sábado, 12 de junho de 2010

"O PROPÓSITO DO GRHASTHA-ASRAMA"


Por: Sua Santidade Giriraj Swami.

A maioria dos devotos é casado (grhastha), e, além disso, o grhastha-asrama é a base de todos os outros asramas – e das vidas de nossos filhos. Queremos, portanto, que o grhastha-asrama seja tão forte quanto possível.

Quando entrei para o templo de Boston em 1969, éramos todos muito jovens e poucos de nós éramos casados. E éramos tão novos na consciência de Krsna e tão dependentes de Srila Prabhupada que lhe pedíamos orientações em todo âmbito. Uma das devotas, Balai dasi, havia se casado recentemente e não estava certa quanto a como deveria ser sua relação com seu esposo. Ela perguntou a Srila Prabhupada, e ele respondeu: “Assim como a mão direita tem uma relação com a mão esquerda através do corpo, você tem uma relação com seu esposo através de Krsna, com Krsna no centro”. Aqui está a mão direita, e aqui está a mão esquerda, mas o que as conecta é o corpo. Neste exemplo, as mãos direita e esquerda são o esposo e a esposa, e o corpo é Krsna.

Tínhamos de mudar a nossa consciência, Prabhupada nos disse, e colocar Krsna no centro. Isso, ele disse, faria toda a diferença. Quando o nosso falso ego é o centro, temos muitíssimos problemas, mas, quando Krsna está no centro, nossas relações se tornam harmoniosas.

Viemos para o mundo material por invejarmos Krsna. Queremos tomar a posição de Krsna e ser o desfrutador, o controlador, o proprietário. Esta é a nossa disposição na existência condicionada. E, quando viemos para o mundo material, acabamos por competir não apenas com Krsna, mas também com muitíssimos outros competidores de Krsna. E essa disposição egoísta pode entrar em casa. Competimos para ser os desfrutadores, os controladores e os proprietários, e isso leva a conflitos – muitíssimos deuses de imitação lutando pela supremacia.

Através do processo da consciência de Krsna, a nossa identificação corpórea, nossa falsa identificação, é substituída pela compreensão de nossa verdadeira identidade como gopi-bhartuh pada-kamalayor dasa-dasanudasah – servo do servo do servo do servo de Krsna, o mantenedor das gopis.

Quando um discípulo perguntou a Srila Prabhupada: “O que devemos fazer quando há conflitos entre os devotos?”, ele respondeu, “se cada devoto pensa: ‘Sou o servo do servo do servo de Krsna’, então não haverá conflito”. O mesmo princípio se aplica ao lar. Se cada membro familiar pensa e sente: “Sou servo do servo do servo de Krsna”, as relações serão muito cordiais. Mas isso requer uma revolução na consciência. Estamos no mundo material porque queremos ser o mestre do mestre dos mestres, e essa mentalidade nos conduz à frustração, ao desapontamento, à morte – a repetidos nascimentos e mortes. Tornarmo-nos servos do servo dos servos de Krsna conduz-nos à felicidade e à liberação última.

Pouco tempo depois da primeira vez que me encontrei com Srila Prabhupada e os devotos, como um estudante universitário em Boston, ouvi que o mestre espiritual de Srila Prabhupada, Srila Bhaktisiddhanta Sarasvati Thakura, havia dito que, quando você vem para a consciência de Krsna, você se livra do fardo do desfrute. Eu estava sentindo exatamente esse fardo, porque, em todo final de semana, havia uma competição muito forte em relação a quem desfrutaria mais. À medida que o final de semana ia se aproximando, os estudantes – e às vezes a faculdade também – faziam planos de como desfrutar. Esses planos incluíam ir a restaurantes, a cinemas, shows, festas, boates – muitíssimos planos. Eu não gostava verdadeiramente de nenhuma dessas atividades, e, para mim, era um fardo ter de desfrutar como os outros. E então os alunos perguntavam uns aos outros: “O que você fez? O que você fez?”. “Ah, eu fui a uma festa. Todos ficamos bêbados e...”. “Ah, tive um encontro e...”.

A declaração de que, quando você se torna devoto, você se livra do fardo do desfrute ressoava dentro de mim. Era-me artificial tentar desfrutar daquela maneira. Era artificial porque, como almas, nosso verdadeiro prazer vem de nossa relação com a Alma Suprema. O amor verdadeiro existe apenas em relação a Krsna. O Bhakti-rasamrta-sindhu define amor puro (prema) como o centramento de todos os sentimentos e de todas as propensões amorosas pessoais em Visnu, ou Krsna.

ananya-mamata visnau mamata prema-sangata
bhaktir ity ucyate bhisma- prahladoddhava-naradaih

“Quando alguém desenvolve um indesviável sentimento de propriedade ou posse em relação ao Senhor Visnu, ou, em outras palavras, quando alguém considera Visnu, e ninguém mais, como o único objeto de amor, tal despertar é chamado de bhakti [devoção] pelas personalidades elevadas, como Bhisma, Prahlada, Uddhava e Narada”. – Bhakti-rasamrta-sindhu 1.4.2, Cc Madhya 23.8

Há uma oração muito bela oferecida pela rainha Kunti ao Senhor Krsna:

atha visvesa visvatman visva-murte svakesu me
sneha-pasam imam chindhi drdham pandusu vrsnisu

“Ó Senhor do universo, alma do universo, ó personalidade da forma do universo, por favor, portanto, desfazei meu laço de afeição por meus parentes, os Pandavas e os Vrsnis”. – Srimad-Bhagavatam 1.8.40

tvayi me ’nanya-visaya matir madhu-pate ’sakrt
ratim udvahatad addha gangevaugham udanvati

“Ó Senhor de Madhu, assim como o Ganges sempre flui sem obstáculos para o oceano, que minha atração seja constantemente voltada a Vós, sem divergir-se para ninguém mais”. – Srimad-Bhagavatam 1.8.41

À medida que nos tornamos sérios na consciência de Krsna, esta realmente se torna a nossa oração: “Que meu amor flua em direção a Krsna sem impedimentos, assim como o Ganges flui para o oceano”.

Estas declarações – “Por favor, desfazei meus apegos por meus membros familiares. Que meu amor flua exclusivamente em direção a Vós sem se divergir para ninguém mais” – levantam algumas questões: E quanto a outros relacionamentos? O que acontece com meus relacionamentos com meus amigos e familiares?

Em seu significado, Srila Prabhupada apresenta um ponto muito interessante. Ele diz que os membros familiares de Kunti eram devotos de Krsna. Seus membros familiares por parte de pai, os Vrsnis, eram devotos, e seus filhos, os Pandavas, eram devotos. E afeição pelos devotos não é algo fora da jurisdição da consciência de Krsna, do serviço devocional puro. Assim, quando Kunti ora: “Por favor, desfazei meus laços de afeição por meus parentes”, ela quer dizer que deseja que a afeição baseada no corpo seja cortada.

“Sua afeição pelos Pandavas e os Vrsnis não está fora do escopo do serviço devocional porque o serviço ao Senhor e o serviço aos devotos são idênticos. Algumas vezes, o serviço ao devoto é mais valioso do que o serviço ao Senhor. Mas, aqui, a afeição de Kunti pelos Pandavas e os Vrsnis era devido à relação familiar. Esse elo de afeição em termos de relação material é a relação de maya porque as relações do corpo ou da mente se devem à influência da energia externa. Relações da alma, estabelecidas em relação à Alma Suprema, são relações verdadeiras. Quando Kuntidevi quis cortar a relação familiar, ela se referia a cortar a relação da pele. A relação de pele é a causa do condicionamento material, mas a relação da alma é a causa da liberdade. Essa relação de alma com alma pode ser estabelecida pela mediação da relação com a Superalma”. – Srimad-Bhagavatam 1.8.41, significado

Há duas categorias de afeição – uma baseada no corpo e uma baseada na alma, alma com alma, através da mediação da Superalma, a Alma Suprema. Quando Kunti diz: “Por favor, desfazei meus laços de afeição por meus parentes”, ela se refere à afeição que se baseia no corpo: de modo que apenas a afeição baseada na alma permaneça. A afeição baseada no corpo conduz ao condicionamento e à morte, enquanto que a afeição baseada na alma conduz à liberação e à vida eterna.

Portanto, não temos que abandonar nossos relacionamentos familiares, mas queremos purificá-los. Queremos que o aspecto material, que é baseado no corpo, torne-se cada vez menos proeminente, e que o aspecto espiritual, que é baseado na alma, por meio da Alma Suprema, torne-se cada vez mais proeminente. E, quanto mais a dimensão espiritual de nossos relacionamentos se tornam proeminentes, mais apropriados se tornam para a nossa felicidade e para o nosso sucesso último na vida.

Uma autoridade no assunto do matrimônio disse: “O casamento não se destina a fazer você feliz. Ele se destina a fazer você casado, e, uma vez que você esteja segura e totalmente casado, você tem uma estrutura de segurança e apoio a partir da qual você pode encontrar sua própria felicidade”. Estamos aqui, portanto, para trabalharmos os nossos casamentos. Não estamos iludidos de que o casamento por si nos trará felicidade, mas queremos trabalhar os nossos casamentos de forma que possamos atuar bem como partes de uma unidade, a unidade familiar, e, dentro da paz relativa e relativo apoio mútuo dessa unidade, encontrar nossa própria felicidade interior, que é a única felicidade verdadeira que existe.

A relação marital também provê a base para as crianças do casal se desenvolverem na consciência de Krsna e serem felizes. Algum tempo mais tarde, Srila Prabhupada escreveu a Balai: “Nos casamentos materialistas, geralmente há muitíssimos problemas e frustrações porque o princípio básico tanto para o esposo quanto para a esposa é sua própria gratificação sensorial pessoal. Por conta disso, inevitavelmente há conflito e pedido de divórcio. Mas, no casamento consciente de Krsna, o princípio básico é que tanto o esposo como a esposa sirvam Krsna bem e ajudem o parceiro a avançar na vida espiritual. Desta maneira, ambos o marido e a esposa são verdadeiros benfeitores um para o outro e não há questão de nenhum conflito sério ou separação. Portanto, estou certo de que, por ter pais tão excelentes que são devotos do Senhor Krsna, sua filha Nandini é muito, muito afortunada. No Bhagavad-gita, Krsna nos instrui que alguém nascer na família dos devotos significa que essa pessoa foi a mais piedosa de todas as entidades vivas. Assim, crie Nandini muito zelosamente na consciência de Krsna, e Krsna certamente outorgará todas as bênçãos a você e à sua família”.

Estes corpos materiais são simplesmente vestes para a alma. Nossas identidades baseadas no corpo e na mente são temporárias e ilusórias. Nossas identidades reais são como servos amorosos de Krsna e de Seus devotos, e o que quer que estejamos fazendo aqui no mundo material é prática para a nossa vida eterna no mundo espiritual, onde serviremos Krsna e Seus devotos em amor extático. Como Srila Prabhupada disse, se um aluno do ensino médio está fazendo trabalho de nível universitário, ele pode ser promovido para a universidade. Então, se estamos no mundo material, mas estamos ocupados nas atividades do mundo espiritual, podemos ser promovidos ao mundo espiritual. A atividade básica do mundo espiritual, que inclui o cantar dos santos nomes e das glórias de Sri Krsna, é prestar serviço amoroso a Krsna e a outros servos de Krsna. E o grhastha-asrama é uma situação apropriada para praticar o serviço amoroso, que pode nos qualificar para o serviço amoroso eterno no mundo espiritual.

Hare Krsna.

Tradução de Bhagavan dasa (DvS)