sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

"RELIGIÃO E ESPIRITUALIDADE"


As Diferenças entre Religião e Espiritualidade

A religião alimenta a mente; a espiritualidade a alma!!
A religião aprisiona/segrega; a espiritualidade liberta/une as almas a um único princípio divino: o AMOR

A religião não é apenas uma, são centenas.
A espiritualidade é apenas uma.
A religião é para os que dormem.
A espiritualidade é para os que estão despertos.

A religião é para aqueles que necessitam que alguém lhes diga o que fazer e querem ser guiados.
A espiritualidade é para os que prestam atenção à sua Voz Interior.
A religião tem um conjunto de regras dogmáticas.
A espiritualidade te convida a raciocinar sobre tudo, a questionar tudo.

A religião ameaça e amedronta.
A espiritualidade lhe dá Paz Interior.
A religião fala de pecado e de culpa.
A espiritualidade lhe diz: "aprenda com o erro".

A religião reprime tudo, te faz falso.
A espiritualidade transcende tudo, te faz verdadeiro!
A religião não é Deus.
A espiritualidade é Tudo e, portanto é Deus.

A religião inventa.
A espiritualidade descobre.
A religião não indaga nem questiona.
A espiritualidade questiona tudo.

A religião é humana, é uma organização com regras.
A espiritualidade é Divina, sem regras.
A religião é causa de divisões.
A espiritualidade é causa de União.

A religião lhe busca para que acredite.
A espiritualidade você tem que buscá-la.
A religião segue os preceitos de um livro sagrado.
A espiritualidade busca o sagrado em todos os livros.

A religião se alimenta do medo.
A espiritualidade se alimenta na Confiança e na Fé.
A religião faz viver no pensamento.
A espiritualidade faz Viver na Consciência.

A religião se ocupa com fazer.
A espiritualidade se ocupa com Ser.
A religião alimenta o ego.
A espiritualidade nos faz Transcender.

A religião nos faz renunciar ao mundo.
A espiritualidade nos faz viver em Deus, não renunciar a Ele.
A religião é adoração.
A espiritualidade é Meditação.

A religião sonha com a glória e com o paraíso.
A espiritualidade nos faz viver a glória e o paraíso aqui e agora.
A religião vive no passado e no futuro.
A espiritualidade vive no presente.

A religião enclausura nossa memória.
A espiritualidade liberta nossa Consciência.
A religião crê na vida eterna.
A espiritualidade nos faz consciente da vida eterna.

A religião promete para depois da morte.
A espiritualidade é encontrar Deus em Nosso Interior durante a vida.

(AUTOR DESCONHECIDO)

sábado, 20 de novembro de 2010

"O CONTROLADOR SUPREMO"


O que segue é parte de uma palestra de Sua Divina Graça A.C. Bhaktivedanta Swami Prabhupada, o acharya-fundador da ISKCON e da BBT, proferida na cidade de Los Angeles, no dia 29 de abril do ano de 1970.


“Tudo, animado ou inanimado, que existe dentro do universo é controlado e possuído pelo Senhor”. – Isopanisad, mantra 1

Em algum lugar deste universo, alguém não é controlado? Alguém pode dizer que: “Eu não sou controlado”? Ninguém pode dizer. Assim, se você é controlado, por que você se declarará: “Não sou controlado. Sou independente. Sou Deus”? Por que este disparate? Se você for controlado... Deus, isso significa que Ele é controlado? Eles estão alegando que “sou Deus”. Existe algum significado? Se sou controlado, então como posso me tornar Deus? Isto é questão de bom senso. Portanto, esta filosofia mayavadi, de que: “Todos são Deus. Eu sou Deus, você é Deus...”. Assim como o outro, que estava falando, aquele Meher Baba... Sim. Que, ele estava falando: “Eu sou Deus, você é Deus”. Assim, Deus jamais é controlado. Se alguém é controlado, imediatamente ele não é Deus. Isto é uma definição simples, que Deus não é controlado. Se alguém alega ser Deus, então, a pergunta que vem antes de tudo: “Você é controlado ou não controlado?”. Bom senso. Ninguém pode dizer que não é controlado. Vi um patife; ele tem uma sociedade e ele está pregando isto, que: “Sou Deus”. Mas, um dia, eu o vi, ele estava com dor de dente, e ele estava fazendo: “Ohhh”. (risos) Então, eu perguntei a ele que: “Você alega ser Deus, e, agora, você está simplesmente sob o controle da dor de dente. Assim, que tipo de Deus você é?”. (risos) Vejam. Então, essas sociedades, aqueles que estão alegando que: “Sou Deus. Você é Deus. Todos são Deus”—Deus tornou-Se algo tão barato que todos são Deus—, você deve imediatamente saber que ele é o patife número um. Imediatamente. Tão logo ele diga: “Sou Deus”, você tem que saber que: “Aqui está o patife número um”.

Assim, ninguém é livre de controle. Agora, muitíssimos planetas imensos, planetas gigantescos... O planeta Terra é apenas... É um planeta pequeno e diminuto, e, ainda assim, você verá que, neste planeta, há muitos grandes oceanos, como o Atlântico e o Pacífico, e muitas grandes montanhas, e o que dizer de seus arranha-céus. Com toda esta carga, ele está flutuando no ar tal qual um chumaço de algodão. Quem está controlando? Você é capaz de fazer flutuar mesmo que um pequeno grão no espaço? Você pode dizer “lei da gravidade” e muitíssimas outras coisas, mas você não pode utilizar isso. Ou você pode colocar no... A máquina de vocês, o avião, está correndo no espaço—mas enquanto a máquina está funcionando. Tão logo sua gasolina acabe, imediatamente ele cai. Imediatamente. Mas esses planetas imensos... Este é apenas um dos pequenos. O planeta Sol é um milhão e quatrocentas mil vezes maior do que este planeta. Assim, isso também é... Podemos ver que o sol está flutuando em uma esquina deste grande espaço. Assim, como você pode dizer que ele não é controlado; ele está flutuando por si só? Não. A resposta está ali no Bhagavad-gita, que: “Entro nestes planetas materiais, e, então, Eu os mantenho flutuando”. Gam avisya aham, dharayamy aham ojasa. Dharayamy aham ojasa. Algo fa... Assim como você flutua este avião; então, alguém entrou nele, aquele motorista ou piloto. Assim, na verdade, ele está mantendo esse avião a voar, não a máquina. Isto é uma verdade simples. Então, se você adota esta analogia, então este planeta está flutuando, tem de haver alguém entrando aqui. Alguém tem que ter entrado. Assim, Krishna diz: “Eu entrei”. Então, qual é a dificuldade de compreender como ele está se mantendo a flutuar? A analogia está aí. Todos podem compreender que este grande avião está flutuando no céu porque o piloto entrou nele. Similarmente, se este planeta está flutuando, então alguém, quer você, quer alguém, Deus, entrou nele. E a resposta está lá no Bhagavad-gita, que: “Eu entro nestes planetas e, portanto, mantenho-os flutuando”. Esta é a nossa resposta. E os cientistas, eles dizem que a lei de gravitação... Até onde isso é verdade...

Você Pode Me Mostrar Deus?

Mas temos que nos beneficiar com Krishna. O nosso processo é este. Não aceitamos nenhum outro processo de conhecimento. O nosso conhecimento é receber o conhecimento da autoridade, e isto é fato. Isto é conhecimento de primeira classe. Se você pega uma autoridade que pode falar sobre a temática, e se você pega esse conhecimento, isso é perfeito. Há três tipos de processos para receber conhecimento. O primeiro: Acreditamos na percepção sensorial direta, pratyaksa. Assim como alguém diz: “Você pode me mostrar Deus?”. Isto significa que eles são pratyaksavadis. Eles querem ver tudo diretamente, experienciar tudo diretamente. Essa classe de homens diz que: “Você pode me mostrar Deus?”. Mas isso não é conhecimento de primeira classe. Suponha que você me pergunte: “Você pode me mostrar Deus?”. Eu digo: “Sim, eu posso lhe mostrar Deus”. “Mostre-me”. “Irei lhe mostrar. Então, isto é Deus”. Você acreditará nisso? Suponha que você está me pedindo: “Você pode me mostrar Deus?”. Eu digo: “Sim, posso lhe mostrar”. “O que é esse Deus?”. “Aqui está Deus”, eu digo. Então, você aceitará isto, que este microfone é Deus? Qual é a resposta? Huh? Por que não? Se você me perguntar: “Você pode me mostrar Deus?”, eu mostro qualquer coisa, o que quer que eu queira: “Sim, aqui está, Deus...”. Ou, por que Deus? Suponha que você vá uma loja. Então, você pede algo: “Você pode me dar ouro?”. Ele lhe dará um pedaço de ferro: “Sim, aqui está o ouro. Pegue”. Então, o que você dirá? Qual será a resposta? Huh? Se você pedir... Você vai a um lojista. Você não sabe onde comprar ouro, mas você precisa de ouro, e você vai a um lojista e pede a ele: “Você tem ouro em estoque?”. Assim, ele imediatamente compreenderá que ali está o patife número um, porque ele foi comprar ouro em uma loja, loja comum. Se alguém tem que comprar ouro, ele tem que ir onde se vende ouro. Mas ele foi a uma loja comum para comprar; portanto, ele é um tolo de primeira classe. Assim, portanto, ele tentará enganá-lo: “Aqui está o ouro”. Ele dá um pedaço de ferro. Então, o que ele dirá? Ele aceitará o ferro como ouro? Huh? Por que não? Ele não sabe o que é ouro, e ele foi a uma loja para comprar isso, e ele lhe dá um pedaço de ferro: “Aqui está o ouro”. Assim, ele irá comprar. Ele será enganado. Similarmente, aqueles patifes que dizem que: “Você pode me mostrar Deus?”, eles, portanto, têm que saber o que é Deus; do contrário, ele será enganado. Isto está sendo feito.

Assim, se você quer comprar ouro, você precisa, pelo menos, ter algum conhecimento preliminar do que é ouro. Características. Assim como, no laboratório de química, eles testam. Suponha que, na farmácia, ou... Esta é a lei do governo, que, o que quer que você aceite, produtos químicos ou drogas, você tem que testar, e as características testadas são declaradas ali. Assim como bicarbonato de sódio: a cor é assim, a constituição é assim, a reação é assim, o sabor é assim. Deste modo, o químico no laboratório corrobora a característica, então o aceita: “Sim, isto é bicarbonato de sódio”. Similarmente, se você quer conhecer Deus, ou se você quer ver Deus, então a primeira coisa é que você tem que saber quais são as características de Deus. Do contrário, se você for a outro patife e lhe solicitar: “Você pode me mostrar Deus?”, e ele lhe mostra algo disparatado e você aceitar isso como Deus, isso é algo muito bom? Isto continua. “Quero ver Deus”. Que qualificação você tem para ver Deus? Ele não considera sua qualificação, que: “Será que posso ver Deus?”.

O Processo para Conhecer Deus.

Assim, nós não ensinamos tais coisas baratas. Este é o nosso programa. O movimento da consciência de Krishna não visa apresentar algo disparatado e apresentar algo barato. Se você quer ver Deus simplesmente face a face, não ficção, então você tem que seguir as regras e regulações, você tem que cantar, você tem que se purificar. Então, gradualmente, svayam eva sphuraty adah. Você tem que esperar. Chegará o momento. Quando você estiver purificado, você verá Deus. Não que, imediatamente, na sua presente posição. Mas Deus é tão amável, Krishna é tão amável, que, mesmo na sua presente posição, Ele está presente, arca-vigraha. Ele está aberto a ser visto por todos, quer saiba, quer não saiba o que é Deus. Esta arca-vigraha não é ídolo; não é imaginação. Eles são... O conhecimento é recebido dos acharyas superiores. Brahma-samhita: venum kvanantam aravinda-dalayataksam [Bs. 5.30]. A descrição está presente. Assim, saber Deus, se você segue isso... Imediatamente, por seus sentidos embotados, nem Deus, Sua forma, Seu nome, Sua qualidade, Sua parafernália podem ser percebidos. Os sentidos presentes são embotados. Portanto, na situação ou civilização presente, eles se tornaram ateístas, porque, naturalmente, eles não têm poder para compreender Deus, tampouco são guiados por pessoas que possam fazê-los compreender o que é Deus. Portanto, as pessoas estão se tornando sem Deus, ateístas. Mas, se você ler toda esta literatura védica sob a guia superior, se você seguir as regras e regulações, então svayam eva sphuraty adah. Deus Se revelará a você. Você não pode ver Deus ou entender Deus por seu próprio esforço. Você tem que se render ao processo através do qual Deus pode ser conhecido. Ele, então, irá Se revelar. De outro modo, não. Ele é o controlador supremo. Você está sendo controlado. Então, como você pode controlar Deus? “Oh, Deus, por favor, venha aqui. Irei vê-lO”. Não, não. Deus não é algo tão barato que, por sua ordem, Deus virá e será visto por você. Não. Isso não é possível. Você deve sempre saber que: “Ele é o controlador supremo e eu também sou controlado. Então, se eu puder agradar Deus mediante o meu serviço, então Ele Se revelará a mim”. Este é o processo para conhecer Deus
.


Tradução de Bhagavan dasa (DvS) e revisão de Prana Vallabha devi dasi (DvS) e Prema Vardhana devi dasi (DvS)

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

'HUMILDE E BEM CONSIGO"


Originalmente publicado na edição americana de Volta ao Supremo [Back to Godhead] no ano de 2007. "Humble and Feeling Good"


Por Archana Siddhi Devi Dasi *


Como terapeuta de famílias, eu aconselho tanto pessoas do movimento Hare Krsna como pessoas de fora do movimento. Recentemente eu recebi um e-mail de uma jovem devota que estava infeliz em seu casamento devido à postura abusiva que seu esposo tinha, mas estava em conflito quanto a deixá-lo.

"Talvez seja bom que eu me sinta mal comigo mesma", ela escreveu, "porque isso me fará desenvolver humildade".

Não foi a primeira vez que eu ouvi essa lógica. O Bhagavad-gita ensina que humildade é essencial para o progresso espiritual. Algumas vezes, os devotos, infelizmente, pensam que se sentir mal é um pré-requisito para a humildade.

Diversas vezes me deparo com devotos se complicando com o conceito de auto-estima. Tendo lido as orações de santos de nossa linha, eles, algumas vezes, pensam que seus sentimentos deveriam se enquadrar nas declarações auto-depreciativas de tais grandes almas. Por associarem baixa auto-estima com avanço espiritual, tais devotos podem perpetuar por toda a vida o sentimento de estarem mal consigo mesmos. Eles podem acabar por atrair pessoas para suas vidas que lhes tratarão de acordo com a maneira com que eles mesmos se sentem e
se percebem.

A confusão começa por tentar igualar sentimentos que vêem de nosso ego puro com sentimentos que vêem de nosso ego material, ou falso. As grandes almas expressam sentimentos que nascem do ego espiritual puro, sentimentos que não são contaminados pelos modos da natureza material. Quando eles se sentem, nas palavras do Senhor Caitanya, "mais baixos que a palha na rua", é uma emoção plena de prazer. O devoto puro vê à grandeza do Senhor, e vê a todos como mais
qualificados do que ele próprio. Eles estão imbuídos de amor e apreciação por toda a criação de Krsna.

Bhaktivinoda Thakura, um excelso mestre Vaisnava, escreveu belas canções expressando sua atração e amor por Krsna, músicas sobre alcançar a meta do coração - amor incondicional pelo Senhor - e canções auto-depreciativas, nas quais ele lamenta sua falta de devoção. Como uma alma pura, ele expressa seu apego e amor pelo Senhor e, ao mesmo tempo, sua angústia de sentir-se desqualificado e sem esperança de atingir tal amor. Esses são sentimentos autênticos que nascem da humildade e de apego e amor pelo Senhor.

Reconhecendo Nossas Falhas

Nas primeiras fases de nossa jornada espiritual, talvez experimentemos rapidamente essas emoções por Krsna estar preparando a terra de nossos corações para cultivar nossa devoção. Eu me lembro de uma importante experiência que tive antes de me tornar devota. Eu tinha grande dificuldade de aceitar críticas e achava que minha opinião era absolutamente certa. Essa mentalidade criou inúmeros problemas, tanto na área profissional quanto pessoal. Por meses, eu
contestei as recomendações de meu supervisor quanto a como fazer meu trabalho como diretora residente de um dormitório universitário. Minha obstinação estava fazendo o meu trabalho muito difícil, e eu estava aflita por isso. Finalmente, um dia, eu tive a poderosa realização de que eu estava errada. Não só eu estava errada quanto a esse problema em particular, mas em relação a várias outras coisas.

É-me impossível descrever quão libertador foi para mim aceitar minha natureza falível. Eu não precisava mais carregar o peso de estar sempre certa em relação a tudo. Eu me senti pequena, mas ao mesmo tempo muitas possibilidades se abriram para mim. Pela primeira vez na minha vida adulta eu pude ver meu autoritarismo assumir uma posição verdadeiramente submissa. Essa mudança de postura mental me preparou para tomar refúgio em meu mestre espiritual e nos devotos. Krsna nos ajuda a ficarmos livres por um instante do falso-prestígio para que possamos, como encorajamento, provar a doçura da humildade.

Algumas vezes, todavia, quando ainda estamos contaminados pelos modos da natureza material e identificados com nosso corpo e mente materiais, sentir-se inferior a palha na rua pode nos tornar desmotivados, entediados ou deprimidos. Esses sentimentos, então, impedem nossas praticas devocionais. Nós temos que julgar se para nossa psique específica tal psicologia é favorável a consciência de Krsna ou se é um impedimento no momento. Paradoxalmente, muitas pessoas precisam desenvolver um saudável ego material antes de transcendê-lo e realizar
seu ego espiritual.

Eu ouvi uma vez um palestrante motivacional dizer que as pessoas com auto-estima saudável pensam menos em si mesmas, e não menos de si mesmas. Quando nos sentimos bem quanto a nós mesmos, nós podemos devotar mais tempo e energia doando-nos aos outros, ao invés de absorvermo-nos em auto-piedade. Alta auto-estima também nos dá liberdade para agirmos de acordo com nossos valores e convicções. Quando nos sentimos mal conosco mesmos, às vezes, fazemos coisas para agradar ou apaziguar os outros. Em um esforço para satisfazer o desejo dos
outros, nós podemos acabar sendo influenciados a fazer coisas conflitantes às nossas crenças e valores.

Sentindo-se Digno e Qualificado

Nathaniel Branden, um famoso psicólogo, define auto-estima como "a disposição de sentir-se bem consigo mesmo e qualificado a lidar com os desafios básicos da vida e como sendo digno de ser feliz". Como esses aspectos da auto-estima, auto-conhecimento e amor próprio - têm relação com a consciência de Krsna? Krsna quer que todas as almas aprisionadas no mundo material sejam pacíficas e felizes. A vida humana nos possibilita a oportunidade de ocuparmos nossos talentos e habilidades no serviço ao Senhor. Quando nos oferecemos a servir ao Senhor, sentimos grande alegria. Um amigo, certa vez, deu ao meu esposo um quadrinho com os dizeres: "O que você é é um presente de Deus para você, e o que você se torna é seu presente para Deus".

Além de confundirem humildade com baixa alto-estima, os devotos, às vezes, correlacionam o conceito de auto-estima com orgulho e egoísmo. Mas é, de fato, o contrário. Pessoas que exibem alta auto-estima também exibem uma atitude mais humilde perante os outros. Eles são mais inclinados a admitir e corrigir erros, enquanto que pessoas com baixa auto-estima são muitas vezes defensivas e têm a necessidade de provarem que estão certas.

Em uma famosa história do Mahabharata, Krsna encontrou certa vez com Yudhisthira Maharaja e Duryodhana. Desejando glorificar Seu devoto Yudhisthira, Krsna pediu a ele que encontrasse uma pessoa mais baixa que ele, e pediu ao pecaminoso Duryodhana para que procurasse uma pessoa mais gloriosa que ele. Yudhisthira tinha todas as boas qualidades. Ele era pacífico e auto-satisfeito. Sem dúvida ele possuía uma saudável auto-estima. Mesmo assim ele não conseguiu encontrar ninguém mais baixo que ele. Mais uma vez, aqui se tem o exemplo de uma Vaisnava avançado que porta humildade genuína.

Por outro lado, o perverso Duryodhana procurou por todo o seu reino o dia todo e não conseguiu encontrar ninguém que ele considerasse superior a ele mesmo. Duryodhana estava contaminado com orgulho e vaidade. Ele invejou e ofendeu grandes almas. Ele vivia em constante ansiedade para manter sua posição, sempre tentando eliminar seus competidores. Sua auto-estima dependia de fatores externos como posição e poder, e assim ele não conhecia tal coisa como paz
interior. Ele era atormentado por sua própria luxúria e ambição.

Orgulho Versus Auto-estima

Pensar em si mesmo como grandioso é orgulho, não auto-estima. Uma pessoa com alta auto-estima demonstra humildade. A perfeição da auto-estima é percebida em pessoas completamente livres do falso-ego, nas quais a humildade é produto da realização espiritual.

No nosso estado condicionado, nós possivelmente nos identificaríamos mais com a mentalidade de Duryodhana do que com a de Yudhisthira Maharaja. Mas no nosso progresso na jornada espiritual, nós começamos a nos ver de forma diferente. Quanto mais realizamos não sermos o executor independente, mas o instrumento, mais saudável nossa auto-estima se torna. Na vida material, os modos da bondade, paixão e ignorância nos influenciam. Esses modos se misturam e
competem entre si para moldar nossa mente, incluindo o modo como nos sentimos em relação a nós mesmos.

Pessoas no abismo do modo da ignorância se sentem felizes e bem em relação a si mesmas quando seus sentidos estão satisfeitos. Pessoas imersas no modo da paixão estão felizes e bem consigo mesmas quando outros valorizam e reconhecem suas atividades. Nesses modos inferiores, nossa idéia de eu oscila o tempo todo.

Pessoas no modo da bondade são felizes e sentem-se bem em relação a si mesmas quando agem em conhecimento, de acordo com seus códigos e valores. Elas são menos reativas a estímulos externos, assim, a auto-estima de tais pessoas depende mais de sua própria vida interior. Consequentemente têm mais controle sobre como se sentem.

Pessoas em bondade pura, percebem a si mesmas como instrumentos do Senhor. Elas não se identificam mais como o agente de suas atividades.

O Exemplo de Prabhupada

Nosso mestre espiritual, Srila Prabhupada, demonstrou alta auto-estima. Embora de baixa estatura, ele parecia grande para nós. Ele sempre mantinha sua cabeça alta e se movia com objetivo e confiança. Ele fala de forma direta, com convicção e coragem. Suas ações eram intrépidas e ousadas, e mesmo assim ele tinha uma atitude humilde, sabendo que seu sucesso era devido à providência do Senhor. Sua humildade é exemplificada em suas orações abordo do navio quando ele estava vindo pela primeira vez aos Estados Unidos da Índia:

Ó Senhor, eu sou como uma marionete em Suas mãos. Então, se me trouxeste aqui para que eu dance, faze-me dançar, faze-me dançar, ó Senhor, faze me dançar como quiseres.

Não tenha nenhuma devoção, tampouco conhecimento, mas tenho grande fé no santo nome de Krsna. Eu fui designado como Bhaktivedanta, e agora, se assim quiseres, podes cumprir o verdadeiro propósito Bhaktivedanta.

Com grande humildade, Prabhupada finaliza sua carta, assinado como "o mais desafortunado e insignificante mendigo, A. C. Bhaktivedanta Swami".

De um lado, essas preces demonstram que Prabhupada se sentia muito baixo, mas de outro lado ele confiava poder fazer qualquer coisa com a misericórdia do Senhor. A oração também nos dá a chave para desenvolvermos puras qualidades devocionais: fé no Santo Nome. Quanto mais forte a nossa fé na capacidade de purificação dos Santos Nomes, maior será nossa dedicação ao processo de cantar. Nós cantaremos com tanto foco e atenção quanto pudermos e evitaremos com muito cuidado as ofensas que retardam nosso progresso espiritual.

Nós ficamos menos propenso a explorar os outros quando vemos a nós mesmo como servos, realizando a nossa - dos outros - natureza espiritual como servos de Deus. Nós somos gloriosas centelhas da energia espiritual, com todas as boas qualidades, embora sintamo-nos pequenos na presença do mais glorioso, nosso Senhor. Com esse verdadeiro conhecimento, a alma pura pode ter alta auto-estima e humildade simultaneamente.

Quando eu compartilhei alguns desses pontos com a jovem que havia me enviado sua pergunta por e-mail, ela me escreveu de volta: "É-me um grande alívio entender esses pontos dessa perspectiva. Agora eu entendo que não tenho que continuar convivendo desonrosamente com todo o tipo de abusos para ser espiritual".

Ele me sugeriu a escrever um artigo sobre o tema para a revista Volta ao Supremo. Eu aderi de todo o coração sua sugestão, uma vez que outros devotos haviam feito perguntas similares ao longo dos anos. Espero que o artigo seja útil para todos.


*Archana-Siddhi Devi Dasi foi iniciada por Srila Prabhupada, em 1976. Atualmente morando em Sandy Ridge, Carolina do Norte com o marido e o filho, ela trabalha em consultório particular.

Tradução por Bhagavan dasa (DvS)

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

"CASAMENTO"


Para a instituição do casamento e para casamentos

(Reproduzido do Jornal de Comunicação da ISKCON # 19 Setembro de 2001)

Por Archana-Siddhi Devi Dasi

Entrei ISKCON em 1976. Naquela época, eu estava na faculdade estudando para me tornar uma psicoterapeuta. Em 1990, voltei para a escola e terminei meu mestrado em Clínica Social. Desde aquela época eu aconselhava um número de casais devotos que estavam lutando para se manter em seus casamentos. Muitas vezes, o casal só precisa aprender algumas habilidades básicas de relacionamento. Em outros momentos, o casal enfrenta situações muito difíceis que os obrigam a fazer ajustes em suas práticas conscientes de Krishna ou percepções, a fim de sobreviver como um casal e manter-se na associação dos devotos.

Alguns anos atrás, um casal abandonou a associação dos devotos. Quando eu perguntei por que eles saíram, eles responderam que preferiam serem bons cristãos a devotos ruins. Não era a primeira vez que eu tinha ouvido essa lógica, e eu me senti muito triste por este casal sentir que era tudo ou nada. Enquanto na ISKCON o casal havia se deparado com a abstenção da intimidade sexual; no cristianismo encontraram uma religião em que a intimidade sexual é permitida.

Eu conhecia outro casal que tinha três filhos. O marido deixou a esposa devota, porque ele não estava pronto para se abster totalmente de sexo. Sua esposa, por outro lado, não queria mais filhos e se recusou a considerar romper os princípios regulativos para satisfazer sua luxúria. Ele acabou tendo um caso e deixando sua esposa com seus três filhos, sem meios de subsistência. Ela acabou tendo que arrumar um emprego em um restaurante não-vegetariano para sustentar seus filhos. Ela tinha cada vez menos tempo para sadhana e eventualmente desapareceu da associação com os devotos.

Estes são os cenários trágicos provocados pelo pensamento inflexível em preto-e-branco. Tal pensamento afetou todo nosso movimento em seus primeiros anos e talvez seja uma etapa inevitável de desenvolvimento do crescimento de um movimento espiritual. Mas Srila Prabhupada não era um fanático. Ele tomou decisões concretas e fez ajustes para ajudar a transplantar os ensinos e Cultura Védica à nossa mentalidade ocidental. É claro que, sendo um acharya auto-realizado, ele teve a liberdade para tomar decisões como a redução do número de voltas de japa diariamente de 64 para 16 e dando iniciação brahmínica para as mulheres. Ao mesmo tempo em que devemos ter cuidado para não alterar a essência do que Srila Prabhupada nos passou, ele deu muitos exemplos de como praticidade no serviço a Krsna substitui as regras e regulações estritas.

Prabhupada fez muitas coisas para acomodar nossa mentalidade ocidental, desde possuírem banheiros ocidentais em seus projetos para templos indianos, a permitir que homens e mulheres convivessem juntos em comunidades no templo. Ele era progressista e inovador em sua pregação. Ele deu permissão para os distribuidores de seus livros para vestirem-se com roupas ocidentais. Ele sempre tomou decisões com base naquilo que iria beneficiar a massa de pessoas, mesmo que não estivesse em conformidade com os padrões védicos.

Em um comentário Prabhupada escreve: "Para difundir a cultura da consciência de Krishna, a pessoa tem de aprender a possibilidade de renúncia, em termos de país, tempo e candidato. Um candidato à consciência de Krishna nos países ocidentais deve ser ensinado sobre a renúncia da existência material, mas alguém ensinaria aos candidatos de um país como a Índia, de uma forma diferente. O professor tem que considerar o tempo, o candidato, e o país. Ele deve evitar o princípio da niyamagraha, ou seja, ele não deve tentar realizar o impossível. O que é possível em um país pode não ser possível em outro. O dever do acharya é aceitar a essência do serviço devocional. "Shri Chaitanya-caritamrta Madhya-lila 23,105)

É importante ver que Prabhupada tentou diferentes estratégias para a difusão da consciência de Krishna. Se algo não estava dando certo, Prabhupada agia rápido para mudar isso. Por exemplo, o canto público, harinama, foi uma estratégia bem sucedida para espalhar a Consciência de Krishna no Ocidente, mas, quando Prabhupada levou seus discípulos para introduzir harinama sankirtana na Índia, isto não foi eficaz, ao contrário, isto criou uma impressão negativa do nosso movimento, apesar do fato do Senhor Chaitanya ter propagado a consciência de Krishna por toda a Índia através do harinama sankirtana há 500 anos atrás. Prabhupada foi capaz de avaliar a situação e elaborar um programa de membros vitalícios (Life Membership) na Índia, que se mostrou muito bem sucedido.

Nós, como discípulos de Prabhupada, não fomos tão flexíveis em nosso pensamento e não fomos capazes de fazer ajustes como Prabhupada fez. Pensamento rígido e dogmas duros, muitas vezes deixaram os devotos em situações muito difíceis.

Gostaria de citar um exemplo pessoal de como o pensamento inflexível pode criar um dilema para os devotos. Minha autoridade no templo aconselhou-me que, deixar meu marido caído era aceitável, mas que casar novamente não era aceitável. Eu era uma jovem mãe com um filho de quatro anos de idade. As escrituras realmente dizem que uma mulher não deve se casar novamente, mas elas também ensinam que uma mulher deve sempre ser protegida, quer por um marido, pai ou filho adulto. Desde que ficar no meu casamento não era uma opção, a única possibilidade que a minha autoridade me deixou foi permanecer solteira e desprotegida. A cultura védica foi criada para proteger mulheres não casadas. Infelizmente, a ISKCON teve (e ainda tem) um longo caminho a percorrer em direção à proteção das mulheres solteiras.

Eventualmente, eu me casei novamente, e o segundo casamento tornou-se tacitamente aceito na ISKCON, devido ao fato de ser dado à mulher solteira um apoio e facilidades limitadas. Embora eu não defenda o divórcio e o segundo casamento, eles se tornaram necessários para a sobrevivência da primeira geração de Grihastha ashrams da ISKCON. Muitos casamentos aconteceram com pouca consideração de compatibilidade espiritual e material entre os devotos. Alguns devotos nem mesmo viram seus noivos ou noivas antes da cerimônia de casamento. Em outras situações, no momento em que um homem e uma mulher começaram a se associar, a comunidade já se dirigia a eles como marido e mulher. Isso criou uma grande pressão em casais incompatíveis a amarrarem o nó. Olhando para trás, é fácil ver nossas tentativas como uma imitação muito ruim do estilo védico de casamentos arranjados, sinceras, mas desorientadas.

Outro obstáculo que os devotos ocidentais encontram em manterem seus cônjuges adequadamente é a prática de uma doutrina em uma cultura que promove intensamente os encontros românticos. Romance e amores passionais são o tema da maior parte da literatura e apresentações na mídia. Basta fazer nossos afazeres diários, para sermos bombardeados com imagens de abraços, e beijos de casais.

No Srimad-Bhagavatam (Sexta Canto), há a história de Ajamila, um brâmane piedoso que deixou sua esposa santa por uma prostituta depois de testemunhá-la abraçando apaixonadamente seu pretendente. Ajamila havia sido treinado em princípios religiosos, desde o nascimento, e somente pessoas religiosas o cercavam, mas mesmo assim ele caiu como resultado de assistir a uma visão que é onipresente em nossa cultura. Em nosso estágio neófito de avanço espiritual ainda somos presas para maior atração de Maya.

A instituição do casamento está se tornando cada vez enfraquecida na cultura em que vivemos. No Srimad-Bhagavatam é predito que os homens e mulheres em Kali Yuga se uniriam com base somente na atração sexual. Conseqüentemente, quando a atração sexual diminui, o que é inevitável, o casal se separa.

O relacionamento saudável entre o homem e a mulher é o alicerce de uma sociedade forte. Em um comentário do Srimad-Bhagavatam Srila Prabhupada afirma:
Tratamento carinhoso com o marido é muito importante. Recomenda-se que a mulher seja apegada e atraída por ele. Ela deve tratá-lo com intimidade amorosa. É agradável ao marido saber que sua esposa é dedicada a ele, desejosa em agradá-lo e ajudá-lo a cumprir seus ideais conscientes de Krishna. Se a renúncia imediata é difícil para ele, isso permitirá um homem a diminuir gradualmente seus desejos materiais. “Após ser treinado na vida familiar e seus desejos luxuriosos terem diminuído, ele pode mover-se para qualquer lugar sem perigo”. (Bhagavatam-Shrimad 5.1.18)

É fundamental que nós comecemos a preparar nossos filhos desde uma idade muito jovem a viverem corretamente no ashram de Grihastha. Quanto mais cedo nós introduzirmos habilidades para a vida, que ajudem as pessoas a terem relacionamentos mais satisfatórios, melhor. Parte do currículo para a educação das crianças deve incluir as habilidades de relacionamento. Estas incluem as habilidades de comunicação, competências de assertividade e habilidades de resolução de conflitos. Os adolescentes precisam entender a diferença entre paixão e apego saudável e duradouro. Autoconhecimento e introspecção precisam ser muito estimulados para ajudarem aos jovens a compreenderem seu estado e estrutura psicológica, e que tipo de pessoa seria uma boa parceira na vida.

Podemos também usar mapas astrológicos e perfis psicológicos de personalidade, como o indicador de Myers-Briggs Type para ajudar os pais e filhos a compreenderem suas naturezas e para melhor permitir que se avalie a compatibilidade com o cônjuge em potencial.

Outra forte recomendação para os casais é um namoro prolongado. A perspectiva idílica vivida durante o período de paixão geralmente dura entre seis semanas a seis meses. Durante este período, a pessoa é incapaz de ver os defeitos de sua amada. Há a ilusão de que esta pessoa vai fazê-la feliz eternamente, e nós sentimos como se estivéssemos flutuando sobre uma nuvem. Durante este período de euforia, as nossas melhores qualidades se sobressaem. Nós somos mais altruístas e generosos do que em qualquer outro momento. Podemos ter aumento de energia e podemos ter dificuldade para comer ou dormir.

A paixão é o reflexo pervertido do amor incondicional por Krishna. A diferença é que o amor por Krishna aumenta eternamente e nunca acaba, enquanto a paixão diminui e a realidade da imperfeição desmistifica o amado. Se o casal tem muito em comum, o relacionamento continua se não, eles geralmente se separam logo após a paixão acabar. Por conseguinte, é importante que os casais não se casem ou assumam compromissos fortes, até que passem por esse período. Claro, isso é mais fácil dizer do que fazer, pois muitas vezes os casais apaixonados não podem agir pela razão. Isso mostra o quão essencial é a preparação antes que o apego se afirme.

Outra ferramenta muito útil para os casais que planejam o casamento é o aconselhamento pré-marital. O casal pode explorar e compartilhar as suas expectativas de casamento. Muitas vezes as pessoas nem sequer pensam sobre o que eles querem ou precisam de um relacionamento. Eles de alguma forma esperam que o cônjuge vá magicamente atender a essas indefinidas, necessidades não ditas. Quando isso não acontece, tornam-se desapontados e irritados. Muitas vezes, no aconselhamento de casais, estas expectativas e necessidades são uma revelação tanto para o cônjuge como para a pessoa que as expressam. Ajudar os casais a analisarem estas questões desde o início dá um tom de acolhimento e orientação para o casamento. Ele também pode ajudar um casal a entender que eles são menos compatíveis do que eles pensavam e permitir-lhes a separação antes de se casar e terem filhos. Minha experiência com crianças devotas é que elas parecem muito mais cautelosas sobre entrar em relacionamentos que seus pais, talvez porque elas viram e sentiram a dor e o caos das relações rompidas de seus pais.

Grupos de homens e mulheres têm sido incentivados nas comunidades de devotos como uma forma de dar apoio e encorajamento um para o outro. É uma falácia pensar que nossos cônjuges são capazes de satisfazer todas as necessidades do nosso relacionamento. Formando relacionamentos íntimos com outros devotos neste fórum pode ajudar a dar suporte à relação dentro do casamento e dar associação a homens e mulheres solteiras. Todos nós temos necessidade de sociedade, amizade e amor. Incapacidade de encontrar essas coisas na sociedade de devotos pode se tornar uma razão para deixar a consciência de Krishna. Até certo ponto, esses grupos também podem desempenhar o papel que a família desempenhou na cultura védica. Nos primeiros anos da ISKCON, casais grihasthas muitas vezes lutaram com suas dificuldades em isolamento. Isto teve um efeito negativo tanto na relação marital quanto em sua consciência de Krishna. Nosso grihastha ashram se tornará muito mais forte quanto mais se discutir abertamente nossas dificuldades e nos aconselhemos um com o outro.

Somos pioneiros desse movimento, e Prabhupada e Krishna nos deram uma grande responsabilidade. Antes de falecer, Prabhupada disse que metade do seu trabalho foi feito e que ele estava deixando a outra metade para nós. Prabhupada se referia à criação de varnashrama dharma: como criar uma sociedade que satisfaz as necessidades materiais das pessoas e suas inclinações, ao mesmo tempo em que se elevam espiritualmente. Isso exigirá uma grande quantidade de maturidade, flexibilidade e pensamento criativo, bem como sadhana forte.

Os relacionamentos fortes são um pré-requisito para tornar bem sucedido qualquer projeto. As pessoas julgam nosso movimento, observando nossos relacionamentos. Assim é de nosso melhor interesse nos tornar especialistas em relacionamento. Eu incentivo fortemente comunidades de templos a incluirem workshops regulares sobre as habilidades de comunicação, assertividade e habilidades de resolução de conflitos.

Sem dúvida, houve muitos erros no passado, e nós precisamos curar os efeitos dos erros. Também precisamos aprender as lições destes erros e evitar que eles voltem a acontecer. Desta forma, podemos ir em frente com novas perspectivas e otimismo para o futuro.

Bibliografia
A. C. Bhaktivedanta Swami Prabhupada. Sri Caitanya-Caritamrta. Los Angeles: BBT, 1975.
A. C. Bhaktivedanta Swami Prabhupada. Srimad Bhagavatam. Los Angeles: BBT, 1975.

Tradução Bn. Rosana Araújo




Vivaha Samskara

Trechos do livro de samskaras, rituais purificatórios para uma vida de sucesso – de Prema Rasa Dasa e Sandipani Muni dasa.
Tradução: Bn. Rosana Araújo




1- Introdução

Vivaha significa “manter, aumentar” (...). O Vivaha Samskara, pela sua influência purificatória, ajuda o sujeito a entender o objetivo do casamento, que pode permitir que marido e mulher vivam pacificamente e se purifiquem. Permite também a possibilidade de libertar seus filhos da ignorância e da falsa identificação da alma com o corpo. Os pais devem providenciar que uma atmosfera saudável envolva seus filhos.

Na tradição védica, casamento é um ato sagrado, um compromisso religioso e nunca um simples acordo. A união entre um homem e uma mulher não é meramente física, mas também uma união moral e espiritual. Marca o início de uma vida de responsabilidade. O relacionamento entre casal deve ser regido por sentimentos mútuos de confiança e devoção que também devem ser direcionados a Deus. Deve-se aceitar somente um marido e uma esposa.

Samanjantu visve devah samapo hridayani nau
Sammatarisva sandhata samudestri dadhatunau

“Que as forças divinas saibam que nós dois estamos nos casando com grande prazer em nossa alma e consciência, e que nosso coração está em harmonia, uno como as águas. Que o príncipe do amor, o deus dos relacionamentos, e o deus dos segredos (Matarisvan, Dhata e Destri) protejam nosso casamento.” (Rg Veda 10.8.47)

Os laços do casamento são normalmente indissolúveis. Portanto deve-se ajustar o seu caráter, preferências, ideais e interesses com aqueles do outro, ao invés de separarem-se assim que as diferenças aparecem. Casamento é um sacrifício, austeridade que nos ajuda a desenvolver paciência e tolerância. A sacralidade do casamento é simbolizada pela cerimônia de fogo e os mantras sagrados. Se houver algum aspecto desarmonioso no mapa astral do casal, isto é combatido pela execução correta do Vivaha-Samskara.

As escrituras enfatizam a confiança, o respeito e a gentileza que deve haver entre o casal. A sociedade fundada nos modelos védicos favorece a formação de lares estáveis, diferentemente disto que vemos em nossas sociedades modernas, onde não se provém muita apreciação à mulher dona-de-casa e não se valoriza os papéis tradicionais e prolongação familiar. O casal pode ter que ajustar suas expectativas. Muitos problemas no casamento surgem devido ao conflito e expectativas. Quando um lar Vaishnava é rompido, isto se deve geralmente à falta de maturidade onde tamo-guna e raja-guna derrotam sattva-guna; na verdade, quando o relacionamento está baseado somente na atração física, sem nenhuma consideração pela entidade viva. “Oh chefe dos Bharatas, quando há um aumento do modo da paixão, os sintomas de grande apego, atividades fruitivas, esforço intenso e desejos incontroláveis se desenvolvem.” (B.G. 14.12)

O Homem deve entender que a mulher muitas vezes espera que seu marido a proteja materialmente, moralmente e espiritualmente. Ela concordou em casar-se com ele sob estas circunstâncias, mesmo que estas não tenham sido verbalizadas.

Os sintomas da esposa védica
A cerimônia de casamento como descrita no grhya-sutras, dá oportunidade para o casal de mutuamente receber a certeza um do outro de um laço de amor e carinho firmemente unido para que possam encarar os desafios de uma nova vida juntos. Antes de ocupar o seu devido lugar de melhor metade (ardhangini) no lado esquerdo de seu marido, a noiva procura obter alguma garantia por parte dele, como:

- Ele deve protegê-la.
- Ele deve levá-la com ela para peregrinação.
- Ele deve tê-la consigo ao seu lado nas ocasiões de sacrifício.
- Ele deve manter as obrigações religiosas.
- Ele deve dividir os afazeres domésticos com ela.
- Ele deve confiar nela lidando com as despesas do lar.
- Ele não deve humilhá-la em público.
- Ele não deve se envolver em vícios, e deve manter os princípios regulativos.
- Ele deve considerar todas as outras mulheres como sua mãe e deve somente amar à sua esposa.
- Ele deve mantê-la feliz e satisfeita de acordo com sua capacidade.

A todas estas condições, o noivo também requerirá uma garantia: “Oh amada! Se você me prometer que nunca irás sozinha às casas e jardins alheios, que não ficarás sozinha na companhia de outro homem, se você prometer ser sempre doce, gentil e suave, mantiver seus votos sagrados de matrimônio, ser devotada a mim, aos mais velhos e ao Senhor, e cumprir suas obrigações domésticas, então eu te recebo como minha devida esposa.”

No ritual sapta-padi, a noiva aceitando as promessas do noivo, concorda em fazer seus votos.
A cerimônia de casamento deve ser a mais suntuosa e solene possível para que, aqueles que estão se casando, nunca mais a esqueçam. O dia em que uma menina se casa é o dia mais lindo de sua vida. Não deve ser simplesmente outro evento em sua vida. Deve ser um momento único na vida dela.

O casamento deve nos ajudar a controlar os impulsos sexuais. É difícil para a maioria das pessoas deixarem a vida sexual. De acordo com as escrituras, no entanto, isto normalmente obstrui nosso avanço espiritual. Por isso as escrituras convidam àqueles que não conseguem renunciar ao sexo à satisfazer seus desejos de uma maneira a gradualmente chegar ao caminho da liberação; em outras palavras, seguindo as regras encontradas nos shastras. Por ser parte dos ensinamentos dos shastras, a união de um homem e mulher no casamento não é adharma e nem deve ser visto como tal, quando se é feito de acordo com as regras. Casamento não é uma licença para sexo, mas ao contrário é destinado a controlá-lo para que aqueles que se casam possam se purificar e gradualmente atingir o serviço devocional puro ao Senhor.

2. Educação

Antigamente, quando a sociedade era desenvolvida com bases na cultura védica, as crianças aprendiam a realizar seus deveres futuros desde cedo. Quando chegava o dia do casamento, eles estavam perfeitamente prontos para assumir suas respectivas responsabilidades.

Os meninos iam ao Gurukula para aprender as escrituras, honestidade, autocontrole e outras qualidades que se provaram ser úteis numa sociedade. Jovens meninas eram treinadas basicamente por seus pais e avós para desenvolver qualidades femininas como segurança, castidade, afeição e devoção. Elas aprendiam as obrigações de uma futura dona-de-casa. Assim treinados, homem e mulher formavam casais homogêneos e estáveis que garantiriam uma sociedade pacífica. Eles então passariam suas experiências às futuras gerações. Esta era sua obrigação como mais velhos.

Nos anos 60, o mundo ocidental vivenciou o que foi conhecido como “a liberação sexual” que acompanhou o movimento hippie. Foi nesta época que o movimento Hare Krishna alcançou os países ocidentais. Seus primeiros membros vieram, em sua maioria, de uma geração “philistina”, cuja cultura era diametricamente oposta à cultura tradicional indiana. Em um curto espaço de tempo, Srila Prabhupada, o fundador do Movimento Hare Krishna, conseguiu treinar tais pessoas de acordo com a pura tradição Vaishnava. Ele queria torná-los cidadãos responsáveis que seriam um exemplo a ser seguido por toda a sociedade.
Treinar significava primeiramente viver numa comunidade. Porém outros tempos, outros métodos. Os membros do movimento não são mais de maioria hippie que eram atraídos pela vida em comunidade. No início, mais ou menos 95% de todos os iniciados viviam nos templo; agora, 95% deles são casados e vivem principalmente fora, sem terem recebido treinamento completo, ou ainda mantendo alguns hábitos irresponsáveis.

Treinamento continua a ser um problema nos dias de hoje. Os templos se tornaram um lugar de aprendizagem, um lugar de adoração (...), um lugar de cultura, porém não mais um lugar para morar. Como Srila Prabhupada acentua numa carta datada em 20 de Setembro de 1972: “Não há diferença entre os devotos que vivem dentro do templo ou fora dele. O mais importante é lembrar-se de Krishna.”

domingo, 25 de julho de 2010

"A PRÁTICA DE ABANDONAR TUDO"


Existe um sentimento de segurança decorrente da entrega a um ser superior. A partir desse ponto, todo o caminho fica claro e as inúmeras dificuldades trilhadas se resumem à insignificância. Tudo o que se trilha neste mundo, no campo do conhecimento, da ciência, da religião e da ética, reduz-se a cinzas no final da vida. Portanto, entregar-se ao um Ser Supremo representa o ato de abandonar tudo nessa hora derradeira e neste lugar de onde nada levamos, apenas a nossa consciência tranquila.
A prática de lapidar o eu.
O corpo deveria ser como um templo, onde se espera uma boa conduta para poder melhor captar a sua pureza. Se dotarmos o corpo com boas qualidades, esse ficará reluzente e resplandecerá a beleza do eu. Um bom caráter, que expressa uma vida pura, simples e perfeita, constitui nossa maior riqueza. Cada passo que damos pode nos distanciar ou nos aproximar desse estágio. O homem se esquece de sua verdadeira natureza, que é divina, e se perde naquilo que não é.

Do livro: Levante-se e lute!
Iswara - Enéas Guerriero

sábado, 12 de junho de 2010

"O PROPÓSITO DO GRHASTHA-ASRAMA"


Por: Sua Santidade Giriraj Swami.

A maioria dos devotos é casado (grhastha), e, além disso, o grhastha-asrama é a base de todos os outros asramas – e das vidas de nossos filhos. Queremos, portanto, que o grhastha-asrama seja tão forte quanto possível.

Quando entrei para o templo de Boston em 1969, éramos todos muito jovens e poucos de nós éramos casados. E éramos tão novos na consciência de Krsna e tão dependentes de Srila Prabhupada que lhe pedíamos orientações em todo âmbito. Uma das devotas, Balai dasi, havia se casado recentemente e não estava certa quanto a como deveria ser sua relação com seu esposo. Ela perguntou a Srila Prabhupada, e ele respondeu: “Assim como a mão direita tem uma relação com a mão esquerda através do corpo, você tem uma relação com seu esposo através de Krsna, com Krsna no centro”. Aqui está a mão direita, e aqui está a mão esquerda, mas o que as conecta é o corpo. Neste exemplo, as mãos direita e esquerda são o esposo e a esposa, e o corpo é Krsna.

Tínhamos de mudar a nossa consciência, Prabhupada nos disse, e colocar Krsna no centro. Isso, ele disse, faria toda a diferença. Quando o nosso falso ego é o centro, temos muitíssimos problemas, mas, quando Krsna está no centro, nossas relações se tornam harmoniosas.

Viemos para o mundo material por invejarmos Krsna. Queremos tomar a posição de Krsna e ser o desfrutador, o controlador, o proprietário. Esta é a nossa disposição na existência condicionada. E, quando viemos para o mundo material, acabamos por competir não apenas com Krsna, mas também com muitíssimos outros competidores de Krsna. E essa disposição egoísta pode entrar em casa. Competimos para ser os desfrutadores, os controladores e os proprietários, e isso leva a conflitos – muitíssimos deuses de imitação lutando pela supremacia.

Através do processo da consciência de Krsna, a nossa identificação corpórea, nossa falsa identificação, é substituída pela compreensão de nossa verdadeira identidade como gopi-bhartuh pada-kamalayor dasa-dasanudasah – servo do servo do servo do servo de Krsna, o mantenedor das gopis.

Quando um discípulo perguntou a Srila Prabhupada: “O que devemos fazer quando há conflitos entre os devotos?”, ele respondeu, “se cada devoto pensa: ‘Sou o servo do servo do servo de Krsna’, então não haverá conflito”. O mesmo princípio se aplica ao lar. Se cada membro familiar pensa e sente: “Sou servo do servo do servo de Krsna”, as relações serão muito cordiais. Mas isso requer uma revolução na consciência. Estamos no mundo material porque queremos ser o mestre do mestre dos mestres, e essa mentalidade nos conduz à frustração, ao desapontamento, à morte – a repetidos nascimentos e mortes. Tornarmo-nos servos do servo dos servos de Krsna conduz-nos à felicidade e à liberação última.

Pouco tempo depois da primeira vez que me encontrei com Srila Prabhupada e os devotos, como um estudante universitário em Boston, ouvi que o mestre espiritual de Srila Prabhupada, Srila Bhaktisiddhanta Sarasvati Thakura, havia dito que, quando você vem para a consciência de Krsna, você se livra do fardo do desfrute. Eu estava sentindo exatamente esse fardo, porque, em todo final de semana, havia uma competição muito forte em relação a quem desfrutaria mais. À medida que o final de semana ia se aproximando, os estudantes – e às vezes a faculdade também – faziam planos de como desfrutar. Esses planos incluíam ir a restaurantes, a cinemas, shows, festas, boates – muitíssimos planos. Eu não gostava verdadeiramente de nenhuma dessas atividades, e, para mim, era um fardo ter de desfrutar como os outros. E então os alunos perguntavam uns aos outros: “O que você fez? O que você fez?”. “Ah, eu fui a uma festa. Todos ficamos bêbados e...”. “Ah, tive um encontro e...”.

A declaração de que, quando você se torna devoto, você se livra do fardo do desfrute ressoava dentro de mim. Era-me artificial tentar desfrutar daquela maneira. Era artificial porque, como almas, nosso verdadeiro prazer vem de nossa relação com a Alma Suprema. O amor verdadeiro existe apenas em relação a Krsna. O Bhakti-rasamrta-sindhu define amor puro (prema) como o centramento de todos os sentimentos e de todas as propensões amorosas pessoais em Visnu, ou Krsna.

ananya-mamata visnau mamata prema-sangata
bhaktir ity ucyate bhisma- prahladoddhava-naradaih

“Quando alguém desenvolve um indesviável sentimento de propriedade ou posse em relação ao Senhor Visnu, ou, em outras palavras, quando alguém considera Visnu, e ninguém mais, como o único objeto de amor, tal despertar é chamado de bhakti [devoção] pelas personalidades elevadas, como Bhisma, Prahlada, Uddhava e Narada”. – Bhakti-rasamrta-sindhu 1.4.2, Cc Madhya 23.8

Há uma oração muito bela oferecida pela rainha Kunti ao Senhor Krsna:

atha visvesa visvatman visva-murte svakesu me
sneha-pasam imam chindhi drdham pandusu vrsnisu

“Ó Senhor do universo, alma do universo, ó personalidade da forma do universo, por favor, portanto, desfazei meu laço de afeição por meus parentes, os Pandavas e os Vrsnis”. – Srimad-Bhagavatam 1.8.40

tvayi me ’nanya-visaya matir madhu-pate ’sakrt
ratim udvahatad addha gangevaugham udanvati

“Ó Senhor de Madhu, assim como o Ganges sempre flui sem obstáculos para o oceano, que minha atração seja constantemente voltada a Vós, sem divergir-se para ninguém mais”. – Srimad-Bhagavatam 1.8.41

À medida que nos tornamos sérios na consciência de Krsna, esta realmente se torna a nossa oração: “Que meu amor flua em direção a Krsna sem impedimentos, assim como o Ganges flui para o oceano”.

Estas declarações – “Por favor, desfazei meus apegos por meus membros familiares. Que meu amor flua exclusivamente em direção a Vós sem se divergir para ninguém mais” – levantam algumas questões: E quanto a outros relacionamentos? O que acontece com meus relacionamentos com meus amigos e familiares?

Em seu significado, Srila Prabhupada apresenta um ponto muito interessante. Ele diz que os membros familiares de Kunti eram devotos de Krsna. Seus membros familiares por parte de pai, os Vrsnis, eram devotos, e seus filhos, os Pandavas, eram devotos. E afeição pelos devotos não é algo fora da jurisdição da consciência de Krsna, do serviço devocional puro. Assim, quando Kunti ora: “Por favor, desfazei meus laços de afeição por meus parentes”, ela quer dizer que deseja que a afeição baseada no corpo seja cortada.

“Sua afeição pelos Pandavas e os Vrsnis não está fora do escopo do serviço devocional porque o serviço ao Senhor e o serviço aos devotos são idênticos. Algumas vezes, o serviço ao devoto é mais valioso do que o serviço ao Senhor. Mas, aqui, a afeição de Kunti pelos Pandavas e os Vrsnis era devido à relação familiar. Esse elo de afeição em termos de relação material é a relação de maya porque as relações do corpo ou da mente se devem à influência da energia externa. Relações da alma, estabelecidas em relação à Alma Suprema, são relações verdadeiras. Quando Kuntidevi quis cortar a relação familiar, ela se referia a cortar a relação da pele. A relação de pele é a causa do condicionamento material, mas a relação da alma é a causa da liberdade. Essa relação de alma com alma pode ser estabelecida pela mediação da relação com a Superalma”. – Srimad-Bhagavatam 1.8.41, significado

Há duas categorias de afeição – uma baseada no corpo e uma baseada na alma, alma com alma, através da mediação da Superalma, a Alma Suprema. Quando Kunti diz: “Por favor, desfazei meus laços de afeição por meus parentes”, ela se refere à afeição que se baseia no corpo: de modo que apenas a afeição baseada na alma permaneça. A afeição baseada no corpo conduz ao condicionamento e à morte, enquanto que a afeição baseada na alma conduz à liberação e à vida eterna.

Portanto, não temos que abandonar nossos relacionamentos familiares, mas queremos purificá-los. Queremos que o aspecto material, que é baseado no corpo, torne-se cada vez menos proeminente, e que o aspecto espiritual, que é baseado na alma, por meio da Alma Suprema, torne-se cada vez mais proeminente. E, quanto mais a dimensão espiritual de nossos relacionamentos se tornam proeminentes, mais apropriados se tornam para a nossa felicidade e para o nosso sucesso último na vida.

Uma autoridade no assunto do matrimônio disse: “O casamento não se destina a fazer você feliz. Ele se destina a fazer você casado, e, uma vez que você esteja segura e totalmente casado, você tem uma estrutura de segurança e apoio a partir da qual você pode encontrar sua própria felicidade”. Estamos aqui, portanto, para trabalharmos os nossos casamentos. Não estamos iludidos de que o casamento por si nos trará felicidade, mas queremos trabalhar os nossos casamentos de forma que possamos atuar bem como partes de uma unidade, a unidade familiar, e, dentro da paz relativa e relativo apoio mútuo dessa unidade, encontrar nossa própria felicidade interior, que é a única felicidade verdadeira que existe.

A relação marital também provê a base para as crianças do casal se desenvolverem na consciência de Krsna e serem felizes. Algum tempo mais tarde, Srila Prabhupada escreveu a Balai: “Nos casamentos materialistas, geralmente há muitíssimos problemas e frustrações porque o princípio básico tanto para o esposo quanto para a esposa é sua própria gratificação sensorial pessoal. Por conta disso, inevitavelmente há conflito e pedido de divórcio. Mas, no casamento consciente de Krsna, o princípio básico é que tanto o esposo como a esposa sirvam Krsna bem e ajudem o parceiro a avançar na vida espiritual. Desta maneira, ambos o marido e a esposa são verdadeiros benfeitores um para o outro e não há questão de nenhum conflito sério ou separação. Portanto, estou certo de que, por ter pais tão excelentes que são devotos do Senhor Krsna, sua filha Nandini é muito, muito afortunada. No Bhagavad-gita, Krsna nos instrui que alguém nascer na família dos devotos significa que essa pessoa foi a mais piedosa de todas as entidades vivas. Assim, crie Nandini muito zelosamente na consciência de Krsna, e Krsna certamente outorgará todas as bênçãos a você e à sua família”.

Estes corpos materiais são simplesmente vestes para a alma. Nossas identidades baseadas no corpo e na mente são temporárias e ilusórias. Nossas identidades reais são como servos amorosos de Krsna e de Seus devotos, e o que quer que estejamos fazendo aqui no mundo material é prática para a nossa vida eterna no mundo espiritual, onde serviremos Krsna e Seus devotos em amor extático. Como Srila Prabhupada disse, se um aluno do ensino médio está fazendo trabalho de nível universitário, ele pode ser promovido para a universidade. Então, se estamos no mundo material, mas estamos ocupados nas atividades do mundo espiritual, podemos ser promovidos ao mundo espiritual. A atividade básica do mundo espiritual, que inclui o cantar dos santos nomes e das glórias de Sri Krsna, é prestar serviço amoroso a Krsna e a outros servos de Krsna. E o grhastha-asrama é uma situação apropriada para praticar o serviço amoroso, que pode nos qualificar para o serviço amoroso eterno no mundo espiritual.

Hare Krsna.

Tradução de Bhagavan dasa (DvS)

sexta-feira, 21 de maio de 2010

"SENHOR CAITANYA MAHAPRABHU"


Quando o Senhor Krishna apareceu aproximadamente há cinco mil anos atrás, Ele falou o Bhagavad-gita para dizer às pessoas que se rendam a Ele, e Ele lhes prometeu proteção das reações kármicas de suas atividades. Infelizmente, nem todo mundo aceitou Sua oferta. Assim, sentindo compaixão para com eles, Krishna decidiu vir novamente quinhentos anos atrás, desta vez em uma forma chamada de Sri Krishna Chaitanya. Ele agiu como devoto e ensinou através do exemplo como se render a Krishna.
Como o Senhor Chaitanya, Krishna assumiu a mentalidade e a aparência do Seu devoto mais querido, Sua consorte Radharani, e ensinou como através do canto congregacional dos nomes do Senhor, especialmente na forma do mantra Hare Krishna, nós podemos despertar nosso amor adormecido por Deus. O Senhor Chaitanya concede a maior bênção, amor por Deus, a todo mundo sem consideração, e assim Ele é louvado pelo santo Vaishnava Rupa Goswami como a mais munificente de todas as encarnações do Senhor.
Devotos da linha de Vaishnavismo Gaudiya (da qual faz parte a ISKCON), aceitam o Senhor Chaitanya como sendo não diferente do próprio Senhor Krishna e O adoram de acordo. Por ser a mais munificente de todas as encarnações do Senhor, os devotos primeiro oram ao Senhor Chaitanya antes de adorar o Senhor Krishna para mitigar suas ofensas, usando o mantra do Pancha-tattwa:
jaya sri krishna chaitanya, prabhu nityananda,
sri advaita, gadadhara, srivasadi gaura bhakta vrinda
O Senhor Chaitanya foi ajudado pelos Seus associados mais íntimos, o Panca-tattwa que inclui o Senhor Nityananda e Advaita Acharya, também encarnações do Senhor, e Gadadhara, a encarnação da potência de prazer espiritual do Senhor, e Srivasa Thakura, encarnação do devoto puro do Senhor.
O Senhor Chaitanya apareceu em Mayapur, onde é agora a Bengala Ocidental, no ano 1486 em uma família de brahmanas e era de fato um estudante em Sua mocidade. Entretanto, depois que Ele conheceu Seu guru, Isvara Puri, em Gaya, Se interessou apenas por devoção a Krishna e pelos festivais organizados por muitos devotos tocando instrumentos musicais e cantando os nomes de Krishna nas ruas. Este canto congregacional dos nomes do Senhor, Ele ensinou, é a bênção principal para a humanidade, pois limpa nossos corações dos desejos materiais, e nos permite provar o néctar pelo o qual nós estamos sempre completamente ansiosos, o néctar eterno do amor a Deus.
Para executar Sua missão, Ele aceitou a ordem renunciada de vida, sannyasa, na idade de vinte e quatro anos. Em seguida, Ele viajou ao longo do sul da Índia e inspirou devoção a Krishna em todo mundo que O via. Durante os últimos dezoito anos dos Seus passatempos manifestos neste mundo, Ele viveu em Jagannath Puri com os Seus seguidores íntimos e demonstrou os limites mais elevados de amor a Deus. O Senhor Chaitanya voltou ao mundo espiritual com a idade de quarenta e oito anos.
O Senhor Chaitanya ensinou que como almas espirituais nós somos partes de Deus e assim somos unos com Ele em qualidade, e ainda ao mesmo tempo também somos diferentes d’Ele em quantidade. Isto é chamado acintya-bheda-abheda-tattva, igualdade e diferença simultâneas inconcebíveis. Portanto, nossa posição constitucional é servir ao Senhor com afeição, e nosso amor por Ele pode ser invocado cantando-se Seus nomes e cultivando as qualidades de tolerância e humildade. Despertar nosso amor por Deus, ou Krishna-prema, é a meta última da vida e nos satisfará completamente. O Senhor Chaitanya deixou oito versos, chamados o Shikshashtaka que resumem Seus ensinamentos. E por Sua instrução, Seus principais discípulos escreveram muitos livros, com referências copiosas das escrituras védicas, confirmando Seus ensinamentos.


Sri Sri Sikshastakam (Os oito versos de Sri Caitanya Mahaprabhu)

(1) - Glórias ao Sri-Krishna-Sankirtana, que limpa o coração de toda a poeira
acumulada durante anos e extingue o fogo da vida condicionada e dos repetidos
nascimentos e mortes. Este movimento de Sankirtana é a bênção principal para
toda a humanidade porque espalha os raios da lua das bênçãos. É a vida de todo
o conhecimento transcendental, e nos capacita a saborear plenamente o néctar
pelo qual sempre ansiamos.

(2) - Ó meu Senhor, apenas Teu santo nome pode outorgar todas as bênçãos aos
seres vivos, por isso tens centenas e milhões de nomes, tais como Krishna e
Govinda. Nestes nomes transcendentais aplicastes todas as Tuas energias
transcendentais. Não há sequer regras rígidas para cantar estes nomes. Ó meu
Senhor, por Tua bondade, permites que nos aproximemos facilmente de Ti através
de Teus Santos Nomes, mas desventurado como sou, não sinto atração por eles.

(3) - Deve-se cantar o Santo Nome do Senhor com um estado de espírito
humilde, julgando-se inferior à palha na rua; deve-se ser mais tolerante que
uma árvore; desprovido de todo sentimento de falso prestígio; e deve-se estar
pronto a oferecer todo o respeito aos outros. Neste estado de espírito pode-se
cantar o Santo Nome do Senhor constantemente.

(4) - Ó Senhor todo-poderoso, não tenho nenhum desejo de acumular riqueza,
nem desejo belas mulheres, nem quero ter seguidores. Só quero prestar-Te
serviço devocional imotivado, nascimento após nascimento.

(5) - Ó filho de Maharaja Nanda (Krishna), sou Teu servo eterno, porém, de
alguma forma cai no oceano de nascimentos e mortes. Resgata-me, por favor,
deste oceano de mortes e considera-me um átomo a Teus pés de lótus.

(6) - Ó meu Senhor, quando meus olhos se decorarão com lágrimas de amor
fluindo constantemente ao cantar Teu Santo Nome ? Quando minha voz se abafará,
e quando os pêlos de meu corpo se arrepiarão ao recitar Teu nome.

(7) - Ó Govinda ! Sentindo saudades de Ti, para mim parece que um instante
dura doze anos ou mais. De meus olhos, fluem lágrimas como torrentes de chuva,
e sinto que o mundo está vazio na Tua ausência.

(8) - Não conheço ninguém além de Krishna como meu Senhor, e Ele sempre o
será mesmo que me trate de forma um tanto bruta ao me abraçar ou que parta meu
coração por não estar presente diante de mim. Ele é completamente livre para
fazer qualquer coisa, pois sempre será o meu Senhor adorável,
incondicionalmente.

segunda-feira, 17 de maio de 2010

"SEJA VEGETARIANO"



Bom é não comer carne / Rom.

Não destruas por causa da comida as obras de Deus. É verdade que tudo é limpo, mas mal vai para o homem que come com escândalo. Bom é não comer carne, nem beber vinho, nem fazer outras coisas em que teu irmão tropece, ou se escandalize, ou se enfraqueça.
Romanos, 14: 20, 21

"ETIQUETA VAISHNAVA"


O que é Etiqueta Vaishnava?
Etiqueta Vaishnava é um conjunto de comportamentos que facilita a consciência de Krishna, atrai as bençãos dos devotos e torna sublime a associação com devotos.
O Senhor Chaitanya Mahaprabhu, ao instruir Sanatana Goswami, disse que “…caracteristicamente um devoto observa e protege a etiqueta Vaishnava. Manter a etiqueta Vaishnava é o ornamento do devoto”. (CC Antya 4.129-30)
Quando perguntado como se identificava um Vaishnava, Srila Prabhupada, o fundador-acharya da ISKCON, respondeu: “Ele é um cavalheiro perfeito”.

Etiqueta com Pessoas
1. Lidando com pessoas em geral
Não há sentido em se proclamar devoto amoroso de Deus e tratar mal desnecessariamente qualquer ser vivo. É prática intrínseca de bhakti-yoga ser gentil e bondoso com todos os que são inocentes e não-violentos.
“Toda pessoa deve agir assim: ao encontrar uma pessoa mais qualificada do que ele, deve ficar muito satisfeito; ao encontrar uma pessoa menos qualificada, deve ter compaixão; e ao encontrar alguém igualmente qualificado, deve estabelecer um vínculo amistoso. Dessa maneira, a pessoa nunca é afetada pelas três misérias do mundo material.” (SB 4.8.34 - Narada Muni instrui Dhruva Maharaja)
“Um devoto intermediário ou de segunda classe, chamado de madyama-adhikari, oferece seu amor a Suprema Personalidade de Deus, é um amigo sincero a todos os devotos do Senhor, mostra misericórdia às pessoas ignorantes que são inocentes e ignora aqueles que são invejosos da Suprema Personalidade de Deus.” (SB 11.2.46)
É também um princípio básico de toda boa civilização demonstrar muito respeito para com nossos pais, tios e qualquer pessoa idosa.

2. Lidando com devotos
”Devotos” são aqui definidos como todos aqueles que desejam sinceramente avançar em consciência de Deus, seja dentro do Movimento Hare Krishna (ISKCON), seja em outras religiões. Nesse sentido, é importante lembrar a afirmação de Prabhupada:
“Querer ser consciente de Krishna é tão bom quanto estar num estado de consciência de Krishna. Não há verdadeira diferença; é como a diferença entre mangas verdes e mangas maduras. A manga madura não é uma manga diferente, mas é somente uma condição da manga verde” (Carta a Robert Hendry – Los Angeles 3 de agosto, 1969)
Existe uma hierarquia natural na consciência de Krishna, onde devemos ter um cuidado especial ao lidar com devotos mais avançados:
“Deve-se honrar mentalmente o devoto que canta o santo nome do Senhor Krishna, deve-se oferecer humildes reverências ao devoto que já foi iniciado e está ocupado em adorar a Deidade e deve-se buscar a associação e fielmente servir o devoto puro que está avançado em puro serviço devocional, e cujo coração está livre da propensão a criticar outros”. (Néctar da Instrução, verso 5)
Alguns parâmetros básicos para reconhecer um devoto mais avançado são:

1) Aquele que é um devoto há mais tempo que nós;
2) Aquele mais engajado em serviço devocional que nós;
3) Aquele que está ocupado em trabalhos missionários;
4) Aquele que é o líder ou está numa posição administrativa em um templo ou projeto missionário;
Devemos respeitar os devotos mais avançados e servi-los sempre que possível. Algumas instruções práticas incluem:
1) não tente ocupá-los em algum serviço, a não ser que você esteja numa posição administrativa e eles tenham se oferecido para seguir suas ordens ou lhe solicitado algum serviço;
2) não os instrua, a não ser que tenham solicitado sua instrução ou estejam sentados para ouvir sua aula;
3) não os corrija ou fale de forma desagradável com eles;
4) não os ofereça prasadam de seu prato;
5) não os interrompa quando estão falando;
6) sirva prasadam a eles primeiro;
7) quando chegam num programa (aula, festival, etc.) ofereça um assento ou almofada;
8) peça a instrução deles;
Esse comportamento torna o ambiente doce e favorece o avanço espiritual, invocando a tão importante benção e ajuda dos devotos mais experientes.
Mais avançado ou não, devemos sempre ter um cuidado especial com os devotos:
“Na verdade, é dever do devoto fazer que todos apreciem o valor dos devotos. Ninguém deve criticar ninguém.” (Carta de Srila Prabhupada a Tamal Krishna, 19 de agosto de 1968)
“Devoto significa [ser] muito generoso e gentil com todos, sempre um cavalheiro sob todas as condições da vida.” (Carta de Srila Prabhupada a Hamsaduta, 10 de dezembro de 1972)
Com o objetivo de que desenvolvêssemos uma atitude de respeito e nos enquadrássemos na mentalidade correta, Srila Prabhupada pediu-nos para utilizar títulos respeitosos ao nos dirigir a outros devotos.
“Eu pedi a todos vocês que se dirijam aos seus irmãos espirituais como prabhu. Esse termo, prabhu, significa chefe. Se todos acharmos que nossos colegas de trabalho [missionário] são chefes, não haverá possibilidade de desentendimentos. O erro está em ser chamado de chefe ou prabhu e se achar exatamente um prabhu ou chefe. A pessoa não deve esquecer que é um servo humilde, mesmo sendo chamado de prabhu.” (Carta de Srila Prabhupada a Nandarani, 28 de novembro de 1967)
Assim, os devotos se dirigem aos outros com o termo “prabhu“, que era usado por Prabhupada tanto para homens como mulheres. Em países latino-americanos pouco se usa o “prabhu” para mulheres, mas nos EUA e Europa as devotas costumam não gostar de serem chamadas de “mataji“, o que significa “mãezinha” em bengali.
Em todo o caso, o devoto sempre sabe que a posição que ele almeja é de ser servo do servo do servo de Krishna… mil vezes distante! Nunca o mestre ou prabhu.
“Um Vaishnava é sempre humilde e meigo, e nunca cheio de si mesmo, mesmo que ele tenha as mais elevadas qualidades dos semideuses.” (Carta de Srila Prabhupada a Upendra, 18 de agosto de 1970)
Em nossa sociedade de devotos, há uma categoria que merece cuidado especial, que são os sannyasis. Os sannyasis são aqueles que receberam a 3ª iniciação, fazendo votos de renúncia e celibato vitalícios, tendo em seus nomes o título “Swami” ou “Goswami“. É dito que se deve prestar reverências tocando a cabeça ao chão, sempre que se vê um sannyasi. A nos referirmos a eles para terceiros, devemos usar o título “Sua Santidade” ou “Srila” e quando nos dirigirmos a eles diretamente, “Maharaja“. Não se usa o termo “prabhu” ao se dirigir a um sannyasi.
O mestre espiritual merece um cuidado ainda maior, pois o mestre espiritual é o representante de Deus. Existe o mestre espiritual que nos dá iniciação (diksa-guru) e o mestre espiritual que nos ensina ou que nos guia na vida espiritual (siksha-guru). Às vezes é a mesma pessoa, mas, na ISKCON, quase sempre não é. Muitas vezes temos em nossa vida um devoto que aceitamos como sendo sério e avançado, que nos guia e nutre nossa consciência de Krishna, mas que não é a mesma pessoa que nos deu ou dará iniciação formal. A regra de etiqueta Vaishnava é que não devemos dar um tratamento diferenciado entre os dois. Os dois merecem o mesmo grau de respeito e serviço. Algumas instruções básicas em lidar com o guru são:
1) Deve-se sempre oferecer reverências tocando a cabeça ao chão ao vê-lo e ao pedir licença para se retirar;
2) Não se deve sentar no mesmo nível ou mais alto que o guru;
3) Deve-se prestar todo tipo de serviço possível ao guru;
4) Deve-se compreender que a ordem do guru é meta suprema na vida;
5) Deve-se anualmente presentear o guru, em seu dia de aparecimento, com palavras de respeito e uma doação (dakshin).

3. Ao ouvir uma palestra
Algumas regras básicas ao comparecer a uma palestra ou aula dos devotos são:
1) certifique-se que o palestrante está com um copo d´água cheio;
2) mantenha-se em total silêncio, exceto para fazer uma pergunta ao palestrante;
3) desligue o celular;
4) evite retirar-se antes do final da aula, mas se tiver que fazê-lo, preste primeiro reverências ao palestrante, tocando a cabeça ao chão;
5) não deixe sua criança correr pela sala ou fazer barulho - leve-a para fora. É uma tortura para uma criança comum ter que ficar sentada quieta durante uma aula e é um incômodo para os demais ter uma criança fazendo barulho durante a aula;
6) não aponte seus pés para palestrante;
7) não se deite.

4. Evitando ofensas
De acordo com as escrituras, cometer uma ofensa a um servo de Deus (Vaishnava aparadha) acarreta grande dificuldade em nossa vida espiritual. Seguindo as recomendações acima descritas, evitamos cometer uma ofensa a um devoto. Porém, se porventura cometermos uma ofensa, a única maneira de retratar o erro é pedir humildemente desculpas ao devoto em questão.

5. Corrigindo devotos
Deve-se ter muito cuidado ao corrigir um devoto. A pessoa que corrige deve ter as seguintes qualificações:
1) ser livre de inveja;
2) ser sinceramente desejosa de ajudar o outro devoto a avançar em consciência de Krishna;
3) estar em uma posição espiritual ou administrativa que justifica e/ou necessita que faça tal correção;
4) ou estar respondendo a um pedido pessoal do devoto em questão para ser corrigido.
O devoto deve ainda estar praticando o que ensina ao devoto que está corrigindo.
Um devoto nunca deve corrigir alguém mais experiente ou avançado que ele. Se ele achar que um devoto numa posição mais avançada que ele está cometendo um erro, ele deve se aproximar de outro devoto igualmente mais avançado com quem tem mais intimidade e pedir sua ajuda ou conselhos sobre como ajustar a situação.

6. Considerações gerais
1) Não aponte seus pés a qualquer devoto;
2) Não toque qualquer devoto com seu pé;
3) Não caminhe por cima de qualquer devoto;
4) O corpo do devoto é considerado sagrado;
5) Comporte-se gentilmente, vendo todos os devotos no Movimento como representantes de Srila Prabhupada;
6) Tenha muito cuidado para não ofender um devoto.

Etiqueta com Deidades e Objetos Sagrados

1. Deidades
A Deidade é Deus aparecendo em objetos aparentemente materiais. Portanto, todo cuidado e respeito é pouco quando diante da Deidade, de Deus. Algumas instruções básicas:
1) ofereça sempre suas reverências ao ver a Deidade;
2) não toque a Deidade a não ser que seja a serviço;
3) não fale de assuntos mundanos diante da Deidade;
4) não se deite diante da Deidade;
5) não aponte seus pés para a Deidade;
6) sempre que possível, não sente de costas para a Deidade;
7) não corrija ninguém em frente a Deidade.

2. Quadros, livros, japa-mala e outros objetos
Quadros de imagens espirituais, formas de Deus ou fotos do mestre espiritual são sagrados. Os livros sagrados são as instruções de Deus, portanto não diferentes dEle. Japa-mala, parafernália do altar, tulasi, tilak, etc. são também todos itens sagrados.
Tais itens devem ser tocados apenas com as mãos limpas, devem mantidos limpos e nunca colocados no chão, cama e outros lugares não limpos. Nunca devem ser levados para dentro de um banheiro (com exceção da tilak que alguns devotos aplicam no banheiro). Nunca devem ser arremessados, senão que sempre transportados com reverência e atenção.
Considera-se que as mãos não estão limpas (e portanto não devem tocar em nada limpo antes de serem lavadas, especialmente os devotos e objetos sagrados) nas seguintes situações:
1) depois de comer;
2) depois de ir ao banheiro;
3) depois de tocar a boca, olhos, ouvido, interior do nariz ou outras partes não limpas do corpo;
4) depois de tocar um animal;
5) depois de beber qualquer líquido;
6) depois de tocar qualquer coisa suja.
Na cultura védica (e em muitas outras culturas asiáticas), a mão direita é reservada para coisas limpas, como comer, e a esquerda para as sujas, como o ato de se limpar no banheiro.

Como se comportar no Templo
O templo é a casa de Deus. Algumas regras básicas devem ser seguidas ao visitar um templo:
1) sempre que possível, visite o templo de banho tomado;
2) use roupas apropriadas para um local sagrado: roupas que são castas, limpas e dignas ou, em outras palavras, roupas que não trazem atenção ao seu corpo ou são demasiadamente opulentas;
3) retire seus sapatos e deixe-os no local indicado, deixando sempre a passagem livre;
4) se houver um sino na porta, soe-o levemente ou bata na porta três vezes antes de entrar, se possível saudando suavemente o nome das Deidades, como “Jaya Goura-Nitai! Jaya Jagannatha, Balarama, Subhadra!“ - isso é como tocar a campainha ou bater palmas e chamar o nome do proprietário antes de entrar na casa de alguém;
5) ao entrar, preste reverências a Srila Prabhupada e as Deidades, pronunciando o guru pranam;
a. O guru pranam é o mantra em reverência ao guru. Quem não for iniciado canta apenas as duas linhas do mantra de Srila Prabhupada:
nama om visnu-padaya krsna-presthaya bhu-tale
srimate bhaktivedanta-svamin iti namine
namas te sarasvate deve gaura-vani-pracarine
nirvisesa-sunyavadi-pascatya-desa-tarine
b. Quem for iniciado, deve entoar o mantra de seu guru e depois o de Srila Prabhupada.
c. Mulheres prestam reverências tocando os pés, mãos e cabeça ao chão, mas homens devem prestar dandavats, que significa “como uma vara”, estendendo-se por completo no chão. Mulheres não prestam dandavats, porque seus seios e ventre são considerados sagrados e não devem tocar no chão.
6) nos templos é costume homens e mulheres ficarem em lados separados, para facilitar maior concentração na aula ou na Deidade - observe em que lado estão os homens e mulheres e dirija-se ao lado correto;
7) ao receber ou compartilhar artigos que foram oferecidos para a Deidade, como flores, água e a lamparina, use sempre a mão direita;
8) durante os kirtans e bhajans, esforce-se para acompanhar as letras e mantras - todas as canções podem ser aprendidas adquirindo-se livros como “Manual Vaishnava” ou “Canções Vaisanavas”;
9) ao final do kirtan, um líder do grupo vai entoar as orações “prema dhvani” (aquelas que terminam com “ki jay“); ao final delas, cada um entoa as orações ao guru como acima descrito;
10) ao receber prasadam, honre-a com uma atitude devocional e coma com sua mão direita, nunca a esquerda, tentando não deixar restos no prato;
a. após comer, suas mãos estarão sujas, portanto não se sirva mais, nem sirva aos outros antes de lavar as mãos;
b. ao servir prasadam, não deixe a colher de servir tocar no prato, especialmente um já utilizado.
11) não se aproxime de pessoas do sexo oposto sem uma boa razão devocional;
12) evite toda discussão mundana dentro do templo, entoe apenas vibrações transcendentais dos ensinamentos e mantras.

Conclusão
Foram apresentadas acima algumas regras básicas da etiqueta Vaishnava. Não se intimide, caso no início possa parecer complicado. Ninguém espera que um novato saiba de tudo isso imediatamente. Observe os devotos maduros, releia estas instruções e assim poderá aperfeiçoar sua prática de etiqueta Vaishnava aos poucos. Na dúvida, consulte um devoto mais experiente com quem tenha afinidade.
Sri Chaitanya Mahaprabhu enfatiza:
“Deve-se cantar o santo nome do Senhor em um estado de espírito humilde, considerando-se inferior à palha na rua; deve-se ser mais tolerante que uma árvore, destituído de todo o sentido de falso prestígio, e deve-se estar pronto para oferecer todo o respeito aos outros. Em tal estado de espírito, pode-se cantar o santo nome do Senhor constantemente.” - Sri Siksastaka 3
Acima de tudo devemos entender que a cultura Vaishnava é uma cultura de tolerância, respeito e humildade.
Para finalizar, é sempre bom lembrar a instrução várias vezes citada por Srila Prabhupada, tirada do Padma Purana, que a principal ordem é “sempre se lembrar de Krishna” e a principal proibição é “nunca se esquecer de Krishna”.

domingo, 25 de abril de 2010

"PESSOAS CONFLITUOSAS"

As pessoas mais conflituosas que conheço são extremamente competitivas, é uma fome insaciável de ter para provar algo aos outros, beleza para encantar, inteligência para persuadir. Um tolo que se faz provar está sempre incomodado com o honesto que ganha méritos sem precisar se esforçar para se mostrar, mas sendo apenas o que realmente é. É aí que mora a humildade do ser, aquele que age com a consciência de suas intenções, mas que a suas intenções diante de seus ganhos e percas, são sempre visando para o seu bem como ser humano. O tolo acredita que a humildade é uma virtude que o faz ganhar, diante disto se faz de humilde e bobo para que as pessoas também possam pensar algo sobre ele, que é prestativo, que não é arrogante. O tolo arrogante ao se deparar com uma pessoa que pareça ter mais benefícios que ele em algum aspecto, se faz de humilde e questiona a humildade do outro por ter tanto e não se fazer provar " É um bobo" ele pensa, e o humilde quando perguntado sobre seus conhecimentos responde exatamente o que lhe foi perguntado. Qualquer homem que agride o ser do outro, seja questionando a humildade ou sua capacidade não tem a menor íntegridade para tal, visto que os homens mais íntegros não sabem que o são, não são elevados ou declinados pelas palavras de outro, mas buscam em si as verdades que precisam para construir o seu caminho. O seu ego não é lesado, nem se sente desafiado pela vantagem do outro, mas procuram sempre na neutralidade das projeções, apenas se preencherem do que lhes sintoniza á essência.

LARISSA FERNANDES.

sexta-feira, 2 de abril de 2010

"SOBRE OS FILHOS"

E uma mulher que trazia seu filho ao colo disse: “Fala-nos dos filhos.”
E ele disse:
“Vossos filhos não são vossos filhos.
São filhos e filhas do anelo da Vida por si mesma.
Eles vêm através de vós, e não de vós, e embora estejam juntos de vós, não vós pertencem.
Podei doar-lhes vosso amor, mas não vossos pensamentos, pois eles têm seus próprios pensamentos.
Podeis abrigar seus corpos, mas não suas almas, pois suas almas moram na casa do amanhã, que vós não podeis visitar nem mesmo em vossos sonhos.
Podeis tentar ser como eles, mas não tentai fazê-los como vós.
Pois a vida não caminha para trás, nem se demora com o ontem.
Vós sois os arcos dos quais vossos filhos são arremessados como setas vivas.
O Arqueiro mira o alvo no caminho infinito, e Ele vos tende com sua força para que Suas setas possam voar ligeiras para longe.
Deixai que as mãos do Arqueiro vos curvem, para vossa felicidade;
pois assim como Ele ama a flecha que voa, assim também Ele ama o arco que permanece estático.”


Khalil Gibran.

sábado, 20 de março de 2010

"NÃO FIQUE SATISFEITO! NÃO ENVELHEÇA!"


Materialmente falando, é um fato que quanto mais vivemos, mais velhos ficamos. Mais, quem pratica efetivamente a vida espiritual tem uma sensação completamente oposta. Parece loucura, mas, se usarmos o fator tempo como medida, o mais velho do devoto tem que estar no passado e não no presente. Como assim? Isso ocorre porque situar-se em consciência de Krishna significa estar sempre e cada vez mais se lapidando, e assim, se superando e se renovando. É como se o devoto ou a devota sempre se tornasse uma nova edição dele ou dela mesmo – uma edição revista e muitas vezes até ampliada! Portanto, a cada período, um devoto ou uma devota “vivos espiritualmente” possuem cada vez mais qualidade nas suas vidas espirituais.

Por tudo isso, surge a pergunta: “Você está satisfeito com a qualidade da sua vida espiritual?”

Se a sua resposta é “sim”, então é bom tomar cuidado...

É claro que, por um lado, é importante sentirmos certa satisfação. Afinal de contas, quando conseguimos nos livrar do complicado modo da paixão e nos fixar no serviço devocional experimentamos verdadeiro ruchi, ou sabor espiritual em nossas atividades. Mas fomos advertidos também da manifestação sutil e condicionante do modo da bondade: o sentimento de satisfação que dá a sensação de conclusão, encerramento, término. Aquela satisfação que não deixa margem para o prosseguimento. Aquela que limita, amortece, estagna. Por isso, o grande escritor e poeta Guimarães Rosa nos cutuca: “o animal satisfeito dorme” – uma provocação altamente cabível.

Um bom livro não é aquele que NÃO queremos que ele acabe?...

Lembro-me claramente que isso ocorreu comigo quando lia o último volume da biografia de Srila Prabhupada. Eu fazia de tudo para NÃO terminá-lo. Eu estava satisfeito com a leitura? Sim! Plenamente satisfeito! Mas eu queria mais! Essa é a qualidade da satisfação transcendental. Me lembro também que quando o livro chegou ao fim deixei-o apoiado no meu colo ainda por muito tempo e, cheio de satisfação, fiquei perdido em devaneios sobre as qualidades transcendentais de Srila Prabhupada.

Um dos versos que considero dos mais impressionantes, devido à sua profundidade, é o verso em que a Rainha Kunti ora a Krishna: “Que venham as calamidades!”.

Como assim?...

Essa espantosa afirmação dessa maravilhosa devota de Krishna serve para corroborar também a idéia de que a insatisfação é bem-vinda. Definitivamente, não podemos nos render à sedução do repouso e deixar a acomodação engessar a nossa vida espiritual. Portanto, o sentimento de insatisfação pode ser um dos melhores motivos para sairmos da nossa zona de conforto. Em outras palavras, a insatisfação pode ser vista como uma grande misericórdia. Como já dizia o poeta Belchior: “E precisamos todos rejuvenescer”. É claro que materialmente falando isso é impossível. O corpo inevitavelmente irá envelhecer e não há o que fazer para determos isso. Isso é vida material. Mas, no campo espiritual, diferente da vida corpórea, podemos e devemos sempre rejuvenescer. Isso é vida espiritual (bhavanti hrt-karna rasayana kathah).

Chandramukha Swami

sábado, 6 de fevereiro de 2010

"VALORIZANDO A VIDA"


Em várias ocasiões, nesses dois últimos anos, organizamos, em Goura-Vrindávana, workshops para discutir o tema “Valores Humanos”. Não é necessário aqui justificar a importância do tema pois qualquer ser humano são aspira adquirir qualidades que vão valoriza-lo cada vez mais. Mesmo uma pessoa muito virtuosa quer sempre aperfeiçoar-se mais e mais. Aliás, quanto mais nos aprofundamos no tema, constatamos a necessidade de darmos uma atenção séria ao assunto e tentarmos incorporar as qualidades mais exaltadas em nossa existência cotidiana. é absolutamente urgente para a vida neste plano de existência em que vivemos, que mais e mais pessoas tornem-se pólos de irradiação de princípios e valores, afim de promover uma atmosfera de bondade e esperança em meio a esse “favelão” que nosso querido planeta está virando.

Há Esperança?

Apesar da óbvia importância do tema, verificamos que a sociedade humana, ao invés de cultivar valores e princípios que irão engrandece-la e eleva-la, vem tomando, em geral, um rumo oposto. Existem, de fato, forças extremamente perniciosas que arrastam a consciência, tanto a nível individual quanto coletivo, para patamares cada vez mais baixos, aprisionando a pessoa em tramas viciosas, degradantes e sempre carregadas de algum tipo sofrimento.

O psicólogo e pensador Erick Fromm definiu a orientação do caráter da pessoa em duas direções diametralmente opostas: uma, biófila, em direção à vida, e outra, necrófila, em direção à morte. A pessoa com orientação biófila é livre e responsável. Ela aspira aperfeiçoar-se, desenvolver suas potencialidades espirituais, expandir sua consciência, viver em paz, em harmonia com o cosmos, sempre irradiando os melhores fluidos. Ela identifica-se com a alma e vive um progressivo processo de divinização do ser.

Já o tipo necrófilo identifica-se demasiadamente com o corpo e sua vida é um processo regressivo de auto-mutilamento. Podemos identificar dois tipos de comportamento característicos da orientação necrófila que, por sua vez, são completamente opostos entre si. De um lado, acomodação, descaso, desesperança ou, mesmo, desespero diante da vida. A vida perde o sentido e a pessoa gradualmente definha, sempre meditando em seu próprio sofrimento, e, em muitos casos, ela mesmo provoca sua própria morte.

Do outro lado, de forma compulsiva, a pessoa está ávida por explorar o mundo, movida por ganância, ou desfrutar do corpo, movido pelos apetites sensuais. Ela quer viver, mas o viver tem um sentido completamente pervertido e caótico, e acaba, invariavelmente, em total desastre. Ela vive, literalmente, matando-se. Tal pessoa é, geralmente, atraída pela imoralidade, pela perversão sexual, pela estupefação ou ‘ligação’ através de drogas, pela adrenalina e vida perigosa; a nível interno, é, invariavelmente, escravizada pelas forças mais sórdidas de sua própria mente, completamente à mercê das “paixões irracionais”, como inveja, cobiça, luxúria, ira, ilusão e arrogância— terreno fértil para a proliferação de vícios, degradação e, conseqüente, sofrimentos. Nesse período cósmico em que vivemos, a Kali-yuga, a mentalidade necrófila tende a prevalecer no seio da sociedade, deixando pouco espaço para a vida virtuosa.

Os Mega-Problemas

Nosso planeta depara-se, hoje em dia, com efeitos seríssimos, praticamente irreversíveis, que foram causados pelos seus próprios habitantes. A grande contradição é que, em geral, tudo é feito em nome do “progresso”. Mas o fato irrefutável é que o futuro da humanidade é obscuro e incerto. Não ocorrendo uma mudança de paradigma que substitua a presente mentalidade imediatista, compulsiva, egoísta e irresponsável por uma consciência sã, onde iremos parar?

Dentre uma longa lista, citaremos quatro dos problemas mais preocupantes do planeta. Primeiramente, a degradação ambiental, com seus dois tentáculos: a exploração avassaladora dos recursos naturais e a descarga irrestrita de resíduos poluentes na terra, na água e no ar. Igualmente problemática é a disparidade da distribuição de renda— uns poucos favorecidos valendo-se da sub-pobreza de muitos. Outro problema sério é a falta de segurança e a sempre-presente ameaça de violência e terrorismo, especialmente nas áreas urbanas. Por fim, destacamos a questão ética— estamos assistindo uma gradual e crescente degeneração moral da sociedade.

A instituição familiar e a religião genuína, que sempre foram os esteios e guardiões do patrimônio moral da sociedade, estão, hoje em dia, debilitadas e desprestigiadas. O papel de tutor das massas é, agora, ocupado pela onipresente mídia que se vale de sofisticados e atrativos recursos tecnológicos que cativam a mente de todos. Por ser movida pelo lucro, seu único negócio é intensificar o consumismo utilizando-se de contínuo bombardeio de estímulos aos apetites sensuais das pessoas. Estando assim ativados, os apetites sensuais despertam sobremaneira a contraparte animalesca do ser humano e minam a estrutura moral e espiritual da pessoa. Todos esses fenômenos psíquicos e sociológicos modernos, embora revestidos com um roupagem atrativa e, muitas vezes, sofisticada são, na verdade, altamente destrutivos e estão promovendo um estado geral de alienação e embotamento espiritual. E o que hoje em dia assistimos é uma proliferação dos anti-valores humanos, dos quais enumeramos alguns: irresponsabilidade, egoísmo, ganância, maldade, hipocrisia, desrespeito ao próximo e a si mesmo, injustiça, violência, e a lista vai longe.

A degeneração moral só pode ser neutralizada com o cultivo de valores humanos positivos, que por sua vez são a base de todas as atividades que visam o bem estar. Os ideais da ecologia, justa distribuição de renda, desenvolvimento e paz só serão alcançados quando forem respaldados por uma sólida estrutura de valores. Portanto, a conclusão que fica é que qualquer atividade progressista, produtiva e destinada ao bem estar social e individual deve, obrigatoriamente, estar calcada nos valores. Caso contrário, até atividades consideradas virtuosas, como por exemplo, a caridade pública, preservação do meio ambiente, direitos humanos, campanhas de paz, proselitismo religioso, etc., não estando baseada em valores, mas sim em interesses velados, tornam-se grotescas formas de hipocrisia e oportunismo e o que ao final resulta é, muitas vezes, o inverso da proposta.

Vida Espiritual e Caráter

Os valores humanos também são a base de uma vida espiritual sadia e inspirada. Não podemos pensar em desenvolver amor puro por Deus sem uma sólida base de princípios e valores, isto é, um caráter bem formado.

O caráter é o que em ultima instância define se a vida da pessoa foi bem sucedida ou fracassada. Como disse Erick Fromm: “O caráter indica até que grau um indivíduo conseguiu êxito na arte de viver”. E Ernest Becker conclui: “O homem não pode evoluir além de seu caráter. Ele está preso a esse caráter. Em outras palavras, ele não pode evoluir sem o caráter.” Só poderemos enfrentar, resolver e superar os inevitáveis problemas que defrontamos na vida, assim como só poderemos dar um sentido real a nossa vida se estivermos fundamentados em princípios e valores éticos. O filósofo dinamarquês do século XIX Soren Kierkegard chamou a pessoa com tal mentalidade de “cavaleiro da fé”. Ele escreveu: “é a pessoa que vive na fé, que entregou o significado da vida ao Criador e que vive concentrado nas energias de Deus. Aceita sem reclamar o que quer que aconteça nessa dimensão visível, vive a vida como um dever e enfrenta a morte sem receio. Nenhuma ninharia é tão insignificante para não ter significado; tarefa nenhuma é amedrontadora demais para estar acima de sua coragem. Ele se encontra plenamente no mundo segundo as condições impostas por esse mundo, e totalmente fora do mundo na sua confiança na dimensão invisível.” Só chegaremos a esse estágio de vida pelo cultivo de valores e princípios.

Uma proposta prática

Há, certamente, múltiplas maneiras de se abordar o tema “Valores Humanos”. Muito tem se falado sobre valores universais inquestionáveis e utópicos como amor, paz, justiça, etc. Esse tema está sempre presente nos discursos oficiais, na linguagem política e diplomática, em qualquer mobilização social, em suma, onde quer que haja interesses sectários. Usa-se e abusa-se desses valores, até o ponto de tornarem-se desgastados, não por perderem seus valores intrínsecos, mas por serem tratados levianamente. O amor, por exemplo, tornou-se sinônimo de atração sexual e uso do corpo do outro para o prazer pessoal. Com isso, o conceito de amor gradualmente vai perdendo sua conotação essencial, que, necessariamente, deve sempre estar associado com outras qualidades, como o desejar o melhor para o objeto do amor, a responsabilidade, o conhecimento e o desvelo para com a pessoa amada.

Em nossa apresentação do tema “Valores Humanos” queremos oferecer uma visão mais pragmática do assunto. Evitando cair em propostas utópicas e impraticáveis, formulamos uma linha de atuação bem “pé no chão”, que possa ser aplicada no dia-a-dia da pessoa em seu auto-aperfeiçoamento, tanto material quanto espiritual.

Tomamos como ponto de partida um trabalho de organização empresarial e ecologia humana intitulado “Os Sete Hábitos de uma Pessoa Altamente Eficaz”, de Stephen Covey, que, dentre as milhares propostas de auto-ajuda e gerenciamento que ocupam as prateleiras das livrarias de todo mundo, tornou-se, indiscutivelmente, um clássico do assunto. O autor pesquisou criteriosamente a atuação de pessoas reconhecidamente bem sucedidas e eficazes em diversos ramos de empreendimentos e notou que, no trato pessoal e inter-pessoal, elas tinham qualidades e hábitos em comum. Notou, também, que a razão do sucesso não era meramente o oportunismo, a esperteza, a sorte, a habilidade de controlar, e outros artifícios, mas sim, princípios e valores. Portanto, Covey aconselha que, ao invés de agir de forma meramente intuitiva e informal, adquiramos certos hábitos em nosso dia-a-dia, que serão conducentes a um desempenho muito mais grandioso e permanente.

Como já foi dito: “Os pensamentos são a causa da manifestação das ações; as ações geram os hábitos; os hábitos, em conjunto, definem o caráter; e o caráter é o fator determinante do destino da pessoa.”

A obra de Covey restringe-se a propor certos hábitos. Nossa intenção é complementar essa proposta indicando valores e a mentalidade correspondente a cada hábito. Daremos, a seguir, a relação dos hábitos propostos por Covey acompanhado com o valor básico associado a esse hábito e a mentalidade que se deve cultivar para que o valor possa frutificar.

Os Sete Hábitos, Valores e Mentalidades

Os três primeiros hábitos estão relacionados com o aperfeiçoamento pessoal. Trata-se de elevar a pessoa de um estado de dependência ao estado de relativa independência.

1. Ser proativo
Proatividade é um dom do ser humano que implica em sermos responsáveis por nossas próprias vidas. Nosso comportamento resulta-se de decisões tomadas, e não das condições externas. é a capacidade de subordinar nossos sentimentos aos valores. O contrário de ser proativo é ser reativo, que é a pessoa que é levada pelos sentimentos e condicionada pelas circunstâncias, condições e ambiente. A pessoa reativa sempre culpa as condições externas ou outras pessoas por seus infortúnios.

Escolhemos a “dignidade” como o valor afim com a proatividade. A pessoa proativa sente-se digna de tomar a iniciativa de responsabilizar-se por sua própria vida. E a mentalidade correspondente é a “mentalidade de otimismo e auto-confiança”. Valores correlacionados: auto-estima, coragem, destemor, entusiasmo, iniciativa.

2. Começar com o objetivo em mente
Temos que definir nossa missão pessoal na vida. Se não temos um objetivo definido pelo qual podemos nos direcionar, ficaremos à mercê das forças externas e da volubilidade de nossa mente, como um barco vagando à deriva. A diferença entre administrar e liderar é que administrar é fazer as coisas do jeito certo; já liderar é fazer as coisas certas com um objetivo definido. Por exemplo, a pessoa pode ser muito perita em velejar e pode ficar dando voltas da baia com muita destreza. Mas se ela quiser ir do Rio a Cabo Frio, ela tem que se preparar muito bem, antever as circunstancias que vai defrontar-se, verificar se as condições de tempo são favoráveis, ter a aptidão de enfrentar o mar alto e ter a embarcação adequada.

Esse segundo hábito frutifica-se quando desenvolvemos o valor da “responsabilidade”. A responsabilidade está intimamente conectada com a liberdade. Quanto mais responsável, tanto mais livre para agir. A mentalidade apropriada para se desenvolver esse hábito é a “mentalidade objetiva”, e os valores correlacionados: liberdade, determinação, gravidade, serenidade, objetividade.

3. Primeiro o mais importante
à primeira vista, isso parece muito óbvio e tautológico. Mas, na prática, constatamos que se não temos o hábito e a disciplina para administrar apropriadamente nossa vida, estamos sempre procrastinando a solução de problemas vitais que nós mesmos teremos que sofrer as conseqüências. Um outro autor disse: “A pessoa bem-sucedida tem o hábito de fazer coisas que os fracassados não gostam de fazer, e elas tampouco gostam”. Tem horas que a coisa mais importante a fazer é fechar um grande negócio e, outras horas, a coisa mais importante é atender a demanda natural do corpo— comer, descansar, defecar, etc. Muitas vezes, devido ao frenético ritmo que impomos em nossas vidas, negligenciamos o toque pessoal em nossos relacionamentos que, quem pode dizer que não é importante?

Associamos esse hábito ao valor “simplicidade”. Srila Prabhupada sempre dizia: “Vida simples, pensamento elevado”. ‘Pensamento elevado’ significa valores humanos e espiritualidade sã. Por outro lado, vida complicada e sofisticada é, em geral, vida fútil. Temos que ter a simplicidade e objetividade para poder definir com clareza o que temos que fazer no momento e o poder de subordinar nossos impulsos e desejos momentâneos à vontade soberana baseada em valores. A mentalidade subjacente à esse hábito e valor é a “mentalidade prática”, e os valores correlacionados: coerência, bom senso, auto-controle, disciplina, organização, austeridade, pureza, limpeza, castidade.

Como dissemos, esses três primeiros hábitos, que lidam com o crescimento individual, dão um “up-grade” à pessoa, do estado de dependência e condicionalidade ao estado em que ela experimenta uma certa independência a nível psicológico. Acontece que ninguém pode ser totalmente independente pois estamos sempre relacionados socialmente.

Os três hábitos seguintes são dirigidos ao aprimoramento das relações pessoais e visam oferecer uma nova dimensão de vida mais realista e humanista— da independência a interdependência.

4. Pensar em ganhar-ganhar
Em qualquer disputa ou litígio existe, geralmente, um vencedor e um perdedor. Também, é muito comum o caso em que ninguém ganha, todos saem perdendo. Nesses tipos de disputas usa-se todo o tipo de subterfúgios e estratagemas, lícitos ou ilícitos, pois a mentalidade é: “Ou eu ganho ou ninguém ganha”. Existe, contudo, a opção civilizada e baseada em valores: Todos ganham. Cada disputante está preocupado não só com seu benefício mas, também, deseja que todos fiquem satisfeitos com o resultado. Ele está pronto a dar um passo a trás ou abrir mão de certas coisas para resolver satisfatoriamente o impasse. Ele não quer que seu contendor torne-se seu inimigo. Ele quer ver a justiça sendo aplicada mas sem comprometer a harmonia dos relacionamentos.

O valor correspondente a esse hábito é a “integridade”. A integridade é um sintoma de maturidade e de boa formação de caráter. Esse valor denota, também, força interior e muitos outros valores estão diretamente correlacionados com ele, a saber: conduta reta, veracidade, honestidade, confiabilidade, sinceridade, espontaneidade, equanimidade, imparciabilidade, autenticidade, etc.

A mentalidade associada a esse hábito é a “mentalidade de abundância”. Abundância significa que tem o suficiente para todos, todos podem sair ganhando, não há escassez nem perdedores. Imagine quão maravilhoso seria esse mundo se esta mentalidade prevalecesse.

5. Primeiro compreender depois ser compreendido
Esse hábito, que é considerado o princípio mais importante para as relações interpessoais, é fundamental para suprimir a tendência natural de manipular e reformar. A agitação mental e a falta de humildade nos leva a achar que já compreendemos, mas para realmente compreender é necessário atenção empática, quando escutamos com os ouvidos e, também, com os olhos e o coração.

A “humildade” é o valor associado a esse hábito. Uma das características da humildade é que a pessoa tem uma visão realista de si mesmo. Ela não se considera mais do que ela realmente é, assim como não acha que compreende tudo e quer que os outros aceitem de pronto todas suas idéias, reivindicações e sentimentos. A mentalidade subjacente é, portanto, a “mentalidade realista”.

6. Criar sinergia
Synergia, em grego, significa “cooperação”. Essa palavra toma, agora, um sentido um pouco mais amplo, pois sinergia denota que, com a cooperação, o resultado final será bem maior que a soma das partes. Quando um ambiente está harmonizado tudo flui naturalmente. Não há entraves, boicotes, preguiça, desleixo, etc. Os resultados obtidos quando existe sinergia no ambiente são surpreendentes, ultrapassam os limites racionais.

Não conseguimos sinergia sem o valor “bondade”. Com bondade no coração podemos valorizar as diferenças, descobrir as virtudes dos outros, dar mais do que exigir, estar preocupado com o bem comum e muito mais. Amor, paz, solidariedade, benevolência, misericórdia, compaixão, clemência, perdão, não violência, gentileza, bom humor, felicidade, livre da inveja, prazer em servir, caridade, tudo isso está diretamente associado com a sinergia e bondade. Para que isso realize-se é necessário cultivarmos uma “mentalidade de confiança mútua”.

Esses seis hábitos harmonizam a pessoa a nível pessoal e social. Eles fazem com que a pessoa situe-se numa condição de interdependência, em que ela pessoalmente sente-se fortalecida e preparada para agir socialmente e pode, assim, contribuir e tirar o máximo proveito do inter-relacionamento social saudável. O último hábito sugerido por Covey dá um fechamento nos outros seis. Ele chamou-o de:

7. Afinar o instrumento
Imagine um violinista virtuoso que não se preocupa em afinar propriamente seu instrumento. Sua performance, por mais espetacular que seja, vai ser um fiasco. Esse hábito aqui proposto pressupõe que a pessoa deve estar sempre auto-renovando-se— sempre reciclando os seis hábitos precedentes. Sempre atento para mantendo o equilíbrio em tudo o que faz. “Equilíbrio” é, então, a palavra chave. A renovação equilibrada é sinergética ao máximo. Precisamos manter equilibrada a saúde física e mental, o pessoal e o social, o material e o espiritual, etc. O equilíbrio está correlacionado com a sabedoria, conhecimento, introspecção, inteligência, sanidade, harmonia, moderação, prudência, estabilidade, renúncia e desapego. Para manter-se em equilíbrio é necessário que tenhamos “mentalidade de renúncia”. A história do mundo contemporâneo demonstra que a idéia do progresso ilimitado é uma utopia inviável. Tem que haver uma renovação, uma reciclagem, um novo começo, novos enfoques. Quando as coisas passam do ponto de saturação, degrigolam-se. é como o doce que passou do ponto. Não dá para voltar atrás. Em nossa vida pessoal, temos que, muitas vezes, renunciar o prazer sensual, para equilibrar o material e o espiritual, e manter a saúde integral (afinação do instrumento).

PURUSHATRAYA SWAMI.