quarta-feira, 26 de abril de 2017

A ÂNFORA DA HUMILDADE


Eu estava de volta ao Himalaia. Era uma promessa que tinha feito a mim mesmo, retornar uma vez por ano à vila chinesa, próxima ao Tibete, para estudar o Tao com Li Tzu. A única hospedaria que havia no lugar estava sempre lotada de alunos de todas as partes do mundo, sedentos por conhecer um pouco mais sobre o milenar Tao Te Ching, o Livro do Caminho e da Virtude. As reservas, na prática, eram de pouca utilidade e não garantiam a vaga. As reclamações quase nunca surtiam efeito, pois a anciã responsável pela pousada respondia, sempre sorrindo, em inglês ou mandarim, de acordo com a conveniência dela em se fazer entender. No pequeno espaço que servia como recepção, eu disputava com um homem enorme, com mais de dois metros de altura, forte como um halterofilista, quem ficaria com o último quarto vago. Ambos tínhamos reserva, a minha era anterior a dele, mas ele chegara à hospedaria minutos antes de mim. Discutíamos, cada qual com suas razões e argumentos, diante da anciã que parecia se divertir, uma vez que não parava de sorrir, embora o tom da discussão aumentasse a cada palavra proferida. Até que ele pegou a chave do quarto das mãos dela e disse que a questão estava resolvida: ele ficaria com o quarto, salvo se eu fosse capaz de tomar a chave dele. Repleto de raiva, não reagi. A diferença de força física anunciava uma grande surra, caso eu aceitasse jogar pelas regras do meu oponente. Pedi à anciã que tomasse uma atitude contra aquela arbitrariedade. Ela apenas deu ombros e respondeu, em seu idioma, algo que interpretei como “nada posso fazer”. Claro, sem abandonar o sorriso. Como se não bastasse, e com efeito devastador para mim, ainda ouvi uma série de provocações e piadas desagradáveis por parte do meu desafeto enquanto me retirava da hospedaria.
Fui ao encontro de Li Tzu e narrei todo o ocorrido. Em resposta, o mestre taoista me convidou a tomar chá com ele. Fechei os olhos para controlar a ira e apenas concordei com a cabeça. Fomos à cozinha e, sem nenhuma pressa, ele foi misturando várias folhas desidratadas em um coador para depois deixá-las em infusão por alguns minutos. Tudo sem dizer palavra. Bastante irritado, perguntei se ele não iria comentar sobre o que eu tinha contado. Li Tzu respondeu: “Por ora, o silêncio. Ele permite que você ouça o seu coração. Será sempre o melhor mestre”. Depois encheu as duas xícaras e as colocou sobre a mesa de madeira rústica. Então, falou: “Você perdeu a batalha”. Questionei se ele me aconselhava a reagir de maneira violenta e lutar pela chave do quarto. Ele balançou a cabeça em negativa e disse: “Claro que não. A sua derrota foi decretada quando se permitiu sentir raiva. A sombra foi mais forte do que a luz”.
Argumentei que não tinha como me sentir de outra maneira, afinal eu havia sido humilhado. O mestre taoista franziu as espessas sobrancelhas grisalhas e explicou: “A derrota, pelo visto, foi ainda mais profunda. A ofensa é um convite para dançar nas trevas. Somente quem não conhece a compaixão aceita comparecer a este tipo de baile”. Bebeu um gole de chá e prosseguiu: “Apenas é humilhado quem não traz em si a virtude da humildade. A humilhação atinge somente os espíritos toscos, ainda movidos por orgulho e vaidade. A compaixão é o antídoto contra o veneno da ofensa e do sarcasmo. Um escudo em forma de manto de amor que derramamos sobre o agressor. É o amor em forma de sabedoria por entender que cada qual age na exata medida do seu nível de consciência e capacidade afetiva. A compaixão sabe que as rosas não florescem no deserto. A maneira de reagir diante das situações desagradáveis define a distância que já conseguimos percorrer no Caminho e quais flores já germinaram em nosso Jardim de Virtudes. Apenas quem traz em si as sombras do orgulho e da vaidade pode ser humilhado. A humildade é a cura. Ela transmuta a escuridão e dissolve a humilhação em pétalas de luz. Ninguém se torna andarilho ou jardineiro sem a ânfora da humildade”.
Torci o nariz. Falei que ânfora era uma espécie de vaso antigo e a humildade era destinada aos fracos. Argumentei que a questão não era apenas as ofensas, mas também o fato de ter vindo de longe para estudar o Tao e não ter onde dormir. Sim, acrescentei, eu tinha motivos para estar irado. Impassível, Li Tzu disse: “Você poderá dormir no galpão dos fundos onde ficam os bonsais. Para tanto, terá o compromisso de regá-los duas vezes ao dia e os colocar ao sol, bem cedo, todas as manhãs. Caso concorde, aconselho ir até a mercearia da vila. Lá vende material de alpinismo. Compre um saco de dormir”. Agradeci e aceitei a oferta. Perguntei quando começaríamos as aulas. Ele respondeu de imediato: “Já começaram. Na hospedaria”.
Os dias se passaram sem que eu tornasse a falar com Li Tzu, sempre atencioso com os inúmeros viajantes que vinham em busca de seu conhecimento sobre o Tao. Passei a me entreter com os bonsais até que veio um recado para que eu lesse o capítulo 11 do livro:
“Molda-se o barro, faz-se um vaso,
mas útil é o vazio do interior.
Uma casa tem portas e janelas,
mas útil é o vazio, lá de dentro.
No existir está a posse,
no vazio, a utilidade.”

Ainda refletia sobre aquelas palavras quando o mestre taoista se aproximou. Falei que tinha lido o poema e que não concordava com o raciocínio. Acrescentei que uma pessoa, diferente de um vaso ou ânfora, não podia ter o interior vazio. O valor estava justamente em seu conteúdo. Acrescentei que eu tinha me graduado em uma famosa universidade, além de ter concluído o mestrado e o doutorado. Não fazia sentido jogar todo esse conhecimento fora. Li Tzu ouviu todo o meu discurso com enorme paciência, ao final, me ofereceu um olhar doce e falou: “Você é um homem culto e eu reverencio o conhecimento. Porém, tudo o que você aprendeu de nada lhe serviu na briga que teve na hospedaria”. Interrompi para dizer que o outro hóspede é quem foi agressivo e autoritário. Eu tinha sido a vítima. O mestre taoista se manteve sereno: “Sim, é verdade. No entanto, você se permitiu a ira. A raiva e todos os sentimentos que lhe são afins, como a mágoa ou o ressentimento, causam um tremendo desequilíbrio na alma, tão grande que é como se todas as moléculas do seu corpo recebessem uma martelada. Como se não bastasse, ainda o mantém algemado ao agressor por afinidade de sentimentos. É preciso colocar o seu conhecimento para se proteger daquilo e a se libertar disso”, explicou.
Discordei. Disse que nenhum conhecimento é capaz de lançar uma mordaça na boca de pessoas deselegantes. Li Tzu anuiu com a cabeça e explicou: “Concordo mais uma vez. Contudo, não se trata de calar o outro, mas impedir que as flechas verbais o atinjam”. Irônico, perguntei se eu deveria enfiar o tal vaso vazio na cabeça, pois assim, talvez, não ouvisse as ofensas. O mestre taoista deu uma gostosa gargalhada e depois me olhou com bondade. Percebi, talvez a primeira vez na vida, que era compaixão e misericórdia. Ao invés de se chatear, ele se divertiu com o veneno que lancei. Me senti um ser grosseiro, sem qualquer lapidação, e fiquei envergonhado do próprio sarcasmo. Li Tzu se manteve sereno: “O pão apenas vira alimento quando na boca; enquanto na vitrine, não cumprirá o seu destino. O conhecimento só passa a ter valor quando colocado em prática. Ele precisa ser útil ou perderá o sentido. Ninguém precisa de ninguém para ser feliz, mas todos precisam dos outros para evoluir. As lições se apresentam no convívio. Um eremita, por maior que seja o seu saber, se não sair da caverna restará estagnado. O conhecimento somente se transforma em sabedoria quando em movimento”. Deu uma pequena pausa antes de acrescentar: “Mas não é só. Todo verdadeiro sábio reconhece a necessidade de evoluir. Para tanto, precisa aceitar com sinceridade e humildade a sua condição de eterno aprendiz”.
Comentei que tinha dúvida se a humildade era, de fato, uma virtude. Sempre a considerei algo menor, típico das pessoas que não tinham grandes sonhos. Li Tzu me olhou como quem se diverte com uma criança teimosa e explicou: “A humildade é a virtude dos santos e dos verdadeiros sábios. Você apenas se torna grande quando entende a grandeza de ser pequeno. Ou não haverá espaço para crescer. Os pequenos não mudarão de tamanho enquanto se enganarem grandes”.
“O orgulho e a vaidade são sombras que alimentam a ilusão de que somos os maiores e melhores, aprisionando o verdadeiro eu na escuridão. Todo intelectual, enquanto se gabar do seu conhecimento estará longe de se tornar um sábio. Todo maioral enquanto orgulhoso de sua força ou envaidecido pelo poder não passará de um ser frágil pelo alvo fácil que se tornou. Continuará a ser um tolo, um personagem social de si mesmo. Viverá de débeis aplausos que alimentam o ego e enfraquecem a alma; uma aparência condecorada, uma essência combalida. Isto porque a ânfora da humildade, repleta de orgulho, mofada por vaidade, não permite lugar para o novo e, por consequência, para a transformação. Ela está lotada de ideias que não servem mais por manterem o ser estacionado. A sorte é que, não raro, a vida se apresenta em forma de tragédia e caos para que o vaso lotado de preciosas inutilidades se quebre. O universo está empenhado com a evolução de cada um. Ninguém ficará de fora, nem mesmo os mesquinhos e teimosos. Somos partes indissociáveis do todo. A renovação é indispensável e inexorável. Renovamos e seguimos ou estagnamos e sofremos até que quebrem a nossa ânfora; não há outra opção. Você precisa estar vazio ou nada poderá acrescentar a si. Esta ânfora se chama humildade”.
“Quando o indivíduo a preenche com virtudes, o vaso se mantém vazio para que sempre haja lugar para novas e outras virtudes. Infinitamente. Somente as virtudes permitem ao andarilho avançar no Caminho. A verdadeira virtude não pesa, dá asas; preenche sem ocupar lugar; tem poder sem vontade de dominar; possui valor sem desejo de aparentar. A humildade é o primeiro portal e a habilitação necessária para a conquista das demais virtudes de que fala o Tao”.
Argumentei que nunca tive bons olhos para a humildade. Sempre a liguei à pobreza, à fraqueza e à ignorância. Li Tzu balançou a cabeça em negativa e disse: “Justo ao contrário. A humildade é uma virtude repleta de lucidez, pois ao saber exatamente quem somos, reconhecemos o que ainda não somos; este é o bilhete de entrada. É o indivíduo que se percebe simples em espírito, no entanto, disposto a conquistar e sedimentar em si cada uma das virtudes que compõem a Luz. Ele já entende que essa é a verdadeira fortuna. A sua riqueza não precisa ser guardada no cofre, pois não pode ser roubada”. Deu uma pequena pausa antes de prosseguir: “Acaba por se tornar a virtude dos fortes, daqueles que não podem ser humilhados ou maltratados por inatingíveis. Por banais, as pedras da ofensa, do desprezo, do descaso, da chacota e dos cerceamentos vis lançadas por toda a gente são vistas como malcriações de crianças insatisfeitas, mimadas e desorientadas, sem quaisquer condições de alcançá-lo”.
Comentei que eu tinha a sensação de que as pessoas humildes não amavam a si mesmo. Li Tzu explicou: “O humilde ama a si próprio sem abandonar a verdade. Esta é a grandeza da humildade. Apenas assim ele consegue desapegar das ilusões que trazem o sofrimento e a escuridão, que tanto consomem as suas forças e o desvia da felicidade e da paz. Ele não tem vergonha das suas imperfeições, ao contrário, elas servem de inspiração para o enriquecimento moral e espiritual que almeja. A conquista da humildade estabelece um novo capítulo na vida do indivíduo ao elaborar um diferente código de compreensão e conduta, norteando as demais virtudes a serem sedimentadas pela alma”.
Bebemos o chá sem falar palavra. Ao final, Li Tzu retornou aos seus afazeres. Nos dias que se seguiram, enquanto cuidava dos bonsais, refletia sobre o poema do Tao e na conversa que tivemos. Aos poucos, toda a discussão na hospedaria foi perdendo tamanho e importância, até que me encontrei rindo do ridículo da situação. Me senti leve. Seriam essas as asas de que falara o mestre taoista?
Naquela tarde, tive que dar um pulo no pequeno comércio da vila para comprar algumas coisas. Por acaso – se é que acasos existem –, encontrei o homem enorme com quem tinha brigado. Ele estava indo embora e percebi que, apesar do seu tamanho, tinha dificuldades em carregar a própria mala. Explicou que tivera uma contratura muscular nas costas e tinha dificuldade para os movimentos mais simples. Me adiantei, ele recuou. Talvez pensando que eu aproveitaria a oportunidade para agredi-lo e me vingar. Confesso que isso me ocorreu, mas a vontade, naquele momento, era nenhuma. Peguei a mala, andamos um bom tempo, lado a lado, em silêncio até que a coloquei no bagageiro do ônibus que ele embarcaria. As feições do homem estavam diferentes daquelas que eu havia conhecido quando cheguei à vila. Ele foi sincero em me agradecer e acrescentou que “sem aquela não haveria esta”. Tornou a agradecer. Apenas fechei os olhos e sorri, também em agradecimento, como resposta. Nos abraçamos. Ambos tínhamos sido agraciados com preciosos aprendizados.
Quando voltei, falei para Li Tzu que estava na hora de partir e contei o ocorrido. Acrescentei que entendia a necessidade de manter vazia a ânfora da humildade para que novas ideias e virtudes encontrassem um lugar em mim. O mestre taoista balançou a cabeça em concordância, me presenteou com um belo sorriso e finalizou a lição: “Mas não basta. É preciso lembrar que além das ideias e das virtudes, a ânfora não pode estar repleta do ‘eu’. Necessário se faz que também haja lugar para o outro. Ou nada fará sentido e a humildade se perderá em si”.
Naquele dia, enquanto eu andava pelas ruas da vila, tive a estranha sensação de que podia voar.

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terça-feira, 15 de novembro de 2016

DIGA-ME COMO VOCÊ SE EXIBE E EU LHE DIREI QUAL É O SEU VAZIO!





Carolina Vila Nova • 31 de outubro de 2016

Quais são as formas que expressamos nossos vazios? Existe um motivo para o exibicionismo físico? Ou para a exibição daquilo que se tem em bens materiais? A exibição exagerada de dotes intelectuais? De sociabilidade? De excesso de simpatia? Ou ainda de “sex appeal”?
Tudo na vida segue em busca de equilíbrio. E assim, para se analisar uma pessoa ou situação, basta perceber se há equilíbrio em todas as partes que compõe este alguém ou momento.
O simples fato de uma pessoa precisar se exibir já demonstra falta de equilíbrio. Quando alguém está inteiro e balanceado, não possui necessidade de aparecer. O mesmo acontece como consequência e de forma natural, na intensidade que tem de ser. 
Chegamos todos nesta vida sem manual de instrução sobre como seguir em frente. Passamos esta trajetória em busca de nós mesmos e de respostas que permeiam nossa consciência do início ao fim. Entre um momento e outro, extravasamos nossas dúvidas e faltas de respostas de inúmeras formas. Muitas que doem e nos marcam profundamente.
É na infância que construímos os nossos valores, crenças e princípios. E toda falta de amor, compreensão e qualquer dificuldade que se tenha tido nesta fase, irá se manifestar mais tarde, quando jovens ou adultos. Muitas vezes passa-se a vida na busca pela compensação de um fato do passado, sem sucesso ou sem qualquer consciência disso. 
A busca desenfreada pelo amor de alguém, por exemplo, que acaba refletindo em diversos relacionamentos, um atrás do outro, ou em vários ao mesmo tempo, deixa clara a falta de afeto na infância. Uma mágoa em relação ao pai ou à mãe, ainda que inconsciente, faz com que o ser humano se sinta tão profundamente só, que o mesmo se perde na busca pela compensação de amor num parceiro ou parceira. Como nada, nem ninguém substitui este amor, a busca torna-se infinita e mal sucedida.
Todo excesso de nós mesmos ou de algumas de nossas características vem demonstrar uma falta de equilíbrio. Assim como a necessidade de exibição dessas características.
A exibição e ostentação de dinheiro mostra uma ausência de valores amorosos. Assim como a exibição e humilhação através da posse de dotes intelectuais, mostra a necessidade de subjugar o outro, compensando uma provável subjugação do passado. O excesso de sociabilidade, escancarando a necessidade de ser aceito, quando de forma inconsciente não há a aceitação por parte de si mesmo. E daí por diante.
Toda falta gera em nós um vazio, que em nós permanece de forma inconsciente, e na maioria das vezes por muito tempo. Anos a fio. É pelo despertar de consciência, pelo auto-conhecimento, o se olhar para dentro, que nos permite finalmente preencher esses “buracos” de forma adequada.
Não mudamos a história de nosso passado, mas somos capazes de mudar o que sentimos ao lembrar de nossas histórias. Transformamos nossas mágoas e dores em compreensão e aceitação. A partir daí, toda e qualquer necessidade de se sobressair desaparece.

Uma vez donos de nós mesmos, não importa o que o mundo pensa ou o que o mundo fala. Só importa a paz finalmente encontrada no melhor lugar possível: em si mesmo!

domingo, 4 de setembro de 2016

BHAGAVAD-GÍTA Como Ele É - Capítulo 15 Verso 5

nirmāna-mohā jita-saṅga-doṣā
adhyātma-nityā vinivṛtta-kāmāḥ
dvandvair vimuktāḥ sukha-duḥkha-saṁjñair
gacchanty amūḍhāḥ padam avyayaṁ tat

Palavra por palavra: 

niḥ — sem; māna — falso prestígio; mohāḥ — e ilusão; jita — tendo vencido; saṅga — da associação; doṣāḥ — as faltas; adhyātma — em conhecimento espiritual; nityāḥ — em eternidade; vinivṛtta — desassociado; kāmāḥ — da luxúria; dvandvaiḥ — das dualidades; vimuktāḥ — liberados; sukha–duḥkha — felicidade e sofrimento; saṁjñaiḥ— chamados; gacchanti — alcançam; amūḍhāḥ — não confundidos; padam — situação; avyayam — eterna; tat — esta.

Tradução: 

Aqueles que estão livres do falso prestígio, da ilusão e da falsa associação, que compreendem o eterno, que se enfastiaram da luxúria material, que estão livres das dualidades manifestas sob a forma de felicidade e sofrimento, e que com toda a lucidez sabem como se render à Pessoa Suprema, alcançam este reino eterno.

Significado: 


Aqui se descreve de maneira bastante precisa o processo de rendição. A primeira qualificação é que não se deve estar iludido pelo orgulho. Porque a alma condicionada se envaidece, achando-se o dono da natureza material, é muito difícil que se renda à Suprema Personalidade de Deus. Pelo cultivo do verdadeiro conhecimento, devemos procurar saber que não somos os senhores da natureza material; a Suprema Personalidade de Deus é o Senhor. Ao livrarmo-nos da ilusão causada pelo orgulho, podemos começar o processo de rendição. Para quem vive na expectativa de obter alguma honra neste mundo material, não é possível render-se à Pessoa Suprema. O orgulho é devido à ilusão, pois, embora o homem venha para cá para permanecer por pouco tempo e então ir-se embora, ele tem a falsa impressão de que é o senhor do mundo. Com isso, ele complica tudo, e está sempre em dificuldades. O mundo inteiro gira sob esta noção. As pessoas consideram que este planeta Terra pertence à sociedade humana, e o dividiram sob a falsa impressão de que são os proprietários. Devemos nos livrar desta falsa idéia de que a sociedade humana é proprietária deste mundo. Ao libertar-se desta idéia errônea, o homem se livra de todas as falsas alianças propiciadas pelas afeições familiares, sociais e nacionais. Estas relações forjadas atam-no a este mundo material. Após esta fase, ele deve desenvolver conhecimento espiritual e procurar conhecer aquilo que é realmente seu e aquilo que de fato não lhe pertence. E quando tem uma verdadeira compreensão das coisas, ele se livra de todas as concepções duais, tais como felicidade e sofrimento, prazer e dor. Ele se torna pleno em conhecimento; então lhe é possível render-se à Suprema Personalidade de Deus.

domingo, 14 de agosto de 2016

BHAGAVAD-GITÁ Como Ele É 16.23



yaḥ śāstra-vidhim utsṛjya
vartate kāma-kārataḥ
na sa siddhim avāpnoti
na sukhaṁ na parāṁ gatim

Palavra por palavra: 
yaḥ — qualquer um que; śāstra-vidhim — as regulações das escrituras; utsṛjya — abandonando; vartate — permanece; kāma-kārataḥ — agindo por capricho em luxúria; na — nunca; saḥ — ele; siddhim — perfeição;avāpnoti — alcança; na — nunca; sukham — felicidade; na — nunca; parām — o supremo; gatim — estágio de perfeição.

Tradução: 
Aquele que põe de lado os preceitos das escrituras e age conforme os próprios caprichos não alcança a perfeição, a felicidade, nem o destino supremo.

Significado: 
SIGNIFICADO Como se descreveu antes, o śāstra-vidhi, ou a orientação śāstrica, serve para as diferentes castas e ordens da sociedade humana. Espera-se que todos sigam essas regras e regulações. Se alguém não as seguir e, sendo caprichoso, agir segundo sua luxúria, cobiça e desejo, então jamais terá uma vida perfeita. Em outras palavras, um homem talvez tenha completo conhecimento teórico sobre este assunto, mas se não o põe em prática, deve então ser conhecido como o mais baixo da humanidade. Na forma de vida humana, espera-se que o ser vivo seja são e que siga as regulações indicadas para elevar sua vida à plataforma mais elevada, mas se não as segue, ele então se degrada. E mesmo que siga as regras, regulações, e princípios morais, sem entretanto, chegar enfim à fase em que se compreende o Senhor Supremo, aí então, todo o seu conhecimento se perde. Mas mesmo que aceite a existência de Deus, se ele não se ocupa no serviço do Senhor, seus esforços serão inúteis. Portanto, deve haver uma elevação gradual à plataforma da consciência de Kṛṣṇa e serviço devocional, só assim pode-se então atingir a mais elevada etapa de perfeição, e de nenhuma outra forma.
A palavra kāma-kārataḥ é muito significativa. Aquele que deliberadamente viola as regras age com luxúria. Ele sabe que é proibido, mas mesmo assim age. Isto se chama agir por capricho. Ele sabe que aquilo deve ser feito, mas mesmo assim não o faz; por isso, é chamado de caprichoso. Tais pessoas estão fadadas a serem condenadas pelo Senhor Supremo. Essas pessoas não podem atingir a perfeição reservada à vida humana. A vida humana destina-se especificamente à purificação da existência, e quem não segue as regras e regulações não pode purificar-se, nem pode alcançar a fase da verdadeira felicidade.

terça-feira, 21 de abril de 2015

Espiritismo e Consciência de Krishna: Um Estudo Comparativo em Transmigração da Alma

Uma análise lógica das diferenças entre reencarnação e metempsicose e suas consequências na esfera da justiça de Deus e da conduta moral de seus respectivos adeptos. 


 


Lembro-me como se fosse hoje. Em minhas mãos, aquele livro que comprei sob a propaganda de que desdobraria os temas da palestra que eu havia acabado de ouvir com grande interesse. Na capa da obra, ao fundo, o topo de vários templos no que parecia ser o amanhecer ou o entardecer. Quando cheguei em casa, deitei em minha cama ainda com a roupa do corpo e li novamente na capa o título do livro, o qual me dizia muito, pois era o que eu vivia. Seu título: Em Busca da Verdade. Seu autor: A.C. Bhaktivedanta Swami Prabhupada, fundador da Sociedade Internacional para a Consciência de Krishna.
Devorei cada página como se estivesse com muita fome. Tanto aprendi que mentalmente agradecia a Deus por aquele livro. Fui introduzido a temas como a impossibilidade de ser obediente a Deus sem uma descrição clara de Seus desejos e ordens, a necessidade fundamental de conhecermos em detalhes a personalidade de Deus para podermos amá-lO, a compreensão derradeira da ordenação do universo com base nos três modos da natureza material, a inutilidade de tentar ser honesto sem ter o conhecimento de que Deus é o proprietário de tudo e vários outros temas que, tamanha sua profundidade, sequer sabia de sua existência, menos ainda que haveria alguém capaz de apresentá-los de maneira tão acessível como o autor que agora eu lia.
Nem tudo me foi alegria ao término da leitura, no entanto. Em meu coração, além do contínuo agradecimento a Deus, estava o desejo de divulgar esse livro tanto quanto eu pudesse, a tantos amigos quanto eu tivesse. Porém, uma única página desta obra me desmotivava. Pensei então em comprar vários desse livro e presenteá-lo a amigos sem essa página que me incomodava, porém veriam que uma folha havia sido arrancada. Uma segunda ideia: Fotocopiá-lo tirando essa página e apagando os números das páginas, de modo que ninguém saberia do excerto. Por fim, não tomei nenhuma de minhas medidas cogitadas, pois minha ocupação em distribuir esse conhecimento teria de aguardar um pouco mais meu amadurecimento.
A referida passagem, enfim, era esta: “Como espíritos puros, todas as almas são iguais, inclusive nos animais”. Ai de mim, como dizem os poetas. Por que a vida não pode ser mais fácil? Por que um autor que julguei conhecer tudo perfeitamente tinha essa “mácula” de tamanho contrassenso de afirmar que a alma que anima os animais e os homens é a mesma, com o agravante que descobri mais tarde de que é a mesma alma também que pode passar inclusive por corpos inferiores, como os vegetais?
Minha dificuldade se dava por minha formação espírita, a qual, embora me tenha conduzido a buscar a reunião que assisti sobre a consciência de Krishna, em virtude de utilizar termos da mesma, como karma e chakra, tinha diferentes concepções acerca desses conceitos e outros, e, como foi o espiritismo a religião que me convenceu da existência de Deus, livre-arbítrio, transmigração da alma e outros tópicos, era-me difícil lidar com os conflitos entre ela e meu novo achado da consciência de Krishna.
Hoje, passados oito anos desde este meu primeiro contato com a consciência de Krishna, graduei-me em bhakti-sastri após residência no Seminário de Filosofia e Teologia Hare Krishna de Campina Grande e traduzi para a ISKCON mais de vinte livros, centenas de artigos e outros materiais, além de ter-me dado a leituras diversas sobre o assunto da consciência de Krishna. Esse acúmulo de conhecimento de minha parte tanto da doutrina espírita quanto da consciência de Krishna faz-me sentir obrigado a produzir este material de estudo comparado, para fomentar o diálogo inter-religioso na zona de conflito da reencarnação em oposição à metempsicose.
Transmigração da Alma: Reencarnação e Metempsicose
Ambas as religiões em análise têm como princípio básico que a alma espiritual indestrutível tem a faculdade de transmigrar para um corpo novo ante a destruição do corpo em que se encontrava anteriormente. Em O Livro dos Espíritos, encontramos: “Chamamos alma ao ser imaterial e individual que em nós reside e sobrevive ao corpo” (Introdução, p. 15), “A alma passa então por muitas existências corporais? ‘Sim, todos contamos muitas existências’” (2.4.166b), e, em seguida, afirma-se que “vivemo-las em diferentes mundos” (2.4.172).
Todos esses três pontos são comuns à consciência de Krishna, como evidenciamos por estes versos introdutórios do Bhagavad-gita. No atinente à continuidade da alma após a morte do corpo: “Para a alma, em tempo algum existe nascimento ou morte. Ela não passou a existir, não passa a existir nem passará a existir. Ela é não nascida, eterna, sempre existente e primordial. Ela não morre quando o corpo morre”. (2.20) No atinente às múltiplas existências: “Assim como alguém veste roupas novas, abandonando as antigas, a alma aceita novos corpos materiais, abandonando os velhos e inúteis” (2.22), e também “Assim como, neste corpo, a alma corporificada seguidamente passa da infância à juventude e à velhice; do mesmo modo, chegando a morte, a alma passa para outro corpo. Uma pessoa ponderada não fica confusa com tal mudança”. (2.13) No atinente à existência em diferentes planetas: “Aqueles situados no modo da bondade gradualmente elevam-se aos planetas superiores; aqueles no modo da paixão vivem nos planetas terrestres; e aqueles no abominável modo da ignorância descem para os mundos infernais”. (14.18)
Os pontos de conflito entre o espiritismo e a consciência de Krishna, como analisaremos aqui, estão no fato de que o espiritismo advoga, ou parece advogar, que a alma que ocupa os corpos humanos jamais habitou corpos animais ou então que, uma vez que tenha deixado os corpos animais em sua evolução a partir de sua criação por Deus “simples e ignorantes” (Livro dos Espíritos 2.1.115), jamais poderia retornar a um corpo animal dado que isso contradiz a lei do progresso, lei esta que dá título ao capítulo sexto da obra O Livro dos Espíritos. Tal ensinamento é chamado “reencarnação”, em oposição a “metempsicose”, cuja transmigração de uma mesma categoria de alma – categoria única, distinta apenas de Deus e da matéria inerte – se dá por todos os corpos.
Nesta passagem de O Livro dos Espíritos, nega-se a transmigração de uma mesma espécie de alma por corpos humanos e animais, atribuindo a eles “almas diferentes”:
Pois que os animais possuem uma inteligência que lhes faculta certa liberdade de ação, haverá neles algum princípio independente da matéria?
“Há e que sobrevive ao corpo”.
Será esse princípio uma alma semelhante à do homem?
“É também uma alma, se quiserdes, dependendo isto do sentido que se der a essa palavra. É, porém, inferior à do homem. Há entre a alma dos animais e a do homem distância equivalente à que medeia entre a alma do homem e Deus”. (2.11.597 e 597a)
A alma animal, ainda segundo a mesma obra (2.11.601), evolui por diferentes corpos animais, tal como a alma humana:
Os animais estão sujeitos, como o homem, a uma lei progressiva?
“Sim; e daí vem que nos mundos superiores, onde os homens são mais adiantados, os animais também o são, dispondo de meios mais amplos de comunicação. São sempre, porém, inferiores ao homem e se lhe acham submetidos, tendo neles o homem servidores inteligentes”.
A consciência de Krishna, baseada nos Vedas, declara, no entanto, que existe uma só alma que habita por diferentes corpos, passando por todas as formas inferiores até atingir a forma humana. No Brahma Vaivarta Purana, por exemplo, figuram os seguintes versos: “Atinge-se a forma humana de vida após a transmigração por milhões de espécies ao longo do processo gradual de evolução, e essa vida humana é arruinada pelos tolos orgulhosos que não se refugiam nos pés de lótus de Govinda [Deus]”. O Padma Purana descreve esse número de formas antecedentes à forma humana pelas quais passa a alma: “Em todo o universo, existem 900.000 espécies aquáticas; 2.000.000 de entidades vivas imóveis, como árvores e plantas; 1.100.000 espécies de insetos e répteis, e 1.000.000 de espécies voadoras. No que diz respeito aos animais terrestres, existem em número de 3.000.000, e as espécies humanas existem em número de 400.000”.
No Srimad-Bhagavatam (3.29.28-32), encontramos uma descrição ainda mais detalhada, a qual nos informa que o tato é o primeiro sentido que se experimenta, o qual se desenvolve ao se ter um corpo de árvore. Em seguida, experimenta-se paladar ao se obter um corpo de peixe. Após o corpo de peixe, pode-se obter um corpo como de abelha e desenvolver olfato. A audição então se faz presente rudimentarmente em um corpo de cobra, e, mais adiante, pode-se ter um corpo que tem todos os sentidos e ainda é capaz de distinguir formas, como os corpos de algumas aves e, por fim, de quadrupedes. Finalmente, tem-se o corpo humano. Os seres humanos ainda são divididos entre diferentes níveis de estruturação social e rendição a Deus, partindo dos seres humanos incivilizados e indo até “o devoto puro de Deus, que Lhe presta serviço devocional sem nenhuma expectativa”.
O leitor mais arguto deve ter atentado que, na ocasião em que eu disse que o espiritismo advoga que a alma que ocupa os corpos humanos jamais habitou corpos animais ou então que, uma vez que tenha deixado os corpos animais em sua evolução a partir de sua criação, jamais poderia retornar a um corpo animal, eu intercalei o segmento “ou parece advogar”. A explicação para isso é que a revelação dos espíritos não é um sistema fechado e concluído como o da consciência de Krishna, isso porque seus reveladores são investigadores no modelo de investigação científico-filosófico, isto é, baseado respectivamente na percepção dos sentidos e da mente, motivo pelo qual certamente terão conflitos entre si como têm os cientistas e filósofos encarnados. Assim é que um mesmo espírito pode ter diferentes opiniões em diferentes momentos ou variados espíritos terem diferentes opiniões contemporâneas, e encontramos no Livro dos Espíritos (p. 303) que isso de fato se dá com a dicotomia reencarnação e metempsicose e acerca da relação entre os homens e os animais:
O ponto inicial do espírito é uma dessas questões que se prendem à origem das coisas e de que Deus guarda o segredo. Dado não é ao homem conhecê-las de modo absoluto, nada mais lhe sendo possível a tal respeito do que fazer suposições, criar sistemas mais ou menos prováveis. Os próprios espíritos longe estão de tudo saberem e, acerca do que não sabem, também podem ter opiniões pessoais mais ou menos sensatas. É assim, por exemplo, que nem todos pensam da mesma forma quanto às relações existentes entre o homem e os animaisSegundo uns, o espírito não chega ao período humano senão depois de se haver elaborado e individualizado nos diversos graus dos seres inferiores da Criação. Segundo outros, o espírito do homem teria pertencido sempre à raça humana, sem passar pela fieira animal. O primeiro desses sistemas apresenta a vantagem de assinar um alvo ao futuro dos animais, que formariam então os primeiros elos da cadeia dos seres pensantes. O segundo é mais conforme à dignidade do homem. (grifo nosso)
Assim, não há uma base sólida acerca do posicionamento dos espíritos em relação a se a alma anima primeiramente corpos animais ou começa já em corpos humanos, logo não há um posicionamento absoluto acerca de se a alma animal progride unicamente por corpos animais ou se é a mesma sorte de alma que anima agora corpos humanos. Contudo, como a obra O Livro dos Espíritos mostra predileção pela teoria de que existem dois tipos de almas, humanas e animais, ou mais precisamente, três, uma também apenas a animar vegetais, tomaremos isso como o fundamento espírita e o iremos expor aos ensinos conscientes de Krishna.
A primeira dificuldade para sustentar a teoria espírita de que os animais sempre serão animais e sempre foram animais é que ela é contraditória com o senso de justiça vinculado a que alguém sofre por mau uso de seu livre-arbítrio e que alguém tem conforto por bom uso de seu livre-arbítrio, o que é aceito por ambas as religiões em estudo. No entanto, como os animais não têm livre-arbítrio (Livro dos Espíritos 2.11.599), o que ambas as religiões concordam, Deus Se torna injusto na teoria espírita, pois todo o sofrimento excruciante pelo qual passam, por exemplo, as vacas, porcos, galinhas e outros animais em fazendas-fábricas e abatedouros é um sofrimento desmerecido, não decorrente de nenhuma escolha ruim, tampouco há justiça ou justificativa em uma vaca viver livremente e outra não. Deste modo, Deus torna-Se alguém horrendo que criou almas animais apenas para animarem corpos animais inferiores e irem progredindo por corpos animais superiores sempre sofrendo as dores do nascimento, da morte, da velhice e da doença mesmo não tendo feito nenhuma má escolha ou ato contrário à vontade de Deus. Tais almas animais são submetidas a um processo automático (idem. 2.11.602) de evolução por diferentes corpos – reitero, dolorosíssimo – e evoluem sem nenhum mérito para chegarem ao estágio máximo delas, estágio máximo este no qual não conhecem Deus (idem. 2.11.603).
A única maneira de se conciliar existir sofrimento no mundo e Deus ser onipotente e bom é a exigência do amor ser precedido por livre-arbítrio, haja vista que um amor forçado não é amor, dado que amar exige a espontaneidade de ter o direito de não amar. Agora, se os animais jamais conhecerão Deus para amá-lO e não têm livre-arbítrio, por que os criar e os submeter a uma evolução dolorosa e sem sentido até o estágio de perfeição em que não conhecem seu criador? Certamente é absurdo atribuir a Deus tamanho capricho, em virtude do que o Livro dos Espíritos só pode dizer sobre isso as palavras com que encerra o capítulo nono da parte segunda: “Quanto às relações misteriosas que existem entre o homem e os animais, isso, repetimos, está nos segredos de Deus”.
O conhecimento da consciência de Krishna, no entanto, mantém Deus como justo ao colocar que os animais sofrem porque as almas que habitam tais animais que estão sofrendo com nascimento, morte, doenças e velhice fizeram mau uso de seu livre arbítrio, isto é, não procederam de acordo com a vontade de Deus, quando possuíam corpos humanos ou no ato de se desconectarem de Deus. Assim é que um açougueiro ou aqueles que comem carne terão de nascer, pelas reações de seus pecados, em corpos de animais que serão brutalmente criados e abatidos. Os corpos animais para as almas também têm um propósito muito amável, que é que uma alma em condição pecaminosa pode dar vazão a suas tendências pecaminosas sem criar novo mau karma. Deste modo, alguém afeito a dormir excessivamente pode ter um corpo de urso; alguém afeito a comer carne, um corpo de tigre; alguém afeito à promiscuidade, um corpo de macaco e assim por diante. Caso se fizesse tais atos no corpo humano, incorreria em grandes reações pecaminosas. Porém, com a oportunidade de fazer tais coisas em corpos animais, o indivíduo dá vazão a seus pecados e pode, quando Deus considerar apropriado, habitar novamente um corpo humano já esgotado desse hábito. Assim é que o Garuda Purana (2.46.9-10) afirma sobre as almas pecaminosas que estão deixando os planetas infernais: “Quando as torturas expiatórias e restringentes cessam, as entidades vivas nascem novamente na forma humana ou em uma forma animal com os traços característicos de seus pecados”. Por traços característicos dos pecados, entende-se uma pessoa incestuosa nascer cão ou alguém que não discrimina o que comer e o que não comer nascer como porco.
Com a metempsicose, a justiça de Deus é preservada, pois o sofrimento da alma no corpo animal tem um porquê imediato, isto é, suas ações passadas, e tem um propósito futuro: uma vez que atinja a perfeição em um dos 400.000 tipos de corpos humanos que propiciam o livre-arbítrio de poder render-se a Deus, conhecerá Deus e se relacionará com Ele em serviço devocional e bem-aventurança eterna.
Embora o espiritismo diga, como citado anteriormente, que talvez as almas que hoje habitam os corpos humanos tenham sim habitado corpos animais, o espiritismo em momento algum assume que a alma possa involuir, o que eles acreditam acontecer na metempsicose. Isto é um erro, no entanto; ao menos na metempsicose mais antiga que se conhece – a metempsicose consciente de Krishna. No Bhagavad-gita (2.40), Krishna diz: “Neste caminho [o caminho da gradual rendição a Deus] não há perda nem diminuição, e um pequeno esforço neste caminho pode proteger a pessoa do mais perigoso tipo de medo”. Em outras palavras, como explica A.C. Bhaktivedanta Swami Prabhupada em seu comentário, qualquer avanço que uma alma tenha feito em se render a Deus está eternamente no crédito dela, e ela sempre continuará daquele ponto, e Krishna diz que, desde que ela continue fazendo o mínimo progresso (pequeno esforço) ela estará livre do mais perigoso tipo de medo (cair em uma forma sub-humana). Aqui pode parecer haver uma contradição: Não há perda nem diminuição, ou involução, mas, se ela parar de progredir, cairá em corpos animais. Isso não é uma contradição assim como os espíritas aceitam que alguém que foi doutor em Letras pode, caso aja pecaminosamente, nascer como alguém cego, surdo, mudo, paralítico e com deficiências mentais. Tal aparente involução, isto é, alguém antes pesquisador acadêmico sequer ter sentidos e consciência o bastante para interagir ou se movimentar, é um estado temporário de “inferioridade” à vida passada, o qual, quando superado e terminado, terá sido um grande aprendizado para o doutor, que poderá então continuar seu progresso novamente em um corpo com inteligência, mas temeroso de pecar e reconsiderando se o mero conhecimento acadêmico realmente constitui progresso.
Assim é que, quando alguém cai em um corpo animal após ter tido um corpo humano, ao deixar o corpo animal – ou os vários corpos animais, a depender de seus atos –, retoma sua vida com livre-arbítrio do ponto de rendição a Deus em que estava, e sua experiência em determinado corpo animal serve-lhe de lição ou de esgotamento de alguma tendência animalesca que tinha mesmo no corpo humano.
A história do rei Bharata, por exemplo, relatada no Quinto Canto do Srimad-Bhagavatam – para o qual já fornecemos um weblink – relata a história de um rei que renunciou seu reino quando mais velho e se recolheu para a floresta para se dedicar a práticas espirituais. Contudo, porque negligenciou sua vida espiritual tendo-se atraído por um veadinho na floresta, adquiriu um corpo de veado na vida seguinte. No corpo de veado, intuitivamente rumou para a casa de grandes devotos de Deus e lá ficou até morrer. Uma vez de volta ao corpo humano, na vida seguinte, ele retomou sua vida espiritual com muito mais seriedade e cuidado. Assim, é evidente que, embora tenha adquirido um corpo sub-humano após ter tido um corpo humano, não houve involução da consciência, mas uma experiência chocante tal qual alguém que alguma vez enxergou porém teve um nascimento cego. Assim, negar a metempsicose porque a mesma pressupõe a involução da consciência é ignorância de todos os sistemas de metempsicose, visto que a metempsicose dos Vedas, escrituras estas que formam a base do movimento Hare Krishna, conciliam perfeitamente a transmigração por diferentes corpos sem aceitar a involução da consciência. Tal aparente “involução” pode ser comparada a alguém que estava caminhando para frente e, ao se deparar com um buraco à sua frente, recua um pouco para saltá-lo. Tal recuo não é um retrocesso em seu caminhar para frente, mas parte de seu progresso.
Então, porque o espiritismo não possui uma resposta clara sobre se a alma que atualmente ocupa corpos humanos já ocupou corpos animais, e porque seu argumento de que a metempsicose não pode ser real porque implica a involução da consciência é produto de ignorância da metempsicose consciente de Krishna, temos aqui, acredito, bastante espaço para reflexão.
Algo muito interessante é que Krishna deixou-nos já uma fórmula no Bhagavad-gita, cinco mil anos atrás, que nos informa que a opinião de quem reside onde residem aqueles que conversaram com Allan Kardec é, em geral, de que existem diferentes tipos de almas. Tal fórmula é dada noBhagavad-gita (18.20-22):
Você deve compreender que está no modo da bondade aquele conhecimento com o qual se percebe uma só natureza espiritual indivisa em todas as entidades vivas, embora elas se apresentem sob inúmeras formas. O conhecimento com o qual se vê que em cada corpo diferente há um tipo diferente de entidade viva, você deve entender que está no modo da paixão. E o conhecimento pelo qual alguém se apega a um tipo específico de trabalho como se fosse tudo o que existe, sem conhecimento da verdade, e que é muito escasso, diz-se que está no modo da ignorância.
O universo, segundo os Vedas, é regido por três cordas, ou modos da natureza material, os quais se chamam bondade, paixão e ignorância. Assim, classifica-se tudo nos três modos, como alimentação, caridade etc. Pode-se ler sobre os mesmos nos capítulos 14, 17 e 18 do Bhagavad-gita. Aqui Krishna está dizendo que, quando alguém está no modo da ignorância, esse alguém quer apenas trabalhar, sendo indiferente a discussões se a alma existe ou não existe, se ela é a mesma tramitando por diferentes corpos ou se cada tipo de corpo comporta um tipo de alma. Em seguida, superiores são as pessoas controladas pelo modo da paixão, as quais já aceitam a existência da alma, embora, por seus sentidos imperfeitos e por seu desejo de explorar os outros, digam que a alma da mulher, do índio, do negro ou dos animais é inferior. Por fim, existem aqueles no modo da bondade, o melhor de todos, os quais percebem que é a mesma alma que aparece em diferentes corpos, assim como a mesma luz branca às vezes parece azul, vermelha ou amarela a depender da cor do invólucro que recebe.
Assim, as escrituras conscientes de Krishna dizem que onde residem aqueles que conversaram com Allan Kardec é uma morada no modo da paixão (Srimad-Bhagavatam 4.29.28, significado), a qual se chama, em sânscrito, Antariksha, daí a opinião deles.
Ainda nos argumentos na dicotomia reencarnação e metempsicose, além dos argumentos da questão do sofrimento a quem nunca teve livre-arbítrio para fazer algo que merecesse sofrimento e de que Krishna previu esse argumento para aqueles que habitam Antariksa, há o argumento moral, possivelmente o mais forte, de que perceber outras entidades vivas como ontologicamente inferiores é a inconsciência fundamental para se explorar o outro. Só me é possível explorar o negro, a mulher, o judeu ou o índio, por exemplo, depois que eu me convencer de que são menos importantes para Deus ou inferiores a mim, pois, se são iguais a mim, dou o direito de que façam comigo o mesmo que faço com eles, e se são tão importantes para Deus quanto eu sou, Deus me punirá de alguma forma. Assim, vê-se rotineiramente que, conquanto os espíritas se apiedem de seres humanos em sofrimento, são promotores do sofrimento dos animais em seus hábitos alimentares, de vestes etc., hábitos estes tendo em vista o gozo dos sentidos. No Movimento Hare Krishna, todo membro faz o voto vitalício de não comer carne, peixe ou ovos, e as verduras e outros alimentos também são ingeridos apenas após serem consagrados a Deus. Assim, é visível a superioridade moral e caridosa naqueles possuidores da visão de que a alma que anima os animais e plantas não é por natureza inferior ou sem o propósito de um dia alcançar Deus, mas uma alma tal como nós que agora estamos em corpos humanos.
Deste modo, apresentado o sistema de metempsicose do Movimento Hare Krishna, que remonta mais de 50 séculos na história registrada, sistema este que não nega a evolução permanente da consciência e que a evolução da alma pelos animais é progressiva, a metempsicose passa a ser verdadeira segundo estes dizeres da página 303 do Livro dos Espíritos: “Seria verdadeira a metempsicose se indicasse a progressão da alma, passando de um estado a outro superior, onde adquirisse desenvolvimentos que lhe transformassem a natureza”.
 por Bhagavan Dasa

quinta-feira, 1 de maio de 2014

Radharani – O Lado Feminino de Deus.



por Satyaraja Dasa

A compreensão Vaisnava da Verdade Suprema fornece uma resposta satisfatória para a pergunta “Deus é masculino ou feminino?”.

Essência da beleza e da relação,
Quintessência da compaixão e bem-aventurança,
Corporificação da doçura e do brilho,
Epítome da arte, da graciosidade no amor:
Que minha mente se refugie em Radha,
A quintessência de todas as essências.

—Prabodhananda Sarasvati

Minha irmã Carol se tornou uma feminista radical nos últimos anos. Eu acompanhei seu desenvolvimento. Depois de ter devorado um livro após o outro sobre patriarcalismo e sociedades construídas por machistas, ela veio me procurar – seu irmão, que adora um Deus “masculino” –, vítima de filósofos sexistas, ludibriado por homens sem consideração pelas mulheres. Em outras palavras, ela sabia que eu adorava Krsna, que é claramente masculino, e isto era suficiente para ela me colocar em pé de igualdade com aqueles que diminuem as mulheres. Ela ficou um pouco confusa, todavia, quando viu que eu não a contra-ataquei como machista, e, apesar de minha adoração a um Deus masculino, eu não diminuía as mulheres. Ela se deu conta que eu era lúcido demais para ser confrontado diretamente.
“Por que você adora aquele garoto azul Krsna?”, ela perguntou. “Por que você imagina Deus como masculino? Por que não imaginar Deus como feminino?”.
“Bom”, eu respondi rápido e irritado, como se uma conversa de dois minutos pudesse resumir a perspectiva teológica de uma pessoa: “Ele é Deus”. “E além do mais”, eu adicionei, “nós não imaginamos Deus como queremos. Aprendemos sobre Ele a partir das fontes autorizadas, as escrituras, sejam os Vedas, da Índia, ou escrituras ocidentais, como a Bíblia e o Corão”.
“Como você pode saber?”, ela perguntou. “Talvez esses livros estejam enrolando você. Eu diria que Deus teria de ser a mulher suprema, com toda a sensibilidade e elegância que isso implica”.
“Mas isso não é sexismo, apenas vindo da direção oposta?”
Eu esperei que aquela pergunta a fizesse pensar duas vezes.
“Se, por fim, Deus fosse a mulher suprema, isso não deixaria o homem fora da equação? Não se estaria dizendo que a forma da mulher é melhor do que a forma do homem? Você seria culpada por aquilo que você culpa a religião patriarcal”.
Depois de uma pausa, ela retrucou: “Mas você continua dizendo que Deus é homem...”.
“Primeiramente”, eu a interrompi, “de acordo com a consciência de Krsna, Deus é tanto masculino quanto feminino. Não é uma visão mais igualitária de Deus?”.
“Bom, talvez – se for verdade”, ela disse ainda descrente de uma tradição (e de um irmão) que ela havia se treinado para ver como sexista.
“Veja bem”, eu disse, “Krsna é descrito como Deus na literatura Védica porque Ele tem todas as qualificações de Deus. Por que você sabe que o Presidente dos Estados Unidos é o Presidente? Porque ele tem as qualificações do Presidente. Ele tem certas credenciais. Não é que você possa simplesmente “imaginar” que alguém é o presidente e então – puf! – ali está o presidente. Não. Assim, se você estudar Krsna seriamente, você verá que Ele possui todas as opulências: força, beleza, riqueza, fama, conhecimento e renúncia. Qualquer um que tenha todas as essas qualidades em plenitude é Deus”.
Ela estava ficando agitada. Ela já me ouvira falar aquela definição de Deus e pensou que eu estava fugindo do assunto de Deus ser feminino.
“Mas a consciência de Krsna vai além”, eu continuei. “Radharani é a manifestação feminina de Deus. Ela é a mulher suprema. Então, vemos Deus tanto como masculino quanto como feminino”.
A Carol sorriu. Ela tinha uma carta atrás da manga.
“Se vocês reconhecem que Deus é tanto masculino quanto feminino, por que o principal mantra de vocês – aquela oração que você canta o tempo todo – é focado em Krsna, o aspecto masculino de Deus?”.

O “Ela” do Maha-mantra

O que minha cara irmã não sabia era que o maha-mantra é uma oração primeiro a Radha, e depois a Krsna.
“Você conhece o mantra que eu canto, sobre o qual você está falando?”
Ela o recitou: “Hare Krsna, Hare Krsna, Krsna Krsna, Hare Hare / Hare Rama, Hare Rama, Rama Rama, Hare Hare”.
Eu fiquei feliz em ver que ela sabia o mantra.
“Você sabe o que significa Hare?”.
“Não”, ela admitiu.
“É uma forte súplica a Radha. Por ‘Hare’, nós nos referimos à Mãe Hara, outro nome de Radha, de forma suplicante. Hare é a forma vocativa de Hara. Basicamente, o mantra está pedindo à Mãe Hara, Radha, que ‘por favor, ocupe-me no serviço ao Senhor’.”
“Quer dizer que o cantar de Hare Krsna é uma oração à forma feminina de Deus?”.
“Perfeito”.
Aquilo chamou sua atenção.
“Diga-me uma coisa”, ela disse com sua crescente curiosidade, “o que significa a palavra Radha?”.
“Significa ‘aquela que melhor adora Krsna’.”
“Aha!”, minha irmã disse com o dedo indicador em riste. “Então Radha não é Deus. Se Ela é a melhor adoradora de Krsna, ela é obrigatoriamente distinta dEle!”.
“Isso não é verdade”, eu disse. “Deus é a pessoa que faz tudo melhor. Como Krsna diz no Gita, Ele é o primeiro e o melhor em todos os campos. Das montanhas, Ele é o Himalaia; dos corpos d’água, Ele é o oceano, e assim por diante. Então, dos adoradores dEle, Ele também é o melhor [a melhor]. Quem poderia adorar Krsna melhor do que Ele mesmo? Ninguém. Dessa maneira, Ele se manifesta como Radha, Sua forma feminina, e mostra que Ele é Seu melhor adorador. Como Radha, Ele é o Deus adorador; e, como Krsna, Ele é o Deus adorado. Ambos igualmente excelentes”.
“Hmm. Fale-me mais”, ela disse.
“Tudo bem, mas pode ficar um pouco técnico”, eu disse. “Do ponto de vista Vaisnava, ou da consciência de Krsna, a energia feminina divina (shakti) implica uma fonte de energia divina (shaktiman). Assim, quando a deusa se manifesta nas várias tradições Vaisnavas, ela sempre tem uma contraparte masculina. Sita se relaciona com Rama; Laksmi corresponde a Narayana; Radha com Krsna. Uma vez que Krsna é a origem de todas as manifestações de Deus, Sri Radha, Sua consorte, é a fonte de todas as shaktis, ou energias. Ela é, portanto, a Deusa original”.
“O Vaisnavismo pode ser visto como uma espécie de Shaktismo, no qual a purna-shakti, a mais completa forma da energia feminina divina, é adorada como o aspecto mais proeminente da divindade, até mesmo eclipsando o Supremo masculino em alguns aspectos. No Sri-Vaisnavismo, por exemplo, Laksmi (uma expansão primária de Sri Radha) é considerada a divina mediatriz, sem a qual o acesso a Narayana não é possível. Em nossa tradição da consciência de Krsna, Radha é aceita como a Deusa Suprema porque Ela controla Krsna com Seu amor. Vida espiritual perfeita só é obtenível por Sua graça”.
“Na tradicional literatura Vaisnava, Krsna é comparado ao sol e Radha ao brilho solar. Ambos existem simultaneamente, mas um vem do outro. Ainda assim, dizer que o sol existe antes do brilho solar é incorreto – tão logo existe sol, existe brilho solar. E o mais importante: o sol não tem significado sem brilho solar, sem calor e luz. E calor e luz não existiriam sem o sol. O sol e o brilho solar, portanto, coexistem, um igualmente importante para a existência do outro. Pode-se dizer, então, que eles são simultaneamente unos e distintos. Eles são, em essência, uma única entidade – Deus – que se manifesta como dois indivíduos distintos com o objetivo de se relacionarem interpessoalmente.
“Deixe-me ler algo sobre isso para você do Caitanya-caritamrta [Adi-lila 4.95-98]: ‘O Senhor Krsna encanta o mundo, mas Sri Radha encanta até mesmo Krsna. Assim, Ela é a Deusa suprema de tudo. Os dois não são diferentes, como evidenciam as escrituras reveladas. E, ao mesmo tempo, eles são unos, assim como o almíscar e sua essência são inseparáveis, ou como o fogo e seu calor não são diferentes. Enfim, Radha e Krsna são um, embora Eles tenham aceitado duas formas para desfrutarem de um relacionamento”.
“Mas Krsna continua sendo a fonte. Ele é predominante”.
“Apenas em um sentido”, eu disse. “Em termos de tattva, ou ‘verdade filosófica’, Ele é predominante. Mas em termos de lila, ou ‘divinas atividades amorosas’, Radha predomina sobre Ele. E lila é considerado mais importante do que tattva”.
Carol estava deslumbrada.
“Eu não tinha a menor idéia disso tudo”, ela disse.
“Poucas pessoas têm”, eu disse a ela. “É por isso que os devotos trabalham duro na distribuição dos livros de Prabhupada – queremos que este conhecimento seja de todos”.
Carol me prometeu que iria começar a experimentar o maha-mantra e que nunca mais iria julgar prematuramente uma religião, especialmente a consciência de Krsna. Também me pediu por uma oração que se focasse na posição suprema de Radharani, algo que ela pudesse cantar para se lembrar que a consciência de Krsna reconhece – até mesmo enfatiza – uma forma feminina de Deus. Eu pensei por um instante e, então, compartilhei com ela um mantra composto por Bhaktivinoda Thakura, um grande mestre espiritual do começo do século XX:

atapa-rakita suraja nahi jani
radha-virahita krishna nahi mani

“Assim como não há tal coisa como sol sem calor e luz, eu não aceito um Krsna que está sem Sri Radha!” (Gitavali, Radhashtaka 8)
Carol estava deslumbrada. Ela me revelou em confidência que há muito orava por uma tradição religiosa que não fosse sexista, que reconhecesse uma forma feminina do Divino. É claro que ela não estava plenamente convencida que Radha era essa religião, mas ela já estava, agora, desejosa de ouvir, já se abrira um pouco à consciência de Krsna. Ela estava inclinada a começar com as práticas de base, como o cantar e a leitura dos livros de Srila Prabhupada. Ali estava uma tradição que finalmente parecia atender a sua demanda, que satisfaria suas necessidades feministas. Radharani era o sonho da minha irmã que se tornava realidade – a resposta a uma prece feminista.

A Melhor das Gopis

Sri Radha é, dentre todas as gopis – vaqueiras namoradas do Senhor Krsna – a original. Ela é capaz de comprazer a Krsna com apenas um olhar de relance. Ainda assim, Radha sente que Seu amor por Krsna pode se tornar sempre mais grandioso, portanto Ela se manifesta como as diversas gopis de Vrndavana, que satisfazem o desejo de Krsna por relacionamentos ricos em variedade (rasa).
As gopis são consideradas o kaya-vyuha de Sri Radha. Não existe uma palavra em inglês [ou em português] equivalente a este termo, mas ele pode ser explicado da seguinte maneira: Se uma pessoa pudesse existir simultaneamente em mais de uma forma humana, aquelas formas seriam chamadas o kaya (“corpo”) vyuha (“multiplicidade de”) daquele determinado indivíduo. Em outras palavras, é a mesma pessoa, mas ocupando diferentes espaços e tempos com diferentes humores e emoções. Como a única razão da existência de Radha e Krsna é a troca de sentimentos amorosos, as gopis existem para auxiliá-lOs nesse amor.
As gopis são divididas em cinco grupos, o mais importante sendo o parama-preshtha-sakhis, as oito gopis primárias: Lalita, Vishakha, Citra, Indulekha, Campakalata, Tungavidya, Rangadevi e Sudevi. Muitos detalhes de suas vidas e serviço – incluindo a idade, o humor, o aniversário, temperamento, instrumento, cor da pele, nome dos parentes, nome do cônjuge, melodia favorita, melhores amigas, e outras informações de cada uma delas – são descritos nas escrituras Vaisnavas. Esses elementos formam a substância de uma meditação interna, ou sadhana, projetada de forma a levar o devoto para o reino espiritual. Através desta meditação, gradualmente se desenvolve prema, amor por Krsna. Essa forma avançada de contemplação, todavia, deve ser feita apenas por devotos avançados sob a guia de um mestre autêntico. Tal nível é raramente alcançado. É, portanto, recomendado que se pratique o cantar do santo nome e que se aceite o caminho regulado de vaidhi-bhakti – ou a prática da devoção sob estritas regras e regulações – como é ensinado no movimento para a consciência de Krsna. Assim se alcançará naturalmente o nível mais elevado de consciência espiritual.
A tradição Vaisnava na linha do Senhor Caitanya vê, claramente, o amor das gopis como amor transcendental da mais alta estirpe, retaliando acusações de sexualidade mundana com claras definições distinguindo luxúria e amor. Assim como o conceito da Noiva-de-Cristo na tradição cristã e o conceito cabalístico do Divino Feminino do misticismo Judaico, a verdade por trás do amor das gopis é de profunda natureza teológica e constitui o zênite da compreensão espiritual. O amor das gopis representa o amor mais puro que uma alma pode ter por sua origem divina; a única relação que tal amor talvez tenha com a luxúria mundana é a aparência, aparência esta que é desfeita tão logo se estude os livros deixados pelas autoridades puras e auto-realizadas acerca destes tópicos tão queridos ao coração.


Tradução de Bhagavan dasa (DvS)