sexta-feira, 29 de outubro de 2010

'HUMILDE E BEM CONSIGO"


Originalmente publicado na edição americana de Volta ao Supremo [Back to Godhead] no ano de 2007. "Humble and Feeling Good"


Por Archana Siddhi Devi Dasi *


Como terapeuta de famílias, eu aconselho tanto pessoas do movimento Hare Krsna como pessoas de fora do movimento. Recentemente eu recebi um e-mail de uma jovem devota que estava infeliz em seu casamento devido à postura abusiva que seu esposo tinha, mas estava em conflito quanto a deixá-lo.

"Talvez seja bom que eu me sinta mal comigo mesma", ela escreveu, "porque isso me fará desenvolver humildade".

Não foi a primeira vez que eu ouvi essa lógica. O Bhagavad-gita ensina que humildade é essencial para o progresso espiritual. Algumas vezes, os devotos, infelizmente, pensam que se sentir mal é um pré-requisito para a humildade.

Diversas vezes me deparo com devotos se complicando com o conceito de auto-estima. Tendo lido as orações de santos de nossa linha, eles, algumas vezes, pensam que seus sentimentos deveriam se enquadrar nas declarações auto-depreciativas de tais grandes almas. Por associarem baixa auto-estima com avanço espiritual, tais devotos podem perpetuar por toda a vida o sentimento de estarem mal consigo mesmos. Eles podem acabar por atrair pessoas para suas vidas que lhes tratarão de acordo com a maneira com que eles mesmos se sentem e
se percebem.

A confusão começa por tentar igualar sentimentos que vêem de nosso ego puro com sentimentos que vêem de nosso ego material, ou falso. As grandes almas expressam sentimentos que nascem do ego espiritual puro, sentimentos que não são contaminados pelos modos da natureza material. Quando eles se sentem, nas palavras do Senhor Caitanya, "mais baixos que a palha na rua", é uma emoção plena de prazer. O devoto puro vê à grandeza do Senhor, e vê a todos como mais
qualificados do que ele próprio. Eles estão imbuídos de amor e apreciação por toda a criação de Krsna.

Bhaktivinoda Thakura, um excelso mestre Vaisnava, escreveu belas canções expressando sua atração e amor por Krsna, músicas sobre alcançar a meta do coração - amor incondicional pelo Senhor - e canções auto-depreciativas, nas quais ele lamenta sua falta de devoção. Como uma alma pura, ele expressa seu apego e amor pelo Senhor e, ao mesmo tempo, sua angústia de sentir-se desqualificado e sem esperança de atingir tal amor. Esses são sentimentos autênticos que nascem da humildade e de apego e amor pelo Senhor.

Reconhecendo Nossas Falhas

Nas primeiras fases de nossa jornada espiritual, talvez experimentemos rapidamente essas emoções por Krsna estar preparando a terra de nossos corações para cultivar nossa devoção. Eu me lembro de uma importante experiência que tive antes de me tornar devota. Eu tinha grande dificuldade de aceitar críticas e achava que minha opinião era absolutamente certa. Essa mentalidade criou inúmeros problemas, tanto na área profissional quanto pessoal. Por meses, eu
contestei as recomendações de meu supervisor quanto a como fazer meu trabalho como diretora residente de um dormitório universitário. Minha obstinação estava fazendo o meu trabalho muito difícil, e eu estava aflita por isso. Finalmente, um dia, eu tive a poderosa realização de que eu estava errada. Não só eu estava errada quanto a esse problema em particular, mas em relação a várias outras coisas.

É-me impossível descrever quão libertador foi para mim aceitar minha natureza falível. Eu não precisava mais carregar o peso de estar sempre certa em relação a tudo. Eu me senti pequena, mas ao mesmo tempo muitas possibilidades se abriram para mim. Pela primeira vez na minha vida adulta eu pude ver meu autoritarismo assumir uma posição verdadeiramente submissa. Essa mudança de postura mental me preparou para tomar refúgio em meu mestre espiritual e nos devotos. Krsna nos ajuda a ficarmos livres por um instante do falso-prestígio para que possamos, como encorajamento, provar a doçura da humildade.

Algumas vezes, todavia, quando ainda estamos contaminados pelos modos da natureza material e identificados com nosso corpo e mente materiais, sentir-se inferior a palha na rua pode nos tornar desmotivados, entediados ou deprimidos. Esses sentimentos, então, impedem nossas praticas devocionais. Nós temos que julgar se para nossa psique específica tal psicologia é favorável a consciência de Krsna ou se é um impedimento no momento. Paradoxalmente, muitas pessoas precisam desenvolver um saudável ego material antes de transcendê-lo e realizar
seu ego espiritual.

Eu ouvi uma vez um palestrante motivacional dizer que as pessoas com auto-estima saudável pensam menos em si mesmas, e não menos de si mesmas. Quando nos sentimos bem quanto a nós mesmos, nós podemos devotar mais tempo e energia doando-nos aos outros, ao invés de absorvermo-nos em auto-piedade. Alta auto-estima também nos dá liberdade para agirmos de acordo com nossos valores e convicções. Quando nos sentimos mal conosco mesmos, às vezes, fazemos coisas para agradar ou apaziguar os outros. Em um esforço para satisfazer o desejo dos
outros, nós podemos acabar sendo influenciados a fazer coisas conflitantes às nossas crenças e valores.

Sentindo-se Digno e Qualificado

Nathaniel Branden, um famoso psicólogo, define auto-estima como "a disposição de sentir-se bem consigo mesmo e qualificado a lidar com os desafios básicos da vida e como sendo digno de ser feliz". Como esses aspectos da auto-estima, auto-conhecimento e amor próprio - têm relação com a consciência de Krsna? Krsna quer que todas as almas aprisionadas no mundo material sejam pacíficas e felizes. A vida humana nos possibilita a oportunidade de ocuparmos nossos talentos e habilidades no serviço ao Senhor. Quando nos oferecemos a servir ao Senhor, sentimos grande alegria. Um amigo, certa vez, deu ao meu esposo um quadrinho com os dizeres: "O que você é é um presente de Deus para você, e o que você se torna é seu presente para Deus".

Além de confundirem humildade com baixa alto-estima, os devotos, às vezes, correlacionam o conceito de auto-estima com orgulho e egoísmo. Mas é, de fato, o contrário. Pessoas que exibem alta auto-estima também exibem uma atitude mais humilde perante os outros. Eles são mais inclinados a admitir e corrigir erros, enquanto que pessoas com baixa auto-estima são muitas vezes defensivas e têm a necessidade de provarem que estão certas.

Em uma famosa história do Mahabharata, Krsna encontrou certa vez com Yudhisthira Maharaja e Duryodhana. Desejando glorificar Seu devoto Yudhisthira, Krsna pediu a ele que encontrasse uma pessoa mais baixa que ele, e pediu ao pecaminoso Duryodhana para que procurasse uma pessoa mais gloriosa que ele. Yudhisthira tinha todas as boas qualidades. Ele era pacífico e auto-satisfeito. Sem dúvida ele possuía uma saudável auto-estima. Mesmo assim ele não conseguiu encontrar ninguém mais baixo que ele. Mais uma vez, aqui se tem o exemplo de uma Vaisnava avançado que porta humildade genuína.

Por outro lado, o perverso Duryodhana procurou por todo o seu reino o dia todo e não conseguiu encontrar ninguém que ele considerasse superior a ele mesmo. Duryodhana estava contaminado com orgulho e vaidade. Ele invejou e ofendeu grandes almas. Ele vivia em constante ansiedade para manter sua posição, sempre tentando eliminar seus competidores. Sua auto-estima dependia de fatores externos como posição e poder, e assim ele não conhecia tal coisa como paz
interior. Ele era atormentado por sua própria luxúria e ambição.

Orgulho Versus Auto-estima

Pensar em si mesmo como grandioso é orgulho, não auto-estima. Uma pessoa com alta auto-estima demonstra humildade. A perfeição da auto-estima é percebida em pessoas completamente livres do falso-ego, nas quais a humildade é produto da realização espiritual.

No nosso estado condicionado, nós possivelmente nos identificaríamos mais com a mentalidade de Duryodhana do que com a de Yudhisthira Maharaja. Mas no nosso progresso na jornada espiritual, nós começamos a nos ver de forma diferente. Quanto mais realizamos não sermos o executor independente, mas o instrumento, mais saudável nossa auto-estima se torna. Na vida material, os modos da bondade, paixão e ignorância nos influenciam. Esses modos se misturam e
competem entre si para moldar nossa mente, incluindo o modo como nos sentimos em relação a nós mesmos.

Pessoas no abismo do modo da ignorância se sentem felizes e bem em relação a si mesmas quando seus sentidos estão satisfeitos. Pessoas imersas no modo da paixão estão felizes e bem consigo mesmas quando outros valorizam e reconhecem suas atividades. Nesses modos inferiores, nossa idéia de eu oscila o tempo todo.

Pessoas no modo da bondade são felizes e sentem-se bem em relação a si mesmas quando agem em conhecimento, de acordo com seus códigos e valores. Elas são menos reativas a estímulos externos, assim, a auto-estima de tais pessoas depende mais de sua própria vida interior. Consequentemente têm mais controle sobre como se sentem.

Pessoas em bondade pura, percebem a si mesmas como instrumentos do Senhor. Elas não se identificam mais como o agente de suas atividades.

O Exemplo de Prabhupada

Nosso mestre espiritual, Srila Prabhupada, demonstrou alta auto-estima. Embora de baixa estatura, ele parecia grande para nós. Ele sempre mantinha sua cabeça alta e se movia com objetivo e confiança. Ele fala de forma direta, com convicção e coragem. Suas ações eram intrépidas e ousadas, e mesmo assim ele tinha uma atitude humilde, sabendo que seu sucesso era devido à providência do Senhor. Sua humildade é exemplificada em suas orações abordo do navio quando ele estava vindo pela primeira vez aos Estados Unidos da Índia:

Ó Senhor, eu sou como uma marionete em Suas mãos. Então, se me trouxeste aqui para que eu dance, faze-me dançar, faze-me dançar, ó Senhor, faze me dançar como quiseres.

Não tenha nenhuma devoção, tampouco conhecimento, mas tenho grande fé no santo nome de Krsna. Eu fui designado como Bhaktivedanta, e agora, se assim quiseres, podes cumprir o verdadeiro propósito Bhaktivedanta.

Com grande humildade, Prabhupada finaliza sua carta, assinado como "o mais desafortunado e insignificante mendigo, A. C. Bhaktivedanta Swami".

De um lado, essas preces demonstram que Prabhupada se sentia muito baixo, mas de outro lado ele confiava poder fazer qualquer coisa com a misericórdia do Senhor. A oração também nos dá a chave para desenvolvermos puras qualidades devocionais: fé no Santo Nome. Quanto mais forte a nossa fé na capacidade de purificação dos Santos Nomes, maior será nossa dedicação ao processo de cantar. Nós cantaremos com tanto foco e atenção quanto pudermos e evitaremos com muito cuidado as ofensas que retardam nosso progresso espiritual.

Nós ficamos menos propenso a explorar os outros quando vemos a nós mesmo como servos, realizando a nossa - dos outros - natureza espiritual como servos de Deus. Nós somos gloriosas centelhas da energia espiritual, com todas as boas qualidades, embora sintamo-nos pequenos na presença do mais glorioso, nosso Senhor. Com esse verdadeiro conhecimento, a alma pura pode ter alta auto-estima e humildade simultaneamente.

Quando eu compartilhei alguns desses pontos com a jovem que havia me enviado sua pergunta por e-mail, ela me escreveu de volta: "É-me um grande alívio entender esses pontos dessa perspectiva. Agora eu entendo que não tenho que continuar convivendo desonrosamente com todo o tipo de abusos para ser espiritual".

Ele me sugeriu a escrever um artigo sobre o tema para a revista Volta ao Supremo. Eu aderi de todo o coração sua sugestão, uma vez que outros devotos haviam feito perguntas similares ao longo dos anos. Espero que o artigo seja útil para todos.


*Archana-Siddhi Devi Dasi foi iniciada por Srila Prabhupada, em 1976. Atualmente morando em Sandy Ridge, Carolina do Norte com o marido e o filho, ela trabalha em consultório particular.

Tradução por Bhagavan dasa (DvS)

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

"CASAMENTO"


Para a instituição do casamento e para casamentos

(Reproduzido do Jornal de Comunicação da ISKCON # 19 Setembro de 2001)

Por Archana-Siddhi Devi Dasi

Entrei ISKCON em 1976. Naquela época, eu estava na faculdade estudando para me tornar uma psicoterapeuta. Em 1990, voltei para a escola e terminei meu mestrado em Clínica Social. Desde aquela época eu aconselhava um número de casais devotos que estavam lutando para se manter em seus casamentos. Muitas vezes, o casal só precisa aprender algumas habilidades básicas de relacionamento. Em outros momentos, o casal enfrenta situações muito difíceis que os obrigam a fazer ajustes em suas práticas conscientes de Krishna ou percepções, a fim de sobreviver como um casal e manter-se na associação dos devotos.

Alguns anos atrás, um casal abandonou a associação dos devotos. Quando eu perguntei por que eles saíram, eles responderam que preferiam serem bons cristãos a devotos ruins. Não era a primeira vez que eu tinha ouvido essa lógica, e eu me senti muito triste por este casal sentir que era tudo ou nada. Enquanto na ISKCON o casal havia se deparado com a abstenção da intimidade sexual; no cristianismo encontraram uma religião em que a intimidade sexual é permitida.

Eu conhecia outro casal que tinha três filhos. O marido deixou a esposa devota, porque ele não estava pronto para se abster totalmente de sexo. Sua esposa, por outro lado, não queria mais filhos e se recusou a considerar romper os princípios regulativos para satisfazer sua luxúria. Ele acabou tendo um caso e deixando sua esposa com seus três filhos, sem meios de subsistência. Ela acabou tendo que arrumar um emprego em um restaurante não-vegetariano para sustentar seus filhos. Ela tinha cada vez menos tempo para sadhana e eventualmente desapareceu da associação com os devotos.

Estes são os cenários trágicos provocados pelo pensamento inflexível em preto-e-branco. Tal pensamento afetou todo nosso movimento em seus primeiros anos e talvez seja uma etapa inevitável de desenvolvimento do crescimento de um movimento espiritual. Mas Srila Prabhupada não era um fanático. Ele tomou decisões concretas e fez ajustes para ajudar a transplantar os ensinos e Cultura Védica à nossa mentalidade ocidental. É claro que, sendo um acharya auto-realizado, ele teve a liberdade para tomar decisões como a redução do número de voltas de japa diariamente de 64 para 16 e dando iniciação brahmínica para as mulheres. Ao mesmo tempo em que devemos ter cuidado para não alterar a essência do que Srila Prabhupada nos passou, ele deu muitos exemplos de como praticidade no serviço a Krsna substitui as regras e regulações estritas.

Prabhupada fez muitas coisas para acomodar nossa mentalidade ocidental, desde possuírem banheiros ocidentais em seus projetos para templos indianos, a permitir que homens e mulheres convivessem juntos em comunidades no templo. Ele era progressista e inovador em sua pregação. Ele deu permissão para os distribuidores de seus livros para vestirem-se com roupas ocidentais. Ele sempre tomou decisões com base naquilo que iria beneficiar a massa de pessoas, mesmo que não estivesse em conformidade com os padrões védicos.

Em um comentário Prabhupada escreve: "Para difundir a cultura da consciência de Krishna, a pessoa tem de aprender a possibilidade de renúncia, em termos de país, tempo e candidato. Um candidato à consciência de Krishna nos países ocidentais deve ser ensinado sobre a renúncia da existência material, mas alguém ensinaria aos candidatos de um país como a Índia, de uma forma diferente. O professor tem que considerar o tempo, o candidato, e o país. Ele deve evitar o princípio da niyamagraha, ou seja, ele não deve tentar realizar o impossível. O que é possível em um país pode não ser possível em outro. O dever do acharya é aceitar a essência do serviço devocional. "Shri Chaitanya-caritamrta Madhya-lila 23,105)

É importante ver que Prabhupada tentou diferentes estratégias para a difusão da consciência de Krishna. Se algo não estava dando certo, Prabhupada agia rápido para mudar isso. Por exemplo, o canto público, harinama, foi uma estratégia bem sucedida para espalhar a Consciência de Krishna no Ocidente, mas, quando Prabhupada levou seus discípulos para introduzir harinama sankirtana na Índia, isto não foi eficaz, ao contrário, isto criou uma impressão negativa do nosso movimento, apesar do fato do Senhor Chaitanya ter propagado a consciência de Krishna por toda a Índia através do harinama sankirtana há 500 anos atrás. Prabhupada foi capaz de avaliar a situação e elaborar um programa de membros vitalícios (Life Membership) na Índia, que se mostrou muito bem sucedido.

Nós, como discípulos de Prabhupada, não fomos tão flexíveis em nosso pensamento e não fomos capazes de fazer ajustes como Prabhupada fez. Pensamento rígido e dogmas duros, muitas vezes deixaram os devotos em situações muito difíceis.

Gostaria de citar um exemplo pessoal de como o pensamento inflexível pode criar um dilema para os devotos. Minha autoridade no templo aconselhou-me que, deixar meu marido caído era aceitável, mas que casar novamente não era aceitável. Eu era uma jovem mãe com um filho de quatro anos de idade. As escrituras realmente dizem que uma mulher não deve se casar novamente, mas elas também ensinam que uma mulher deve sempre ser protegida, quer por um marido, pai ou filho adulto. Desde que ficar no meu casamento não era uma opção, a única possibilidade que a minha autoridade me deixou foi permanecer solteira e desprotegida. A cultura védica foi criada para proteger mulheres não casadas. Infelizmente, a ISKCON teve (e ainda tem) um longo caminho a percorrer em direção à proteção das mulheres solteiras.

Eventualmente, eu me casei novamente, e o segundo casamento tornou-se tacitamente aceito na ISKCON, devido ao fato de ser dado à mulher solteira um apoio e facilidades limitadas. Embora eu não defenda o divórcio e o segundo casamento, eles se tornaram necessários para a sobrevivência da primeira geração de Grihastha ashrams da ISKCON. Muitos casamentos aconteceram com pouca consideração de compatibilidade espiritual e material entre os devotos. Alguns devotos nem mesmo viram seus noivos ou noivas antes da cerimônia de casamento. Em outras situações, no momento em que um homem e uma mulher começaram a se associar, a comunidade já se dirigia a eles como marido e mulher. Isso criou uma grande pressão em casais incompatíveis a amarrarem o nó. Olhando para trás, é fácil ver nossas tentativas como uma imitação muito ruim do estilo védico de casamentos arranjados, sinceras, mas desorientadas.

Outro obstáculo que os devotos ocidentais encontram em manterem seus cônjuges adequadamente é a prática de uma doutrina em uma cultura que promove intensamente os encontros românticos. Romance e amores passionais são o tema da maior parte da literatura e apresentações na mídia. Basta fazer nossos afazeres diários, para sermos bombardeados com imagens de abraços, e beijos de casais.

No Srimad-Bhagavatam (Sexta Canto), há a história de Ajamila, um brâmane piedoso que deixou sua esposa santa por uma prostituta depois de testemunhá-la abraçando apaixonadamente seu pretendente. Ajamila havia sido treinado em princípios religiosos, desde o nascimento, e somente pessoas religiosas o cercavam, mas mesmo assim ele caiu como resultado de assistir a uma visão que é onipresente em nossa cultura. Em nosso estágio neófito de avanço espiritual ainda somos presas para maior atração de Maya.

A instituição do casamento está se tornando cada vez enfraquecida na cultura em que vivemos. No Srimad-Bhagavatam é predito que os homens e mulheres em Kali Yuga se uniriam com base somente na atração sexual. Conseqüentemente, quando a atração sexual diminui, o que é inevitável, o casal se separa.

O relacionamento saudável entre o homem e a mulher é o alicerce de uma sociedade forte. Em um comentário do Srimad-Bhagavatam Srila Prabhupada afirma:
Tratamento carinhoso com o marido é muito importante. Recomenda-se que a mulher seja apegada e atraída por ele. Ela deve tratá-lo com intimidade amorosa. É agradável ao marido saber que sua esposa é dedicada a ele, desejosa em agradá-lo e ajudá-lo a cumprir seus ideais conscientes de Krishna. Se a renúncia imediata é difícil para ele, isso permitirá um homem a diminuir gradualmente seus desejos materiais. “Após ser treinado na vida familiar e seus desejos luxuriosos terem diminuído, ele pode mover-se para qualquer lugar sem perigo”. (Bhagavatam-Shrimad 5.1.18)

É fundamental que nós comecemos a preparar nossos filhos desde uma idade muito jovem a viverem corretamente no ashram de Grihastha. Quanto mais cedo nós introduzirmos habilidades para a vida, que ajudem as pessoas a terem relacionamentos mais satisfatórios, melhor. Parte do currículo para a educação das crianças deve incluir as habilidades de relacionamento. Estas incluem as habilidades de comunicação, competências de assertividade e habilidades de resolução de conflitos. Os adolescentes precisam entender a diferença entre paixão e apego saudável e duradouro. Autoconhecimento e introspecção precisam ser muito estimulados para ajudarem aos jovens a compreenderem seu estado e estrutura psicológica, e que tipo de pessoa seria uma boa parceira na vida.

Podemos também usar mapas astrológicos e perfis psicológicos de personalidade, como o indicador de Myers-Briggs Type para ajudar os pais e filhos a compreenderem suas naturezas e para melhor permitir que se avalie a compatibilidade com o cônjuge em potencial.

Outra forte recomendação para os casais é um namoro prolongado. A perspectiva idílica vivida durante o período de paixão geralmente dura entre seis semanas a seis meses. Durante este período, a pessoa é incapaz de ver os defeitos de sua amada. Há a ilusão de que esta pessoa vai fazê-la feliz eternamente, e nós sentimos como se estivéssemos flutuando sobre uma nuvem. Durante este período de euforia, as nossas melhores qualidades se sobressaem. Nós somos mais altruístas e generosos do que em qualquer outro momento. Podemos ter aumento de energia e podemos ter dificuldade para comer ou dormir.

A paixão é o reflexo pervertido do amor incondicional por Krishna. A diferença é que o amor por Krishna aumenta eternamente e nunca acaba, enquanto a paixão diminui e a realidade da imperfeição desmistifica o amado. Se o casal tem muito em comum, o relacionamento continua se não, eles geralmente se separam logo após a paixão acabar. Por conseguinte, é importante que os casais não se casem ou assumam compromissos fortes, até que passem por esse período. Claro, isso é mais fácil dizer do que fazer, pois muitas vezes os casais apaixonados não podem agir pela razão. Isso mostra o quão essencial é a preparação antes que o apego se afirme.

Outra ferramenta muito útil para os casais que planejam o casamento é o aconselhamento pré-marital. O casal pode explorar e compartilhar as suas expectativas de casamento. Muitas vezes as pessoas nem sequer pensam sobre o que eles querem ou precisam de um relacionamento. Eles de alguma forma esperam que o cônjuge vá magicamente atender a essas indefinidas, necessidades não ditas. Quando isso não acontece, tornam-se desapontados e irritados. Muitas vezes, no aconselhamento de casais, estas expectativas e necessidades são uma revelação tanto para o cônjuge como para a pessoa que as expressam. Ajudar os casais a analisarem estas questões desde o início dá um tom de acolhimento e orientação para o casamento. Ele também pode ajudar um casal a entender que eles são menos compatíveis do que eles pensavam e permitir-lhes a separação antes de se casar e terem filhos. Minha experiência com crianças devotas é que elas parecem muito mais cautelosas sobre entrar em relacionamentos que seus pais, talvez porque elas viram e sentiram a dor e o caos das relações rompidas de seus pais.

Grupos de homens e mulheres têm sido incentivados nas comunidades de devotos como uma forma de dar apoio e encorajamento um para o outro. É uma falácia pensar que nossos cônjuges são capazes de satisfazer todas as necessidades do nosso relacionamento. Formando relacionamentos íntimos com outros devotos neste fórum pode ajudar a dar suporte à relação dentro do casamento e dar associação a homens e mulheres solteiras. Todos nós temos necessidade de sociedade, amizade e amor. Incapacidade de encontrar essas coisas na sociedade de devotos pode se tornar uma razão para deixar a consciência de Krishna. Até certo ponto, esses grupos também podem desempenhar o papel que a família desempenhou na cultura védica. Nos primeiros anos da ISKCON, casais grihasthas muitas vezes lutaram com suas dificuldades em isolamento. Isto teve um efeito negativo tanto na relação marital quanto em sua consciência de Krishna. Nosso grihastha ashram se tornará muito mais forte quanto mais se discutir abertamente nossas dificuldades e nos aconselhemos um com o outro.

Somos pioneiros desse movimento, e Prabhupada e Krishna nos deram uma grande responsabilidade. Antes de falecer, Prabhupada disse que metade do seu trabalho foi feito e que ele estava deixando a outra metade para nós. Prabhupada se referia à criação de varnashrama dharma: como criar uma sociedade que satisfaz as necessidades materiais das pessoas e suas inclinações, ao mesmo tempo em que se elevam espiritualmente. Isso exigirá uma grande quantidade de maturidade, flexibilidade e pensamento criativo, bem como sadhana forte.

Os relacionamentos fortes são um pré-requisito para tornar bem sucedido qualquer projeto. As pessoas julgam nosso movimento, observando nossos relacionamentos. Assim é de nosso melhor interesse nos tornar especialistas em relacionamento. Eu incentivo fortemente comunidades de templos a incluirem workshops regulares sobre as habilidades de comunicação, assertividade e habilidades de resolução de conflitos.

Sem dúvida, houve muitos erros no passado, e nós precisamos curar os efeitos dos erros. Também precisamos aprender as lições destes erros e evitar que eles voltem a acontecer. Desta forma, podemos ir em frente com novas perspectivas e otimismo para o futuro.

Bibliografia
A. C. Bhaktivedanta Swami Prabhupada. Sri Caitanya-Caritamrta. Los Angeles: BBT, 1975.
A. C. Bhaktivedanta Swami Prabhupada. Srimad Bhagavatam. Los Angeles: BBT, 1975.

Tradução Bn. Rosana Araújo




Vivaha Samskara

Trechos do livro de samskaras, rituais purificatórios para uma vida de sucesso – de Prema Rasa Dasa e Sandipani Muni dasa.
Tradução: Bn. Rosana Araújo




1- Introdução

Vivaha significa “manter, aumentar” (...). O Vivaha Samskara, pela sua influência purificatória, ajuda o sujeito a entender o objetivo do casamento, que pode permitir que marido e mulher vivam pacificamente e se purifiquem. Permite também a possibilidade de libertar seus filhos da ignorância e da falsa identificação da alma com o corpo. Os pais devem providenciar que uma atmosfera saudável envolva seus filhos.

Na tradição védica, casamento é um ato sagrado, um compromisso religioso e nunca um simples acordo. A união entre um homem e uma mulher não é meramente física, mas também uma união moral e espiritual. Marca o início de uma vida de responsabilidade. O relacionamento entre casal deve ser regido por sentimentos mútuos de confiança e devoção que também devem ser direcionados a Deus. Deve-se aceitar somente um marido e uma esposa.

Samanjantu visve devah samapo hridayani nau
Sammatarisva sandhata samudestri dadhatunau

“Que as forças divinas saibam que nós dois estamos nos casando com grande prazer em nossa alma e consciência, e que nosso coração está em harmonia, uno como as águas. Que o príncipe do amor, o deus dos relacionamentos, e o deus dos segredos (Matarisvan, Dhata e Destri) protejam nosso casamento.” (Rg Veda 10.8.47)

Os laços do casamento são normalmente indissolúveis. Portanto deve-se ajustar o seu caráter, preferências, ideais e interesses com aqueles do outro, ao invés de separarem-se assim que as diferenças aparecem. Casamento é um sacrifício, austeridade que nos ajuda a desenvolver paciência e tolerância. A sacralidade do casamento é simbolizada pela cerimônia de fogo e os mantras sagrados. Se houver algum aspecto desarmonioso no mapa astral do casal, isto é combatido pela execução correta do Vivaha-Samskara.

As escrituras enfatizam a confiança, o respeito e a gentileza que deve haver entre o casal. A sociedade fundada nos modelos védicos favorece a formação de lares estáveis, diferentemente disto que vemos em nossas sociedades modernas, onde não se provém muita apreciação à mulher dona-de-casa e não se valoriza os papéis tradicionais e prolongação familiar. O casal pode ter que ajustar suas expectativas. Muitos problemas no casamento surgem devido ao conflito e expectativas. Quando um lar Vaishnava é rompido, isto se deve geralmente à falta de maturidade onde tamo-guna e raja-guna derrotam sattva-guna; na verdade, quando o relacionamento está baseado somente na atração física, sem nenhuma consideração pela entidade viva. “Oh chefe dos Bharatas, quando há um aumento do modo da paixão, os sintomas de grande apego, atividades fruitivas, esforço intenso e desejos incontroláveis se desenvolvem.” (B.G. 14.12)

O Homem deve entender que a mulher muitas vezes espera que seu marido a proteja materialmente, moralmente e espiritualmente. Ela concordou em casar-se com ele sob estas circunstâncias, mesmo que estas não tenham sido verbalizadas.

Os sintomas da esposa védica
A cerimônia de casamento como descrita no grhya-sutras, dá oportunidade para o casal de mutuamente receber a certeza um do outro de um laço de amor e carinho firmemente unido para que possam encarar os desafios de uma nova vida juntos. Antes de ocupar o seu devido lugar de melhor metade (ardhangini) no lado esquerdo de seu marido, a noiva procura obter alguma garantia por parte dele, como:

- Ele deve protegê-la.
- Ele deve levá-la com ela para peregrinação.
- Ele deve tê-la consigo ao seu lado nas ocasiões de sacrifício.
- Ele deve manter as obrigações religiosas.
- Ele deve dividir os afazeres domésticos com ela.
- Ele deve confiar nela lidando com as despesas do lar.
- Ele não deve humilhá-la em público.
- Ele não deve se envolver em vícios, e deve manter os princípios regulativos.
- Ele deve considerar todas as outras mulheres como sua mãe e deve somente amar à sua esposa.
- Ele deve mantê-la feliz e satisfeita de acordo com sua capacidade.

A todas estas condições, o noivo também requerirá uma garantia: “Oh amada! Se você me prometer que nunca irás sozinha às casas e jardins alheios, que não ficarás sozinha na companhia de outro homem, se você prometer ser sempre doce, gentil e suave, mantiver seus votos sagrados de matrimônio, ser devotada a mim, aos mais velhos e ao Senhor, e cumprir suas obrigações domésticas, então eu te recebo como minha devida esposa.”

No ritual sapta-padi, a noiva aceitando as promessas do noivo, concorda em fazer seus votos.
A cerimônia de casamento deve ser a mais suntuosa e solene possível para que, aqueles que estão se casando, nunca mais a esqueçam. O dia em que uma menina se casa é o dia mais lindo de sua vida. Não deve ser simplesmente outro evento em sua vida. Deve ser um momento único na vida dela.

O casamento deve nos ajudar a controlar os impulsos sexuais. É difícil para a maioria das pessoas deixarem a vida sexual. De acordo com as escrituras, no entanto, isto normalmente obstrui nosso avanço espiritual. Por isso as escrituras convidam àqueles que não conseguem renunciar ao sexo à satisfazer seus desejos de uma maneira a gradualmente chegar ao caminho da liberação; em outras palavras, seguindo as regras encontradas nos shastras. Por ser parte dos ensinamentos dos shastras, a união de um homem e mulher no casamento não é adharma e nem deve ser visto como tal, quando se é feito de acordo com as regras. Casamento não é uma licença para sexo, mas ao contrário é destinado a controlá-lo para que aqueles que se casam possam se purificar e gradualmente atingir o serviço devocional puro ao Senhor.

2. Educação

Antigamente, quando a sociedade era desenvolvida com bases na cultura védica, as crianças aprendiam a realizar seus deveres futuros desde cedo. Quando chegava o dia do casamento, eles estavam perfeitamente prontos para assumir suas respectivas responsabilidades.

Os meninos iam ao Gurukula para aprender as escrituras, honestidade, autocontrole e outras qualidades que se provaram ser úteis numa sociedade. Jovens meninas eram treinadas basicamente por seus pais e avós para desenvolver qualidades femininas como segurança, castidade, afeição e devoção. Elas aprendiam as obrigações de uma futura dona-de-casa. Assim treinados, homem e mulher formavam casais homogêneos e estáveis que garantiriam uma sociedade pacífica. Eles então passariam suas experiências às futuras gerações. Esta era sua obrigação como mais velhos.

Nos anos 60, o mundo ocidental vivenciou o que foi conhecido como “a liberação sexual” que acompanhou o movimento hippie. Foi nesta época que o movimento Hare Krishna alcançou os países ocidentais. Seus primeiros membros vieram, em sua maioria, de uma geração “philistina”, cuja cultura era diametricamente oposta à cultura tradicional indiana. Em um curto espaço de tempo, Srila Prabhupada, o fundador do Movimento Hare Krishna, conseguiu treinar tais pessoas de acordo com a pura tradição Vaishnava. Ele queria torná-los cidadãos responsáveis que seriam um exemplo a ser seguido por toda a sociedade.
Treinar significava primeiramente viver numa comunidade. Porém outros tempos, outros métodos. Os membros do movimento não são mais de maioria hippie que eram atraídos pela vida em comunidade. No início, mais ou menos 95% de todos os iniciados viviam nos templo; agora, 95% deles são casados e vivem principalmente fora, sem terem recebido treinamento completo, ou ainda mantendo alguns hábitos irresponsáveis.

Treinamento continua a ser um problema nos dias de hoje. Os templos se tornaram um lugar de aprendizagem, um lugar de adoração (...), um lugar de cultura, porém não mais um lugar para morar. Como Srila Prabhupada acentua numa carta datada em 20 de Setembro de 1972: “Não há diferença entre os devotos que vivem dentro do templo ou fora dele. O mais importante é lembrar-se de Krishna.”