domingo, 27 de dezembro de 2009

"O BOM USO DA PALAVRA"

"É dito que se reconhece o caráter de um homem pela qualidade de sua fala. Por exemplo, uma pessoa tola em meio a uma assembléia de sábios enquanto não se pronuncia, ninguém pode suspeitar de sua tolice. Mas assim que ela começa a falar, ela acaba tropeçando em suas próprias palavras e revelando a sua natureza nem um pouco sabia. Como diz a famosa sentença bíblica: “Não importa o que entra pela boca do homem, mas o que sai dela”. Isso tudo nos alerta sobre o cuidado que devemos ter com o uso da palavra em todas as esferas em que somos chamados a nos relacionar com o outro. Isto é na família, no trabalho, nos círculos de amizade, na comunidade religiosa ou política a qual pertencemos, etc. Na realidade, a palavra é um dos critérios fundamentais para avaliar a qualidade de minha relação com o outro. Se a palavra é tão importante assim em nossas vidas, qual melhor uso se pode fazer dela? Neste sentido o Senhor Krishna sugere um uso sóbrio da palavra submetendo-a a algumas restrições, ou seja, a palavra se aprimora quando sofre o processo de tapas (austeridade). Assim, a Sua recomendação é a seguinte: anudvega-karam vakyamsatyam priya-hitam ca yatsvadhyayabhyasanam caivavan-mayam tapa ucyate(Bg. 17.15). “A austeridade da fala consiste em proferir palavras verazes, agradáveis, benéficas e que não perturbam aos outros, e também em recitar regularmente os textos sagrados”. Se examinarmos este verso podemos facilmente concluir que para fazermos bom uso da palavra, devemos observar em nossa fala os critérios aqui claramente definidos neste verso. Isto é, nossas palavras devem ser:

• satyam – verazes, o que significa ainda que eu deva dizer alguma verdade ao outro, isso não implica em ser rude. A verdade precisa sim ser dita, mas devemos ter cuidado para que isso seja feita da maneira mais apropriada. Por exemplo, o pai pode repreender fortemente o filho, mas a motivação deve ser sempre tentar corrigir-lhe o comportamento, através do dialogo cercado de amor e confiança. A reprimenda gratuita e irresponsável, só leva a discórdia;

• priya – agradáveis, uma fala agradável desarma o mais resistente dos interlocutores, sem contar que uma fala assim acaba sempre ajudando a superar um impasse, durante uma discussão calorosa, levando a um consenso. Ademais, contribui para que nos tornemos cada vez mais queridos, pois, a pessoa de fala agradável, sempre sabe também ouvir. É o tipo de pessoa que todos procuram para se relacionar;

• hitam – benéficas, isso quer dizer que com minhas palavras devo levar esclarecimento, conforto, coisas que elevam, e não o contrario, ferir, ofender. Meu discurso devo contribuir para o crescimento do outro;

• anudvega-karam – pertinentes, entende-se por isso, ter as palavras certas no momento certo e nas circunstâncias certas. Srila Prabhupada recomendava a quem fosse pregar que levasse em conta tempo, lugar, e circunstâncias. Isto é, para cada audiência ter a fala adequada. Por exemplo, a minha maneira de me dirigir a uma pessoa, pode não valer para outra, isto implica em termos uma certa perícia no uso da palavra, o que não é tão fácil assim, mas pode ser aprimorado, se quisermos. Este tipo de palavra não perturba, nem incomoda a ninguém;

• svadhyayabhyasanam – este ultimo critério que mais parece um palavrão (risos) traz na realidade, um aspecto muito interessante da filosofia iogue ou do yoga, se preferir. Esta palavra é composta de duas raízes, svadhyaya – que significa estudo do Ser e de sua relação com o Supremo através dos textos sagrados, e, abhyasanam – sentar-se (asana) para praticar ou recitar (abhya). Isto é, reservar um tempo para ficar só e através do estudo filosófico entender melhor a nossa condição humana e a nossa natureza mais essencial como entidade espiritual, contribui e muito para fazermos bom uso da palavra, pois este procedimento, nos tornará certamente mais compassivo e tolerante com o outro.

Todo esse estudo sistemático é interessante e necessário, mas minha experiência pessoal e convívio com os devotos mais avançados me diz que isso tudo exige boa vontade, equilíbrio interno e muita sabedoria, pois, como dizia no inicio, as nossas palavras denunciam as nossos acertos ou falhas. Mas, ao nos esforçarmos com sinceridade para sermos queridos por Krishna (A Pessoa Toda Atrativa), sem duplicidade, nos tornaremos automaticamente querido por todos, pois assimilaremos a natureza Toda Atrativa do Senhor. Conseqüentemente nossas palavras se tornarão sem duvida com a prática e o passar do tempo, vias seguras, afinadas com a vontade divina, para levarmos confiança e amor ao próximo."

sexta-feira, 25 de dezembro de 2009

"PARA REFLETIR"











- Os cães são o nosso elo com o paraíso. Eles não conhecem a maldade, a inveja ou o descontentamento. Sentar-se com um cão ao pé de uma colina numa linda tarde, é voltar ao Éden onde ficar sem fazer nada não era tédio, era paz .
Milan Kundera
- Se eu tenho alguma crença a respeito de imortalidade, esta é de que vários cães que eu conheci irão para o paraíso e muito, muito poucas pessoas .
James Thurber


Obs: O nome desta cadela é "shiva", atualmente ela está aos meus cuidados. Ela também é uma criatura de Deus.

sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

"REFLITAM SOBRE ISTO!"

“Diz que quando as pessoas cruzam nossos caminhos, há sempre uma mensagem para nós. Encontros casuais não existem. Mas o modo de respondermos a esses encontros determina se somos capazes de receber a mensagem. Se temos uma conversa com alguém que cruza nosso e não vemos uma mensagem sobre nossas questões atuais, isso não significa que não houvesse uma mensagem. Significa apenas que não a captamos, por algum motivo.
Todo mundo que cruza nosso caminho tem uma mensagem para nós. Do contrário, teriam seguido, ou saído antes ou depois. O fato de essas pessoas estarem aqui significa que estão aqui por algum motivo”.

“Entretanto, se eu me esforçasse como havia me esforçado, talvez conseguisse um dia entender que as pessoas sempre chegam na hora exata nos lugares onde estão sendo esperadas”.

sábado, 12 de dezembro de 2009

"BHAGAVAD-GITÁ: 17.15"

anudvega-karam vakyam
satyam priya-hitam ca yat
svadhyayabhyasanam caiva
van-mayam tapa ucyate


A austeridade da fala consiste em proferir palavras verazes, agradáveis, benéficas e que não perturbam os outros, e também em recitar regularmente a literatura védica.

Ninguém deve falar de um modo que agite a mente dos outros. Naturalmente, ao falar, um professor pode instruir seus alunos, dizendo-lhes a verdade, mas esse mesmo professor não precisa se dirigir àqueles que não são seus alunos com palavras que acaso venham a agitar suas mentes. Esta penitência refere-se ao ato de falar. Ademais, não se deve falar tolices. O processo de falar em círculos espirituais consiste em dizer algo que as escrituras aprovam. Para confirmar aquilo que diz, a pessoa deve imediatamente citar uma passagem da escritura autorizada. Ao mesmo tempo, deve ser muito agradável ouvir a sua conversa. Com seus comentários, ela pode obter o maior benefício e elevar a sociedade humana. Há um acervo ilimitado de literatura védica, e todos devem procurar estudá-la. Isto se chama penitência da fala.

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

"BHAGAVAD-GITÁ: 2.71"

vihaya kaman yah sarvan
pumams carati nihsprhah
nirmamo nirahankarah
sa santim adhigacchati


Aquele que abandonou todos os desejos para o prazer dos sentidos, que vive livre de desejos, que abandonou todo o sentimento de propriedade e não tem falso ego – só ele pode conseguir a verdadeira paz.

Tornar-se sem desejos significa não desejar nada para o gozo dos sentidos. Em outras palavras, o desejo de tornar-se consciente de Krishna é de fato ausência de desejos. Está em perfeita consciência de krishna quem compreende sua verdadeira posição como servo eterno de Krishna, sem alegar falsamente que é este corpo material e sem reivindicar indevidamente propriedade sobre algo no mundo. Quem está situado nesta fase perfeita sabe que, como Krishna é o proprietário de tudo, tudo deve ser usado para a satisfação de Krishna. O fato de Arjuna não querer lutar era porque, evitando a luta, ele satisfaria os próprios sentidos, mas quando se tornou plenamente consciente de Krishna, ele lutou porque Krishna queria que ele lutasse. Arjuna não tinha desejo de lutar, mas em prol de Krishna ele lutou o melhor que pôde. Verdadeiramente ausência de desejos é desejar satisfazer Krishna, e não uma tentativa artificial de abolir dos desejos. A entidade viva não pode existir sem desejos ou sem sentidos, mas deve mudar a qualidade dos desejos. Quem não tem desejos materiais sabe com certeza que tudo pertence à Krishna ( isavasyam idam sarvam ), e portanto não alega falsa propriedade sobre coisa alguma. Este conhecimento transcendental baseia-se em auto-realização – ou seja, sabe-se perfeitamente bem que, em sua identidade espiritual, cada ser vivo é parte integrante eterna de Krishna, e que, portanto, em sua posição eterna, nunca está no nível de Krishna nem é maior do que Ele. Esta compreensão da consciência de Krishna é o princípio básico da verdadeira paz.

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

"BHAGAVAD-GITÁ: 2.47"


Você tem o direito de executar seu dever prescrito, mas não tem direito aos frutos da ação. Jamais se considere a causa dos resultados de suas atividades, e jamais se apegue ao não cumprimento do seu dever.

domingo, 1 de novembro de 2009

"UM SÓ DEUS, UM SÓ POVO"

"Vocês acreditam no mesmo Deus que está na Bíblia? Sim. Nossa filosofia básica é que existe um somente um Senhor Supremo e que todos os seres vivos são Seus servos amorosos. Ele transmite Suas instruções à raça humana pessoalmente através de Seus vários filhos, servos e profetas idôneos, e essas instruções, ou escrituras, são as bases de todas as religiões genuínas. Krishna, que significa em sânscrito "o Todo-Atrativo" é o mesmo Deus adorado na Bíblia e em outras escrituras. Deus tem ilimitados nomes e Krishna é um deles.

Muitas religiões hoje aguardam a vinda de um Avatar ou Salvador. A segunda vinda do Cristo, como Instrutor mundial para a Era de Aquário, é apresentada neste livro como um acontecimento iminente, lógico e prático, na continuidade da revelação divina através das idades. O Cristo pertence a toda a humanidade; ele pode ser conhecido e compreendido como "a mesma grande Entidade em todas as religiões mundiais".

"AS TRANSFORMAÇÕES COMEÇAM CONOSCO"

Há um antigo ditado japonês:"Se houver relacionamento, faço; se não houver relacionamento, saio".
Um Mestre Zen, no final do século passado, fez a seguinte alteração:"Havendo relacionamento, faço; não havendo, crio relacionamento".
Essa mudança de paradigma é extremamente importante. Devemos também lembrar que criar um relacionamento não significa, necessariamente, obter resultados imediatos, embora muitas vezes estes ocorram.
Novos relacionamentos em padrões antigos perdem seu significado. Precisamos criar relacionamentos a partir de novas maneiras de nos relacionar, de ver o mundo, de ser, de interser. Essa nova maneira pode, inclusive, recarregar de energia positiva antigos relacionamentos.
Para descobrirmos novas maneiras precisamos, primeiramente desenvolver a capacidade de perceber como estão nossos relacionamentos atuais.
Observe e considere meticulosamente a si mesmo. Perceba como está se relacionando em casa, na rua, no trabalho, no lazer. Perceba como respira, como anda, como toca nos objetos, como usa sua voz, como são seus gestos e como são seus pensamentos e os não pensamentos. Esse observar não deve ser limitante, constrangedor, confinador. Apenas observe. Como você se relaciona com o meio ambiente, biodiversidade, reciclagem, justiça social, melhor qualidade de vida, guerras, violência, terror, paz, harmonia, respeito, garantia dos Direitos Humanos? Como você e o seu logos se relacionam entre si e em relação aos projetos de sucesso, de lucro, de desenvolvimento e progresso de sua organização?
Como está se relacionando com o mais íntimo de si mesmo, com a essência da Vida, com o Sagrado?
Será que é capaz de ver, ouvir, sentir e perceber a rede de inter relacionamentos de que é feita a vida? Percebe e leva em consideração, na tomada de decisões, a interdependência?
Tanto individualmente, como no coletivo, nossa participação e compreensão como estão? Será que estamos conscientemente vivendo nossas vidas e direcionando nossos pensamentos, ações e palavras para o sentido de mudança que queremos e sonhamos?
Mahatma Gandhi disse: "Temos de ser a transformação que queremos no mundo".
Geralmente pensamos no mundo como alguma coisa distante e separada de nós, mas nós somos a vida do universo em constante movimento. Podemos até dizer que o mundo somos nós. Nossa vida forma o mundo, é o mundo, não apenas está no mundo. Inclui todas as formas de vida e seus derivados e nos inclui neste instante, instante após instante. Há um monge chinês do século VII, Gensha Shibi , que dizia : "O Universo é uma jóia arredondada. Somos a vida desse universo em constante transformação. Nada vem de fora, nada sai para fora".
De momento a momento tudo está mudando, nós fazemos parte dessa mudança e podemos escolher, discernir qual o caminho que queremos dar a esse constante transformar. É por isso que digo que a transformação começa em nós. Na verdade vai além de apenas começar. É em nós. Nossa capacidade humana de inteligência e compreensão nos permite fazer escolhas. E o que estamos escolhendo?
Outra frase de Mahatma Gandhi:
"Quando uma pessoa dá um passo em direção à Paz, toda a humanidade avança um passo em direção à Paz"
A minha decisão, a sua decisão pode transformar ou influenciar a direção da mudança.
Há um sutra budista que descreve o mundo como uma rede de inter relacionamentos. Como se fosse uma imensa teia de raios luminosos e em cada intersecção uma jóia capaz de receber essa luz e emitir raios em todas as direções. Qualquer pequena mudança afeta o todo. Cada ser que se transforme em um ser de paz, de harmonia, de ternura, carinho e respeito pela vida em todas as suas formas estará sendo uma mudança viva e influenciando tudo e todos.
Qual o primeiro passo? Conhecer a si mesmo. Conhecer nossos mecanismos.
O que nos afeta, nos incomoda? O que nos alegra? O que nos irrita? Como transformar a raiva em compaixão? Como transformar o desafio em competição leal, justa, empreendedora, enriquecedora? Sem nos preocuparmos com os créditos, se formos capazes de fazer o bem, não fazer o mal, fazer o bem aos outros estaremos transformando nossos lares, nossas amizades, nosso ambiente de trabalho, nossas organizações, nossas cidades, estados, países, nações, mundo... e a nós mesmos...no florescimento da Cultura da Paz.
"Estudar o Caminho de Buda é estudar a si mesmo. Estudar a si mesmo é esquecer-se de si mesmo. Esquecer-se de si mesmo é ser iluminado por tudo que existe. Transcender corpo e mente seu e dos outros. Nenhum traço de iluminação permanece e a Iluminação é colocada à disposição de todos os seres." (Mestre Zen Eihei Dogen - 1200-1253)
É importantíssimo que iniciemos este "estudar a si mesmo", já. Cada um de nós que perceber seu próprio mecanismo ficará em controle desse mecanismo e não mais à mercê de seus sentimentos e emoções, desejos e frustrações, puxado, empurrado, espremido e puxando, empurrando, espremendo - envenenados pela ganância, raiva e ignorância.
Imagine um mundo aonde podemos brilhar uns para os outros, sem ódios, mas com carinhoso respeito e terna compreensão. Percebendo nossas diferenças, aceitando a diversidade da vida e juntando nossas capacidades tanto intelectuais como físicas na construção desse verdadeiro Céu, Paraíso, Terra Pura, Shambala de que falam as religiões, todas elas.
Cabe a nós, a cada um de nós criar esse relacionamento de carinho com a vida, de ternura com todos os seres, de compreensão, de sabedoria e compaixão para percebermos o Caminho Iluminado e o Nirvana permeando toda a existência.
Isso é dar vida à nossa própria vida
.

MONJA COEN.

"NAS PROFUNDEZAS DA MONTANHA"

Às vezes erguemos a cabeça para a imensidão e beleza ao nosso redor, às vezes olhamos para baixo, para nossa infelicidade. Tudo bem, perfeito, não precisamos olhar apenas por um dos lados, o do seshim simplesmente maravilhoso, pois o seshim é tudo que surge, bons e maus momentos, realidade, ilusões. É Buenos Aires, 9 de março, 1996, terceiro dia de um seshim, período intensivo de meditação.
Antes de ser monja eu gostava muito de escalar montanhas, e quando comecei a fazer seshins pensei que as duas atividades eram semelhantes. Quando vamos escalar uma montanha levantamos cedo, enchemos a mochila e começamos a caminhar com os amigos. No caminho a mochila vai ficando mais pesada, o trajeto mais difícil, e nos perguntamos se chegaremos ao fim. Por que decidimos colocar tanta coisa na mochila e fazer esse tipo de passeio? Devo estar louca! Mas não temos mais opção, no alto da montanha a única opção é continuar.
Chegamos a um pequeno refúgio, deitamos as mochilas no chão e bebemos água fresca de um riacho é que vida maravilhosa!
Quando comecei a fazer seshim pareceu escalada de montanha, mas dez vezes mais duro. De manhã levantamos felizes e quando sentamos o zazen é maravilhoso, mas continua e continua o dia, o tempo passa, começamos a nos aborrecer com as horas intermináveis, até perguntar, "Por que estou aqui?" Zazen é mais penoso do que escalar montanhas. às vezes achamos que não vamos poder continuar. Mas precisamos continuar. à noite pensamos, "Este é o melhor momento da minha vida".
Isto é seshim. No seu transcorrer, vamos percebendo mais pontos em comum com escalar montanhas. Ao escalar usamos uma corda para atingir a próxima meta, e como estamos com uma pessoa experimentada a nos guiar, confiamos nela, sabendo que outras pessoas já passaram por isso e nós também vamos conseguir. No seshim é a mesma coisa, temos de confiar nas pessoas responsáveis pela organização. É a mesma coisa porque precisamos de nos ajudar mutuamente. Se estamos num momento difícil, quem já passou por isso pode nos ajudar. Da próxima vez, nós ajudaremos outras pessoas.
Num seshim, todos os que compõem a sanga tornam-se um só corpo. Aquilo que nos afeta, afeta a toda a sanga. O que temos na mente, o que fazemos, nossos movimentos, nossa maneira de agir, afetam toda a sanga. Mas não precisamos fazer desta constatação uma sobrecarga, temos apenas de nos sentir responsáveis para com os outros. Podemos pensar que estamos juntos como os dedos de uma mão, bela e agradavelmente. Devemos pensar que nossas ações vão ajudar a todos, não somente no seshim, mas também na vida cotidiana. Mas no seshim podemos compreender isso mais facilmente porque somos um grupo pequeno e com laços muito fortes. Quando uma pessoa se empenha no seshim, todos são auxiliados por seu esforço. Este é o espírito bonito e importante do seshim, uma montanha que estamos escalando, temos de continuar subindo pois é uma questão de vida ou morte, não apenas de vir, tranqüilizar a mente, relaxar, praticar zazen. Precisamos entender o grande mistério da vida e da morte, e no seshim entramos em nós mesmos e neste problema.
Esta não é uma questão só minha, mas de cada um de nós. Além das aparências e das ilusões, precisamos compreender o que é a vida e a morte, e para isso precisamos estar juntos, pois não se trata de uma questão que alguém possa responder sozinho. No budismo isso leva o nome de interação, e significa que o que eu fizer terá conseqüências sobre todo o mundo. Sou responsável por minha vida, mas também pelos outros, não por sentimento de culpa, mas de responsabilidade. O pequeno grupo da sanga é como um grupo experimental, onde tal prática fica mais fácil. Mas é claro que devemos levar o ensinamento para a vida cotidiana.
Sabemos, por experiência própria, que o nosso estado mental influencia todo o ambiente. Se vocês moram com a família, com outras pessoas, sabem que se acordarem um dia de mau humor isso se espalhará por todos ao seu redor. Não somos apenas uma pessoa, mas um pequeno reflexo de cada um. Estamos ligados pela mesma corda, como se escalássemos uma montanha. Essa é a experiência mais forte do seshim, o mais duro caminho, de onde nascerá o sentimento de compaixão. Se consigo entender que cada pessoa está ligada a mim através dessa corda, numa situação de vida e morte, entendo como somos a mesma pessoa. O ponto de partida para a compaixão é poder reconhecer o sofrimento do outro em mim, e o meu sofrimento no outro. Sem isso não existe compaixão, pois compaixão é tornar-se um com a outra pessoa. Esse é o ensinamento de Buda.
Quando observamos outra pessoa, quando sentimos o sofrimento dela no zendo, quando vemos sua alegria, quando percebemos que até certo ponto temos as mesmas atitudes, emoções, dificuldades, alegrias e facilidades, então podemos partilhar a compaixão. Não existe alguém dando compaixão a outro, o que existe é compaixão fluindo. Por isso introduzimos hoje a recitação do Sutra de Kanzeon no início e no fim do samu (período de trabalho coletivo). Kanzeon é o nome japonês de Avalokitesvara, o bodisatva que representa a compaixão, cujo nome significa Aquele que ouve os lamentos do mundo.
É difícil ouvir os lamentos alheios, porque estamos sempre gritando mais alto e só conseguimos ouvir os nossos próprios lamentos. Por isso nos voltamos para Kanzeon, o que significa que tentamos abrir nosso coração para a compaixão. A representação de Kanzeon ajuda-nos a compreender a compaixão, que não está longe de nós mas aqui mesmo, ao nosso alcance. Quando recitamos que da manhã à noite somos um com Kanzeon, estamos dizendo que tentamos abrir o coração o dia inteiro: da manhã à noite tentaremos abrir o coração para outras pessoas. Quando dizemos, "eu me sinto um com Kanzeon", estamos dizendo "eu me sinto um com cada pessoa". Se não for pela compaixão, não vale a pena ficar sentado no zafu.
Talvez tenha sido com essa intuição que deixei de escalar montanhas para me tornar monja, porque senti que a compaixão é ampla, muito mais ampla do que o Himalaia. Mas também sua prática é mais difícil. Precisamos entender que temos de nos esforçar. Os seres humanos nunca conseguem nada facilmente, não sei por que é assim, é um mecanismo do mundo. Se olharmos para nossa vida, perceberemos que tudo nos chega em meio a dificuldades, e que, freqüentemente, em meio ao sofrimento, uma coisa maior nos chega.
Quanto mais você se dá no seshim, mais recebe. Mas é difícil ir além de um certo ponto. Um texto chinês antigo fala disso. O Tratado do Tesouro Precioso, nome da história escrita há uns doze séculos, diz que "existem dez mil caminhos que conduzem à iluminação, e cada um deles é apenas um pequeno instante. Um pássaro paira no céu entre duas nuvens. Um peixe descansa nas águas do mar. O primeiro nunca conhecerá a imensidão do oceano. O segundo jamais verá a vastidão do céu. Os praticantes se afastam do grande caminho e entram em veredas insignificantes. Obtida certa quantidade de mérito com algum esforço, desistem antes de chegar ao destino, sem jamais alcançar a dádiva da felicidade essencial".
E este é o problema desses doze séculos, como persistir em nossos esforços e conhecer a imensidão do céu e a vastidão do mar. O texto diz que quando obtemos uma certa quantidade de méritos, paramos e entramos em veredas pequenas, insignificantes, ou seja, perseguindo ilusões. Começamos a dizer, Eu sei. Aprendemos algo e, sem parâmetro de comparação, cremos descobrir grande coisa. Para nós é como a descoberta de um tesouro, interrompemos a busca pensando no que obtivemos, desconhecendo a insignificância desse tesouro comparado à vastidão do céu onde podemos voar.
Este é o significado do seshim, não pare, não pare quando alcançar alguma coisa, lembre-se que está no meio da vida e da morte, escalando, nalgum lugar, uma vasta montanha. Não é porque encontrou um lugar estável que pode parar. Precisamos continuar escalando. O grande problema é pensar que esta pequena descoberta é "minha", isto é "meu". Esse pensamento nos separa dos outros. Seja o que for que pensemos ter conseguido num seshim, quando pensamos no que é "meu" não conseguimos nada. Não há imensidão, vastidão, nem sequer compaixão nesse pensamento.
Passamos a vida toda procurando coisinhas para dizer "isto é meu". Mas o objetivo do seshim não é esse, no seshin precisamos ir mais profundamente e compreender toda a conexão que temos uns com os outros. Essa é uma das razões de cantarmos pela manhã a nossa linhagem, numa importante recitação com a qual vamos além dos laços entre nós, sanga, neste momento, até o passado, receber os ensinamentos transmitidos de mestre a mestre. Cada um deles deu a vida para preservar e transmitir os mesmos ensinamentos, eis o laço que temos com eles, nossa vida não é somente agora, está conectada com todo o passado e todo o futuro, por isso recitamos os budas todos, do passado e do futuro. Isso é tornar-se um, uma imensidão, também, e representa pequenas quebras nos estreitos limites da nossa vida.
Somos, igualmente, um só corpo com a sanga. Recitar a linhagem sem nos determos significa que não há uma pessoa depois da outra, que somos todos um. A recitação segue como um rio e a ligação entre os mestres é ininterrupta. Esse ensinamento é grande, é uma imensidão, é o nome de todos os mestres e todos os budas.
Quando nos voltamos para Kanzeon estamos novamente nos tornando um. Na China, sua representação de bodisatva é feminina. Mas, no Japão, Kanzeon não é homem nem mulher. Está além das diferenças. Mas, no meio da escalada, ainda temos uma parte da montanha para subir. Como unir esforços para continuar a jornada? Como retornar à alegria, na aventura de estarmos juntos? Seshim é uma aventura. Embora nele surjam situações que parecem contraditórias é alegria, dificuldade, disciplina, liberdade é, todas as supostas oposições devem ser reunidas.
Às vezes erguemos a cabeça para a imensidão e beleza ao nosso redor, às vezes olhamos para baixo, para nossa infelicidade. Tudo bem, perfeito, não precisamos olhar apenas por um dos lados, o do seshim simplesmente maravilhoso, pois o seshim é tudo que surge, bons e maus momentos, realidade, ilusões.
Temos de compartilhar isso com todos.

ZUYMYO JOSHIN SENSEI.

sábado, 10 de outubro de 2009

"PURUSHATRAYA SWAMI"


"Definitivamente, a vida humana não deve ser desperdiçada com futilidades, com conquistas efêmeras, nem com atividades dedicadas exclusivamente à personalidade externa, pois essa, mais cedo ou mais tarde vai desaparecer e tudo referente a ela se perde. Certamente, o melhor investimento da vida é o aperfeiçoamento espiritual, o despertar da consciência espiritual, o cuidar da alma. O resultado do cultivo espiritual é a única coisa que fica desta vida e é o fator determinante da nossa próxima situação de vida, seja lá onde for. Uma coisa deve ficar bem clara: a personalidade e o corpo são falíveis e temporários, já a alma segue sua trajetória eterna rumo à suprema perfeição em seu habitat natural, a Transcendência."
PURUSHATRAYA SWAMI.

"REFLEXÕES"

Amor Próprio
“Amar a Deus sobre todas as coisas, e ao próximo como a si mesmo”, é a injunção do Decálogo. Uma chave para se por em prática esse mandamento é o amor próprio. Amar a si mesmo significa, entre outras coisas, querer o melhor para si. Qual é, então, o nosso melhor interesse? Nessa hora, a maioria das pessoas fazem a escolha errada ao pensar que adular o ego é o que há de melhor. Esquecem-se da alma, o ego verdadeiro, a essência individual eterna. Dessa maneira, não conseguem amar-se, conseqüentemente, não são capazes de verdadeiramente amar ao próximo, e o que dizer amar a Deus.

Sanidade Espiritual
Vida espiritual sã implica em ter olhos abertos para a realidade. Não é fuga da realidade, nem fantasias ou delírios. A pessoa sabe muito bem onde está pisando e não se deixa iludir. Sabe distinguir entre o que vale a pena e o que não vale a pena investir na vida. Não engana nem é enganada. Está atenta para não se deixar confundir entre ilusão e realidade. Espiritualidade genuína implica em conhecimento do eu, do mundo e de Deus. Não é algo caprichoso ou meramente sentimental . [Cuidado! Existem muitos produtos de imitação no mercado...]
A essência da espiritualidade genuína é a conexão entre a alma individual e a Alma Suprema, Deus, e essa relação é na base do amor e devoção. Estando, assim, consciente da realidade e em comunhão com Deus, pode-se experimentar auto-confiança, paz interior e felicidade plena, mesmo em meio a este mundo caótico.

Sucesso na Vida
Para a sociedade moderna, o referencial do sucesso na vida é dinheiro, fama e poder. De um modo geral, todos aspiram a isso e os jovens são educados nessa direção. Mas o ruim da história é que poucos conseguem chegar lá. Uma vez constatada a inviabilidade do tal ‘sucesso’, a opção geralmente que fica é a busca do conforto e entretenimento. Essa passa a ser a meta da vida para a maioria.
Em geral, aqueles que logram alcançar o tal ‘sucesso’ ficam intoxicados pelo próprio ‘sucesso’ e o ego incha. Mas, como tudo na vida tem um preço, o preço que se paga é alto— a absorção desmesurada no próprio ego leva, invariavelmente, a um total desleixo da contraparte espiritual da vida, e, como conseqüência, a alma definha.
Já a turma do conforto e entretenimento, distraídos com as amenidades da mídia televisada e atrações dos shoppings da moda, vêem-se sufocados por um interminável caudal de anseios fúteis. Essa vida fútil produz, inevitavelmente, embotamento e inércia espiritual. O tempo vai passando e a vida é assim tristemente desperdiçada. O que pode, então, resultar daí? Somente vazio e frustração.
O verdadeiro sucesso na vida é a auto-confiança, paz interior e felicidade plena que é conseguida com a saúde da alma e a íntima relação com Deus.

Semeando e Colhendo
Mesmo não aceitando os conceitos de karma e renascimento, considere: “Colhemos o que semeamos”. O que hoje somos, já é nossa colheita. O agricultor sensato separa os melhores grãos para serem usados como sementes no próximo plantio. De fato, temos nosso destino em nossas mãos. Agora está na hora de semear para a próxima safra. Temos que limpar e preparar bem o terreno (purificação), adubar (conhecimento espiritual) e regar regularmente (práticas espirituais). Boa colheita para todos!!

O Melhor Investimento
Definitivamente, a vida humana não deve ser desperdiçada com futilidades, com conquistas efêmeras, nem com atividades dedicadas exclusivamente à personalidade externa, pois essa, mais cedo ou mais tarde vai desaparecer e tudo referente a ela se perde. Certamente, o melhor investimento da vida é o aperfeiçoamento espiritual, o despertar da consciência espiritual, o cuidar da alma. O resultado do cultivo espiritual é a única coisa que fica desta vida e é o fator determinante da nossa próxima situação de vida, seja lá onde for. Uma coisa deve ficar bem clara: a personalidade e o corpo são falíveis e temporários, já a alma segue sua trajetória eterna rumo à suprema perfeição em seu habitat natural, a Transcendência.

Eternidade
A eternidade transcende o conceito de tempo. Não há passado, presente e futuro. é um estado pleno de existência, bem-aventurança e perfeição absoluta. Tudo é fresco, viçoso e de beleza infinita. Não há a hipótese de decrepitude.
Obviamente, esse não é o estado de existência que agora experimentamos. Aqui tudo é relativo e sujeito às dualidades: bom/mal, prazer/dor, etc. De fato, temporalidade, imperfeição, deterioração, limitação, sofrimento e morte são as marcas registradas deste mundo. Aqui o tempo está sempre marcando sua impiedosa e inexorável presença.
Mesmo assim, podemos, aqui mesmo, experimentar a eternidade, a liberdade, a perfeição e o êxtase espiritual se nossa consciência estiver em estreita união com Deus.

Partindo bem
Uma grande armadilha desse mundo são os apegos materiais. Muito cuidado com eles! Saiba lidar com eles. Uma vez que se instalam na consciência, eles prendem a consciência da pessoa a esse mundo e, com a morte, a separação e a ruptura das coisas e pessoas queridas produz uma carga emocional muito grande, que produz sofrimento atroz para a alma.
Como, então, podemos lidar com isso, visto que é natural sentir-se apegado aquilo que gostamos? Primeiramente, compreendendo bem a natureza transitória dessa vida e, depois, definindo bem a hora de ‘aposentar-se’. Depois de ter se dedicado a maior parte da vida às coisa desse mundo, prepare-se agora para a sua partida. Vá tirando, gradualmente, sua exclusiva atenção das coisas referentes ao corpo— negócios, entretenimentos, futilidades— e concentre-se no espírito. Recicle sua relação com Deus. Pare para meditar. Ocupe-se em práticas espirituais. E parta bem— solto, feliz, com a satisfação do dever cumprido, com a sensação de que valeu a pena ter vivido e até mesmo, curioso pelo que vem pela frente. Vá em frente confiante. Você não estará sozinho!
Seja o melhor! Se és cristão, sejas o melhor cristão; se és muçulmano, sejas o melhor; e assim por diante. Isso vale para o budista, o taoista, o hinduista, Hare Krishna, etc. O que é realmente mais importante é tornar-se consciente de Deus.

Amor a Deus
Todas as religiões genuínas falam em amar a Deus, mas poucas, realmente, ensinam o segredo de se conseguir isso. Vemos, hoje em dia, muitos adesivos dizendo “Deus é fiel”. Ele é fiel, mas, e você? Ele o ama, mas, para onde está direcionado seu amor? O amor tem duas vias, de lá para cá e daqui para lá. Se toda a sua energia de amor está canalizada para as coisas deste mundo sua relação com Deus está defeituosa ou, até, inexistente.
A consciência de Krishna é um processo genuíno de despertar o natural sentimento de amor a Deus. Esse sentimento, na verdade, já está presente no coração, mas, na maioria das pessoas, encontra-se adormecido. O maha-mantra Hare Krishna funciona como o despertador.

PURUSHATRAYA SWAMI.

"O CONTROLE DOS SENTIDOS"

60. Os sentidos são tão fortes e impetuosos, ó Arjuna, que arrebatam à força mesmo a mente de um homem de discriminação que se esforça por controlá-los. 61. Aquele que restringe os sentidos, mantendo-os sob completo controle, e fixa sua consciência em Mim, é conhecido como homem de inteligência estável. 62. Enquanto contempla os objetos dos sentidos, a pessoa desenvolve apego a eles, e de tal apego se desenvolve a luxúria, e da luxúria surge a ira. 63. Da ira, surge completa ilusão, e da ilusão, a confusão da memória. Quando a memória está confusa, perde-se a inteligência, e ao perder a inteligência, cai-se de novo no poço material. 64. Mas quem está livre de todo o apego e aversão e é capaz de controlar seus sentidos através dos princípios reguladores com os quais se obtém a liberdade, pode receber a completa misericórdia do Senhor. 65. Para alguém que sente essa alegria, as três classes de misérias da existência material deixam de existir; nessa consciência jubilosa, a inteligência logo torna-se resoluta. 66. Quem não está vinculado ao Supremo não pode ter inteligência transcendental nem mente estável, sem as quais não há possibilidade de paz. E como pode haver alguma felicidade sem paz? 67. Assim como um vento forte arrasta um barco na água, mesmo um só dos sentidos errantes em que a mente se detenha pode arrebatar a inteligência de um homem. 68. Portanto, ó pessoa de braços poderosos, o indivíduo cujos sentidos são restringidos de seus objetos com certeza tem a inteligência estável. 69. Aquilo que é noite para todos os seres é a hora de despertar para o autocontrolado; e a hora de despertar para todos os seres é noite para o sábio introspectivo. 70. Só quem não se perturba com o incessante fluxo de desejos – que são como rios que entram no oceano, que está sempre sendo enchido mas nunca se agita – pode alcançar a paz, e não o homem que luta para satisfazer esses desejos. 71. Aquele que abandonou todos os desejos de gozo dos sentidos, que vive livre de desejos, que abandonou todo o sentimento de propriedade e não tem ego falso – só ele pode conseguir a paz verdadeira. 72. Este é o caminho da vida espiritual e piedosa, e o homem que a alcança não se confunde. Se, mesmo somente à hora da morte, ele atinge essa posição, pode entrar no reino de Deus.

Tanto nas escrituras védicas, quanto em outras escrituras do mundo, existem muitas histórias narrando a vida de grandes personalidades, yogis, sábios ou diferentes classes de espiritualistas, que fracassaram no intento de controlar seus sentidos. E agora, o motivo deste fracasso é explicado aqui pelo Senhor Krishna. Os sentidos são fortes e impetuosos e eles têm o poder de arrastar a mente de qualquer um – especialmente no que diz respeito ao impulso sexual. Deve-se entender, portanto, que sem uma ocupação constante nas atividades da consciência de Krishna é absolutamente impossível controlar os sentidos. Isto porque os sentidos exigem ocupações práticas, e se não estiverem ocupados em serviço devocional ao Senhor, certamente se ocuparão em atividades para desfrute material. A verdade é que, enquanto habita um corpo material, a alma espiritual está numa condição bastante difícil, vivendo numa atmosfera plena de encantos criados pela energia ilusória. Os objetos dos sentidos materiais estão sempre tentando atrair os sentidos do ser corporificado. A situação do ser corporificado pode ser comparada a um submarino nas profundezas do oceano. O submarino tem de estar hermeticamente fechado, pois, caso haja um mínimo orifício, por menor que seja, o submarino afundará gradualmente. Do mesmo modo, vivendo nas profundezas deste oceano de ilusão material, os seres corporificados precisam ter o cuidado constante de fechar seus sentidos e não permitir que a energia ilusória penetre por eles e afunde sua consciência. Mas isto não significa que uma pessoa consciente de Krishna tenta evitar os objetos dos sentidos artificialmente, simplesmente negando-os ou reprimindo seus sentidos. Ela é inteligente o bastante para compreender que o segredo do controle dos sentidos é a arte de utilizar tudo no serviço ao Senhor, o que para ela é bastante natural, devido ao desenvolvimento de sua devoção. Portanto, ela nunca se torna vítima da consciência materialista e nunca cai na ilusão de julgar-se proprietário, controlador ou desfrutador da energia material. Ao vincular ao Senhor todas as suas ocupações, a pessoa estabiliza sua inteligência e apazigua sua mente e sentidos. Perdendo o interesse por atividades mundanas, tal pessoa vive desperta para atividades transcendentais e sente grande prazer no avanço espiritual. Ela não tem necessidade de nada, pois o Senhor está sempre presente em sua mente e coração. Mesmo que, de algum modo, surjam desejos em sua mente, ela consegue manter-se imperturbável, devido à misericórdia do Senhor que recompensa o esforço de seu servo que tão sinceramente se ocupa em Seu serviço. Seu único desejo é tornar-se cada vez mais consciente de Krishna e esta fase perfeita é considerada a verdadeira ausência de desejos. Situada assim, tal pessoa nunca se esquece de que o Senhor é o único proprietário e que, portanto, tudo deve ser utilizado em Seu serviço amoroso. A entidade viva não pode existir sem desejos, nem pode existir sem sentimentos ou atividades. Portanto, estar sem desejos significa que não se reivindica falsamente a propriedade de algo. Este é o princípio básico e essencial para se alcançar a plataforma de verdadeira paz interior.
( Comentário em azul por: Chandramukha Swami ).

BHAGAVAD-GÍTÁ ( Cap. 2 Versos 60-72)

terça-feira, 6 de outubro de 2009

domingo, 4 de outubro de 2009

"TEMPO"

1
¶ Tudo tem o seu tempo determinado, e há tempo para todo o propósito debaixo do céu.
2
Há tempo de nascer, e tempo de morrer; tempo de plantar, e tempo de arrancar o que se plantou;
3
Tempo de matar, e tempo de curar; tempo de derrubar, e tempo de edificar;
4
Tempo de chorar, e tempo de rir; tempo de prantear, e tempo de dançar;
5
Tempo de espalhar pedras, e tempo de ajuntar pedras; tempo de abraçar, e tempo de afastar-se de abraçar;
6
Tempo de buscar, e tempo de perder; tempo de guardar, e tempo de lançar fora;
7
Tempo de rasgar, e tempo de coser; tempo de estar calado, e tempo de falar;
8
Tempo de amar, e tempo de odiar; tempo de guerra, e tempo de paz.


LIVRO DO ECLESIASTES (Cap. 3).

sábado, 26 de setembro de 2009

"DESIDERATA"

Achado na igreja de Saint Paul, em Baltimore, 1692.

Vá calmamente, entre o barulho e a pressa, e lembre-se da paz que somente existe no silêncio. Na medida do possível, e sem se atraiçoar, tenha boas relações com todas as pessoas. Diga a sua verdade quieta e claramente. Ouça os outros, mesmo os obtusos e ignorantes. Eles também têm uma estória a contar. Evite as pessoas ruidosas e agressivas. Elas são tormentos para o espírito. Se você se comparar aos outros, você se tornará ora vaidoso, ora amargo, pois há sempre pessoas que lhe são inferiores ou superiores. Goze tanto as suas realizações quanto os seus sonhos. Mantenha-se interessado naquilo que você faz, por humilde que seja. Aquilo que você faz é algo que você realmente possui, num tempo em que tudo muda sem parar. Pratique a prudência nos seus assuntos comerciais, pois o mundo está cheio de trapaças. Mas não deixe que isto o faça cego para as virtudes que existem. Muitas pessoas se esforçam por ideais altos. Por toda parte a vida está cheia de heroísmo. Seja você mesmo. Não finja afeição. E nem seja cínico acerca do amor. A despeito da aridez e do desencanto, ele renasce tão teimosamente quanto a tiririca. Aceite com elegância o conselho dos anos, deixando graciosamente para trás os prazeres da juventude. Crie força de espírito para proteger-se na desgraça repentina. Não se aflija, porém, com coisas imaginadas. Muitos temores nascem do cansaço e da solidão. Tenha uma disciplina saudável, mas seja gentil para consigo mesmo. Você é um filho do universo, tanto quanto as árvores e as estrelas. Você tem o direito de estar aqui. E, quer você saiba disto ou não, o fato é que o universo caminha como deve. Por isto, esteja em paz com Deus, não importa como você pensa que ele é. A despeito da barulhenta confusão da vida, mantenha-se em paz com a sua alma. Com todos os seus enganos, labutas e sonhos não realizados, este continua a ser um belo mundo. Cuide-se. Esforce-se por ser feliz...

AUTOR DESCONHECIDO.

terça-feira, 22 de setembro de 2009

"A MISSÃO"

Parte 1 - Introdução
Os Vedas nos explicam o conceito fundamental de que a vida eterna, com desejos, emoções e ações*, existe em sua forma puramente divina. Experimentamos desejos, emoções e ações agora, porém com o ranço do egoísmo e a contaminação da matéria inerte, o que os torna insatisfatórios, limitados ou mesmo desagradáveis. Deus nos oferece diferentes técnicas para nos livrarmos destes defeitos e, assim, a cada passo, nos aproximarmos do estado divino de ser. Dentre elas, a bhakti-yoga possui uma característica especial: o processo não é diferente do objetivo. Ou seja, ao praticarmos bhakti-yoga estaremos praticando a vida puramente divina e eterna, mesmo que ainda sob o jugo do egoísmo e apego material. A teoria por trás da técnica é muito inteligente: uma única coisa não pode estar em dois lugares ao mesmo tempo**. Ao praticar a consciência de Krishna, não há como, ao mesmo tempo, manter a consciência egoísta mundana. São estados mentais opostos. Podemos, enquanto imaturos, em um instante estar em consciência de Krishna e no próximo cair para a consciência mundana, mas nunca estaremos nos dois ao mesmo tempo. O que nos traz avanço em bhakti, portanto, é nos ocuparmos cada vez mais em bhakti. E ocupar-se em bhakti significa ocupar-se em todos os níveis onde atuamos: desejos, emoções e ações.
O termo “sadhana” significa a prática regular para se atingir um objetivo (”sadhya”). Os praticantes de yoga costumam seguir um programa de práticas regulares (japa, estudos, adoração da Deidade, disciplinas morais, limpeza, etc.) que os ajudam no processo de purificação do egoísmo e apego material. Mas nunca devemos esquecer que tais práticas possuem um objetivo final. Assim, a prática (”sadhana”) é um meio para nos ajudar a chegar ao objetivo (”sadhya”). E, como citado anteriormente, o objetivo final é estar plenamente situado em uma vida de desejos, emoções e ações puramente divinas. A consciência de Krishna, portanto, não é nem nunca foi plenamente atingida apenas por seguir-se certas práticas durante alguma parte do dia. O “néctar pelo qual sempre ansiamos”*** é experimentado a partir do ponto onde dedicamos significativa parte de nossa vida à consciência de Krishna. O sadhana é indispensável, porém insuficiente. Sem sadhana caímos novamente para a plataforma animal e desperdiçamos nossa vida humana. Só praticar sadhana, no entanto, nos faz correr o risco de perder o entusiasmo pela vida espiritual e vê-la se tornar penosa, podendo assim nos levar a perder o gosto pela consciência de Krishna, que significa que novamente desenvolveremos crescente apego ao mundo material ilusório. Mais do que perder o gosto por sadhana, sem a ocupação em um programa completo de vida divina, poucos sequer desenvolvem suficiente determinação para manter uma prática de sadhana firme. Assim, enquanto o sadhana for uma ferramenta para manter e atingir um estado de bem-aventurança real e diário, será muito mais atraente e fácil de ser mantido.

Parte 2 - Além do Sadhana
Esta vida divina ou, em outras palavras, esta plena ocupação em bhakti, não é algo místico ou fantasioso. É de fato algo muito real e prático, tendo sido definido e apresentado por Deus em Sua vinda como o Avatara Dourado Sri Chaitanya Mahaprabhu há cerca de 500 anos atrás, e tem sido praticada com sucesso desde então. O grande sucesso de Srila Prabhupada foi justamente sua capacidade de nos ocupar nesta missão de Krishna, nesta vida divina. Prabhupada não se contentava em simplesmente ensinar a filosofia metafísica védica (sankhya), nem em simplesmente apresentar as diferentes e poderosas técnicas de japa, estudo, adoração da Deidade, etc. Prabhupada enfaticamente nos explicou que a vida espiritual era para ser vivida agora, em sua plenitude e ilimitada variedade, ocupando-nos nesta missão.
O desejo expressado e praticado por Krishna em Suas últimas duas vindas ao mundo, conforme registrado nas escrituras védicas, é que nos ocupemos em difundir a ciência espiritual, abrindo assim o caminho para que todas as pessoas possam novamente receber e expressar o mais alto objetivo da vida: o puro amor divino (”prema”). Pode-se argumentar que, não por coincidência, entre estas duas vindas de Deus, surgiu no oriente médio um poderoso shakti-avesa avatar de Krishna, Jesus Cristo, com a mesma missão. Claramente, portanto, o desejo não sectário de Deus é que encaremos a ocupação em difundir as glórias e mensagem de Deus como nossa vida e alma. Esta missão está aberta a todos, sendo a forma mais direta e intensa de nos fixarmos em verdadeira consciência divina.

Parte 3 - Distorções e Oportunidades
Existe um temor na consciência coletiva que aflora imediatamente, quando se menciona a ocupação em trabalhos missionários. Os vários abusos cometidos por pessoas inescrupulosas e violentas em nome de Deus geraram, ao longo dos anos, um compreensível medo que difundir a missão de Deus equivale a destruir culturas, matar pessoas e cometer todo tipo de atrocidade. Estas barbaridades continuam hoje: guerras são travadas, bombas são explodidas e crianças são assassinadas em nome da religião ou de Deus. Isso, contudo, não é razão para perdermos o entusiasmo, mas sim para redobrarmos os esforços. Mais do que nunca, é necessário mostrar a todos a verdadeira face de Deus, tal e qual Ele Se apresenta: como nosso melhor amigo, o Pai, a Mãe e o Avô de todos. É preciso mostrar ao mundo que Deus não é um religioso fanático ou um monstro disposto a torturar e matar quem não compreender o dogma correto. A ciência de Deus, baseada no amor, compaixão, pureza, paz, não-violência, visão equânime, conhecimento, etc. é o tônico para livrar o mundo da nefasta doença do ódio religioso e da utilização do nome de Deus para todo tipo de insanidade egoísta.
Existe um termo em sânscrito que serve especificamente para descrever este estado de vida centrada em Deus, em ilimitada variedade de desejos, emoções e ações: “lila”. Através dos ensinamentos confidenciais dos Vedas podemos compreender que a perfeição da existência eterna é participar da “lila” de Deus. Infelizmente alguns adotam o conceito que isto só poderá acontecer após a morte ou em outra vida distante. Em parte isto é compreensível porque, a maioria das “lilas” acontece em Vaikuntha ou nos diferentes planetas transcendentais. Porém, não estamos vivendo uma encarnação comum! Está acontecendo aqui e agora a “lila” mais doce de Krishna: a distribuição do puro amor divino (”prema”). Esta “lila” é a mais importante dentre todas as que podem ser realizadas no mundo material, pois nela prevalece a superexcelente qualidade da compaixão. Prabhupada ocupou a todos nesta missão de forma muito intensa, o que trouxe imediata bem-aventurança para aqueles que aceitaram participar, independentemente do nível de avanço espiritual anterior, grau de escolaridade, raça, sexo ou classe social. E o melhor de tudo é que esta “lila” não terminou com a partida de Prabhupada do planeta, pois ele nos deixou sua Sociedade, a ISKCON.

Parte 4 - A ISKCON
A ISKCON é uma sociedade missionária. Assim, ainda hoje, ao redor do mundo, pessoas desfrutam de crescente bem-aventurança ao participar desta suprema “lila” utilizando-se da estrutura física (editoras, templos, fazendas e comunidades ao redor do mundo, rico acervo de arte, músicas, livros, etc.) e ideológica (os ensinamentos de Prabhupada e a experiência dos seus seguidores avançados) da ISKCON. Ocupar-se nesta missão, nesta “lila”, não é muito fácil de se fazer sozinho. O desafio é grande demais para uma pessoa, ou mesmo um pequeno grupo de pessoas. Porém, ao unirem-se todos, cada qual poderá fazer sua parte, de acordo com sua natureza, inclinação, grau de entusiasmo, etc. muito facilmente.
Todos podem participar da missão. Sem exceção! E pode-se fazer de tudo. Quem é músico, pode atrair as pessoas com belos bhajans. Quem tem dom para decorar um ambiente e torná-lo atraente, pode ajudar a decorar os locais onde são realizados programas espirituais. Quem quer desenvolver uma carreira acadêmica, pode fazer isso para difundir a consciência de Krishna no mundo acadêmico. Quem é bom administrador pode administrar projetos, ONGs e templos existentes ou criar novos. Solteiro, casado, divorciado, viúvo - não importa! É para todos. Não devemos achar que deve ser algo grandioso. Nem devemos achar que ser missionário significa agir em tempo integral. Muito pelo contrário, nos dias de hoje são raros os que podem se dedicar em tempo integral, mesmo por um ou dois anos da vida. Qualquer ato para o benefício da missão é louvável. Ajudar na faxina depois de um programa, dirigir até o mercado para comprar alimentos para um projeto, contribuir com alguns reais… tudo que possa ser útil é válido e, com certeza, trará ótimos resultados para o praticante! Quem é casado e trabalha pode criar programas em sua casa, pode participar ativamente de programas existentes e ajudá-los financeiramente ou até mesmo criar novos programas urbanos ou rurais. Deus é ilimitado e Sua missão é ilimitada. Ninguém fica sem lugar. Basta ser sincero e fixo em no desejo de participar que coisas literalmente mágicas acontecerão neste sentido. Dons que desconhecíamos possuir se revelam, obstáculos ou “travas” desaparecem, recursos materiais e humanos tornam-se disponíveis, etc. E, o que é melhor, a realização e o amor de Deus em nosso coração se firmam e fortalecem a cada passo. É um ciclo virtuoso e poderoso onde obtemos mais realização e poder (shakti) de Deus, que nos leva a nos ocupar de forma mais intensa e produtiva na missão de Deus, que em retorno nos traz ainda mais realização e poder.

Parte 5 - A Essência e a Conclusão
Ao falar da missão de Prabhupada, não podemos deixar de enfatizar a distribuição de livros da consciência de Krishna. Isto porque cada livro é uma encarnação de Krishna e de Prabhupada. Cada livro contém o poder de transformar a vida de uma pessoa permanentemente, pois oferece uma visão transcendental da Realidade e a metodologia para realizá-la. Cada exemplar é uma unidade independente para levar esta realização e amor divino a uma pessoa. A vida humana se destina a obter e aplicar este conhecimento transcendental. E os livros fazem justamente isto. Portanto, o livro é um passo crucial na vida espiritual de todos. Quem pode distribuir livros em tempo integral, de forma madura e equilibrada, realiza um poderosíssimo trabalho missionário. Porém, nem todos têm possibilidade ou mesmo um perfil para tal. Mas todos podem usar sua inteligência para distribuir livros de alguma forma, nem que sejam apenas alguns por mês, na forma de presentes para amigos ou colegas de trabalho. É essencial compreender o papel central e indispensável do livro no trabalho missionário, não importa o nível de comprometimento com a missão.
Outro ponto fundamental é entender que não podemos ser arrogantes em nome de Deus. Queremos, sim, transformar a sociedade ao introduzir a ciência espiritual do yoga e do amor devocional, mas não conseguiremos este objetivo demonstrando desprezo às normas da sociedade ou contrariando a cultura vigente. A história demonstra claramente que quem despreza a sociedade é por ela desprezado. Existe uma inteligência aplicada em participar de um grupo, e ao mesmo tempo guiá-lo e modificá-lo. Neste contexto é que se tornam essenciais as discussões sobre o tema de “inserção social” ou de entender “o que é védico”. Ao estarmos inseridos na sociedade temos o poder de afetá-la. Excluídos dela, nada podemos fazer. Não se trata de modificar nossa mensagem, mas sim apresentá-la de forma relevante e atual. Como a sociedade está em constante transformação, não podemos nos prender a soluções do passado. Precisamos estar com o “dedo no pulso”, sabendo inteligentemente apresentar a consciência de Krishna para as pessoas ao nosso redor.
Resumindo, devemos compreender que a ocupação no trabalho missionário é, primeiramente, vantajosa para o individuo que deseja saborear a vida transcendental, sendo uma técnica consagrada para elevar a consciência. Devemos nos lembrar todos os dias que temos a opção de sair da vida egoísta ilusória mundana e entrar, de corpo e alma, na vida divina, na “lila” de Deus. Segundo, devemos entender que agir em harmonia com os desejos de Deus é um direito nato e razão de ser de todo ser vivo. Não é uma prerrogativa de uma classe de pessoas especialmente dotadas ou algo disponível apenas para os que não têm qualquer outra ocupação na vida. Todos nós temos, ao nosso alcance, esta oportunidade de participar das atividades de Deus. Terceiro, devemos entender que a ISKCON é uma sociedade missionária e todos que se identificam com ela devem usufruir da principal benção que ela nos oferece, que é de nos dar a oportunidade de compreender e nos ocupar nesta vida transcendental, fazendo o tipo mais elevado de caridade, a forma mais intensa de satisfazer Deus. Krishna diz no Bhagavad-gita (18.68-9): “Para aquele que explica aos devotos este segredo supremo [da consciência de Krishna], o serviço devocional puro está garantido, e no final, ele voltará a Mim. Não há neste mundo servo que Me seja mais querido do que ele, nem nunca jamais haverá alguém mais querido.” Todas as principais escrituras do mundo nos ensinam que a perfeição da vida é agradar Deus. Neste verso do Bhagavad-gita, de forma tão clara, Deus nos ensina como fazer isto. É tão simples e sublime. Se quisermos experimentar a consciência de Deus, se quisermos nos livrar dos grilhões da consciência mundana, aqui está a solução mais eficaz e atraente. Vamos então aceitar este convite e tornar nossa vida feliz, gratificante e cada vez mais repleta de amor divino.



* Incluo aqui pensar e raciocinar como uma ação da mente.

** Ignoro aqui aspectos da teoria da física quântica, que, de qualquer forma, só se aplicam a matéria morta na dimensão quântica.
*** Sri Sikshastaka 1.


GIRIDHARI DAS.

sábado, 12 de setembro de 2009

"LIBERTO DE DESEJOS"

Aquele que não se perturba com o incessante fluxo dos desejos – que encontram como os rios no oceano, o qual está sempre sendo enchido mas sempre permanece calmo – pode alcançar a paz, e não o homem que se esforça para satisfazer tais desejos.

Embora esteja sempre cheio d’agua, o vasto oceano está sempre, especialmente durante a estação das chuvas, recebendo água e mais água. Mas o oceano continua o mesmo – estável; ele não se agita, nem vai além do limite de sua orla. Isto também se aplica a uma pessoa fixa em consciência de Krishna. Enquanto tivermos um corpo material às demandas do corpo para a gratificação dos sentidos continuarão. O devoto, porém, não se perturba com estes desejos, devido à sua satisfação plena. Um homem consciente de Krishna não precisa de nada, porque o Senhor satisfaz todas as suas necessidades materiais. Por isso, ele é como o oceano – sempre completo em si mesmo. Os desejos talvez o assediam assim como as águas dos rios que correm para o oceano, mas ele é estável em suas atividades, e não se perturba nem um pouco com os desejos para a satisfação dos sentidos. Isto caracteriza um homem consciente de Krishna – alguém que perdeu toda a inclinação para a satisfação dos sentidos materiais, embora os desejos estejam presentes.
Porque permanece satisfeito no serviço transcendental amoroso ao Senhor, ele pode ficar estável, como o oceano, e portanto gozar de paz plena. Todavia, outros que, mais do que o simples sucesso material, querem alcançar a satisfação dos desejos até o ponto de liberação, nunca obtêm a paz. Os trabalhadores fruitivos, os salvacionistas e também os yogís que buscam poderes místicos são todos infelizes devido aos desejos não satisfeitos. Mas quem é consciente de Krishna sente-se feliz, servindo ao Senhor, e não precisa satisfazer desejo algum. De fato, ele nem ao menos deseja libertar-se do aparente cativeiro material. Os devotos de Krishna não têm desejos materiais, e por isso vivem em perfeita paz.

BHAGAVAD-GÍTÁ Capítulo 2 verso 70

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

"INDIVIDUAÇÃO É DIFERENTE DE INDUVIDUALISMO"

Ø Individuação1 - É um dos conceitos centrais da Psicologia Analítica de
Jung. É o processo de desenvolvimento da personalidade pela diferenciação
psicológica do eu. É um processo no qual o ego visa tornar-se diferenciado da
coletividade, embora nela vivendo, ampliando suas relações. Para se alcançar
a individuação é necessário se evitar as tendências coletivas inconscientes. A
individuação respeita as normas coletivas e o individualismo as combate. O
contrário à individuação é ceder às tendências egocêntricas e narcisistas ou à
identificação com papéis coletivos. A individuação leva à realização do Self,
e não simplesmente à satisfação do ego. É um processo dinâmico que passa
pela compreensão da finitude da existência material, objetiva, face à
inevitabilidade da morte física.
Sonhos no processo de individuação2
Para Jung, “a individuação, a realização própria, não é apenas um problema
espiritual, e sim o problema geral da vida.”3 Sem sombra de dúvida esse é o grande
objetivo do sonhar. É uma tendência arquetípica do Self, o processo de diferenciação
do coletivo. O sonho está a serviço desse processo. Por mais fragmentário que seja,
ele representa uma via de acesso às etapas daquele processo.
Os sonhos referentes ao processo de individuação geralmente ocorrem em
séries conectadas entre si, cuja interpretação isolada seria um equívoco. Eles trazem,
inicialmente, a consciência e o inconsciente em integração, sendo este alcançando
aquela, isto é, conteúdos inconscientes tornando-se conscientes. Mostram, muitas
vezes, uma situação de crise (ou lesão do ego) e início de um processo penoso que
envolve o confronto entre o ego e sua sombra. Figuras bizarras e ameaçadoras são
exemplos dos receios do ego em continuar esse processo. Símbolos da resistência ao
confronto e dos mecanismos de defesa do ego, surgirão como confirmação do que é
negado por ele, centro da consciência que, historicamente, tende a desenvolver-se
separada do inconsciente. Figuras do sexo oposto ao sonhador tendem a surgir como
uma necessidade de integração com a polarização oposta à consciência.
Na série de sonhos do processo de individuação não é raro o surgimento de
escadas como a simbolizar os degraus em que se dá o processo de transformação e
suas peripécias. Às vezes, a escada possui sete degraus, numa referência aos
processos alquímicos antigos.
1 NOVAES, Adenáuer. Sonhos: mensagens da alma . 3. ed. Salvador: Fundação Lar Harmonia,
2005, p. 20.
2 NOVAES, Adenáuer. Sonhos: mensagens da alma . 3. ed. Salvador: Fundação Lar Harmonia,
2005, p. 205-207.
3 C. G. Jung, Obras Completas, Vol. XII, par. 163.
Nos sonhos ocorrem imagens de natureza arquetípica que surgem como a
descrever o processo de desenvolvimento da personalidade, muitas vezes mostrando
a tomada de consciência da aproximação do ego com o Self. Para alcançar esse fim,
o inconsciente produz sonhos mostrando a necessidade de lidar com conteúdos do
inconsciente pessoal primeiro, para depois se ir ao coletivo. Os sonhos onde se
atinge um ápice, um último degrau, podem significar a necessidade de sair do
processo de conscientização do inconsciente pessoal e sinalização para o início de
uma nova etapa. Ver-se em sonhos, nos primeiros degraus da escada, significa a
necessidade de inte grar alguns conteúdos infantis.
Nesse processo, é comum surgirem imagens oníricas personificadoras da
racionalidade e do intelecto, a assumir posição secundária, solicitando ao ego dar
lugar à emoção, ao sentimento, à intuição, enfim, à função inferior da consciência.
Elas também costumam ajudar o ego no processo de individuação, o que não deve,
porém, ser motivo para que se confie a vida aos sonhos.
O símbolo da mandala representa o novo centro deslocado do ego, o Self. Ela
se reveste de várias formas nos sonhos: o círculo, a esfera, o quadrado, a flor, a
quadratura do círculo, etc., ou objetos que se lhes assemelhem. A mandala,
enquanto símbolo onírico, impõe um padrão de ordem ao caos. Nos sonhos ela
representa a tentativa da psiquê de organizar os opostos irreconciliáveis. O
aparecimento de um símbolo que represente o Self nos sonhos, como por exemplo
uma mandala, certamente estará trazendo à consciência algo que diga respeito ao
ego, por este ter se originado por uma necessidade daquele núcleo arquetípico. Ao
ego desestruturado, surge nos sonhos um símbolo do Self perfeitamente definido e
constituído.
O indivíduo, enquanto vivendo o processo de individuação, terá sonhos
significativos em relação a orientação que precise. As imagens procurarão mostrarlhe
a necessidade de:
1. Tornar consciente o inconsciente;
2. Dar menor poder ao ego;
3. Desligar-se das influências psicológicas parentais;
4. Tornar-se independente;
5. Diferenciar-se do coletivo aprendendo a conviver com tendências opostas e
precavendo-se das arquetípicas;
6. Eliminar projeções e enxergar as transferências, bem como reconhecer as
personas de que se utiliza para conviver socialmente e sua excessiva valorização;
7. Perceber seus mecanismos de defesa que tentam evitar a aproximação dos
conteúdos inconscientes;
8. Aceitação de sua sombra;
9. Confrontação com a ânima/ânimus e percepção de suas projeções;
10. Dissolução dos complexos para enxergá-los e trabalhá-los;
11. Deslocar o centro orientador da personalidade do ego para o Self ;
12. Estabelecer o encontro com o Self.
Os sonhos iniciais do processo costumam causar certo incômodo natural para o
sonhador. Posteriormente, passam a trazer-lhe relativa segurança.
Singularidade 4
“Portanto, sede vós perfeitos como
perfeito é o vosso Pai celeste.”
Mateus, 5:48.
A busca de um significado para a Vida sempre foi a meta do ser humano. Um
sentido que lhe dê motivação e que lhe explique o porquê e para quê vive, constituise
em sua maior aspiração. O Cristo assinala que ser perfeito é regra sem exceção
para todos os seres na natureza. Mas qual o sentido psicológico desse imperativo?
Estaria ele falando ao ego ou ao Espírito?
Descobrir sua própria singularidade representa uma importante aquisição na
evolução do Espírito, pois quando isto se dá, ele se depara com a liberdade de
escolha e com a certeza de que não existe bem nem mal, mas apenas aquilo que lhe
convém ou não. Até chegar a esse ponto, por força de sua imaturidade, o ser humano
comete muitos equívocos, pois não sabe efetivamente o que lhe convém ou não, para
a própria evolução.
A perfeição na Terra é fruto do consenso de conceitos entre os seres humanos.
As qualidades que ele atribuiu a Deus são fruto da percepção de si mesmo,
constituindo-se naquilo que ele sabe não possuir, mas que poderia alcançar ao longo
da sua evolução. O que Deus é, em realidade, o ser humano ainda não o sabe.
Apenas ele Lhe atribui qualidades superlativas. A perfeição, vista dessa maneira, é
uma criação humana. Isso não invalida a visão de perfeição divina que temos. Deus
é, independente de nossas pobres concepções e adjetivos.
Muitas vezes, por atribuir qualidades superlativas à perfeição, o ser humano se
frusta por não obtê-la. Persegue-a, mas não a alcança. Certamente que, além do
espaço exíguo de uma vida não ser suficiente, ele simplesmente se contenta com
poucas qualidades conquistadas, abandonando seu propósito máximo. Assim ocorre
com muitos indivíduos, nas diversas religiões e filosofias, que buscam uma
espiritualização antes de viver sua própria humanização. Pensam que, por realizar
algumas práticas religiosas ou por estar a serviço de seu credo, não necessitam viver
sua humanidade. Antes de atingir o estado que considera de perfeição, o ser humano
deve aprender a viver e conviver bem com seus semelhantes.
A muitos parece que esse estado deve ser alcançado com o objetivo de se viver
bem após a morte, isto é, na espiritualidade, esquecendo-se de que o retorno à Terra
é uma oportunidade de aprendizado. É exatamente o viver equilibradamente aqui na
carne, que capacita o Espírito para a vida espiritual. De que vale viver para ser bom
4 NOVAES, Adenáuer. Psicologia do Evangelho. 2. ed. Salvador: Fundação Lar Harmonia, 1999, p.
99-102.
no futuro se no presente não se valoriza essa possibilidade? Seria realmente possível
ser bom após a morte se não conseguiu tal proeza enquanto encarnado?
Evidentemente que a resposta é negativa. Um dia a máscara cai e o Espírito se verá
como realmente é.
A perfeição é uma meta cujo ápice é inalcançável. Constitui-se numa busca
arquetípica do ser humano e como tal sua realização é inimaginável. Por ser uma
tendência arquetípica não é possível materializá-la, mas apenas representá-la.
O imperativo de ser perfeito nos leva a entender que se trata de algo que se
encontra como tendência a ser vivida pelo ser humano. O Cristo falava com
conhecimento de causa de quem sabia da existência psíquica das tendências
arquetípicas no ser humano. A tendência à perfeição é uma espécie de presença do
Criador na criatura. Psiquicamente, todos a temos, e ela nos exige materialização.
Realizar, ou tentar realizar a perfeição, possibilita ao Espírito, atravessando as
diversas circunstâncias e vivendo as experiências da Vida, conhecer as leis de Deus.
O Cristo falava ao Espírito. Pode-se traduzir o sede perfeitos por: não deixe de
viver sua Vida, viva sua humanidade, viva seu processo, comprometa-se com
seus princípios, siga sua tendência divina, busque sua essência espiritual, torne -
se consciente de sua evolução, realize seu Self.
A espiritualização deve se processar enquanto vivemos a humanização. Não é
um processo isolado ou que, necessariamente, se deva vivê-lo fora do contato com a
sociedade. Pode-se, por algum período, buscar o recolhimento, o estar consigo
mesmo, para depois de refazer-se, voltar ao convívio com o semelhante, a fim de
pôr-se em prova.
O sede perfeitos foi tomado equivocadamente como uma ordem para ser
cumprida imediatamente, no espaço restrito de uma encarnação. É preciso que se
atente para o fato de que são necessárias muitas vidas até que se atinja a percepção
do processo psíquico que envolve a evolução. Esse processo deve ser
conscientemente vivido e compartilhado.
Precisamos ter calma em relação a nós mesmos. Ter paciência para com as
imperfeições, sem nos acomodarmos quanto à necessidade de evoluir. Ser perfeito,
dentre outros aspectos, é autodeterminar-se a espiritualizar-se.
Ninguém cresce sem atravessar obstáculos, nem evolui sem administrar perdas
e submeter-se ao atrito da convivência com seu semelhante, que se constitui num
espelho vivo do nosso mundo interior. Precisamos do outro tanto quanto os outros
precisam de nós. A evolução é um processo individual e coletivo ao mesmo tempo.
É um paradoxo solúvel, na medida em que percebemos a complexidade e
simplicidade simultâneas do evoluir.
A individualidade ou singularidade é a marca do Criador na criatura. A
construção da personalidade, que envolve a real percepção dessa individualidade, é
tarefa do indivíduo juntamente com a sociedade da qual ele faz parte a cada
encarnação, com o contributo que recebe nos intervalos entre elas. A descoberta
dessa individualidade se dá na medida em que o ser humano vive no coletivo
(família, sociedade, etc.). O pro cesso de tornar-se perfeito, em verdade, envolve o
individualizar-se sem a necessidade de isolamento. C. G. Jung chamava esse
processo de individuação, que é, dentre outras definições, o viver a sua própria
individualidade no coletivo.
O processo de individuação não se confunde com o que se chama de perfeição,
pois não pressupõe a aceitação de regras religiosas ou de uniformização de atitudes
externas. Individuar-se é realizar sua própria individualidade enquanto em
sociedade. Nesse sentido, sede perfeitos também equivale a: realize sua
individualidade, verdadeira essência divina.
Para se buscar essa individualidade deve-se discriminar primeiro tudo aquilo
que o mundo colocou em nós, isto é, o que faz parte da personalidade, mas que serve
apenas como meio de adaptação à convivência social. Após essa identificação devese
buscar retirar aquilo que nos atrapalha a evolução. O que restar é nossa essência.
É trabalho laborioso e difícil de se fazer, não raro requer ajuda e, de tempos em
tempos, avaliação do processo.
Os cristãos, na sua maioria, perseguem a perfeição acreditando que ela é
alcançável após algumas práticas religiosas de fácil realização. Acreditam que, se
não a alcançam, é porque são pecadores ou imperfeitos. Justificam seus insucessos
através de sua própria condição, sem perceber que, talvez, o equívoco esteja em sua
interpretação da mensagem cristã. O Espiritismo vem propor uma nova visão do
significado da palavra perfeição, diferindo da exigência radical de tornar-se perfeito
sem o trabalho de construção interior. O Espiritismo é uma doutrina cristã mas não
adota as práticas exteriores das religiões cristãs.
Sou uma individualidade eterna responsável por tudo que me acontece e devo
aprender a viver coletivamente 5
Minha felicidade se dá na convivência social, no atrito com meus semelhantes.
Sou uma singularidade eterna responsável por tudo que me acontece e encontro essa
certeza aprendendo a viver coletivamente. O ser humano só encontra sua
singularidade conscientizando-se de sua natureza coletiva.
Como vimos antes, são quatro as fases de desenvolvimento psíquico e
espiritual do ser humano: o autoconhecimento, o autodescobrimento, a
autotransformação e, por fim, a auto-iluminação. São processos, aos quais estão
sujeitos encarnados e desencarnados, independentes do grau de evolução em que se
encontrem, exceção feita aos Espíritos puros. Esses processos ocorrem ao longo das
sucessivas encarnações do espírito, porém, em escala menor e de forma embrionária,
podem ocorrer numa única existência, ainda que incompletos.
Não basta portanto autoconhecer-se e autodescobrir-se. Deve-se buscar a
autotransformação e a auto-iluminação. As duas últimas fases pressupõem a
aplicação constante de suas próprias convicções à vida social, sem impô-las aos
5 NOVAES, Adenáuer. Psicologia e espiritualidade. 3. ed. Salvador: Fundação Lar Harmonia,
2003, p. 143-147.
outros. Nelas, a sociedade passa a ser, concomitante com o próprio indivíduo, o alvo
das transformações necessárias ao progresso.
Encontrar sua própria maneira de ser, ou seja, ter uma identidade psicológica,
faz parte da evolução do indivíduo quer esteja encarnado ou desencarnado. A vida
continua e sempre exigirá o encontro do ser consigo mesmo, no corpo físico ou fora
dele. Os espíritos desencarnados, mesmo aqueles que supervisionam tarefas
espíritas, se encontram em regime de aprendizado, buscando o autoconhecimento,
bem como as demais fases evolutivas. Essa procura ao encontro do si mesmo requer
percepção do processo de evolução espiritual e de suas fases. Autoconhecer-se não
basta, pois, muitas vezes, atende-se às exigências do ego em conhecer-se e em tomar
consciência das coisas pelo seu desejo de permanente controle. A essa fase inicial
assinalada por Sócrates no seu conhece-te a ti mesmo , do oráculo de Delfos, no
templo do deus Apolo, deverá suceder a fase das descobertas sobre os aspectos
inconscientes da própria natureza interior. Esse processo se dá necessariamente no
convívio com os semelhantes.
Imprescindível a percepção desses conteúdos íntimos, oriundos das
experiências relacionais nas sucessivas encarnações, guardados cuidadosamente por
mecanismos psíquicos importantes. Autodescobrir-se não se confunde com a mera
lembrança, mesmo que completa, de situações vividas no passado, quer de forma
espontânea ou pela regressão induzida de conteúdos reencarnatórios. É a consciência
de sua própria personalidade como resultante daquelas vivências arquivadas, o que
dispensa a exigência de relembrá-las detalhadamente.
A vida ascética, ou o isolamento social, não representa garantia de felicidade
ou de crescimento espiritual. O necessário confronto com os opostos de sua própria
personalidade se dá no convívio com os semelhantes. O indivíduo pode se isolar
para adquirir energias e disposição para aquele confronto imprescindível, como um
meio, mas não um fim. Em outras palavras, não se deve fugir do mal que percebe
em si, muito menos do que acredita existir no mundo, mas reconhecê-lo e integrá-lo
à própria vida, dada sua relatividade e inexistência absoluta.
As proibições medievais não encontram mais lugar na sociedade que aspira
crescer e evoluir, muito menos no Espiritismo que liberta. Assumir a
responsabilidade pelos próprios atos toma o lugar das proibições e vetos no
comportamento humano. Proibir é deseducar, é alienar. Estabelecer
responsabilidades é ensinar, é educar para a Vida.
As imitações de comportamentos não são mais cabíveis; o Cristo, muito menos
alguém encarnado ou desencarnado, não deve ser imitado em seus gestos e ações,
sob pena de viver-se uma vida alheia a si mesmo. Os comportamentos alheios
devem ser percebidos quanto às suas conseqüências e conveniência de serem
aplicados a quem os vê. Imitar é alienar-se; verificar sua conveniência é aprender.
Deve-se buscar a mensagem que é subjacente ao comportamento observado e, de
acordo com sua própria personalidade, exercitá-la.
O espírito encarnado, na busca de sua própria evolução, não deve prescindir de
encontrar sua autonomia no pensar, no falar e no agir. Quando agimos ou atuamos
por uma imitação ou sob o comando de alguém, presente ou ausente, não devemos
pensar que já adquirimos aquela experiência em nós. Estamos apenas fazendo algo
sob a influência de condições externas. Encontrar suas motivações pessoais e agir de
acordo com os próprios princípios, é evoluir.
Cada ser humano é responsável direto e indireto pelos seus atos. Ninguém
sofre por ninguém nem atravessa processos cármicos educativos por
responsabilidade de terceiros. Somos responsáveis diretos pelo exercício de nossa
própria vontade e indiretos pelas influências inconscientes que recebemos. A
responsabilidade individual nos coloca diante da necessidade de adquirirmos a
maturidade e agirmos com um apurado senso de autoria de nosso destino.
Os acontecimentos de nossa vida são, em realidade, atraídos por nós, em face
da exigência da lei de Deus a que todos estamos sujeitos, no constante aprendizado
visando a evolução espiritual. Só nos acontece aquilo que precisamos atravessar para
conhecer as leis de Deus. Nesse sentido, não há acaso nem determinismo, pois tudo
passa pela escolha do próprio indivíduo de qual caminho queira trilhar, sabendo que
este lhe trará sempre aquilo de que necessita para evoluir como também por
experiências típicas do nível humano. Passamos na vida pelas provas
correspondentes ao que somos. Só conseguimos resolver algo externamente quando
internamente já estiver solucionado.
Instituições, grupos ou mesmo a família, com lideranças autocráticas e
seguidores fiéis, se aproximam em semelhanças, àquelas que instituíram religiões
dogmáticas, que criaram uma casta de doutores e um numeroso grupo de ignorantes
ou alienados. Os dirigentes de grupos (religiosos ou familiares) devem possuir
habilidade para, por um lado, propagar a verdade coletiva entre seus liderados e, por
outro, permitir que cada um se aproprie dela, favorecendo seu desenvolvimento
psíquico e espiritual.
Quando numa família ocorre o comando autocrático por um dos cônjuges,
muitas vezes os filhos necessitarão, mais tarde, aprender por si sós, aquilo que lhes
foi imposto fazer ou pensar. A rebeldia, muitas vezes presente na adolescência, pode
decorrer, dentre outros fatores, do modelo estrutural calcado na imitação de
comportamento, inerente à forma como foram educados.
A construção do próprio eu maduro é tarefa árdua e se processa na intimidade
da consciência de cada um, constituindo-se num aprendizado inalienável e sujeito a
percalços diversos. O grande rival é o próprio indivíduo com sua tendência imitativa
de igualar-se ao senso comum.
Encontrar sua própria essência singular vivendo em sociedade e
compartilhando com seus pares suas descobertas interiores, é fundamental para se
alcançar a felicidade. Essa singularidade é, na realidade, a essência divina em nós.
A personalidade humana é dotada de um núcleo singular, que é sua
individualidade, e de aspectos plurais oriundos de sua convivência social. O
primeiro é natural e representa o selo de Deus no ser humano. Os aspectos plurais
são adquiridos e se prestam, no decorrer da evolução, a fazer chegar ao núcleo, as
leis de Deus. Descobrir essa singularidade já acrescida parcialmente das leis
universais, representa um grande marco na evolução pessoal.
Mesmo aquelas ocorrências da vida que vêm de retorno por atitudes passadas,
obedecendo a necessidades evolutivas, devem ser encaradas de forma positiva, numa
perspectiva otimista. Por mais que pareçamos inocentes demais diante da vida, é
importante que sejamos otimistas e que sempre consideremos que, qualquer que seja
o resultado de uma ação consciente que vise nosso bem estar sem agredir a ninguém,
resultará num benefício para nós.
Identidade, Individualidade e Personalidade 6
Podemos pensar que o espírito, o ser humano, é algo incognoscível em si,
porém quando ele se expressa (se manifesta) ele é e será sempre algo de si mesmo e
do meio no qual se apresenta. Em suas manifestações externas ele sempre revela
aspectos de sua essência mesclados a outros do meio no qual se apresenta. Sempre
que se expresse será individual e coletivo ao mesmo tempo.
Sua identidade estará condicionada ao momento, ao resultante do acúmulo de
suas experiências reencarnatórias e à sua singularidade. Os Espíritos são distintos
não só pelas diferentes experiências ao longo da evolução como também pela
singularidade que o Criador imprimiu em cada um, no ato da criação. Naquele
momento, o Criador, sem estabelecer hierarquia ou injustiça, estabeleceu a unidade
de cada ser.
O Espírito logicamente é único em si. Não é possível haver duas coisas iguais,
pois a unidade é o fundamento do universo. A diversidade de unidades constitui uma
Unidade.
Nossa identidade se faz não apenas pelas aparências ou pelas características
intelectuais, emocionais ou sociais adquiridas ao longo da evolução, mas
principalmente pelo sentido pessoal de existir. Cada um é o que lhe constitui o
mundo íntimo, construído por sobre a base da singularidade gerada pelo Criador.
Buscar reconhecer em si a própria individualidade, isto é, aquilo que em nós difere
dos outros, é fundamental para o crescimento espiritual.
O que distinguiu um Espírito de outro no ato da criação? A resposta não deverá
contradizer o princípio da igualdade em Deus. Ele não nos fez em série ou em
duplas. Somos singularidades divinas a serviço do próprio processo de autoiluminação.
A personalidade é a maneira singular pela qual o indivíduo responde ao meio.
A personalidade não se resume em atos comportamentais, pois é também e
principalmente a estrutura que os modela e que decide sobre as respostas a serem
dadas. Alguns atributos do espírito antes de reencarnar serão privilegiados em face
6 NOVAES, Adenáuer. Psicologia do Espírito. 2. ed. Salvador: Fundação Lar Harmonia, 2004,
p.174-176.
das provas a que ele se submeterá. O conhecimento prévio das provas e o meio em
que encarnará permitirá que tais atributos sejam discriminados.
O comportamento não define nem resume a personalidade humana. Ele é tão
somente um de seus componentes, visto que boa parte do que se pensa e sente não se
expressa nas atitudes. Não se pode desprezar a necessidade de estabelecer um
conceito dinâmico para a personalidade. Não só pela condição essencial do Espírito
como elemento oriundo da força criadora divina, como pela necessidade de
entendermos como resultante também da dinâmica da relação com um outro. Por si
só o Espírito não se define, visto que sua existência está atrelada à de Deus, e sua
personalidade está à de outro ser.
O desenvolvimento da personalidade, a partir da infância, refere-se à retomada
do ego, ou melhor, à formação de um novo ego. É comum se confundir
personalidade com ego. A estruturação ou consolidação do ego se dá por uma
integração contínua de fatores motivacionais, emocionais e cognitivos internos. As
características do ego não englobam os aspectos pertencentes à personalidade. A
formação dela transcende os limites de uma existência e nela estão inclusos os
conteúdos inconscientes. O ego é apenas uma forma dinâmica e funcional da
personalidade se manifestar.
O que chamamos de personalidade não é o Espírito em si, visto que ele não
apresenta a gama de sensações, emoções, pensamentos, idéias e sentimentos
existentes na totalidade que engloba também o corpo e o perispírito.
Muitas são as possibilidades da personalidade encarnada. Em si, o ser contém
as potencialidades divinas e a capacidade de desenvolvê-las. Por conta da cultura e
da sociedade nos privamos de manifestar tudo de bom que encerramos em nós
mesmos. Acostumamos a projetar nossas melhores qualidades e potenciais em
figuras que as apresentaram, acreditando, por vezes, que só elas as possuem. O que o
outro possui existe potencialmente em nós. É dever de todo ser humano ir à busca do
que realmente é.
A individualidade é o próprio Espírito com suas aquisições das leis de Deus.
Ela independe do corpo físico e do perispírito, pois é o rótulo de Deus na Natureza.

segunda-feira, 7 de setembro de 2009

"BHAGAVAD-GÍTÁ - On Line"



"O Bhagavad-Gítá é famoso universalmente como a jóia da sabedoria espiritual da Índia. Falados pelo Senhor Krishna, a seu discípulo íntimo Arjuna, os setecentos versos do Gítá estabelecem uma orientação definitiva para a ciência da auto-realização. Nenhuma outra obra filosófica ou religiosa revela, de maneira tão lúcida e profunda, a natureza da consciência, o eu, o universo e o Supremo".