah . . . [Bg. 3.9]. “Trabalho tem de ser feito como um sacrifício a Visnu; do contrário, o trabalho ata o indivíduo a este mundo”. Yajna é algo prescrito na literatura védica. Yajna significa satisfazer o Senhor Visnu. Outro nome do Senhor Visnu é Yajna-purusa. A pessoa tem que O agradar de qualquer maneira que Ele queira. “Patram puspam phalam toyam yo me bhaktya prayacchati . . .  [Bg. 9.26]. Se alguém Me oferecer em devoção uma folha, uma flor, uma fruta ou água, Eu aceitarei”. Não essa oferenda caprichosa.

Você também perguntou: “Como posso abandonar a atração por mulheres?”. Quando você aprender a amar Krishna, então você pode esquecer seus desejos luxuriosos por mulheres. Outro nome de Krishna é Madan-Mohan. Quando Krishna está dentro do coração, então o Madan, ou desejos luxuriosos, é derrotado. Caso aprendamos a amar Krishna, os nossos desejos luxuriosos acabarão; do contrário, prosseguirão.

Nesta terceira de oito correspondências de Prabhupada selecionadas para publicação no Amigos de Krishna, lemos um excerto da carta de Srila Prabhupada datada de 14 de agosto de 1976, endereçada a Filhos e Filhas, Los Angeles. Nesta carta, Srila Prabhupada apresenta como os devotos devem “pagar” sua impagável dívida para com o mestre espiritual e explica como Krsna, embora inconquistável, voluntariamente Se permite ser conquistado caso sigamos o parampara, a linha de mestres e discípulos.

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Se vocês realmente se sentem endividados para comigo, então vocês devem pregar com tanto vigor quanto eu. Essa é a maneira apropriada de me pagarem. É claro que ninguém pode pagar a dívida para com o mestre espiritual, mas o mestre espiritual fica muitíssimo contente com essa atitude da parte do discípulo. No Bhagavad-gita, é dito, vyavasayatmika buddhir ekeha kuru nandana [Bg. 2.41]: “Aqueles que estão neste caminho são resolutos em seu propósito, e sua meta é apenas uma”. Nosso único afazer é permanecermos fixos no serviço devocional mediante o contentamento do mestre espiritual. Aqueles que não são fixos têm muitíssimas linhas de atuação (eka significa “uma”, e bahu significa “muitas”)

O verdadeiro oceano de misericórdia é Krsnsa, e é dever do mestre espiritual dizer a seu discípulo que vá para o oceano e seja feliz. O dever do mestre espiritual é conduzir o discípulo para esse oceano. Estou dando o meu melhor, e, caso vocês sigam, certamente vocês se beneficiarão.

Bhaktivinode Thakura canta: “Krsna sei tomara, krsna dite para, tomara sakati ache.  Ami ta'kangala, krsna krsna boli, dhai tava pache pache”. “Krsna é teu e tens o poder de dá-lO a qualquer um que queiras. Sou pobre e deplorável, e estou correndo atrás de ti gritando Krsna, Krsna!”.

Krsna é ilimitado, ninguém pode pegá-lO, mas, se alguém segue o parampara, Krsna concorda em ser capturado. Todos estão com medo de Krsna, mas Krsna está com medo de mãe Yasoda. Essa é a misericórdia especial de Krsna.

Neste quarto de oito e-mails com correspondências de Prabhupada selecionadas para publicação no Amigos de Krishna, lemos duas cartas mostrando o espírito missionário de Prabhupada e seu destemor diante de dificuldades, quer na Índia, quer no Ocidente. Na primeira carta, datada de 18 de setembro de 1976, endereçada a Gaura Govinda Maharaja, Bhuvanesvara, Srila Prabhupada explica o porquê da negligência à vida espiritual por parte dos indianos modernos e explica a seu discípulo indiano, o sannyasi Gaura Govinda, como se pode reviver a cultura indiana original. Na segunda carta, datada de 30 de outubro do mesmo ano, Nova Iorque, Srila Prabhupada orienta seu discípulo Tamala Krsna Goswami a como responder às oposições nos Estados Unidos.

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Em resposta à sua pergunta sobre por que a população indiana é tão negligente em relação à vida espiritual; durante o regime britânico, havia uma política secreta por parte dos britânicos com a finalidade de derrubar a civilização védica na Índia. Havia uma política confidencial dos governantes britânicos para matar a cultura original da Índia, e tudo o que era indiano foi condenado. Desde o começo, eles adotaram essa posição. Na nossa infância e meninice, tivemos de ler um livro de um Sr. Ghose, chamado “A Obra da Inglaterra na Índia”. O teor do texto era que nós somos incivilizados e que os britânicos haviam vindo para nos tornar civilizados. Posteriormente, a política se revelou exitosa, porque, em nossa infância, qualquer cavalheiro anglicanizado era tido como avançado em civilização.

Em Calcutá, o bairro Chowringhee era conhecido como o bairro inglês, e os locais vizinhos eram muito bem mantidos. Os bairros indianos eram conhecidos como bairro dos nativos, devido a que, em nossa própria cidade, havia semelhante divisão de bairros ingleses e bairros nativos. De qualquer modo, essa política mostrou-se exitosa quando os nossos líderes aceitaram tudo como fato. Mahatma Gandhi quis refutar essa posição de prestígio dos brancos, mas ele também fracassou por não compreender a cultura espiritual ou a consciência de Deus. Durante o tempo muçulmano; embora por vezes fanáticos, tendo havido casos de destruição de templos, não havia semelhante política de matar a cultura indiana. Em virtude disso, durante o período muçulmano, mesmo durante o tempo de Aurangazeb, havia príncipes indianos e líderes políticos, como Sivaji e Jaya Singh.

Então, trata-se de um longo processo como os indianos, especialmente os indianos instruídos, foram vitimados pela lenta deterioração da posição cultural da Índia, mas não há utilidade em traçar a história, mas, de modo geral, perdemos a nossa própria cultura, e os líderes, até o presente momento, não se mostram sérios quanto a reviver a nossa própria cultura. Entretanto, a massa geral, não sendo muito avançada em educação, mantém-se na cultura indiana. Por exemplo, lakhs de pessoas ainda visitam Jagannatha Puri durante o festival de Rathayatra, lakhs ainda vão ao Kumbha mela, e lakhs ainda visitam as terras sagradas da Índia, mas não há encorajamento por parte dos líderes. Trata-se simplesmente da continuação da cultura original.

Assim, não há desesperança: se revivermos a consciência de Krishna de uma maneira sistemática, dentro de pouco tempo podemos reviver nossa cultura indiana original com base nos ensinamentos do Senhor Krishna e do Bhagavad-gita. Então, temos que trabalhar muito duro para esse propósito, e, caso você siga o caminho de Sri Caitanya Mahaprabhu, isso será feito com muita facilidade.

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Em relação ao ponto referente a se o nosso movimento é fidedigno, você pode utilizar os seguintes argumentos. O Bhagavad-gita possui muitíssimas edições. Os nossos livros são mais antigos do que a Bíblia. Na Índia, há milhões de templos de Krsna. Deixe os juízes e juris lerem os nossos livros e receberem a opinião de estudiosos eruditos e de professores acadêmicos. Em relação ao segundo ponto referente à autoridade dos pais sobre seus filhos, aqui estão algumas sugestões. Os pais gostam que seus filhos se tornem hippies? Por que eles não detêm isso? Os pais gostam que seus filhos se envolvam em prostituição e intoxicação? Por que eles não detêm isso? Quando o governo pega as crianças para o serviço militar, nem os pais nem as crianças gostam disso. Essa questão deve ser levantada.

Há muitíssimos homens acima de 30. Eles sofreram lavagem cerebral? Pode ser minoria em seu país, mas, em outros lugares, é uma maioria. O vendedor de diamantes atende a necessidade de uma minoria. Por que eles têm autorização para vender? Sempre que há algo valioso, apenas uma minoria poderá arcar com o preço. Nossos livros não são comerciais; são livros de religião e filosofia.

Eles estão sentindo agora o peso deste movimento. Antigamente, eles pensavam que estas pessoas iam e vinham, mas agora eles veem que estamos ficando. Agora incendiamos. Isto prosseguirá; isto não pode ser detido. Vocês podem trazer enormes caminhões de bombeiro, mas o incêndio agirá. Os livros de lavagem cerebral já estão aí. Mesmo caso detenham externamente, internamente isso continuará. Nossa campanha de primeira classe é a distribuição de livros. Vá de casa em casa. A verdadeira luta é agora. Krsna lhe dará toda a proteção. Assim, cante Hare Krsna e lute. Um homem entendido de cinema apresentou a opinião de que há muitíssimas ideias em nosso movimento. Tente transformar nossas ideias em filmes.

Consiga a opinião de alguns professores acadêmicos indianos. Consiga uma lista de pedidos por débito automático por parte das universidades indianas. Aproveite essa oportunidade para sermos bem divulgado. Eles estão com medo. Muitíssimos jovens estão sendo afetados. Eles disseram corretamente que se trata de uma epidemia. Deixe que todos os indianos digam que é algo fidedigno. Consiga profusos depoimentos. Reúna depoimentos em Londres e Toronto. Peça a SubhaVilasa que reúna opiniões de que este movimento é a fidedigna cultura indiana. Esse mesmo ataque aconteceu na Alemanha. Mediante propaganda não se pode suprimir a verdade. Não se pode suprimir um incêndio através de propaganda. Agora temos que nos tornar fortes para nos defendermos. A briga se acirrou, mas, se você se ativer aos princípios reguladores, Krsna lhe dará toda força. Tudo o que é feito acontece pela misericórdia de Krsna. Eles estão com medo porque uma cultura diferente está conquistando a cultura deles. param drstva nivartate [Bg. 2.59]. Isso é natural. Se alguém encontrar algo melhor, ele abandonará o que tinha antigamente; como se pode deter? Isso é uma luta, não tema.

Nesta quinta de oito correspondências de Prabhupada selecionadas para publicação no Amigos de Krishna, lemos um excerto da carta de Srila Prabhupada datada de 4 de janeiro de 1973, endereçada a Madhukara, St. Louis. Nesta carta, Srila Prabhupada responde a seu discípulo que pede autorização para deixar sua esposa sob o argumento de que, na posição de vanaprastha, retirado da família, sua vida espiritual será melhor. Srila Prabhupada não apenas o responde objetivamente, mas também apresenta orientações gerais sobre a importância do cumprimento dos deveres ocupacionais que aceitamos e explica como o serviço devocional a Deus independe de qualquer consideração externa. Uma carta de extrema relevância a qualquer um que deseja conduzir sua vida tal qual Arjuna se conduziu após ouvir o Bhagavad-gita.

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Meu caro Madhukara,

Confirmo o recebimento de sua carta datada de 22 de dezembro de 1972, e considerei o conteúdo com atenção. Para essas perguntas feitas sobre marido e mulher, você está me pedindo para deixar sua esposa e aceitar a ordem vanaprastha de vida; para essas questões, você tem que consultar os presidentes e o GBC para obter permissão. Sim, conheço sua esposa Lilasakti, e sei que ela é muito séria e uma discípula avançada. Contudo, agora que você está casado com ela, há certas obrigações de acordo com a nossa consciência de Krsna ou sistema védico. Essas coisas não podem ser tidas como baratas, ou então tudo se tornará uma farsa. Apenas me caso sem considerar quão séria é a natureza da vida marital, e então, se há alguma pequena perturbação, ou se não gosto de minha esposa ou de meu marido, vou embora – todos os demais estão fazendo isso. Deste modo, tudo está virando uma grande desordem. Você diz que a companhia dela está dificultando seu avanço. Mas o sistema matrimonial da consciência de Krsna não deve ser tido dessa maneira, que, se há algum aborrecimento, isso significa que algo está estorvando o meu progresso espiritual, não. Uma vez adotada a vida de grhastha, mesmo que seja por vezes problemática, ela tem que ser cumprida como meu dever ocupacional...

Agora, desconheço a situação de seu caso em particular; estou apenas lhe dando a política geral e o entendimento básico. Jamais devemos pensar em nosso assim chamado avanço como condicionado por algum conjunto de circunstância materiais ou dependente de tais circunstâncias, tais como casamento, vanaprastha ou isto ou aquilo. O entendimento maduro da consciência de Krsna é que qualquer condição de vida em que eu esteja atualmente é a misericórdia especial de Krsna para comigo, em razão do que devo aproveitá-la da melhor forma possível para disseminar este movimento da consciência de Krsna e conduzir a missão de meu mestre espiritual. Caso eu considere meu próprio progresso pessoal ou minha própria felicidade pessoal ou qualquer outra coisa pessoal, isso é uma consideração material. Se houve infelicidade em casar-se, por que você se casou? O que quer que esteja feito está feito, isso é fato, mas estou apenas apontando que uma vez anteriormente você fez algo sem estudo apropriado de sua verdadeira responsabilidade, e, agora, você está cogitando novamente tomar uma decisão drástica de maneira similar. Portanto, considere tudo cuidadosamente à luz disto. Há um verso no Bhagavad-gita, yasman nodvijate loko lokan nodvijate ca yah/ harsamarsa-bhayodvegair mukto yah sa ca me priyah: “Aquele por quem ninguém é colocado em dificuldade e que não se perturba ficando ansioso, que é estável na felicidade e na aflição, é muito querido a Mim”. (12.15) Um erro de julgamento frequentemente feito pelos devotos neófitos é que, sempre que há alguma perturbação ou dificuldade, eles consideram que as condições ou circunstâncias externas sob as quais a dificuldade surgiu é a causa da dificuldade em si. Esse não é o fato. Neste mundo material, há sempre alguma dificuldade, independente de ser nesta situação ou naquela. Portanto, simplesmente mudar minha posição ocupacional ou meu status de vida não ajudará em nada. Porque o fato verdadeiro é que, se há alguma dificuldade com outros, isso é minha falta de consciência de Krsna, não deles. Isso está claro? Krsna diz que Seu devoto mais querido é aquele que não coloca outros em dificuldade; com efeito, aquele que não coloca ninguém em dificuldade. Assim, tente julgar a questão a partir destes pontos, se você não está colocando ou sua esposa ou você mesmo em dificuldade. A compreensão correta do Bhagavad-gita é a compreensão de Arjuna. Em outras palavras, Arjuna chegou à conclusão de que ele tem que cumprir seu dever ocupacional, não como uma obrigação material, por causa de esposa, família, amigos, reputação, integridade profissional etc. – não –, senão que ele tem que exercer as funções de sua posição de vida apenas como um serviço devocional realizado a Krsna. Isso significa que o serviço devocional é o que importa, não meu dever ocupacional. Mas isso não significa que, porque o dever ocupacional não é a consideração real, que devo abandoná-lo ou fazer outra coisa pensando que o serviço devocional pode ser praticado sob quaisquer circunstâncias pelas quais eu decida caprichosamente. Krsna recomendou a Arjuna que permanecesse como ele era, sem perturbar a ordem social e sem ir contra sua própria natureza apenas por conveniência. Nosso dever ocupacional não é arbitrário, o que significa que, uma vez que o tenhamos adotado como esfera de atuação; caso sejamos avançados em nosso entendimento, não o trocaremos por outro. Se a nossa devoção é o fator importante, que importa o que estou fazendo contanto que meu trabalho e minha energia sejam completamente devotados a Krsna? Krsna, por exemplo, é a Suprema Personalidade de Deus, e Ele não tem trabalho, tampouco tem algum afazer; ainda assim, Ele vem aqui para nos ensinar esta lição. Ele aceita não apenas Seu dever ocupacional como vaqueirinho, príncipe real, mas também aceita a vida matrimonial, Ele entra na política, Ele é filósofo, Ele é até mesmo quadrigário durante uma grande batalha: Ele não dá exemplo no qual Ele evita Seu dever ocupacional. Assim, se o próprio Krsna está mostrando mediante Sua própria conduta qual é a perfeição da existência, então devemos dar atenção a tal exemplo se somos inteligentes. Mesmo supondo que há uma esposa em casa, com filhos, isso não importa: isso não é impedimento para a nossa vida espiritual. E, uma vez que tenhamos aceitado essas coisas, os deveres ocupacionais, não devemos abandoná-los de maneira barata. Esse é o ponto. É claro que o nosso dever ocupacional é como pregadores da consciência de Krsna. Assim, temos que nos ater a esse serviço sob todas as circunstâncias – esse é o ponto principal. Portanto, casado, solteiro, divorciado, em qualquer condição de vida – minha missão de pregar não depende dessas coisas. O sistema varnasrama-dharma foi organizado cientificamente por Krsna para providenciar facilidades para levar as almas caídas de volta ao lar, de volta ao Supremo. E temos de pensar se fazemos bem em zombar desse sistema perturbando caprichosamente a ordem. Não será um bom exemplo se muitíssimos rapazes e moças se casarem tão casualmente e, em seguida, afastarem-se um do outro e a esposa ficar um pouco infeliz pelo esposo a estar negligenciando de muitíssimas maneiras. Se estabelecermos esse exemplo, como tudo prosseguirá apropriadamente?...

Assim, introduzi este sistema matrimonial em seus países ocidentais porque existe o costume de homens e mulheres se misturarem livremente. Portanto, o casamento é necessário apenas para ocupar as moças e os rapazes no serviço devocional, independente de distinções de posição de vida. Mas o nosso sistema matrimonial é um pouco diferente do sistema no país de vocês: não sancionamos a política de rápido divórcio. Cabe-nos aceitar o esposo ou a esposa como companheiros eternos ou eternos assistentes no serviço da consciência de Krsna, e fazemos a promessa de jamais nos separarmos. É claro que, se há algum caso de discípulos muito avançados, e o casal unido pelo matrimônio concorda que o esposo agora deve aceitar sannyasa, ou a ordem renunciada de vida, estando mutuamente muito felizes com o arranjo; para semelhante separação, há espaço. Mas, mesmo nesses casos, não há questão de separação; o esposo, mesmo se ele está em sannyasa, ele tem que se certificar de que sua esposa será bem cuidada e receberá proteção em sua ausência. Agora existem muitíssimos casos de infelicidade por parte da esposa que foi abandonada pelo marido contra a vontade dela. Assim, como posso sancionar tal coisa? Quero evitar estabelecer qualquer mau exemplo para as gerações futuras; portanto, estou considerando com muita cautela seu pedido. Contudo, caso se torne muito fácil eu me casar e, em seguida, deixar minha esposa sob a desculpa de que a vida marital é um impedimento para o progresso espiritual pessoal, isso não será nada bom. Isso é um entendimento equivocado do que é avanço na vida espiritual. O dever ocupacional tem que estar presente, quer este, quer aquele, mas, uma vez que eu esteja ocupado em algum dever ocupacional, então não devo mudá-lo ou abandoná-lo: esse é o pior erro. O serviço devocional não é atado por tais designações. Portanto, uma vez que eu tenha escolhido, é melhor eu ater-me a esse caminho e desenvolver minha atitude devocional até o completo desabrochar do amor pelo Supremo. Essa é a compreensão de Arjuna.

Neste sexto de oito e-mails com correspondências de Prabhupada selecionadas para publicação no Amigos de Krishna, lemos um trecho do diário do servo pessoal de Prabhupada de nome Hari-sauri Prabhu. No trecho selecionado, conhecemos a empolgada carta do vendedor de livros Uttamasloka, a reação de Prabhupada ouvindo a mesma e, por fim, a carta ditada em resposta, na qual o fundador do movimento Hare Krsna expressa claramente seu apreço por aqueles que o auxiliam na divulgação da consciência de Krsna através da venda de livros devocionais. Cortesia BBT Brasil.

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Hamsaduta Prabhu leu alto um relatório extático escrito por Uttamasloka Dasa, o presidente do templo de Chicago, embora ele não fosse endereçado diretamente a Srila Prabhupada. Ele descrevia os esforços dos devotos na recente quebra de recorde da competição de distribuição de livros do dia de Ações de Graças. Dos 5.000 livros vendidos pelos três templos; Chicago, assistido por brahmacaris do grupo de sankirtana itinerante Radha-Damodara, vendeu mais de 2.000. A carta havia sido escrita por Ramesvara Prabhu e então enviada. Hamsaduta a leu alto enquanto Prabhupada ouvia com seus olhos às vezes arregalados de perplexidade e apreciação ante o conhecimento do incrível empenho e risco que seus discípulos estão aceitando para distribuir seus livros por este mundo de escuridão:

“Nós levamos o desafio a sério – não que estejamos envaidecidos ou excessivamente certos da vitória – porque sabemos que qualquer coisa pode acontecer através da misericórdia do Senhor Caitanya. Então, a primeira equipe saiu – 16 homens e mulheres – e eles estavam distribuindo livros desde cerca de 6 horas e 30 da manhã. Em seguida, um pequeno grupo saía por volta de 10 horas da manhã com mais livros e prasada, e, posteriormente, ao longo do dia, vários outros saíam. No total, havia aproximadamente 25 devotos no aeroporto ao longo do dia. Sripati e eu vagueávamos ajudando de diferentes maneiras, como o senhor fazia. Havia os 17 distribuidores regulares mais Tripurari Svami e dois regulares nos finais de semana e mais alguns recém-chegados”.

“Na primeira uma hora e meia, a maioria dos distribuidores haviam vendido de 15 a 25 livros; assim, quando nos recolhemos (cerca de 11 horas da manhã), eles haviam feito aproximadamente de 300 a 400 livros! As manhãs são sempre boas. Tudo é calmo; sem muita publicidade e nada de intervalos ou perturbações. Todos nós nos reunimos para almoçar à 1 hora da tarde e fizemos um levantamento preliminar: mais de 750 livros – estávamos próximos de quebrar o recorde mundial ao longo do dia. Até à 1 hora, Manusuta dasa já havia feito 100!!!!!! Praghosa dasa 80!!!! e Tripurari Swami 70!!!!! Começamos a nos arrepiar um pouco enquanto especulávamos sobre os resultados potenciais, e à 1 hora e 30 todos já havíamos voltado a distribuir”.

“Basicamente, distribuímos em dois terminais... há um corredor de cerca de 7m e meio de largura pelo qual as pessoas se afunilam depois de virem dos ‘dedos’... Todos os passageiros passam por ali em seu caminho para o local de recebimento da bagagem e também para pegarem seus respectivos voos... Vimos no jornal na manhã seguinte que mais de 220.000 pessoas passaram pelo aeroporto naquele dia!!!!”.

“Por volta de 4 horas da tarde, um funcionário demoníaco das companhias aéreas foi até um devoto e lhe deu um soco na cara; as pessoas ficaram chocadas. Então, ele foi até outro devoto e lhe deu um soco na cara! As pessoas e os karmis começaram a se juntar. Tripurari Swami foi correndo ver o que estava acontecendo; o demônio lhe deu um soco na cara!!! Todos os devotos imediatamente pularam sobre o demônio e começaram a dar nele para valer!!!!!!! Havia uma grande multidão ao redor, e os devotos gritavam pela polícia para que ela detivesse aquele homem. Havia sangue no seu rosto e no chão. O soco de Praghosa havia arrancado sangue e havia gotas de sangue na roupa de Praghosa e gotas de transpiração em seu rosto: ele sentia grande bem-aventurança!!”.

Os olhos de Prabhupada estavam arregalados ante a descrição da luta. “Accha!”, ele disse surpreso, balançando sua cabeça maravilhado com os riscos que seus homens estavam aceitando em seu nome e em nome de Krsna. Hamsaduta, descrente, ria e balançava a sua cabeça enquanto continuava lendo.

“Metade da multidão estava a nosso favor, e metade, contra. A polícia chegou, e o demônio disse que nós havíamos lhe dado um livro e então o havíamos pegado de volta e iniciado uma briga. A polícia prendeu os devotos! Isso é típico de todos os incidentes – eles nos atacam e nós somos detidos. De qualquer forma, de uma maneira ou outra, pela graça de Krsna, os devotos foram liberados e voltaram a distribuir em 20 minutos”.

“Por volta de 6 horas da noite, fiz um levantamento preliminar... Eu me sentei na cabine telefônica e comecei a somar tudo. À medida que eu somava, minhas sobrancelhas subiam cada vez mais! Meus olhos começaram a saltar para fora de suas órbitas!! Minha boca se fez aberta! Eu estava sem palavras! Lágrimas começaram a verdadeiramente fluir de meus olhos! Nós havíamos passado de 1400 livros! Eu não podia acreditar; eu estava chocado e recontei para ter certeza, e a certeza veio: estava certo. Eu comecei a gritar em êxtase: ‘Haribol! Haribol! Haribol!’. Todos os karmis estavam olhando para mim através da cabine telefônica com uma cara esquisita de espanto...”.

“Quando voltei para lá, havia acontecido outro incidente... Uma dupla de policiais sem farda havia tentado pegar uma das devotas para prendê-la, e ela tentou conseguir um dos devotos para ajudá-la. Um dos devotos tentou intervir e eles o prenderam e levaram para o andar debaixo. Outra mãe desceu para encontrar a garota que eles haviam detido e, quando os policiais a viram, eles disseram: ‘Onde está a outra garota?’. ‘Eu não sei’, ela disse. ‘Certo, então nós vamos prender você!’. ‘Hei! Me soltem! Eu não fiz nada!’. Dois pequenos tumultos irromperam com os dois devotos e a polícia. Outro devoto entrou para parar tudo... e a polícia se voltou para ele e os três deles bateram nele no chão impiedosamente em frente aos espectadores curiosos! As armas de um dos policiais caiu durante o tumulto e livros se espalharam por toda parte. Os devotos foram então levados para a prisão na cidade (os dois devotos homens). Naturalmente, isto nos custou 100 livros em nossa pontuação”.

Deveras enlevado, Prabhupada estava ouvindo com grande atenção, ocasionalmente levantando suas sobrancelhas em surpresa e balançando sua cabeça e sorrindo em apreciação. Ele estava luminoso devido a um óbvio orgulho decorrente da determinação de seus discípulos em vender seus livros apesar de todos os obstáculos, e ele ouviu a toda a descrição, letra por letra.

“Enquanto ouvíamos sobre este incidente e tomávamos prasada, um demônio que havia encontrado três livros os rasgou e os atirou no meio de nós. Inalterados; um pouco cansados, mas intrépidos em sua determinação, os devotos voltaram à distribuição. Enquanto isso, uma forte nevasca teve início, e o tráfego, tanto terrestre como aéreo, começou a ter dificuldades e a reduzir. Às 10 horas e 30 da noite, recebi um relatório de Sripati: mais de 1.700 livros – devemos quebrar a marca de 2.000!!!! Isso é incrível!! Quem pode imaginar a misericórdia do Senhor Caitanya Mahaprabhu? Apenas quatro dos homens voltaram às 11 e 30 da noite – Manusuta, com 191; Praghosa, com 153; Tripurari Swami, com 135, e Ranganatha, com 120... A primeira equipe retornou pelo nevoeiro às 2 horas da madrugada, e as outras pararam por volta de 1 e 30 ou 2 horas. Todos se esforçaram e se levantaram para o mangala arati (os últimos quatro a chegarem nem mesmo foram dormir) e, após um kirtana extático, eu fui pegando os resultados finais... Na quinta-feira, jejuamos da primeira refeição e cantamos e então dormimos até o arati da tarde, quando fizemos um grande arati e um grande kirtana e, depois, fizemos um grande banquete!!!!”.

“Obrigado por nos inspirar a competir pela misericórdia do Mestre Espiritual. Se não fosse pelo senhor, nós não saberíamos o que fazer. Todas as glórias a Srila Prabhupada!”.

“Seu servo, Uttamasloka dasa”.

Outra página trazia o total de cada distribuidor. Dois homens haviam vendido, juntos, mais de 400 livros: Manusuta estabeleceu um novo recorde mundial individual com 210 livros, e Praghosa estava logo atrás dele com 200 livros. Outros sete, Tripurari Svami, Ranganatha, Romapada, Buddhimanta e Preraka prabhus, juntamente com duas mulheres, Sadbhuja e Jagaddhatri dasis, superaram a marca de dois mil. O grande total foi de 2.042 livros de capa dura.

Abaixo da lista, Uttamasloka adicionou uma nota a Ramesvara: “Minha humilde sugestão e pedido é que você leia esta carta e todo o seu conteúdo para os devotos reunidos em New Dvaraka Dhama. Muito embora ela seja composta irregularmente e esteja repleta de erros, ela é, ainda assim, muito prazerosa transcendentalmente e será apreciada por todos”.

No topo da carta, Ramesvara escrevera em letras grandes, claras e maiúsculas: “O MAIS EXTÁTICO BOLETIM DE SANKIRTANA DE TODOS OS TEMPOS! DEVE SER LIDO EM VOZ ALTA PARA TODOS OS DEVOTOS REUNIDOS!”.

Quando Hamsaduta terminou, Srila Prabhupada ostentava um imenso sorriso em seu rosto, claramente satisfeito e obviamente desfrutando de êxtase transcendental. Ele ditou sua resposta, não a Ramesvara, mas a Uttamasloka. “Por favor, aceite minhas bênçãos. Foi com grande deleite que li sua carta de sankirtana. A Europa e a América estão em grande perigo; este Movimento Hare Krsna está dominando todos os dois. Os devotos sankirtaneiros são muitíssimo queridos a Krsna. Como eles estão fazendo o trabalho de campo de distribuição de livros, Krsna imediatamente os reconhece como verdadeiros servos. Exatamente como quando em tempos de guerra um jovem fazendeiro ou funcionário comum vai lutar por seu país na frente de batalha e imediatamente se torna herói nacional em razão de seu empenho sincero. Assim, Krsna imediatamente reconhece um pregador da consciência de Krsna que aceita todos os riscos para entregar a Sua mensagem”.

“Isto se chama dhira bratta – determinação. Esses jovens e moças são mahatmas – mahatmanas tu mam partha, daivim prakrtim asritah, bhajanty ananya manaso, jnatva bhutadim avyayam: ‘Ó filho de Prtha, aqueles que não se iludem, as grandes almas, estão sob a proteção da natureza divina. Eles estão completamente ocupados em serviço devocional porque Me conhecem como a Suprema Personalidade de Deus original e inexaurível’. Este verso é aplicável aqui. Se estes garotos estivessem sob a natureza material, eles não estariam aceitando tantos riscos. Eles são mahatmas – verdadeiros mahatmas –, não aqueles mahatmas de barba longa e roupa açafrão. Eles são inabaláveis em sua determinação, dhira bratta. Todas as glórias aos devotos americanos!”.

Neste sétimo de oito e-mails com correspondências de Prabhupada selecionadas para publicação no Amigos de Krishna, lemos um capítulo da obra A Ciência da Autorrealização. Em 1972, um distinto grupo de profissionais se reuniu na cidade Windsor, no Canadá, para discutir “os problemas as­sociados às tentativas de definir o momento exato da morte”. Entre os membros do grupo, encontravam-se o Dr. Wilfred O. Bigelow, cardiologista mundialmente famoso; o senhor juiz Edson L. Haines, da Suprema Corte de Ontário; e Francis Leddy, reitor da Universidade de Windsor. O Dr. Bigelow defendia a existência da alma, e solicitou uma investigação sistemática para determinar o que é a alma e de onde ela vem. Os comentários do Dr. Bigelow e dos outros membros do grupo foram logo publicados na Montreal Gazette. Quando Srila Prabhupada leu o artigo, ele escreveu uma carta ao Dr. Bigelow, na qual apresentou conhe­cimento védico substancial acerca da ciência da alma, e sugeriu um método prático para entendê-la cientificamente. Em conti­nuação, reproduzimos o artigo e a resposta de Srila Prabhupada. Cortesia BBT Brasil.

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Manchete: Cirurgião Cardiologista Quer Saber o que É a Alma

WINDSOR – Um cirurgião cardiologista do Canadá mundial­mente famoso diz acreditar que o corpo possui uma alma que parte à hora da morte e sobre a qual os teólogos deviam tentar descobrir mais.

Dr. Wilfred O. Bigelow, chefe da unidade de cirurgia cardiovas­cular do Hospital Geral de Toronto, disse que, “sendo uma pessoa que crê na existência de uma alma”, ele achava que era chegado o momento de “desvendar o mistério dessa alma e descobrir o que ela é”.

Bigelow foi membro de um júri convocado perante a Sociedade Médico-legal do Condado de Essex para discutir problemas ligados às tentativas de definir o momento exato da morte.

A questão tem se tornado vital na era dos transplantes de co­rações e outros órgãos cedidos por doadores sujeitos a morrer inevitavelmente.

A Associação Médica Canadense produziu uma definição am­plamente aceita da morte: momento em que o paciente entra em coma, não responde a estímulos de espécie alguma e as ondas cere­brais registradas em uma máquina são horizontais.

Os outros membros do júri foram o senhor juiz Edson L. Haines, da Suprema Corte de Ontário, e J. Francis Leddy, presidente da Universidade de Windsor.

Bigelow, elaborando os pontos que levantou durante a discus­são, disse em uma entrevista posterior que seus trinta e dois anos como cirurgião não lhe deixavam dúvida alguma sobre a existência da alma.

“Há determinados casos em que acontece de você estar presente no momento em que as pessoas passam do estado de vida ao da morte, e algumas transformações misteriosas acontecem”.

“Uma das mais notáveis é a repentina falta de vida ou brilho nos olhos. Eles se tornam opacos e literalmente sem vida”.

“Isto é apenas para testemunhar o que temos observado. De fato, não creio que isso possa ser bem documentado”.

Bigelow, que se tornou mundialmente renomado por seu tra­balho pioneiro na técnica cirúrgica do “congelamento profundo”, conhecida como hipotermia, e por sua cirurgia da válvula do co­ração, disse que “a investigação da alma” deveria ser feita pela teo­logia e disciplinas aliadas dentro da universidade.

Durante essa discussão, Leddy disse que, “se existe uma alma, você não verá a mesma. Você não a encontrará”.

“Se há um princípio vital ou vida, que principio é este?”. O pro­blema é que “a alma não existe em nenhuma parte específica do corpo. Ela está em toda parte e, ao mesmo tempo, não está em parte alguma do corpo”.

Seria “bom começar experimentando, mas eu não sei como o senhor poderá penetrar nessas coisas”, disse Leddy. Ele disse que a discussão o lembrava do cosmonauta soviético que regressou do espaço para informar que Deus não existia porque não O vira lá em cima.

Talvez seja assim, disse Bigelow, mas, na medicina moderna, quando se encontra algo que não pode ser explicado, “o lema é descobrir a resposta, levar o caso ao laboratório, levá-lo a algum lugar onde se possa descobrir a verdade”.

A questão central, disse Bigelow, seria: “Onde está a alma e de onde ela vem?”.

Srila Prabhupada Apresenta as Evidências Védicas

Meu caro Dr. Bigelow,

Por favor, aceite minhas saudações. Recentemente, li um artigo na Montreal Gazette, de autoria de Rae Corelli, intitulado “Cirurgião Cardiologista Quer Saber o que É a Alma”, o qual me despertou muito interesse. Seus comentários mostram uma compreensão profunda, em razão do que pensei em escrever-lhe sobre este assunto. Talvez o senhor saiba que eu sou o acarya fundador da Sociedade Internacional da Consciência de Krishna. Tenho vários templos no Canadá – Montreal, Toronto, Vancouver e Hamilton. Este movimento da consciência de Krsna destina-se especificamente a ensinar a todas as almas sua posição espiritual original.

Indubitavelmente, a alma está presente no coração da entidade viva, e é a fonte de todas as energias para a manutenção do corpo. A energia da alma se espalha por todo o corpo, e isso se chama consciência. Uma vez que essa consciência espalha a energia da alma por todo o corpo, podemos sentir dores e prazeres em qual­quer parte do corpo. A alma é individual, e transmigra de um corpo a outro, assim como uma pessoa transmigra da primeira infância à segunda infância, da segunda infância à adolescência, da adoles­cência à juventude, e, depois, à velhice avançada. Então, a mudança chamada morte ocorre quando mudamos para um novo corpo, assim como trocamos uma roupa velha por outra nova. Isto se chama transmigração da alma.

Quando a alma quer desfrutar deste mundo material, esquecida de seu verdadeiro lar no mundo espiritual, ela aceita esta vida de árdua luta pela sobrevivência. Esta vida artificial de repetidos nas­cimento, morte, velhice e doença pode ser parada quando sua consciência é encaixada na consciência suprema de Deus. Esse é o princípio básico de nosso movimento da consciência de Krsna.

No que diz respeito ao transplante de coração, não há possibilidade de sucesso a menos que a alma esteja presente no coração, de modo que a pre­sença da alma tem de ser aceita. No intercurso sexual, se não há alma, não há concepção, nem gravidez. Os anticoncepcionais deterioram o ventre para que este não seja mais um bom lugar para a alma. Isso vai de encontro à lei de Deus. Pela ordem de Deus, a alma é enviada a um ventre em particular, mas, através desses métodos anticoncepcionais, aquele ventre é-lhe negado e ela tem de ser co­locada em outro ventre. Isso é desobediência ao Supremo. Tomemos como exemplo um homem que vive em um apartamento parti­cular. Se a situação ali é tão conturbada que ele não pode sequer entrar no apartamento, então ele está em grande desvantagem. Isso é interferência ilegal e é passível de punição.

A aceitação da “investigação da alma” marcaria certamente um avanço da ciência, mas o avanço da ciência não será capaz de encontrar a alma. A presença da alma pode simplesmente ser aceita com base em um entendimento circunstancial. O senhor encontrará na literatura védica que a dimensão da alma é de uma décima milésima parte do tamanho de um ponto. O cientista material não pode medir as dimensões de um ponto. Portanto, não é possível que o cientista material apreenda a alma. Podemos simplesmente aceitar a existência da alma baseando-nos na autoridade. O que os maio­res cientistas tentam descobrir, nós já ensinamos há muito tempo.

Tão logo se entenda a existência da alma, pode-se imediatamente entender a existência de Deus. A diferença entre Deus e a alma é que Deus é uma alma muito grande, e a entidade viva é uma alma muito pequena, mas, qualitativamente, eles são iguais. Portanto, Deus é onipenetrante e a entidade viva é localizada, mas a natu­reza e a qualidade são as mesmas.

A questão central, diz o senhor, é: “Onde está a alma e de onde ela vem?”. Isso não é difícil de entender. Já discutimos que a alma re­side no coração da entidade viva e que ela se refugia em outro corpo após a morte. Originalmente, a alma vem de Deus. Assim como uma centelha vem do fogo, e, ao cair, parece extinguir-se, a centelha-alma originalmente vem do mundo espiritual para o mundo material. No mundo material, ela cai sob três condições di­ferentes, que são chamadas os modos da natureza. Quando uma centelha de fogo cai sobre a grama seca, a qualidade ígnea conti­nua; quando cai no solo, ela não pode revelar sua manifestação ígnea a menos que o solo esteja em situação favorável; e, quando cai na água, ela se extingue. Sendo assim, encontramos três tipos de condições de vida. Uma entidade viva está completamente esquecida de sua natureza espiritual; outra está quase esquecida porém ainda possui um instinto da natureza espiritual; e a outra está completamente em busca da perfeição espiritual. Há um método genuíno para a centelha espiritual alcançar a perfeição espiritual, e, se ela é devidamente orientada, é facilmente encaminhada de volta ao lar, de volta ao Supremo, de onde ela caiu originalmente.

Será uma grande contribuição para a sociedade humana se esta informação autorizada da literatura védica for apresentada ao mundo moderno com base no entendimento científico moderno. O fato já existe. Resta ser apresentado para o entendimento geral.

Neste oitavo de oito e-mails com correspondências de Prabhupada selecionadas para publicação no Amigos de Krishna, lemos uma carta de Srila Prabhupada ao Dr. Alistair Hardy, do Departamento de Pesquisa em Experiência Religiosa da Faculdade Manchester. A carta é uma continuação do diálogo entre os dois no dia anterior à escrita desta, e na carta, datada de 28 de julho de 1973, encontramos as reflexões embasadas de Srila Prabhupada acerca da importância absoluta da consciência de Krsna. Cortesia BBT Brasil.

* * *

Caro Sr. Alister Hardy,
Permita-me agradecer-lhe por ter comparecido em meu espaço ontem à noite. Tivemos um ótimo diálogo sobre a experiência religiosa, e estudei suas respostas às minhas perguntas muito atentamente.
Minha primeira pergunta foi “qual é o problema da vida humana?”. Então, já expliquei que o problema é que, no momento presente, não há compreensão adequada de Deus. A vida humana destina-se especialmente a este fim, compreender Deus. É bastante natural que cães e gatos ou animais inferiores ou homens quase iguais a animais não consigam compreender Deus, tampouco eles julgam que compreender Deus e sua relação com Ele seja algo necessário.
Segundo o entendimento védico, um ser humano sem compreensão acerca de Deus não é melhor do que um animal, e essa é uma proposição prática, pois se trata da única diferença entre um animal e um homem. Para o homem, existe algum sistema religioso, alguma escritura, seja a Bíblia, o Corão, o Bhagavad-gita ou o Srimad-Bhagavatam, isso não importa, mas em todo lugar há um sistema religioso, um sistema filosófico para se tentar compreender o poder supremo. Em seu instituto de pesquisa, o senhor também está tentando explicar o poder supremo. Seu instituto de pesquisa é o mais atual no estudo desse poder supremo. Portanto, a conclusão correta é que o problema da sociedade humana, no momento presente, é compreender Deus, ou, como o senhor diz, o poder supremo.
Quando falamos de poder, isso significa que tem de haver uma fonte para tal poder. Por exemplo, podemos falar do poder ou energia elétrica, o que imediatamente sugere que tem de haver uma fonte para esse poder ou energia, que é a central elétrica, e a central elétrica está sendo conduzida por algum engenheiro. Deste modo, há, em última instância, uma força viva, uma entidade viva, a qual está gerando o poder através de um arranjo mecânico, e podemos experienciar seu poder de muitíssimas maneiras. O senhor tentou explicar em seu livro que “as descobertas de tal pesquisa podem desencadear uma nova fase na história da religião; as pessoas podem ser levadas a tentar o experimento de aproximarem-se desse poder de sua própria maneira, não através de oração ou alteração dos eventos físicos ou por segurança nacional ou metas materiais, mas por força espiritual e orientação para um melhor estilo de vida, ou talvez para que se saiba como melhor lidar com algumas dificuldades”. Isso é realmente muito bom.
Quando o senhor diz que “as pessoas podem ser levadas a tentar o experimento de aproximarem-se desse poder”, é válido apontar que poder é energia, logo, quando falamos de aproximação do poder, isso indica o poderoso, pois poder não é algo independente, senão que a existência do poder é condicionada à existência do todo-poderoso – isto é sensato: buscar o poderoso. Sem o poderoso nenhum poder pode existir. Um político ou um grande general exibe seu poder como o poderoso através de seu comando ou de sua ordem. Portanto, seu entendimento do poder não é completo; o senhor tem que levar as pessoas a se aproximarem desse poder supremo. Podemos entender poder na riqueza: Se um homem é muito rico, ele é poderoso e pode exibir seu poder gastando dinheiro. Similarmente, se um homem é muito forte, ele pode exibir seu poder de muitíssimas maneiras. De modo similar, se um homem é altamente instruído, ele também é poderoso, e pode influenciar muitos homens com seu conhecimento. Portanto, temos de aceitar que, por trás do poder, tem de haver o poderoso; do contrário, nosso conhecimento é imperfeito.
Quando compreendemos o poderoso, podemos de imediato conhecer seus diferentes poderes perfeitamente. O poderoso possui poderes múltiplos. Se uma pessoa pode compreender o que é esse Deus poderoso, então ela pode facilmente compreender quais são seus poderes. Assim, todo este mundo está sendo conduzido pelo poder da pessoa suprema, ou o poderoso.
O único problema que enfrentamos é estar negligenciando o entendimento do poderoso supremo. Os problemas subsidiários, como o senhor declarou – por exemplo, superpopulação –, foram criados pelo homem. Se aceitamos que a verdade última é o poderoso, então o poderoso pode manter qualquer contingente populacional; do contrário, não há significado em Poderoso se ele se sujeita a alguma limitação. O poderoso supremo é ilimitadamente poderoso, e podemos ver na prática que o problema da superpopulação inexiste entre os animais. Os elefantes, por exemplo, não estão pensando onde obterão comida. Ou, por exemplo, os gatos e cães e porcos, que produzem, de uma vez, meia dúzia de filhotes ou mais, de modo que, em comparação a eles, o homem produz muito pouco, um filho ou dois filhos. Antigamente, o homem costumava ter centenas de filhos; no momento atual, um homem tem dois, três ou, no máximo, dez filhos. Então, onde está a questão de superpopulação? Entendemos a partir da história do Mahabharata que Dhrtarastra teve cem filhos, mas há muitos outros exemplos também. Maharaja Rsabhadev teve cem filhos, de maneira que eles foram grandes homens de destaque na história em que se menciona os homens mais importantes. É seguro concluir, portanto, que, se o rei pode produzir cem filhos, os subordinados também podem produzir cem filhos; caso nem todos o possam, ao menos alguns deles poderão. Então, naquele tempo, não havia questão de superpopulação; não encontramos tal coisa na história do Mahabharata.
Na verdade, não é uma questão de população excessiva, mas sim de distribuição igualitária de alimento. Na América, por exemplo, eles estão produzindo comida o suficiente, e há potencial para se produzir mais. O governo, no entanto, proíbe que os fazendeiros produzam mais. O problema não é a população ter crescido, mas sim a má gestão da distribuição. Ainda, pela industrialização, reduzimos a energia empregada na produção de alimentos em favor da produção de outras coisas. Então, no todo, não é uma questão de superpopulação, mas de distribuição igualitária de alimento, ou produção de alimento. Devido à falta de consciência de Deus, esse erro está presente.
Se Deus é todo poderoso, ele pode não concordar, ou ao menos sua agente, a natureza material, em fornecer alimento suficiente para os demônios. Demônios significa pessoas destituídas de Deus. Temos no Srimad-Bhagavatam o relato do evento histórico de que, durante o tempo de Maharaja Prthu, havia escassez de comida, de maneira que o rei quis punir a deidade terrestre por ela não estar fornecendo alimentos. Ele quis matá-la. A deidade terrestre, porém, respondeu que ela havia reduzido o fornecimento de alimento porque não gostava de prover os demônios. Assim, não é uma questão de superpopulação, mas sim uma questão de população demoníaca. O número de demônios cresceu, em consequência do que, por natureza, a provisão é reduzida. Como discutimos sobre aquele verso do Bhagavad-gita, “A produção de alimento depende da água que cai do céu”, e isso não está em nossas mãos. Porque nos tornamos ateístas, porque paramos com sacrifícios ou yajna, o que significa adorar a Suprema Personalidade de Deus, o fornecimento de chuva pode ser interrompido. Deus pode não estar irado, mas seus agentes, como a natureza material, não gostam de fornecer alimentos o suficiente aos demônios. Essa é a explicação da literatura védica.
No momento presente, as pessoas são todas demoníacas; elas não se importam com a vida pecaminosa, senão que estão matando irrestritamente os animais, o que é a atividade mais pecaminosa – desnecessária. As pessoas estão entregues a toda sorte de hábitos intoxicantes, e desnecessariamente se ocupam em prostituição. Os homens demoníacos tiram proveito das mulheres que não têm esposo e tiram proveito de seus corpos para gratificação dos sentidos. Tais coisas estão acontecendo porque não têm conhecimento acerca do poderoso. Assim, o verdadeiro problema é carência de consciência de Deus. As pessoas precisam conhecer esse poder, em decorrência do que os outros problemas serão solucionados automaticamente.
Similarmente, o problema da subnutrição tem a mesma causa: A subnutrição é outra vertente da vingança da natureza contra a população demoníaca.
Poluição do meio ambiente é um problema que as pessoas na América estão vendo com grande preocupação. Esse problema também se deve à falta de consciência de Deus. As pessoas, em vez de produzirem alimento, estão produzindo em grandes quantidades necessidades artificiais, para as quais muitíssimas indústrias estão trabalhando a todo vapor. Industrialização significa levar as pessoas cada vez mais para longe da consciência de Deus. Os operários, os trabalhadores na fábrica, são todos sudras, e os capitalistas da indústria são vaisyas, de forma que toda a população agora se compõe de vaisyas e sudras, o que significa que as qualidades da paixão e da ignorância estão proeminentes agora. Uma pessoa em paixão ou uma pessoa em ignorância não pode compreender o Poderoso, senão que apenas aqueles que estão em Bondade ou misturados em Bondade e paixão podem compreender o poderoso. Deste modo, é necessário transformar as pessoas ignorantes em pessoas com verdadeiro conhecimento. Por conseguinte, essas pessoas devem se tornar conscientes de Deus, e esse é o nosso programa. Qualquer um, de qualquer grupo – quer sudra, quer vaisya, quer qualquer grupo abaixo de sudra –, estamos aceitando e tornando-os inteligentes e dando-lhes uma chance de compreenderem o poder supremo.
Então, por toda parte, o verdadeiro problema é compreender o poder supremo, e todos os outros problemas são subsidiários. Não há problema de superpopulação caso as pessoas se tornem conscientes de Deus. O todo-poderoso pode fornecer qualquer soma de necessidades das pessoas, e elas podem comer muito bem, de modo que não há questão de subnutrição. Por carência de conhecimento referente ao poderoso supremo, todos esses problemas veem à tona.
Então, o senhor mencionou os problemas dos conflitos entre interesses raciais e nacionais, os quais frequentemente acarretam guerras. Esse problema também se deve à falta de Consciência de Deus, porque a consciência de Deus significa compreender que todos nós somos filhos da mesma família. Isso é declarado no Bhagavad-gita, que o Senhor Supremo tem de ser o pai supremo. Eu tenho o meu pai, ele tem o pai dele, e ele tem seu pai e assim por diante há pai de um pai de outro pai – deste modo, ninguém pode negar que tem de haver um pai supremo. Assim, esse pai último é Deus. Portanto, em toda escritura, o poderoso supremo é tratado como pai, e, no Bhagavad-gita também, o poderoso supremo é mencionado como o pai supremo que dá a semente. Porque estamos nos esquecendo do pai, porque estamos nos esquecendo de que somos todos servos de um pai supremo, estamos perdendo nossa verdadeira relação entre uma entidade viva e outra. Se realmente compreendemos que nascemos do mesmo pai e que tudo o que existe na superfície do globo, no céu e na água é propriedade do pai supremo, então temos de compreender que todos têm o direito de utilizar a propriedade do pai supremo. Uma grande família, por exemplo, é similar: O pai está presente, a mãe está presente e os filhos estão presentes. O pai fornece alimento aos filhos tanto quanto eles necessitem. Um filho talvez seja um comedor muito voraz, em consequência do que ele talvez coma mais do que os outros filhos, mas o pai o supre, o pai não o detém, senão que o pai é competente em suprir todos os filhos tanto quanto eles necessitem. Contudo, se um filho armazena artigos alimentícios, isso é pecaminoso. Você não pode pegar mais do que você necessita. Vemos na prática que, se você atira um saco de grãos na rua, muitos passarinhos virão e comerão dois, três, quatro ou dez grãos, mas eles não estocam para o futuro. Porém, se colocamos um saco de arroz na rua e autorizamos que as pessoas peguem, haverá brigas regulares, porque todo ser humano quererá pegar mais do que exige sua necessidade imediata. Assim, isso também se deve à falta de consciência de Deus. Se alguém pode compreender que o pai está presente e está fornecendo o pão nosso de cada dia, então por que eu deveria estocar mais do que necessito? A atual escassez de artigos alimentícios se deve à estocagem por parte dos capitalistas. Há artigos alimentícios suficientes no mundo, mas, ao mesmo tempo, há escassez. Se você pagar mais no mercado negro, então você obterá. Assim, da parte de Deus, há alimento o bastante, mas, de nossa parte, estamos fazendo uma má administração simplesmente para ganharmos mais dinheiro. Se houver Consciência de Deus, a compreensão de que tudo é propriedade do pai supremo e de que ele suprirá os muitíssimos filhos existentes, por que eu deveria estocar alimento? O problema não será solucionado sem consciência de Deus.
Agora, no que diz respeito à ideologia da religião, religião significa obedecer às ordens de Deus – isto é tudo. Deus é grandioso, e nós somos seus filhos, e ele está fornecendo todas as nossas necessidades – este é o entendimento correto. Por que deveria haver diferenças nas práticas religiosas? Se você alcança a consciência de Deus, então você pode compreender que os pássaros, as bestas, as plantas e todos são filhos de Deus, de modo que não temos o direito de matar. Contudo, aqueles assim chamados humanos fizeram sistemas religiosos que dizem que os animais são nossa comida, e outras religiões dizem: “Não, não, não se deve matar os animais”. Esta diferença na prática de sistemas religiosos se deve à carência de consciência de Deus. Se realmente chegamos ao ponto da consciência de Deus, então todas essas diferenças são perfeitamente resolvidas, mas, a menos que haja verdadeira consciência de Deus, você não será capaz de mudar as ideologias. Perguntei a vários cavalheiros cristãos: “Por que você está matando se a Bíblia diz claramente ‘Não matarás’”? Eles não são capazes de me apresentar uma resposta satisfatória. Com rodeios, eles tentam evitar a questão. Assim, tudo isso se deve à carência de consciência de Deus.
Assim, todos esses problemas se devem apenas à carência de consciência de Deus. Portanto, se o senhor realmente ajudar as pessoas a saberem sobre o poderoso supremo, isso será de grande ajuda. Contudo, vejo que seu método não é muito satisfatório. O senhor está fazendo pesquisas aceitando as declarações de expressões de sentimentos religiosos das pessoas comuns. Não há necessidade de pesquisa, pois o resultado dessa questão já está perfeitamente presente no Bhagavad-gita – tudo o que temos de fazer é aceitar isto, e todo o problema de pesquisar está terminado. O senhor quer estabelecer sua conclusão acerca da experiência religiosa através das opiniões de leigos. A expressão sentimental de leigos acerca dos problemas religiosos não é um entendimento prático dos problemas religiosos. Religião, como nós explicamos, refere-se às ordens de Deus, logo elas têm de ser estudadas cientificamente – quais são suas ordens e como acatá-las. Simplesmente colhendo dados estatísticos dos sentimentos do homem comum, não podemos chegar à conclusão correta.
Portanto, para o entendimento correto, estamos advogando que as pessoas tirem proveito desta instituição, a Sociedade Internacional para a Consciência de Krsna, ouvindo sobre Deus a partir de livros autorizados, como o Bhagavad-gita e o Srimad-Bhagavatam, os quais foram falados diretamente pelo próprio Deus, o que torna tudo absolutamente científico e prático. Espero que possamos novamente nos encontrar e discutir mais a fundo este tópico.

Espero que esta carta o encontre gozando de boa saúde.
Seu eterno benquerente,
A.C. Bhaktivedanta Swami


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Tradução de Bhagavan dasa (DvS)